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27 de novembro de 2017

O município Governador Dix Sept Rosado





        O Município Governador Dix-Sept Rosado, está localizado no Oeste Potiguar, microrregião Chapada do Apodi. Pertenceu a Mossoró por muitos anos, mas só foi desmembrado no dia 04 de abril de 1963.  Antes  chamava-se Sebastianópolis. O nome atual é uma  homenagem a Jerônimo Dix-Sept-Rosado, que foi  prefeito de Mossoró e governador do Estado Rio Grande do Norte, sendo um líder da região Oeste . Hoje o município tem 12.180 habitantes numa área territorial de 1.129 km².
            Mas, a sua história começa na metade do século XVII. Era um povoado localizado nos arredores do rio Mossoró; com o transbordar das águas, o lugar sofria bastante por causa  das enchentes.  Com a chegada de mais moradores o povoado foi se transformando e ficou conhecido como Passagem do Pedro, numa referência ao homem que fez a vereda transpondo o rio Mossoró.
            No ano 1766, outra pessoa de destaque da região, Capitão Sebastião Machado de Aguiar, que era devoto de São Sebastião, tinha trabalhado em prol de melhoria do lugar. Ao falecer em 1943 e com dois anos depois da sua morte foi homenageado com o nome do lugar  que  passou a se  chamar Sebastianópolis.
            Em 1870, teve início nos sítios Gangorrinha e Quixaba de São Bento, uma produção de liliáceas que deu origem a grande atividade econômica voltada para o comércio do alho. Por este fator, no setor da economia a localidade passou a ser conhecida durante algum tempo, como capital do alho.
            Em 1912, o farmacêutico Jerônimo Rosado aproveitando as jazidas de gipsita existentes em suas terras, deu início a uma indústria de produção de gesso. O seu esforço teve continuidade com seus filhos Jerônimo Dix-Sept Rosado Maia e Jerônimo Dix-Neuf Rosado Maia. Nascido em Mossoró em 1911, Dix-Sept continuou a trabalhar na indústria de gesso do pai, avançando na atividade pública em 1948, sendo eleito prefeito de sua terra.
         Em 1950, ele foi eleito Governador do RN. Em 1951 faleceu em acidente aéreo na capital sergipana,. Depois de sua morte  a Câmara Municipal de Mossoró determinou por meio da Lei número 16/51, a mudança do nome de Sebastianópolis para Governador Dix-Sept Rosado, em homenagem ao líder da região Oeste.
         Pela Lei no 2.878, de 4 de abril de 1963, Governador Dix-Sept Rosado desmembrou-se de Mossoró e tornou-se município do Rio Grande do Norte. Atualmente o Município é bastante desenvolvido. No aspecto econômico pode-se destacar o artesanato, onde se confecciona chapéus e bolsas com a palha de carnaubeira, além da confecção de cestos e balaios com talos de carnaubeira, e também produção de panelas e alguidares do barro.   Outro fator da economia é minério.
             A Mineradora Unimin localizada  no município  produz 40 mil toneladas de calcário atualmente. Sendo um fator positivo para Governador Dix Sept Rosado, que evolui economicamente com o minério. Como os custos de transporte inviabilizam a exportação da cal para outros países, a produção é voltada para o RN e para compradores de outros estados das regiões Nordeste e Norte. 
       Nos últimos anos a economia do município cresceu muito, houve investidores de outros Estados estabelecendo-se no lugar. O minério, a maior riqueza do município, atrai estes investidores, e assim desenvolvendo mais ainda o setor econômico da municipalidade, além dos do Brasil como do Exterior.
            È um Município que desenvolve bastante a situação dos cidadãos. Um convênio celebrado entre a Secretaria Estadual de Agricultura, da Pecuária e da Pesca (SAPE) e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) realizada  em 2008 beneficiou a cidade de Governador Dix-sept Rosado, que recebeu duas caixas elevadas com capacidade para 20 mil m³ de água, 29 km de redes de adução e distribuição de água e 3,5 km de redes domiciliares.
         Existem ainda no Município as festas tradicionais  e datas especiais  e comemorativas. Todo ano no dia 19 de janeiro é festejado a Festa de São Sebastião, padroeiro do Município. Reúne muitos moradores de Governador Dix Sept Rosado. A abertura da Festa começa sempre com uma  carreata pela cidade chegando a matriz de São Sebastião para a Santa Missa.
            È uma data muito significativa para os moradores  do lugar e já se tornou uma tradição no Município onde muitos devotos  de São Sebastião acompanham  a carreata seguindo a imagem do Mártir. E nesse dia, O Município recebe muita gente, pessoas que nasceram lá e moram em Natal, além da participação de pessoas que residem em municípios vizinhos.
      Ainda sobre festa, no último dia 04 de abril foi realizado o maior o acontecimento do Município, que é o festejo da emancipação política  de Governador Dix-sept Rosado, que completou 48 anos. Os moradores do lugar comemoraram, como já é de tradição, o evento com uma grande festa na praça pública.
        O município Governador Dix Sept Rosado está localizado  a 314 km de distância da capital, com uma área de 1.268 quilômetros quadrados, e com mais de 12 mil habitantes. O Município cresceu muito nos últimos anos, acelerando o surgimento de mais comércios, de igrejas evangélicas, e mais moradores para a região.

Texto publicado no Suplemento Cultural "Nós do RN" julho de 2011



14 de novembro de 2017

Eloy de Souza



Eloy Castriciano de Souza foi um jornalista, escritor talentoso e diretor do jornal “A República” no período de 1937 a 1941. Ele teve um trabalho jornalístico respeitável, durante este período que exerceu à frente deste veiculo de comunicação. Além da promoção de notícias do Estado, criação de colunas com escritores do RN, publicações de bons artigos, deu condições ao jornal de ser uma verdadeira escola para os jornalistas potiguares.
Escreveu centenas de artigos, crônicas e alguns assinados com o pseudônimo Jacinto Canela de Ferro (Cartas de um Sertanejo). Sua passagem pelo jornalismo foi tão brilhante que lhe rendeu homenagens depois de sua morte. No próprio prédio da Republica, hoje Departamento Estadual de Imprensa, DEI , foi organizado em 13 de novembro de 2003 o Museu da Imprensa do RN e inaugurado um ano depois - 13 de novembro de 2004- acrescentando o nome do patrono, Eloy de Souza.
O Museu é uma grande referência da imprensa no Estado, onde se vê lembranças mais antigas, de como eram feitos os jornais da sua época, e como as máquinas impressoras funcionavam. Também no local poderemos encontrar o conteúdo da imprensa, colunas do jornal “A República” as formas de notícias, artigos doutrinários e os romances em capítulos. Isso, para quem for visitar ter a noção exata de como funcionava o jornalismo do seu período como diretor deste órgão de comunicação.  
         Além de uma passagem brilhante pelo Jornal “A República” antes ele tinha exercido cargo político no RN. Em 1897, foi eleito Deputado Federal aos 24 anos de idade, sendo o mais jovem do Brasil. Em outras ocasiões se elegeu mais de uma vez ao cargo de Deputado Federal. No período de outubro de 1935 a 1942 foi eleito pela Assembléia Constituinte Senador . Em sua homenagem na carreira política existe no Estado do RN o município ‘Senador Eloy de Souza’.
Notabilizou-se por um discurso pronunciado na Câmara dos Deputados, que depois foi publicado em forma de livro: “O Calvário das Secas”; que inspirou o Governo Federal a criar a Inspetoria de Obras Contra as Secas, que depois passou a chamar-se DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, cujo regulamento foi redigido por ele. Nasceu em Recife no dia 04 de março de 1873, mas era de família norte-rio-grandense. Era irmão da poetisa macaibense Auta de Souza e do também poeta e educador Henrique Castriciano, criador da Escola Doméstica. Ele faleceu aos 87 anos, em 1959.
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13 de outubro de 2017

Ulisses Celestino de Góis


Ulisses Celestino de Góis, Nasceu a 25.04.1896, em Igapó, então distrito de São Gonçalo do Amarante, filho de Francisco Celestino de Góis e d. Maria Herôncio de Góis. Cursou o ginasial no Atheneu Norte-rio-grandense e, aos 20 anos, foi admitido como estagiário da Alfândega de Natal, posteriormente entrando na Dele­gacia Fiscal através de concurso público. Diligente e operoso, sua vida seria doravante marcada por realizações em diversas áreas. Fundou a Escola de Gazeteiros, que viria a chamar-se São Vicente de Paula; a Escola de Comércio de Natal (1919), posteriormen­te designada Escola Técnica de Comércio de Natal, e a Faculdade de Ciências Contábeis e Atuariais de Natal (1957), mais tarde incorporada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Na área econômi­co-financeira, fundou a Caixa Rural Operá­ria de Natal (1926), transformada na Coo­perativa Central de Crédito Norte-rio-grandense (1971); o Sindicato dos Conta­bilistas do Rio Grande do Norte (1946), do qual foi o primeiro presidente, e a Acade­mia Norte-rio-grandense de Ciências Contábeis (1988). No setor de imprensa, criou os Jornais "A Palavra" (1921), "A Ordem" (1935) e "A Verdade" (1989), norteados por princípios cristãos, além de haver contribuído, ao lado de D. José Pe­reira Alves (V. "ALVES, Dom José Perei­ra"), Bispo de Natal à época, para a criação de "O Diário de Natal" (1924), evidente­mente também de concepção católica. Ou­trossim, contando com o apoio de D. Marcolino Esmeraldo de Souza Dantas, ide­alizou e implantou o Centro de Imprensa do Rio Grande do Norte (1935).
 Foi, ainda, Membro fundador da Academia Potiguar de Letras (1956), Membro da Associação Bra­sileira de Imprensa-ABI (1960), Membro do Conselho Estadual de Educação (havendo inclusive assumido à sua presidência, por um período), Membro do Instituto Históri­co e Geográfico do Rio Grande do Norte­IHGRN (desde 1969), Membro do Conse­lho de Curadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Membro do Con­selho Consultivo da Companhia Hidrelétri­ca do São Francisco-CHESF e Membro da Comissão Consultiva Bancária do Conse­lho Monetário Nacional. Idealizou e insti­tuiu, ainda, a Fundação Cultural Padre João Maria.
Como professor, lecionou as cadei­ras de português, matemática, contabilida­de geral e pública. Sob a orientação da Con­gregação Mariana da Catedral de Natal, a qual integrou desde jovem, realizou signi­ficativa obra social na localidade de "Passo da Pátria", na Cidade Alta, executando tra­balho semelhante na Rua do Motor, no Bair­ro das Rocas, este .último contando com a colaboração da Congregação Filhas de Santana, da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes. Sua formação eminentemente re­ligiosa levou-o a empreender, em 1940, um movimento visando à organização de um Centro Protetor da Pedra do Rosário34, ini­ciativa que teve o apoio e o estímulo do his­toriador Câmara Cascudo.
Entre os títulos honoríficos recebidos, destacam-se: Comendador da Santa Sé, na Ordem de São Silvestre, nomeado no Pontificado do Papa Pio XII; Doutor Honoris Causa, pela Uni­versidade Federal do Rio Grande do Norte; Medalha Francisco D' Áurea, outorgado pela Fundação Álvares Penteado, em São Paulo, por ocasião do centenário de implan­tação do ensino comercial no Brasil; Cida­dão Natalense, concedido pela Câmara Municipal do Natal; Medalha de Ouro do Mérito Contábil "João Lyra" e, em home­nagem póstuma, por iniciativa da Assem­bléia Legislativa do Estado e através da Lei n° 6.086, de 27.05.1991, sancionada peloExm° Sr. Governador do Estado do Rio Grande do Norte, então Dr. José Agripino Maia, teve seu nome dado à ponte que liga Natal a Igapó. O Professor Ulisses de Góis, que era casado com d. Alice Carrilho de Góis, faleceu aos 94 anos de idade, em Na­tal, a 21 de dezembro de 1990..34 Localidade às margens do Rio Potengi, onde, segundo a tradição, em 1753 alguns pescadores en­contraram uma imagem de Nossa Senhora, que rece­beria o nome de Apresentação e se tornaria a Padroei­ra da Cidade do Natal.

FONTES: PERSONALIDADES HISTÓRICAS DO RIO GRANDE NORTE
SÉCULO XVI A XIV

CENTRO DE ESTUDOS DE PESQUISA JUVENAL LAMARTINE



6 de setembro de 2017

PRESTES EM NATAL

                                                                                                   Luís Carlos Prestes

Por Franklin Jorge 

Pontual e de uma irrepreensível cortesia, Luís Carlos Prestes recebe-nos a mim e ao escritor Jarbas Martins às 6h30 da manhã, no saguão do hotel Samburá, onde está hospedado, no Centro da cidade.
Recém-saído do banho, ainda exalando um agradável cheiro de sabonete, o cabelo bem cortado, faz-se acompanhar do médico Salomão Gurgel, um norte-rio-grandense que ele conheceu em Moscou. Prestes, homem discreto, parece de alguma forma cansado, talvez, por tanta exposição na mídia que o persegue como se fora um animal pré-histórico. Veste-se com elegância e distinção.
Madrugador desde menino, reporta-se à  exaustiva homenagem que lhe foi prestada na Assembléia Legislativa do Estado, ontem à noite, em sessão que se prolongou demasiadamente além do previsto.
No Brasil, nada funciona, afirma numa voz calma, segura e polida. Até as homenagens excedem os limites da normalidade. Dormi pouco, mas após um banho frio, sinto-me renovado e pronto para responder aos seus questionamentos. Pergunte o que quiser.
Prestes tem 89 anos. De estatura abaixo da média, nem gordo nem magro, conduz a conversa com desenvoltura. Então os senhores são jornalistas. Pois saibam que os jornais e as rádios continuam sistematicamente a censurar minhas palavras. Geralmente, omitem minhas idéias quando não distorcem minhas palavras. Mesmo assim, continuo falando, pois dependo da palavra para ajudar na transformação de uma sociedade estigmatizada pela miséria e instruída pela corrupção. A palavra é a arma de que disponho e estou sempre a usá-la da melhor forma contra os políticos individualistas que oneram o país.
A imprensa é uma organização capitalista e está toda nas mãos da classe dominante. Portanto, não podemos estranhar que colabore para que tudo continue como está. Apesar da abertura, a imprensa continua comprometida com a classe dominante e nada faz para reduzir o quadro de alienação que vigora de Norte a Sul.
Costumo dizer que no Brasil ninguém nasce comunista. Falta-nos politização. O brasileiro não é politizado. Aqui, a ideologia é metida na nossa cabeça quase a marteladas. Nosso maior erro, contudo, é não fazer nada. Há uma cultura de acomodamento que dirige e entrava o país. Submetemo-nos a tudo sem espernear e sem usufruir desse direito legítimo. Não fazemos nenhum gesto passível de desmascarar o poder arbitrário que a tudo corrompe. De todos os brasileiros, o presidente Sarney é o mais submisso. E também o mais duvidoso dos brasileiros.
Nos países civilizados, as forças armadas são instrumentos do Estado. Aqui, ocorre o contrário: o Estado é instrumento das forças armadas. É refém delas.
Desde moço fiz uma opção reiterada pelo ser humano e pela liberdade. Por isso, desde a mais remota juventude – sempre renovada no entusiasmo de uma luta sem fim e sem fronteira -, jamais me curvei a interesses que contrariassem meu idealismo. Sempre me coloquei acima dos limites partidários. Não tenho nem nunca tive uma vida fácil.
Sentado numa poltrona à entrada do restaurante do hotel, Prestes fala torrencialmente, como alguém que tem urgência em comunicar suas experiências. Se eu o conhecesse, diria que está bem humorado. Ele confessa que não esperava que a entrevista fugisse ao ramerrão de praxe. Sempre me perguntam as mesmas coisas, como decorrência desse grande cansaço que mortifica os jornalistas brasileiros. Tenho a impressão de que eles fazem sempre as mesmas perguntas, em todos os lugares, a qualquer pretexto. Natal, de qualquer forma, me surpreende. Porém não posso dizer que conheço Natal. Não vim fazer turismo. São muitas as solicitações e os compromissos que ainda tenho de satisfazer.
O sofrimento é uma grande escola. Como sabe, muito moço, conheci a prisão. Quando descobri a ideologia marxista, vi-me obrigado a exilar-me
Em Santa Fé, na República Argentina, viveu por muitos anos na clandestinidade. Toda a minha vida, desde a mais tenra idade, foi marcada pelo sofrimento. O idealismo custa caro. A você, que é ainda bastante jovem, diria que fique atento a essa realidade: o idealismo custa caro, muito caro. Mas, em geral, só despertamos para esse fato demasiadamente tarde. Porém sem idealismo nada se faz que seja grande. O sacrifício pessoal faz parte do idealismo.
Filho de Antonio Pereira Prestes (1870/1908), e de Leocádia Felizardo Prestes (1874/1943), ficou órfão aos dez anos. Meu pai era engenheiro militar. Foi aluno de Benjamin Constant e sempre simpatizou com o Positivismo comtiano. Vivíamos em Alegrete, no Rio Grande do Sul, uma cidade abafada e insalubre, construída sobre uma grande lage de pedra.
Lá, em Alegrete, minha mãe contraiu tuberculose e mudou-se para Porto Alegre. Meu pai, porém, continuou em Alegrete. Ele tinha a patente de capitão do Exército. Quando morreu, seus próprios colegas de farda roubaram-lhe os pertences. Muito cedo, senti a necessidade de trabalhar.

Eu era o filho mais velho e sempre fui educado entre as mulheres. Morávamos numa casa modesta. Nossos recursos eram limitados. Diante disso, minha mãe passou a costurar para fora e matriculou-me num colégio militar. Fui a contragosto, mas não havia o que fazer. Eu me lembro que passei a chegar cedo ao colégio, para participar do almoço; depois das aulas, permanecia mais tempo na sala de aula, fazendo qualquer coisa, à espera do jantar. Agindo dessa forma eu diminuía as bocas que se alimentavam de um pequeno soldo, que foi tudo o que o meu pai nos deixou.
Minha mãe era uma mulher culta. Ela costumava dizer-me que a juventude era feita para o estudo. Era uma mulher que lia e educou-me na crítica aos militares. Aos dez anos, durante a famosa Campanha Civilista encabeçada por Ruy Barbosa, minha mãe levava-me com as minhas irmãs aos comícios. Aquilo me empolgou. O senhor deve saber que a mulher, quando é combativa, é mais conseqüente do que os homens. Assim era minha mãe. Uma mulher que não se deixou vencer. Dei o seu nome à minha filha.
Emocionado, evoca a grande marcha da “Coluna Prestes” que, sob o seu comando, cruzou o Brasil e passou pelo Rio Grande do Norte. Aqui cruzamos o alto sertão e nos aquartelamos em Luis Gomes, uma aldeia ainda e esquecida dos poderes constituídos. Nossa luta era fundamentalmente dirigida contra o presidente Arthur Bernardes. Era a luta contra a fraude que campeava por toda parte, arruinando o país e promovendo a descrença entre os cidadãos. Lutamos, como idealistas, contra o poder da justiça brasileira que já era muito corrupta naquela época e ignorava soberbamente o direito dos pobres. Lutamos por uma justiça limpa e um Estado livre da corrupção, representada, naquele momento, pelo governo de Arthur Bernardes.
Empolgado com as lembranças de sua luta, o velho cavaleiro da esperança, conforme o definiu o escritor Jorge Amado, Prestes refere-se longamente sobre a origem de tudo, o escândalo provocado pelas cartas, comprovadamente de autoria do presidente, como afirma com ênfase, dirigidas ao seu amigo Raul Soares. Divulgadas pelo jornal “Diário da Manhã”, indignou a opinião pública e o pôs em marcha, à frente de uma coluna, em sua heróica reação. Tantos anos depois, Prestes ainda sabe as cartas de memória e as repete com a indignação de sempre. “(...) Os militares podem ser comprados com outros galões e bordados”, escreveu o presidente Bernardes a Raul Soares.
Fragmento de “O Spleen de Natal” [V. 3-3, inédito]


17 de agosto de 2017

MACAÍBA- ANTES DO DILÚVIO DE HOMICÍDIOS E ASSALTOS



Valério Mesquita*

01) Xanxo era um pedreiro macaibense, alto, magro e disponível 24 horas em favor da construção civil. Trabalhava muito e quase não sobrava tempo para a bebidinha preferida: “2 Tombos”, fabricada no engenho Califórnia, de Nilton Pessoa de Paulo, São Gonçalo. Certa vez, foi contratado pela prefeitura para construir um muro que o tempo, a história, a lenda e a legenda, passaram a congnominá-lo de “muro de Xanxo”, de geração a geração. Tido e havido como pedreiro competente, edificar um muro era tarefa tão simples que o próprio Xanxo resolveu precedê-la com alguns goles da famosa aguardente, na mercearia de seu Alfredo de Almeida, pelas oito da matina. Tentado pelos circunstantes a misturar a “caninha” com Cinzano e Run Merino, Xanxo não fugiu do desafio, como senhor e mestre da mistura de cimento, cal, areia e barro. Depois, partiu para o trabalho oficial de forma preocupante, pelo caminhar sinuoso, desenhando figuras geométricas. Xanxo foi rápido na construção, pois ainda queria pegar o expediente da prefeitura para receber o dinheiro. O prefeito Luís Curcio Marinho, diligente e exigente, ao observá-lo no guichê da tesouraria, convidou-o para juntos irem ver o muro. No caminho, ainda fedendo a cana, detalhou o serviço, a altura do muro (2 metros) e a sua extensão (15 metros). O prefeito, diplomaticamente, com um abano de cabeça, reprovou antecipadamente o tempo exíguo gasto pelo pedreiro. Ao chegarem a “obra”, já havia uma aglomeração de curiosos. “O que foi isso, Xanxo?”, pergunta surpreso o prefeito. “Sei não, seu Luís, mas alguma coisa me diz que foi gente adversária do senhor”.  Xanxo, que bem poderia ter trabalhado no muro de Berlim, até hoje é relembrado entre os antigos pelo coquetel de ingredientes da argamassa: aguardente, run cinzano, cimento, areia e barro.
02) Guilherme Paulino Siqueira foi motorista de praça, de caminhão e passou no vestibular de dirigir a caminhonete Chevrolet de Leonel Mesquita. Gostava de se apresentar aos desconhecidos como pessoa importante, pronunciando de forma pomposa e cabotina o seu nome: “Muito prazer, Guilherme Paulino Siqueira, às suas ordens”. Sempre pedia nos balcões das bodegas e bares da vida a bebida certa para as companhias incertas pagá-la. Invariavelmente, nas recusas, Guilherme ia curtir a enganosa diplomacia no xadrez da rua da Cruz. Em muitas dessas caminhadas, era comum se desvencilhar dos policiais para se refugiar na casa de seu Mesquita, em desabalada carreira, portão a dentro. “Seu Mesquita, me acuda, a polícia me persegue!!”. Lembro-me das vezes que cantava, sentado à janela gradeada da cadeia, as canções de Nelson Gonçalves e Linda Batista para os passantes que o compensavam com cigarros e comida. No volante do carro, Guilherme era exímio mas corria demais. De uma feita, estando em Macaíba, o meu pai interrompeu a minha viagem a Natal, ponderando forma enfática: “Com esse doido dirigindo, meu filho não vai. Pegue um ônibus ou vá na marinete (alternativo daquele tempo)”. Guilherme Paulino Siqueira saiu de Macaíba há mais de 30 anos e foi morar em Bom Jesus. Nunca mais o vi. Deve ter falecido.
01) Zé Deca era comerciante estabelecido na esquina da Francisco da Cruz com a Dinarte Mariz. Alcancei-o nos anos cinquenta perto dos setenta anos, sempre por trás do balcão de sua mercearia despachando goles de aguardente, com extrema paciência, aos “pinguços” do matadouro municipal. A sua sobrinha por afinidade era a professora Naide Tinoco, que me ensinava particular antes de prestar exame de admissão ao Colégio Marista, juntamente com D. Enedina Bezerra. Mas, o lado popular de Zé Deca residia exatamente na facilidade com que a meninada “passava” notas do cruzeiro velho de duas cabeças que a sua vista ruim não detectava. Só desconfiou quando os fregueses de verdade começaram a rejeitar seus trocos. “Seu Zé Deca, essa nota é duas cabeças!”. Ao cabo de algum tempo em cima da prateleira, Zé Deca já contabilizava um prejuízo enorme representado por um volumoso maço de cédulas frias amarradas num barbante. Daí pra frente, Zé Deca não trabalhava mais só, e todo garoto era um suspeito em potencial.

(*) Escritor.

17 de julho de 2017

ALDO DA FONSECA TINOCO

     Aldo Tinoco


Valério Mesquita

Relembro a figura desse sãogonçalense/macaibense nascido em julho de 1926. Falecido em abril passado, Aldo viveu as descobertas sucessivas das terras em que viveu, nas paisagens do tempo e no mistério das claridades e sombras exteriores. Prestativo e atencioso, agia assim para viver mais intensamente, como se sonhar fosse o único bem que a gente obtém gratuitamente.  Era dentista, advogado, professor da UFRN e titular da USP, onde fez mestrado em planejamento e prática de saúde, além de doutorado e pós-doutorado. E nos voos de longo curso, obteve o brevê de aviação. Como político não cortejou a popularidade. Elegeu-se vice-prefeito de Macaíba em 1953, na chapa com o médico José Jorge Maciel e chegou a titularidade  quando Maciel foi ser secretário de saúde do então governo de Dinarte Mariz, após 1956.
Nesse ofício, Aldo gostava de se portar com firmeza e idealismo. Participou da vida pública sem dela nunca haver tirado proveito próprio ou se conspurcado. Era autêntico e personalíssimo. Não corrompeu  ninguém e nem se deixou corromper pela lisonja ou pela erosiva ação de adjetivos laudatórios.  Conheci-o lá em Macaíba quando instalou o seu consultório odontológico na rua João Pessoa, perto da ponte. Fui seu cliente e por ele “torturado” pelo “mortozinho” removedor de cáries e de obturações. E como sofri, apesar dele ser amigo pessoal e político de seu Mesquita.
Aldo da Fonseca Tinoco foi um homem plural. Além de haver exercido os mandatos de deputado estadual e federal, posteriormente, destacou-se como líder atuante nas hostes do Partido Social Progressista presidido por João Café Filho e depois militou no PTB, ao lado de Clóvis Mota, João Goulart e Leonel Brizola. Nos idos de março (1964), Aldo foi perseguido e detido pelos agentes da revolução, sem jamais haver abjurado as suas crenças políticas. Com a redemocratização do país, em meados da década de 1980, ingressou no Partido Democrático Trabalhista (PDT), sendo candidato ao governo do Rio Grande do Norte, disputando o cargo com Geraldo Melo (PMDB) e João Faustino pelo PFL.
Aldo esteve preso por quatro meses em Natal durante o movimento de 64. Foi transferido, juntamente com o ex-deputado Floriano Bezerra, Djalma Maranhão e Luis Maranhão Filho, para Fernando de Noronha, mesmo com um harbeas-corpus já concedido pela justiça militar. Na ilha ficou detido por mais de trinta dias. Todavia, tratado com respeito. Saiu da prisão de Fernando de Noronha, com a chegada do general Ernesto Geisel, então chefe da Casa Civil da presidência da República, que fora verificar a situação dos presos políticos. Aldo e o governador de Pernambuco Miguel Arraes seguiram viagem, posteriormente, para Recife no mesmo avião com o general.
Posto em liberdade, em vez de retornar a Natal seguiu para o Rio de Janeiro e depois São Paulo, onde as portas da USP se abriram e lhe permitiram levar a esposa e os filhos, que tiveram toda a sua formação instrucional em escolas e universidades paulistas.
A fazenda “Milharada” em São Gonçalo do Amarante era  o seu paraíso. Nesse eldorado além de criar gado e caprinos, produziu coco, cana de açúcar, caju e graviola. Mas não fica aí, a sua visão e criatividade. Introduziu a fabricação de mel de abelha, rapadura, mel de engenho, farinha de milho e cajuína. Reflete-se nesse elenco de atividades a sua dimensão humana, simples, voltada ao cultivo da terra, como exemplo significativo de autêntica nordestinidade. Do casamento com dona Martha Bezerra de Melo Tinoco, nasceram Eleonora, Rômulo, Aldo Filho, Petrônio, Marcelo e Leonardo. Aldo deixou netos e bisnetos. Nesse espaço em que se relembra o seu exemplo, constato que morreu em paz. Teve existência longeva entre nós e como paradigma legou a sua vida de possibilidades e descobertas.

(*) Escritor.

7 de junho de 2017

Revolução de 1817



A repercussão da independência dos EUA e a revolução francesa nas elites brasileiras são
decisivas. Se curvaram as idéias vários personagens de nosso estado. O frei
Miguelinho e André de Albuquerque Maranhão tiveram destacada participação,
havendo Miguelinho ocupado o cargo de secretário do governo revolucionário.
Entretanto foi André de Albuquerque a principal figura em nosso estado.
. O Aerópago de Itambém, Foiem 1801, o primeiro ato daquilo que seria a mais romântica revolução brasileira.
A conspiração dos Suaçunas marcaria os personagens dessa história. Descoberta
as atividades anti-governamentistas é André de Albuquerque impedido de
permanecer em Pernambuco e dessa forma volta para sua terra, de onde sai no
final do século XXVIII, passando pelo Rio de Janeiro e Portugal.
Seu pai falece e o engenho de Cunhaú, maior centro econômico da capitania, passa a ser administrado pelo jovem revolucionário que era conhecido por Andrezinho de Cunhaú por ser
homônimo de seu pai. Mesmo deslocado de Pernambuco, as atividades
revolucionárias não se ausentaram do seu cotidiano, uma vez que par ao Rio
Grande do Norte, vieram vários companheiros das reuniões do engenho Suaçuna. 
O próprio Francisco de Paulo Cavalcante, capitão mor neste período, era um dos
três irmão proprietários do engenho. Havia ainda os padres João Damascena e
Antonio Montenegro, o capitão Antonio Germano, comandante das tropas de linha,
o padre José Dornelas e o funcionário real José de Quental e o próprio capitão
mor no ano do episódio, foram envolvidos na sedição dos Suaçunas.
O advogado português, Dionísio Pinto, instalado em Papary, fazia no seu sítio chamado Floresta,
realizava reuniões de republicanos assim como no sítio Ribeiro e no  engenho Belém. Em 1810, o inglês Henri Koster, visitou o engenho Floresta, como relata em seu livro, “Viagem ao
Nordeste do Brasil”. Há comentários de ser o inglês, agente secreto da
Maçonaria Inglesa, então a serviço da revolução que aconteceria sete anos depois.
Antes de iniciar o movimento, em Recife, foi enviado aos EUA, um emissário para angariar fundos e
simpatizantes, porém não recebendo resposta animadora. Mesmo assim iniciada em
Recife, a revolução estende-se a Paraiba. No início de março, chega no engenho
Cunhaú, o padre João Damasceno com o propósito de convencer os republicanos
dessa província a participarem. Por motivos nebulosos, o capitão mor, José
Inácio Borges, se dirige ao cenário próximo ao conflito sendo dessa maneira
capturado pelos revolucionários que deflagaram na ocasião, o movimento.
A frente de 600 cavalheiros,
Andrezinho do Cunhaú, depois de prender o governador, no engenho Belém, segue
para Natal. No Baldo, o capitão Antonio Germano o aguardava com sua tropa e
dessa forma todos entraram em Natal se dirigindo a Rua Grande (atual praça
André de Albuquerque) onde foi realizada a cerimônia de posse de uma junta
governamental, que tinha à frente, Andrezinho.
Porém 12 mil soldados são enviados pelo para o nordeste pelo Príncipe Regente, e os ânimos da maioria dos revolucionários se arrefece, e nasce uma trama contra o cabeça, na casa do
alfaiate. Manoel Bandeira, tendo como figura central o português Antonio Leite
do Pinho. A trama arquitetada aguardava a hora apropriada. No dia 23 abril,
José Peregrino que havia vindo da Paraíba com reforços, atendendo ao chamado de
seus pares na Paraíba, parte de volta com seus soldados. 
Então a turba se desloca da casa do alfaiate e os soldados de Antonio Germano saindo do quartel
da tropa de linha se encontram na entrada da praça e rumam paro o palácio do
governo onde se encontrava André de Albuquerque em companhia do padre Damasceno
e apenas alguns sentinelas. O grupo invade o palácio, fere e prende André
levando-o para a fortaleza onde agoniza durante a madrugada sendo transportado
nu, para a catedral onde foi sepultado.
O movimento porém prossegue em Portalegre onde chega David Leopoldo Targine, emissário vindo da Paraíba a busca de simpatizantes que também haviam em Martins e Apodi,.porém diante das
forças Del Rei, todos os esforços se tornam inócuos resultando em prisões e fugas.


Aucides  Sales

8 de maio de 2017

ANAIS FOLCLÓRICOS DA POLÍTICA



Valério Mesquita*
Mesquita.valerioi@gmail.com


01) O dr. Manoel Teixeira de Araújo fazendo um exame oftalmológico, tempos atrás, no longínquo São João do Sabugi, dentro daquelas primitivas condições, convidou a cliente para pronunciar as letras segurando uma tabuleta: “Por favor, leia?”. A paciente, na sua ingenuidade sertaneja respondeu com calma e convicção: “Doutor, ler mesmo eu não sei não, mas essa menina que tá aqui pode fazer isso por mim. O que eu quero “mermo” é os óculo”.
02) Entediante e enfadonha é a vida do médico candidato. Da receita nunca foge. Longas e intermináveis filas com a mesma monotonia e repetição. Certa vez, o pediatra Dari de Assis Dantas, já exausto, contempla no corredor um imenso “caracol” de gente. Sem pestanejar achou uma fórmula inteligente de abreviar aquela servidão imposta pelo juramento de Hypocrátes. Quando uma mulher se aproximou com seis filhos menores anêmicos e barrigudinhos receitou de pronto: “Para dona Maria Alexandre e filhos, 06 vidros de Pantelmim”. Era verme demais. Grosso e varejo.
03) Último dia de sessão, o plenário estava repleto de beldades. Bem no centro uma loura chamava atenção pela sua beleza ao lado de outra “bem feinha”. Do plenário da Assembleia um conhecido parlamentar chamou um colega e confidenciou: “Tá vendo na galeria aquela lourinha bem bonitinha?”. “Estou”, respondeu o outro deputado todo curioso. “Eu estou “faturando” a outra ao lado dela”, explicou dolorosamente.
04) Certa vez, à tarde, entra apressado para cobrir os trabalhos legislativos, o jornalista Joaquim Pinheiro e no corredor vai logo perguntando ao garçom Guedes se a sessão já havia começado. O servidor, entre solene e compenetrado dispara: “Tá, tá, faltando “cloro”!”. Joaquim riu e compreendeu que às 16 e 30 a Assembleia nunca realmente atingiu o quorum regimental.
05) Recente pesquisa de qualidade, patrocinada pelos contraventores do jogo do bicho, procurou detectar o grau de privacidade dos motéis com relação ao seus frequentadores. Os resultados não foram tão animadores assim. Um conhecido parlamentar, após todos os cuidados preliminares foi reconhecido por um neófito porteiro ao ultrapassar os umbrais de uma casa do amor. Sisudo, ao receber a chave, surpreendeu-se com a interpelação do funcionário: “Deputado, foi bom o senhor vir aqui!!”. Um frio de morte desceu da cabeça até as vísceras legislativas. “Ta lembrado de mim, seu eleitor?”. A essa altura nem o viagra reanimava mais o libido parlamentar. Devolveu a chave e numa ré de cantar pneu perdeu-se no naufrágio daquela noite escura de megasena adiada.
06) Parece que a onda de minuto de silêncio pegou nos candidatos a vereador. O objetivo é claro: não perder os votos da família do desaparecido. Numa manifestação fúnebre na Vila São José, bairro periférico de Macaíba, o ex-vereador e então candidato Moacir Gomes, ao usar a palavra, inicia o discurso rogando aos assistentes um minuto de silêncio pelo falecimento de uma pessoa do bairro. O seu assessor e cabo eleitoral, ao lado, imaginando o tamanho da família do falecido, sopra imediatamente no ouvido de Moacir: “Um minuto é pouco. Peça cinco! Tem muito voto lá!”.
07) Numa campanha política, Caicó viveu momentos memoráveis. O candidato Vivaldo Costa quando discursava dizia verdadeiras parábolas, sermões com aquela voz cheia, reforçada pelo gosto de coalhada com rapadura da fazenda Trapiá. Explicava no palanque: “Irami Araújo quando era do nosso lado, a Oposição o taxava de ladrão de farinha. Aderiu, foi pro outro lado, agora é santo. Silvio Santos quando era do meu lado, era chamado de ladrão do SUS, agora virou santo duas vezes” e virando-se para Nilson Cabecinha, triste e cabisbaixo, o “papa” foi cruel no convite: “Ô Nilson, por que você também não vai logo para o outro lado!”.
(*) Escritor

2 de maio de 2017

ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO RIO GRANDE DO NORTE



Tarcísio Rosas - Sociólogo 

Em meados da década de 1830, por força de lei, o então Presidente da Província do Rio Grande do Norte, Basílio Quaresma Torreão (1833-36), assim como os seus pares das demais províncias, viu-se com o compromisso de coordenar a criação e consequente instalação da Assembléia Legislativa Provincial. O Ato Adicional à Constituição do Império, lei de 12 de agosto de 1834, da Regência, em nome do Imperador Dom Pedro II, instituiu tais Casas Legislativas em seu artigo 1° nos seguintes termos:

O direito reconhecido e garantido pelo art. 71 da Constituição será exercitado pelas câmaras dos distritos e pelas assembléias, que, substituindo os conselhos gerais, se estabelecerão em todas as províncias com o titulo de Assembléias Legislativas Provinciais (1972, p. 156).

Homem eminentemente operoso e consequente (reorganizou a Alfândega, criou o Atheneu Norte-rio-grandense e dispôs condições para ser criada a Policia Militar do Rio Grande do Norte), tratou de imediato de identificar, e contratar, um prédio adequado à acomodação de deputados e da respectiva secretaria. Ocorreu-lhe a Câmara Municipal, a quem encaminhou ofício a 31 de outubro daquele mesmo ano argumentando ser necessária uma casa que não só tenha os cômodos mas também a majestade que exige o Poder Legislativo. Ato, contínuo, sugeriu que os vereadores se estabelecessem no consistório da Igreja de Santo Antônio ou no prédio que servira de sede ao extinto Conselho Geral da Província (extinto com aquele ato de 12 de agosto).

A Câmara, através do seu então presidente Manuel Gabriel de Carvalho, aquiesceu prontamente, inclusive se dizendo honrada pela escolha e, mais ainda, pela cessão: (...) nenhuma dúvida faz conceder a mencionada casa, e antes com muito gosto desde já afirma à Vossa Excelência o regozijo e a glória que vivamente lhe assiste em concorrer destarte para o progresso desse respeitável e brilhante estabelecimento, etc. (op. cit., p. 191).

Dois dias após a entusiástica resposta, precisamente a 10 de novembro, foi realizada a primeira eleição, no âmbito da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação. Para eleger vinte deputados, conforme estabelecia a citada lei, setenta eleitores votaram em cento e vinte e um nomes, os quais, segundo CÂMARA CASCUDO, constituíam as figuras prestigiosas da Província, sacerdotes, fazendeiros, funcionários públicos, proprietários, militares, os mais conhecidos e admirados (ibidem, 101).

Dentre os eleitos para aquela primeira legislatura nove eram sacerdotes, dos quais Padre Francisco de Brito Guerra foi escolhido para presidi-la. Não é de admirar que naquela oportunidade tenha sido criada uma Comissão de Negócios Eclesiásticos.

Sua Instalação na Casa de Câmara e Cadeia, conforme acordado, ocorreu a 2 de fevereiro de 1835. O edifício situava-se na Rua Grande, atual Praça André de Albuquerque, e foi demolido em 1911. Coube assim a Basílio Quaresma ser o primeiro Presidente da Província a ler sua “Fala" na abertura dos trabalhos legislativos. Disse ele, iniciando seu discurso:

Já não é o Art. 8° da Constituição, mas sim o Art. 8° da Carta de Lei de 12 de agosto de 1834, quem me impõe o doce dever de vir hoje falar, não a um Conselho cujas atribuições mesquinhas limitavam seus membros em meros projetistas; mas a vós, Digníssimos Senhores Representantes da Província, que, reunidos em Assembléia Legislativa, ides decidir dos destinos desta bem interessante fração do Império. Eu, pois, congratulando-me convosco pela vossa ilustração, passo a expor-vos o estado das cousas públicas da Província, e objetos que me parecem mais deverem às vossas solicitudes (2001, p. 20).

Essa antiga Assembléia foi dissolvida com a proclamação da República (1889), posteriormente reimplementada com a Constituição Estadual de 21 de julho de 1891 com a denominação de Congresso Legislativo; sete anos mais tarde, na reforma constitucional de 1898, passa a ser Congresso Legislativo Estadual, ou simplesmente Congresso Estadual, e, finalmente, desde1926, na Constituição Estadual de 24 de agosto, tem a denominação atual.

Um último ponto a destacar - as incontáveis mudanças de endereço: hoje instalada no imponente Palácio José Augusto, na Rua da Conceição, centro de Natal, ao deixar a Casa de Câmara e Cadeia, por volta de 1841, ocupou um prédio onde se ergue, hoje, o Palácio da Cultura, de frente também para a Rua da Conceição. Este edifício foi demolido e no mesmo terreno    construído um outro, mais amplo; enquanto durou a construção, as reuniões eram realizadas em casas alugadas ou no Atheneu. Em 1906, o Governador Tavares de Lira dotou-a de outro prédio, na Avenida Junqueira Aires, atualmente ocupado pela OAB.

Sua peregrinação prosseguiria, por circunstâncias diversas, e realizaria sessões no Natal Clube, no Teatro Carlos Gomes (Alberto Maranhão), num prédio na Avenida Getúlio Vargas erguido no Governo Sílvio Pedroza... até chegar ao atual, acima mencionado.

Esta é a história – uma síntese histórica – dos primeiros tempos do nosso legislativo, um dos suportes da democracia, complementado pelo executivo e o judiciário, conforme imaginado por Montesquieu.


FONTES:

CÂMARA CASCUDO, Luis da. Uma história da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte. Natal: Fundação José Augusto, 1972.

ROSADO MAIA Sobrinho, Jerônimo Dix-Sept, e OLIVEIRA, Antônio Marcos (coordenadores). Falas e relatórios dos Presidentes da Província do Rio Grande do Norte (1835-1859), ed. fac-similar. Mossoró: Fundação Guimarães Duque, Coleção Mossoroense, Série "G", n° 08, 2001.


19 de abril de 2017

Milton Ribeiro Dantas: da tisiologia à observação astral





                                                                                                      Milton Ribeiro Dantas

O médico Milton Ribeiro Dantas nasceu na cidade de Mossoró, em 22 de novembro de 1914, e faleceu em Natal a 8 de novembro de 1992.  Era o primeiro filho - de uma prole de quatro - do casal José Ribeiro Dantas(1889-1950) e Helena Villar Ribeiro Dantas(1891-1987).
Depois de concluir o curso secundário – iniciado em Mossoró –transferiu-se para Recife, onde formou-se em medicina na turma que colou grau no ano de 1936. Dois anos depois, consorciou-se com a sua prima Mirtes Ribeiro Dantas, tendo nascido três filhos: José Ribeiro Dantas, Maurício e Paulo Eduardo.
Especialista em tisiologia ocupou vários cargos relevantes na sua profissão: Diretor do Hospital São João de Deus, no período de 1938 a 1944, e do Sanatório Getúlio Vargas, durante quinze anos (1944-1959). Foi diretor do Instituto de Medicina Legal e Criminalística do Estado e professor fundador da cadeira de Medicina Legal na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Além da sua atuação como médico revelou-se um influente deputado estadual (1951-1954), tendo sido um dos fundadores da União Democrática Nacional-UDN, no Rio Grande do Norte, sendo secretário geral do Diretório Regional, de 1950 até janeiro de 1961, quando renunciou, abandonando as atividades políticas. Dentre os projetos apresentados destacam-se a criação do Departamento Médico Legal, na Secretaria de Segurança Pública, criação do Serviço de Assistência Psiquiátrica, na Secretaria da Saúde e Assistência Social; e, a criação do Departamento Estadual da Criança.
Foi membro de diversas entidades assistenciais e científicas, destacando-se a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio Grande do Norte, da qual foi presidente no biênio 1942-1943; fundador da Liga Norte-Rio-Grandense contra o câncer; membro correspondente desde 1937, da Sociedade Brasileira de Tuberculose; Fellow doAmerican College of Physicians, diploma de março de 1949; Membership do American Trudeau Society –Medical Section of National Tuberculose Association, título de maio de 1953; membro titular da Union International contre la Tuberculose; correspondente da Sociedade de Medicina e Criminologia de São Paulo e membro titular da Sociedade Brasileira de Medicina Legal e Criminologia.
 Atento conhecedor da condição humana era, também, “observadorespacial” como mostra os versos de sua autoria, impressos na antologia Uns Fesceninos, organizada por Oswaldo Lamartine de Faria, editada no Rio de Janeiro em 1970.

O sol e a lua fornicam
No leito azul do infinito.
Se há coisas que bem se explicam,
Outras não, nunca, jamais:
Como muitos animais,
O sol e a lua fornicam.
A posição que praticam?
- Pode até ser esquisito –
Mas todo mundo, tem dito
Que é um fato indiscutível,
Perfeitamente possível,
No leito azul do infinito.

 Revelando-se, também, um arguto observador da “fauna”, sentenciou:
 Há quem pareça sem ser
E quem é, não parecendo.
Quero dar meu parecer
Com absoluta isenção,
Tenho até convicção,
Há quem pareça sem ser
Só quem poderá dizer
O que pareça, não sendo,
Distinguir o que está vendo,
Pois nunca, jamais, se engana,
É o verdadeiro sacana
E quem é, não parecendo.

                                                      João Gothardo Dantas Emerenciano

Referências
CARDOSO, Rejane.(Coord.) 400 nomes de Natal. Natal: Prefeitura Municipal de Natal, 2000.
FARIA, Oswaldo Lamartine de. Uns Fesceninos.Rio de Janeiro: Artenova, 1970.
LIMA, Manoel Jácome de. O Poder Legislativo do Rio Grande do Norte no Regime Republicano. Revista do IHGRN, vol.LVI-LVII-LVIII, anos 1964-1965-1966.
MOURA, Carlos Alberto Dantas. Família Ribeiro Dantas, de São José de Mipibu. Brasília: Cegraf, Senado Federal, (19??).







17 de abril de 2017

1964, um ano, muitas reflexões


Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Semurb

1964: aconteceu em abril*
(Para Mailde)

Abril tempos de repensar
Falar é necessário
Democracia liberdades em risco.
52 anos de uma legalidade interrompida
Dias sombrios
Golpe não revolução!
21 anos de obscurantismo
Torturas
Prisões
Desaparecidos políticos!
(Luciano Capistrano)
*Livro de Mailde Pinto Galvão.

            Sim, foi golpe! Em 1964 o Brasil sofreu um golpe de estado, forças militares aliadas a setores da sociedade civil, sobre o olhar e a participação do embaixador norte americano, Lincoln Gordon, destituíram da presidência João Goulart, interrompendo de forma violenta um mandato eleito democraticamente. Neste sentido, amigo velho, me alinho a outros historiadores que apontam o movimento militar/civil de 1964, como a interrupção de um governo democraticamente eleito, por força de um golpe de estado. Pois diferente de uma revolução, o que aconteceu no Brasil foi uma quartelada. Compreendo a revolução e o golpe de estado como algo distinto:
[...] enquanto a revolução é uma modificação radical das estruturas econômicas e sociais, o golpe, em geral, é apenas a substituição pura e simples das elites no poder, quase sempre levado a cabo pelas chamadas elites orgânicas, ou seja, as elites inseridas no próprio Estado, como os burocratas e os militares. (SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de Conceitos Históricos. São Paulo: Editora Contexto, 2014, p.175)

            A ruptura da ordem é a única semelhança entre “revolução” e “golpe”, fora este dado conceitual, nada, nada mesmo indica a instauração de um governo revolucionário em abril de 1964 no Brasil. O que ocorreu, me permitam a repetição, foi um golpe de Estado. Hoje existe entre os historiadores uma certeza quanto a isso, alguns ainda dizem “golpe preventivo” ou “contragolpe”, na verdade aconteceu a implantação de um regime autoritário a serviço dos interesses do grande capital nacional e internacional.
            O que assistimos no Brasil em 1964, foi um pacto firmado entre a elite econômica e política resultado do fracasso da chamada “política populista”, não mais satisfazendo os interesses da classe dominante, partem para a solução autoritária com os objetivos nítidos de manter intactos os anseios por “fatias” importantes das riquezas nacionais por parte dos setores empresariais, principalmente o capital externo. Diz o sociólogo Eliézer Oliveira, sobre as razões do golpe de Estado:
Neste sentido, ao radicalizarem-se as posições políticas em função do esgotamento do pacto populista, o Estado, ao mesmo tempo em que se torna o objetivo da ação estratégica dos interesses contraditórios das classes ( e dos diferentes setores das classes dominantes), conhece uma crise na sua legitimidade, na medida em que não mais esconde seu caráter de classe ( do ponto de vista das classes trabalhadoras) nem apresenta condições para garantir a dominação capitalista ( do ponto de vista dos interesses das classes burguesas). A conjuntura da crise de 1964 evidencia ambos os fatores, além de apontar para o fato de que as articulações golpistas consideravam à articulação de um novo arranjo político e de um novo modo de acumulação, no qual predominariam os setores vinculados ao capital internacional. (OLIVEIRA, Eliézer R. de. As Forças Armadas: política e ideologia no Brasil -1964/1969. Petrópolis: VOZES, 1976, p.51)
           
            Os caminhos diante da crise institucionalizada por meio dos meios de comunicação da época, assinalava um clima de desconfiança da classe média e dos setores conservadores da sociedade diante do governo de caráter populista de Jango, alçado ao cargo de Presidente da República depois da renúncia de Jânio Quadros, serviu de campo fértil para os arquitetos do golpe instalados em diversas instituições a se destacar o IBAD – Instituto Brasileiro de Ação Democrática – e o IPES – Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, por exemplo, forneciam recursos financeiros e “ideológicos” aos diversos setores da classe média numa campanha contra o governo “comunista” de João Goulart, na verdade eram, organizações financiadas com capital do empresariado brasileiro e internacional avido por derrubar um governo legitimo, diante das mobilizações em defesa das ditas reformas de base.
            A sociedade civil, grande parcela da população, teve um papel importante na consumação do golpe de Estado, é fato. Agora, faz necessário pensar na mobilização dos “descontentes” com o governo do Presidente João Goulart, sobre dois aspectos fundamentais, o clima vivido na época da “Guerra Fria”, com toda a propaganda anticomunista patrocinada pelo EUA, e, a quantidade de recursos financeiros fomentadores dos grupos “críticos” ao governo. Em 1964: a conquista do Estado, Dreifuss, é bem claro ao informar a origem dos apoiadores de movimentos como a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade.
A ideia da organização da marcha fora defendida pelo deputado Federal Antônio Silvio Cunha Bueno (rico proprietário de terras e diretor da Willys do Brasil), pela Deputada Conceição da Costa Neves, José Carlos Pereira de Souza (alto funcionário da Confederação Nacional do Comércio), Irmã Ana de Lourdes e Oscar Thompson Filho (Secretário da Agricultura do Estado de São Paulo, político do PSD e homem de confiança do governador Adhemar de Barros). De fato, a organização da marcha se realizou no prédio da Sociedade Rural Brasileira – SRB, sob a supervisão de ipesianos, que eram membros da Associação Comercial, da Federação das Indústrias, da Federação das Associações Rurais, do Clube de Diretores Lojistas e do estado-maior civil-militar do IPES. (DREIFUSS, René Armand. 1964: a conquista do Estado. Petrópolis: VOZES, 1981, p. 297-298)

            As forças civis e militares que assaltaram o poder no Brasil, tinham como motivo os interesses do grande capital nacional e estrangeiro, manteve-se as estruturas fundiárias, abriu-se o mercado de vez para as multinacionais.
            Ao instaurar a Junta Militar, com a deposição de João Goulart, as liberdades foram sufocadas, a lei do silêncio imperou por 21 anos de governos dos Generais Presidentes, tempos em que a tortura fez morada nos órgãos de segurança do Estado. Fez-se noite sombria na pátria brasileira.

Noite sombria

1970 fez noite sombria,
tempo dos Generais Presidentes,
década do Brasil Ame ou deixe,
gritos, torturas, prisões ilegais,
julgamentos sumários,
morre-se nos calabouços,
corre o tempo, sufoca a fala,
sinal fechado, perigo,
morte na esquina,
agoniza Herzog, fantasiam suicídio,
desaparece Luiz Maranhão.
 Sangue escorre na pátria amada,
mãe gentil, filhos deste solo partem,
tempos de exilio,
nos quarteis ordenam, dizem,
ordem e progresso,
torturam brasileiros,
tudo é proibido, apenas é permitido
dizer amém, noite sombria.
 (Luciano Capistrano)

                Finalizo com uma provocação, em tempos de crise o Brasil precisa de uma overdose de DEMOCRACIA e não de uma intervenção militar. Golpe Nunca Mais. 1964, um ano, muitas reflexões