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10 de abril de 2017

JORNAIS CULTURAIS ALTERNATIVOS NAS DÉCADAS DE 70 E 80 EM NATAL



CARLOS FREDERICO DE O. L. DA CÂMARA — CARLOS ASTRAL —

Os jornais culturais alternativos fogem ao padrão dos jornais comuns (que tem estrutura técnica e econômica possibilitadora de uma longa existência através dos anos). Portanto os jornais culturais alternativos, por sua precariedade técnica e econômica, duram pouco tempo.
A aventura fantástica do mundo fabuloso, mágico e espetacular dos jornais culturais alternativos em Natal, está como protagonista nas páginas do livro GERAÇÃO ALTERNATIVA – Antilogia Poética Potiguar, anos 70/80, organizado por Jota Medeiros (Amarela Edições/PROFINC, Natal, 1997).
No início da década de 70, floresceu em Natal esta cultura de desenvolvimento à margem, entre nós. Assim como em todos os estados do Brasil, surgiu em Natal grande quantidade de pequenas publicações, numa verdadeira explosão que poderia ser admitida como uma forma de resistência alternativa. O teor dessas pequenas publicações, também conhecidas pelos rótulos de imprensa marginal, independente, nanica e de mimeógrafo, era dos mais abrangentes, indo do humorismo à poesia, passando por temas como ecologia, homossexualismo, negritude, feminismo, política, quadrinhos, teatro, cinema e tantos outros temas, mas a esmagadora maioria era a poética. Ainda hoje a imprensa alternativa subsiste principalmente na internet, revelando que esse espírito de oposição nunca deixou de existir.
Os anos setenta são representados por uma nova geração dos jornais culturais alternativos que abrange toda a década de 80. Em 1972, surgiu a primeira edição do jornal tipográfico O SISTEMA, do chamado «Movimento Tensorial», o qual teve apenas dois números editados e tiragem aproximada de 100 exemplares, com edição do poeta, escritor e professor da UFRN, Rubem G. Nunes. Em 1974, também o jornal alternativo O CARCARÁ, editado pelo teatrólogo e sociólogo Racine Santos. Em 1975, o JORNAL DA PRAIA, editado por Racine Santos e Osório Almeida, do qual circularam apenas três edições. Jornal, LETREIRO,  iniciativa dos estudantes do curso de Letras da UFRN,  Carlos Humberto Dantas e Anchella Fernandes.
A década de 80 se caracterizou com uma forte e atuante presença das publicações alternativas. No início da década é publicado o jornal-poster DITO E FEITO, editado e coordenado pela escritora, poeta e professora da UFRN Socorro Trindad, com cinco números editados, uma publicação do Laboratório de Criatividade Literária, projeto experimental da UFRN. Em 1983 é publicado o jornal HOTEL DAS ESTRELAS, tendo como editor o jornalista Daniel do Carmo e fudador e colaborador Véscio Lisboa (Subhadro) e outros. Esse jornal com apenas um número publicado em  formato tablóide, com  poesias, ilustrações, quadrinhos e filosofia indiana. Em 1984 surge a folha RANGAL, editada por Osório Almeida. O primeiro número, defendendo o direito dos índios com um manifesto em encarte especial de papel couché, tiragem: 1.000 exemplares, com 26 números,  poesias da geração dos anos 80 e textos de pensamento político nôvo. Osório Almeida publicou também a folha AUTOEDIÇÃO, jornal político-literário e a folha BRASIL DE ESQUERDA, literário, ecológico e poesias. Surge a FOLHA POÉTICA, de tamanho ofício, tiragem de 500 exemplares e periodicidade mensal, edição do poeta Aluízio Mathias e colaborações de outros. No mesmo período circulou a folha poética e política LUMIAR, idealizada por João Barra em parceria com o médico  João Batista (Zizinho) e Flávio Américo Novaes, fotógrafo e programador visual. Registre-se ainda no início da década de 80, o jornal cultural de trovas A TROMBÊTA, editado mensalmente pelo advogado e trovador Sebastião Soares (In memoriam), metade ofício, com longa duração, tiragem de 500 exemplares, periodicidade mensal, era distribuído.
Jornal DEÍRIO URBANO, fundado pelo poeta Carlos Astral, João da Rua, Afonso Martins e Novenil Barros, tinha como editor Marcos Ottoni e colaborações de outros. Circulou com 3 edições em tamanho ofício, com tiragem inicial de 500 e 1.000 exemplares, ao preço de CR$ 5.000,00 e periodicidade bimestral (1985/1986), com  ilustrações, grafites, charges, fotos, opiniões, poesias underground e entrevistas. Jornal THE ACTION FILE, produzido pelos universitários Rodrigo Hammer e Carlos Henrique Leiros, especializado em Rock (Progressivo, Hard, Punk, anos 60). Foi o primeiro fanzine de música publicado no RN, em formato A4, bimestral e xerocado. Surgiu como um catálogo de gravações em fita K-7 chamado «Rock in Roll Action», com aproximadamente 12 edições.
Também na década de 80, diversos folhetos foram editados pelo professor, tradutor e poeta Haroldo J. B. Silva (Sopa d’Osso), como o DIÁRIO PUNK DE NATAL, NATAL PUNK e A VOZ DO ÓDIO, material em Xerox, distribuído gratuitamente. A VOZ DE CANDELÁRIA, depois FOLHA DE CANDELÁRIA, mensal, publicada em 1989 com 20 edições e tiragem de 1.000 exemplares. Colaboravam Guto de Castro, Genildo Antunes, Marcos Antonio e outros, abordando cultura, poesias e perfil da comunidade, atualmente está ligado ao CONACOM, associação do bairro. Destacamos aqui o jornal trovadoresco ALMENARA, do trovador e professor Rodrigues Neto, jornal de trovas, poesias e ilustrações, distribuído gratuitamente, com tiragem de 500 exemplares. Rodrigues Neto publicou ainda os jornais de trovas ALBOR, GERMINAL e TROVAVOANDO. Citamos também O SEGREL, editado pelo trovador Francisco Bezerra (in memoriam), distribuído gratuitamente e o TERRA NATAL, do trovador premiado Reinaldo Aguiar (in memoriam).
O jornal A MARGEM (1985/2005) marcou época em Natal, com edição do poeta visual Falves Silva, jornalista, crítico literário e poeta processo, Anchieta Fernandes e participações dos poetas Charlier Fernandes, Franklin Capistrano, Moacy Cirne, Marcos Silva, Véscio Lisboa e outros. No ano de 1987 temos a publicação do jornal T A O, em tamanho ofício e 4 páginas, jornal lítero-cultural abordando astrologia, filosofia e ciências, circulou apenas 2 edições. Coordenado por Edilson Maciel e editado peloo jornalista Luciano Almeida, com tiragem de 500 exemplares. A partir do ano de 1986 edita-se a folha BALAIO INCOMUM, dirigida pelo poeta e professor Moacy Cirne. Registramos ainda no final da década de 80 o jornal A FRANGA, um jornal «sêmen anárquico» com textos, fotografias e ilustrações. Esse jornal, de formato ofício e periodicidade trimestral vendido ao preço de Cr$ 1.000,00. Idealizado pelo sebista e editor Abimael Silva, poeta Dorian Lima e colaborações de outros. No final dos anos 80 circulou também o jornal humorístico CEBOLA FAZ CHORAR (1988/1989), fazia sátiras aos colegas estudantes da UFRN. Eram seus editores Isaac Ribeiro, Carlos Magno Araújo e Robson Medeiros, entre outros colaboradores. Registramos também no final da década publicou-se o jornal ARROCHA O COLORAU, em formato tablóide, editado pelo jornalista Miranda Sá e colaborações de outros, jornal crítico-humorístico-literário, com 3 edições.
            A principal característica dos jornais culturais alternativos é que eles trabalham a notícia de forma em que se abre um espaço maior para discussão da democratização da informação. Com a chegada do computador popularizado a preço acessível, então surgiram os jornais culturais alternativos on line, que, podemos dizer, são os substitutos de hoje dos jornais alternativos impressos.

FONTES: MEDEIROS, J. (Org.). Geração Alternativa – Antilogia Poética Potiguar, anos 70/80 (Amarela Edições/ PROFINC, Natal, 1997); MELO, Manoel Rodrigues de Melo. Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte – 1909-1987 (Cortez Editora/FJA, 1987); Coleções e Acervos – Imprensa Alternativa – Sandra Alves Horta (Internet)

2 de dezembro de 2014

Nós do RN, o suplemento resistente

(Jornalistas - Edilson Braga, Edson Benigno e Moura Neto)


Anchieta Fernandes 

 Agora em novembro, completa-se precisamente os dez anos de existência deste suplemento. É uma façanha a comemorar, a sua continuidade, pois outros veículos culturais, oficiais ou não, desistem depois de alguns meses ou anos. Ao final do ano de 2004, o talentoso jornalista Henrique Miranda de Sá Neto era o Coordenador de Administração e Editoração do Departamento Estadual de Imprensa – DEI. O Governo do Estado era exercido pela governadora Vilma Maria de Farias, que tinha como Assessor de Comunicação Social o jovem jornalista Rubens Manoel Lemos Filho. O Diretor Geral do DEI era Carlos Alberto de Oliveira Torres.

Todos estes superiores apoiaram a brilhante idéia de Miranda Sá: criar um suplemento cultural a acompanhar as edições do Diário Oficial, amenizando a sisudez burocrática dos textos oficiais. Foi escolhida uma boa equipe de colaboradores em texto (Paulo Dumaresq, Carlos Morais, entre outros), foto (João Maria Alves), desenho (Emanoel Amaral) e diagramação (Edenildo Simões, Alexandre Tavares de Melo e Valmir Araújo) e então, tendo o próprio Miranda Sá como Editor-Geral, e Moura Neto como Chefe de Redação, foi lançado em novembro de 2004 este suplemento, Nós do RN... Timidamente, era datado Nº Zero, do Ano I.

Era quase uma confissão de pessimismo, de descrédito quanto à continuidade da iniciativa. Mas aquela marca gráfica à esquerda do título, mostrando a figuração do selinho com o contorno do mapa do Rio Grande do Norte sobre a sigla DO, e embaixo a definição programática “Editorial A República”, parece até que funcionava como bons prenúncios visuais, como se os anjos da terceira hierarquia atuassem revirando para trás os novelos que as Parcas fiavam, trazendo silenciosamente a vitória-vida da idéia do materialista-marxista Miranda Sá. O suplemento continuou.

O suplemento continua. Filho dileto do velho jornal pedrovelhista A República, cujo título ainda estava no coruchéu da fachada do prédio do DEI, e em cimento encimando o portão de entrada do jardim da área frontal do mesmo prédio, como foi fotografado para a bela capa do referido número zero, o suplemento Nós do RN é definitivamente um marco na história do jornalismo cultural na terra de Câmara Cascudo. No início, era contada a história das várias vertentes da nossa produção cultural, em cada número monotemático. Dentre outras, as estórias em quadrinhos (Nº 07, junho de 2005), o cinema (Nº 13, dezembro de 2005), a música (Nº 14, janeiro de 2006). Muito bonita a capa do número (o 04, de março de 2005) dedicado à arte da poesia, uma alegoria onde se vê Euterpe, a deusa da poesia, surgindo da sua concha aquática, observada por seres e flores voadoras tentando acompanha-la. Aliás, muitas outras capas bonitas e significativas puderam ser apreciadas pelos leitores do suplemento, ao longo destes 10 anos, podendo-se mencionar: a do Nº 8 (julho de 2005), sobre as artes plásticas no estado, e a do Nº 21 (de agosto de 2006), um belíssimo desenho modernista de Emanoel Amaral, mostrando dois violeiros no 12º Congresso Brasileiro do Folclore, que estava se realizando em Natal. Aliás, este suplemento de Nº 21 já estava sob orientação de um novo Editor-Geral, o jornalista Edilson Braga, ex repórter do jornal A República.

E Braga trouxe uma inovação à sala de redação do suplemento: uma reunião de pauta, pelo menos uma vez por mês, para definir qual seria o tema do próximo número do suplemento, e quais dos colaboradores repórteres ou articulistas iriam escrever as matérias com variações do tema geral. Estas reuniões de pauta, embora sérias e produtivas, decorriam num clima de descontração, com Emanoel Amaral brincando com o perfil fisionômico do pessoal, fazendo suas caricaturas. É preciso explicar que desde o número inicial, aquele nº ZERO (fora publicada assim a indicação do número – por extenso, e os quatro fonemas, duas consoantes e duas vogais, digitados em formato maiúsculo), o suplemento publicou autores que não participavam do corpo redacional ou de reportagem, mas que eram figuras importantes dojornalismo ou da literatura norte-riograndense. Neste nº ZERO, por exemplo, foi publicado (aliás, republicado em transcrição do jornal A República, de 16 de maio de 1943) o artigo “Amor e Islamismo”, de Eloy de Souza, o grande jornalista que deu nome ao Museu da Imprensa Oficial. Embora focalizando principalmente assuntos norte-riograndenses, o suplemento nunca foi porta-voz de chauvinismos ou regionalismos exagerados. O número dedicado ao Carnaval(Nº 03, de fevereiro de 2005), começou mergulhando fundo na pesquisa histórica, em maravilhoso ensaio de Moura Neto, revelando que “para alguns estudiosos, a comemoração do carnaval advém de costumes das comunidades agrárias, onde homens e mulheres, por volta de 10 mil anos a.C., usavam máscaras, pintavam os corpos, bebiam bastante e dançavam até cair para espantar os demônios da má colheita.” Personalidades diversas da espécie humana, mereceram e foi aceito o destaque delas inspirando o tema de alguns números do suplemento. Sejam escritores (Raimundo Nonato, no Nº 32, de agosto de 2007) ou governadores do estado (Juvenal Lamartine, no Nº 38, de janeiro de 2008; e Dix-Sept Rosado, no Nº 66, de julho de 2011). Houve também, a partir do segundo ano de existência do suplemento, a presença de duas personalidades dividindo o conteúdo de um mesmo número (no caso, deixando de ser monotemático, e passando a ser bitemático, a exemplo do Nº 12, de novembro de2005, apresentando matérias sobre o padre João Maria e Alberto Maranhão).

Reforçando a presença feminina na colaboração escrita com o suplemento, que pode ser rastreada desde o Nº 09(de agosto de 2005), onde a repórter cultural Carla Xavier publicou matéria sobre o poeta assuense Paulo Varela, o editor Edilson Braga lançou no Nº 29 (de maio de 2007), a cronista da última página, a talentosa Yasmine Catarina. O seu primeiro trabalhado publicado neste suplemento recebeu o título “O Preço de Um Tempo”, encaixado na temática deste número de maio de 2007, contando a história do comércio no Rio Grande do Norte, e Yasmine descrevendo detalhes preciosos do comércio do Centro de Natal (Praça Padre João Maria, Café São Luiz). A partir do Nº 48 (abril de 2009), Yasmine passou a se assinar Yasmine Lemos. Com essa assinatura, manteve a coluna até ao Nº 56 (de janeiro de 2010), onde sua crônica recebeu o título “Exercício Para Alma”, um belíssimo texto, ao mesmo tempo filosófico, poético, e revelando um sofrimento humanitário pelas vítimas do terremoto do Haiti. Sua mensagem, quase ao final do texto, é inegavelmente cristã: “Ser solidário é exercitar o que de melhor a nossa alma possui: amar ao próximo.” Depois da saída de Yasmine do suplemento, após esta crônica, passou um certo período (do Nº 57, de fevereiro de 2010 ao Nº 64, de maio de 2011) sem a última página ser assinada continuamente pelo mesmo autor.

Com o Nº 65 (de junho de 2011) voltou a última página a ser enriquecida com a voz feminina. Salete Pimenta passou a escrever a crônica da última página, iniciando sua colaboração com a crônica “Quadrilha Junina”, demonstrando bastante conhecimento sobre esta dança festiva típica do Nordeste. Desde então, a caraubense autora dos livros “Acordes da Alvorada” (Sebo Vermelho, 1999) e “Fragmentos da Alma” (Editorial A República, 2013) tem escrito a coluna, com ausência do seu nome na coluna do Nº 81 (dezembro de 2012), por falha redacional, e na do Nº 91 (novembro de 2013), pelo motivo da última página ter sido escrita por Rosane Macêdo, supervisora do Museu de Imprensa Oficial.

O suplemento Nós do RN...foi lançado em formato tablóide, papel jornal, 12 páginas, capa e contracapa coloridas. Até o presente momento somente foi feita uma edição (especial) em formato revista, em papel couchê brilhante: foi a do Nº 63, de dezembro de 2010, edição natalina onde cada colaborador (articulistas, repórteres, e até fotógrafos que fizeram a cobertura da visita do papa João Paulo II – o João de Deus – a Natal, em outubro de 1991) escolheram para publicar nesta edição especial as melhores matérias que produziram e já publicadas em edições anteriores. A revista trouxe um suplemento do suplemento: um caderno colorido contando a história do Museu da Imprensa Oficial Eloy de Souza. Após a circulação da revista, o Nós do RN...entrou por um período parado, devido a enxugamento do quadro de colaboradores, e também por alterações no perfil de um novo governo. Foram quatro meses de ausência no contexto do jornalismo cultural do Rio Grande do Norte.

Mas em maio de 2011, foi a volta à circulação, com apenas oito páginas, e Edson Benigno, experiente jornalista, fundador de outros jornais (inclusive o vitorioso “Jornal Zona Sul”, fundado em 1991, e ainda em circulação), como o Editor-Geral. No número da volta, o 64, prestou-se uma homenagem à memória dos ex-diretores da Imprensa Oficial do RN, em matéria assinada pelo próprio Edson Benigno. Com Edson, embora mantendo o foco nos viezes artísticos e literários, o suplemento também foi a câmera e a voz de testemunhos voltados para assuntos econômicos, ambientais etc. O Nº 67, de agosto de 2011, faz um levantamento histórico e opinativo sobre a presença de secas, ou, o oposto, cheias, na paisagem climática de nossa região, e do Nordeste como um todo. E se Natal tem o maior cajueiro do mundo, foi bem sacada a idéiade se fazer um número como homenagem ao elemento vegetal.

Foi o Nº 69 (de outubro de 2011), com matérias curiosas, como uma sobre espaços públicos natalenses com nomes de árvores. Atendendo uma sugestão minha, o editor Edson Benigno resolveu publicar, a partir do Nº 73(março de 2012),algumas matérias transcritas de outro veículo cultural oficial, o jornal O Galo (1988 – 2002), iniciando pela reportagem “Imprensa Feminina no RN, uma história a ser contada”, escrita em parceria pelas escritoras Constância Lima Duarte e Diva Cunha Pereira de Macedo, e publicada em O Galo, no Nº 06 do Ano IX, referente a junho de 1997. A transcrição destas matérias tem funcionado como um resgate, um testemunho do valor da imprensa oficial em seu viés de divulgação cultural, pois suas gráficas são também editoras de livros, como o nosso DEI. Dentro destes 10 anos, a existência deste suplemento, como mostrei ao longo desta matéria, foi uma existência vitoriosa e profícua, resistente e não desistente. O atual Diretor Geral deste Departamento, Marcos de Souza Sobrinho, e seu Coordenador de Administração e Editoração, Josenilton Batista de Oliveira, acertaram em cheio na decisão de manterem o suplemento. A iniciativa de Miranda Sá deve permanecer. Porque, como escreveu o leitor João Vianey de Araújo, em carta enviada ao suplemento e publicada no Nº 59 (de agosto de 2010), o que fazemos aqui, desde novembro de 2004, “justifica plenamente a missão” (do DEI). Vianey refere-se a “artigos bem escritos, informações sobre nossa história” etc.

28 de novembro de 2014

Alecrim tem Circuito Histórico, sim senhor!




Luciano Capistrano - luciano.capistrano@natal.rn.gov.br
Historiador/Comissão Municipal da Verdade Luiz Maranhão Filho

            “Alecrim, com suas avenidas retangulares, sua extensão em claridade, sua possibilidades de desdobração,  aparece como um milagre de previsão dos velhos e acusados administradores antigos. O crime, cruel e tenebroso crime da displicência administrativa, é sujar todo esse cenário luminoso entregando a terra da gente morar a quem quer apenas vender”. (Luís da Câmara Cascudo)
            Caro leitor (a) na década de 1940, Câmara Cascudo, alertava a sociedade natalense, em sua História da Cidade do Natal, sobre os perigos da especulação imobiliária. Já naquele tempo, a força do capital utilizava, conforme Cascudo, terras de morada para especular, para vender. Defendia o mestre da cultura popular, o sentido social da terra.
            Bem, fato é que o Alecrim se desenvolveu, cresceu e deixou de ser uma terra de sítios e casebres. Hoje faz parte dos 100 maiores bairros do Brasil em arrecadação de tributos. Este é um dado importante, um dado relevante, quando pensamos na geração de emprego e renda, resultado da pujança de uma economia viva, de um bairro centenário. Alecrim, onde tudo se acha, é o nosso campeão em repasse para os cofres públicos de ISS e ICMS.
            Permita-me dizer, caro leitor, o Alecrim é a nossa galinha dos ovos de ouro.       Há muito tempo, merecedor de uma atenção especial por parte de nossos gestores. Ordenamento do comercio de rua, mobilidade, segurança, iluminação, placas informativas, são alguns dos itens que devem fazer parte da agenda de qualquer gestor, preocupado com o desenvolvimento de nossa cidade. O crescimento de Natal, passa pelo Alecrim.
            Cenário de intensa atividade econômica, andar por suas ruas é caminhar por um fervilhar de camelôs, vendedores, clientes, lojistas, enfim, uma profusão de pessoas vendendo ou comprando. Fazendo jus ao lema Alecrim, bairro completo.
            Lojistas e camelôs, numa relação, às vezes opostas, com um objetivo comum: fazer do Alecrim, cada vez mais, o lugar de seu “ganha pão”.
            Em tempos de Copa do Mundo, quando a palavra de ordem é “legado”, faço um convite em forma de provocação, vamos andar pela história do Alecrim. Sim, o bairro do Alecrim tem História. Uma história que se confunde com a história da cidade de Natal. Neste sentido, façamos, então, um Circuito Histórico do Alecrim, atenção agencias de turismo, professores, gestores culturais, empreendedores, este é o momento de apresentarmos o antigo Cais do Sertão, como mais uma atração do turismo histórico/cultural, este pode ser o legado da copa para o bairro. Façamos o Circuito Histórico do Alecrim.
            Iniciemos pela Praça D. Pedro II, onde encontra-se, o busto do Imperador, obra do escultor Francisco de Andrade; a igreja São Pedro, construção católica datada de 1919; o Cemitério do Alecrim lugar de repouso, lugar de muita história sobre o ser potiguar, construção de 1856; Escola Estadual Padre Miguelinho, local da sede do primeiro grupo de escoteiro de nossa cidade, guarda um memorial do escotismo Norteriograndense; o Centro de Saúde, lugar do antigo Lazareto da Piedade; Base Naval de Natal, unidade militar, testemunha do período em que Natal transformou-se em Trampolim da Vitória; Templo Central da Assembleia de Deus, erguido no mesmo local, que no ano de 1937, era construído a primeira Assembleia de Deus no Alecrim; Praça Gentil Ferreira, lugar de memória da cidade, palco das grandes manifestações políticas e culturais ocorridas no “palco’ palco do antigo Quitandinha; o Relógio do Alecrim, presente dos Rotaryanos, instalado próximo a Praça, desde 1965 testemunha do tempo, lugar de referencia a quem vai ao Alecrim.
            Alecrim e suas ruas com nomes de tribos indígenas, homenagem aos antigos habitantes de nossas terras potiguares, ruas que teimam, apesar dos tempos, a serem chamadas por números, avenida 1, avenida 2, avenida 3, ... Alecrim dos sábados e sua feira, lugar de sociabilidade, lugar de ouvir, sentir e degustar os sabores da terra.

            Alecrim tem Circuito Histórico, sim senhor!

25 de novembro de 2014

Pequena história operária

                              




Anchieta Fernandes

                               A 01 de maio de 1904, a Liga Artística Operária Norte-riograndense promovia a primeira comemoração natalense do Dia do Trabalho. A liga havia sido fundada a seis de março do mesmo ano, sob a presidência de Augusto César Leite, e tendo Augusto Wanderley Como Vice-Presidente.
                                 O jornal “A República”, de 02 de maio de 1904, publicou a reportagem noticiando os acontecimentos do dia anterior, quando pela primeira vez o Dia do Trabalho foi comemorado na capital do Rio Grande do Norte, por iniciativa da pioneira agremiação do operariado e dos artistas natalenses.
                                   Dizia o texto de “A República”: “Esteve bastante solene a sessão magna promovida pela Liga Artística Operária Norte-riograndense, em comemoração ao primeiro de maio, dia consagrado à festa do operariado.
                                     Ao meio dia, os salões do Clube Carlos Gomes, artisticamente decorados, onde atualmente funciona a Liga Operária, regorgitava de operários, convidados e pessoas do povo.
                                      Foi aberta a sessão pelo presidente Augusto Leite, servindo de secretários os srs. Aristóteles Costa e Manuel Cavalcante.
                                       O presidente, depois de fazer um breve, mas consciencioso discurso alusivo ao dia primeiro de maio, a patentear em ligeiros traços o papel do operariado no mundo culto, deu a palavra ao orador oficial, Eduardo dos Anjos, que proferiu uma bela oração, terminando por saudar naquele dia todos os sócios da Liga Operária Norte-riograndense e fazendo ardentes votos para que a união, a fé e a perseverança no trabalho honrado, fossem o lema de todos os companheiros a quem naquele momento dirigia a palavra. Ocuparam em seguida a tribuna o senhor Pedro Mendes e os sócios Francisco Ivo, Cincinato Wanderley, Aristóteles Costa e Augusto Wanderley.”
                                          Por volta de mais de vinte anos depois desta primeira comemoração do Dia do Trabalho, o operário obtia uma vitória expressiva. Tratava-se da primeira eleição de um gráfico para a Assembléia Legislativa, na pessoa de João Estevam Gomes da Silva, ocorrida a seis de junho de 1926.
                                            Historiando em seu livro “A República Velha no Rio Grande do Norte” (1989), sobre o Centro Operário Natalense, o escritor Itamar de Souza escreveu assim sobre João Estevam:
                                             “(...) o grande presidente do Centro Operário foi o tipógrafo João Estevam Gomes da Silva, que administrou-o de 1915 a 1919. Dotou a Escola Noturna de curso secundário e aula de música; conseguiu da Prefeitura Municipal subvenção anual de seiscentos mil réis para manter a escola; pôs em circulação o jornalzinho O Operário; organizou a Previdência Operária.”
                                                     João Estevam Gomes da Silva nasceu em Natal a 16 de dezembro de 1883. Aos onze anos de idade começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo em “A República”, jornal onde passou por vários cargos, chegando por fim a chefiar  as oficinas gráficas. Escreveu o livro “A Maçonaria no Rio Grande do Norte”, em parceria com Emídio Fagundes e Josué Tabira.
                                                        Fundou o Centro Tipográfico “Augusto Leite”, sendo seu primeiro presidente. Escreveu modinhas, musicadas por Adolfo França. Quando o Presidente da República, Washington Luis, visitou a Assembléia Kegislativa, em 1926, João Estevam foi quem fez a saudação ao presidente em nome dos seus pares. João Estevam faleceu em Natal a 07 de maio de 1959.
                                                            A eleição pela qual João Estevam foi eleito deputado fora motivada por decreto de 29 de novembro de 1925, convocando uma Constituinte para rever a Constituição Estadual. O Congresso instalou-se a 05 de agosto de 1926, promulgando a Constituição de 24 de agosto de 1926.
                                                              Aqui, deve ser dito que este ponto alto do prestígio dos operários norte-riograndenses veio de uma tradição de reunião de entidades operárias locais, até antes mesmo da primeira comemoração do Dia do Trabalho. Por exemplo, em Natal, em agosto de 1890, fundava-se o Centro Operário Luiz de França. Aliás, antes da fundação deste centro, a então vila de Canguaretama apresentava uma idéia pioneira: a Sociedade de União Beneficente dos Artistas, fundada a 02 de fevereiro de 1873.
                                                                O historiador Itamar de Souza considerou esta sociedade de beneficência “a primeira associação operária do Rio Grande do Norte” (v. página setenta e nove do livro “A República Velha no Rio Grande do Norte, 1889 – 1930”, 1989). O fundador da referida associação foi o Sr. Euthério Ribeiro Guimarães.
                                                                   Ele ficou como Diretor, auxiliado por Maximino da Trindade Moura (Vice), João Valério de Souza (Secretário), Felix Pereira Simas (Tesoureiro), Geraldino Gomes da Trindade (Primeiro Procurador), José Damazio Ricarte de Oliveira (Segundo Procurador), Joaquim José D’Oliveira (Terceiro Procurador), Francisco Batista da Cruz (Quarto Procurador) e Sinézio José Pereira (Quinto Procurador). Itamar registrou no livro:
                                                                      “Ao terminar a sessão de instalação, Euthério Ribeiro Guimarães fez aos seus companheiros o seguinte apelo: “Sejamos unidos e ponderantes porque só assim venceremos.” A fonte onde o historiador Itamar de Souza encontrou as informações sobre a história da Sociedade União Beneficente dos Artistas foram os números do jornal “A República”, de 16 de janeiro de 1927, e de 02 de fevereiro de 1927.
                                                                          Esta primeira associação operária do RN foi fundada na Rua Sertãozinho, em Canguaretama. Ela mantinha uma sede própria, escola, banda de música e uma capela sob a invocação de São José. Existiu durante décadas. Chegou a eleger um operário para a Câmara Municipal de Canguaretama, o pedreiro Geraldino Gomes da Trindade, que era seu Primeiro Procurador.
                                                                             Além desta possibilidade de representantes operários nas casas legislativas, nestas casas, depois de meados do século vinte passou-se a reconhecer oficialmente os centros ou círculos operários. Por exemplo: no Diário Oficial do Estado, no número 111, do ano LXVI, referente a sábado, 19 de maio de 1956, nas páginas com matérias da Assembléia Legislativa, está publicado o seguinte:
                                                                                Processo número 247/56 – Projeto de lei: reconhece de utilidade pública a Federação Estadual dos Círculos Operários do Rio Grande do Norte.
                                                                                  O Governador do Estado do Rio Grande do Norte:
                                                                                  Faço saber que o Poder Legislativo decreta e eu sanciono a seguinte Lei: Art. Primeiro – Fica reconhecida de utilidade pública a Federação Estadual dos Círculos Operários do Rio Grande do Norte, entidade civil que congrega todos os Círculos  Operários deste Estado, com sede e foro nesta capital.
                                                                                    Art. Segundo – A presente Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
                                                                                      Sala das Sessões, em Natal, 18 de maio de 1956. Jocelyn Vilar de Melo.”
                                                                                       Depois destes círculos operários e também de alguns partidos operários, seria a vez dos sindicatos. Os primeiros surgiram na década de 20 do século passado. Em seu livro “A Insurreição Comunista de 1935 – Natal, o Primeiro Ato da Tragédia”, o historiador e cientista político Homero Costa informa: “As primeiras organizações sindicais foram criadas, de um lado, com a participação do Partido Comunista, que, a partir de 1926, forma os primeiros núcleos no estado, organizados principalmente na importante região salineira de Mossoró, e por outro, pelo advogado João Café Filho, que ajuda a organizar diversos  sindicatos e vai liderar as primeiras manifestações grevistas de que se tem notícia no estado, especialmente a partir de 1926.”
                                                                                          Mossoró e arredores do município e outros municípios da região  Oeste trouxeram um perfil sindical mais consciente e atuante. As reuniões da Associação dos Operários do Sal em uma sede na cidade de Mossoró, em princípios da década de 30 do século passado, passaram a ser frequentadas por trabalhadores diversos (e não apenas salineiros), para ouvirem, esperançosos, as propostas de alguns líderes trabalhadores e intelectuais do Partido Comunista.
                                                                                           Era uma luta diferente, à qual os trabalhadores não estavam acostumados, já que eram obrigados sempre a se submeterem às determinações dos patrões. Estes, grandes proprietários de salinas, que auferiam grandes lucros à base do trabalho quase escravo, em conluio com o governo estadual e local, passaram a usar a polícia para proibir tais reuniões. Aí, o pessoal que estava transformando a Associação dos Operários do Sal em Sindicato dos Trabalhadores em Salinas, usou uma estratégia de guerrilha: passou a se reunir  no mato, embaixo de árvores garranchosas da caatinga.


20 de novembro de 2014

JORNAIS CULTURAIS ALTERNATIVOS NAS DÉCADAS DE 70 E 80 EM NATAL

•••••••••••••••••      CARLOS FREDERICO DE O. L. DA CÂMARA — CARLOS ASTRAL —





Os jornais culturais alternativos fogem ao padrão dos jornais comuns (que tem estrutura técnica e econômica possibilitadora de uma longa existência através dos anos). Portanto os jornais culturais alternativos, por sua precariedade técnica e econômica, duram pouco tempo.

A aventura fantástica do mundo fabuloso, mágico e espetacular dos jornais culturais alternativos em Natal, está como protagonista nas páginas do livro GERAÇÃO ALTERNATIVA – Antilogia Poética Potiguar, anos 70/80, organizado por Jota Medeiros (Amarela Edições/PROFINC, Natal, 1997).

No início da década de 70, floresceu em Natal esta cultura de desenvolvimento à margem, entre nós. Assim como em todos os estados do Brasil, surgiu em Natal grande quantidade de pequenas publicações, numa verdadeira explosão que poderia ser admitida como uma forma de resistência alternativa. O teor dessas pequenas publicações, também conhecidas pelos rótulos de imprensa marginal, independente, nanica e de mimeógrafo, era dos mais abrangentes, indo do humorismo à poesia, passando por temas como ecologia, homossexualismo, negritude, feminismo, política, quadrinhos, teatro, cinema e tantos outros temas, mas a esmagadora maioria era a poética. Ainda hoje a imprensa alternativa subsiste principalmente na internet, revelando que esse espírito de oposição nunca deixou de existir.

Os anos setenta são representados por uma nova geração dos jornais culturais alternativos em Natal, que abrange toda a década de 80. Em 1972, surgiu a primeira edição do jornal tipográfico O SISTEMA, do chamado «Movimento Tensorial», o qual teve apenas dois números editados e tiragem aproximada de 100 exemplares, com edição do poeta, escritor e professor da UFRN, Rubem G. Nunes. Em 1974, também o jornal alternativo O CARCARÁ, editado pelo teatrólogo e sociólogo Racine Santos. Em 1975, o JORNAL DA PRAIA, editado por Racine Santos e Osório Almeida, do qual circularam apenas três edições. Jornal LETREIRO,  iniciativa dos estudantes do curso de Letras da UFRN,  Carlos Humberto Dantas e Anchella Fernandes.



A década de 80 se caracterizou com uma forte e atuante presença das publicações alternativas. No início da década é publicado o jornal-poster DITO E FEITO, editado e coordenado pela escritora, poeta e professora da UFRN Socorro Trindad, com cinco números editados, uma publicação do Laboratório de Criatividade Literária, projeto experimental da UFRN. Em 1983 é publicado o jornal HOTEL DAS ESTRELAS, tendo como editor o jornalista Daniel do Carmo e fudador e colaborador Véscio Lisboa (Subhadro) e outros. Esse jornal com apenas um número publicado em  formato tablóide, com  poesias, ilustrações, quadrinhos e filosofia indiana. Em 1984 surge a folha RANGAL, editada por Osório Almeida. O primeiro número, defendendo o direito dos índios com um manifesto em encarte especial de papel couché, tiragem: 1.000 exemplares, com 26 números,  poesias da geração dos anos 80 e textos de pensamento político nôvo. Osório Almeida publicou também a folha AUTOEDIÇÃO, jornal político-literário e a folha BRASIL DE ESQUERDA, literário, ecológico e poesias. Surge a FOLHA POÉTICA, de tamanho ofício, tiragem de 500 exemplares e periodicidade mensal, edição do poeta Aluízio Mathias e colaborações de outros. No mesmo período circulou a folha poética e política LUMIAR, idealizada por João Barra em parceria com o médico  João Batista (Zizinho) e Flávio Américo Novaes, fotógrafo e programador visual. Registre-se ainda no início da década de 80, o jornal cultural de trovas A TROMBÊTA, editado mensalmente pelo advogado e trovador Sebastião Soares (In memoriam), metade ofício, com longa duração, tiragem de 500 exemplares, periodicidade mensal, era distribuído.

Jornal DEÍRIO URBANO, fundado pelo poeta Carlos Astral, João da Rua, Afonso Martins e Novenil Barros, tinha como editor Marcos Ottoni e colaborações de outros. Circulou com 3 edições em tamanho ofício, com tiragem inicial de 500 e 1.000 exemplares, ao preço de CR$ 5.000,00 e periodicidade bimestral (1985/1986), com  ilustrações, grafites, charges, fotos, opiniões, poesias underground e entrevistas. Jornal THE ACTION FILE, produzido pelos universitários Rodrigo Hammer e Carlos Henrique Leiros, especializado em Rock (Progressivo, Hard, Punk, anos 60). Foi o primeiro fanzine de música publicado no RN, em formato A4, bimestral e xerocado. Surgiu como um catálogo de gravações em fita K-7 chamado «Rock in Roll Action», com aproximadamente 12 edições.

Também na década de 80, diversos folhetos foram editados pelo professor, tradutor e poeta Haroldo J. B. Silva (Sopa d’Osso), como o DIÁRIO PUNK DE NATAL, NATAL PUNK e A VOZ DO ÓDIO, material em Xerox, distribuído gratuitamente. A VOZ DE CANDELÁRIA, depois FOLHA DE CANDELÁRIA, mensal, publicada em 1989 com 20 edições e tiragem de 1.000 exemplares. Colaboravam Guto de Castro, Genildo Antunes, Marcos Antonio e outros, abordando cultura, poesias e perfil da comunidade, atualmente está ligado ao CONACOM, associação do bairro. Destacamos aqui o jornal trovadoresco ALMENARA, do trovador e professor Rodrigues Neto, jornal de trovas, poesias e ilustrações, distribuído gratuitamente, com tiragem de 500 exemplares. Rodrigues Neto publicou ainda os jornais de trovas ALBOR, GERMINAL e TROVAVOANDO. Citamos também O SEGREL, editado pelo trovador Francisco Bezerra (in memoriam), distribuído gratuitamente e o TERRA NATAL, do trovador premiado Reinaldo Aguiar (in memoriam).

O jornal A MARGEM (1985/2005) marcou época em Natal, com edição do poeta visual Falves Silva, jornalista, crítico literário e poeta processo, Anchieta Fernandes e participações dos poetas Charlier Fernandes, Franklin Capistrano, Moacy Cirne, Marcos Silva, Véscio Lisboa e outros. No ano de 1987 temos a publicação do jornal T A O, em tamanho ofício e 4 páginas, jornal lítero-cultural abordando astrologia, filosofia e ciências, circulou apenas 2 edições. Coordenado por Edilson Maciel e editado peloo jornalista Luciano Almeida, com tiragem de 500 exemplares. A partir do ano de 1986 edita-se a folha BALAIO INCOMUM, dirigida pelo poeta e professor Moacy Cirne. Registramos ainda no final da década de 80 o jornal A FRANGA, um jornal «sêmen anárquico» com textos, fotografias e ilustrações. Esse jornal, de formato ofício e periodicidade trimestral vendido ao preço de Cr$ 1.000,00. Idealizado pelo sebista e editor Abimael Silva, poeta Dorian Lima e colaborações de outros. No final dos anos 80 circulou também o jornal humorístico CEBOLA FAZ CHORAR (1988/1989), fazia sátiras aos colegas estudantes da UFRN. Eram seus editores Isaac Ribeiro, Carlos Magno Araújo e Robson Medeiros, entre outros colaboradores. Registramos também no final da década publicou-se o jornal ARROCHA O COLORAU, em formato tablóide, editado pelo jornalista Miranda Sá e colaborações de outros, jornal crítico-humorístico-literário, com 3 edições.

            A principal característica dos jornais culturais alternativos é que eles trabalham a notícia de forma em que se abre um espaço maior para discussão da democratização da informação. Com a chegada do computador popularizado a preço acessível, então surgiram os jornais culturais alternativos on line, que, podemos dizer, são os substitutos de hoje dos jornais alternativos impressos.
FONTES: MEDEIROS, J. (Org.). Geração Alternativa – Antilogia Poética Potiguar, anos 70/80 (Amarela Edições/ PROFINC, Natal, 1997); MELO, Manoel Rodrigues de Melo. Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte – 1909-1987 (Cortez Editora/FJA, 1987); Coleções e Acervos – Imprensa Alternativa – Sandra Alves Horta (Internet)

5 de novembro de 2014

O Mestre

--- Walter Medeiros* – waltermedeiros@supercabo.com.br

A história do Rio Grande do Norte estaria incompleta se não fosse dada a verdadeira importância do Movimento Estudantil, que foi resgatado a duras penas por dedicados militantes que colocaram a luta contra a ditadura militar acima de qualquer outro interesse. Mas entre esses militantes existe uma pessoa cuja participação precisa ser bem situada, explicada e entendida. Trata-se de Juliano Siqueira, que já havia passado pelos porões da repressão e retomava sua vida estudantil como estudante de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, a partir da inauguração do campus.

Juliano foi a maior referência da resistência, tanto pela sua experiência e preparo, como pela liderança nata que levou a estudantada a reunir-se em torno das lutas que eram identificadas como necessárias e indispensáveis. Era um tempo em que a sala de aula da nossa turma – tive o privilégio de ser seu colega de curso – reunia nada menos que oito agentes da Polícia Federal e outros órgãos de segurança. Tempo em que todos desconfiavam de praticamente todos. A relação de confiança para participação nas atividades políticas era algo construído com o máximo de cautela, mas era impossível não correr certos riscos.

Nesse cenário iam sendo retomadas as atividades da política estudantil, das quais lembro bem a primeira, a eleição do representante dos estudantes de Direito no colegiado do curso. Disputa acirrada entre um civil, no caso eu mesmo, e um estudante de Direito capitão da Polícia Militar, Domício Damásio. Ganhamos a eleição com uma grande margem, o que nos deixava com um sentimento indescritível: um misto de vitória e vibração, com receio do que poderia advir naquele novo cenário. Depois nossos colegas democratas e socialistas foram sendo eleitos para os diretórios acadêmicos e finalmente para o Diretório Central de Estudantes - DCE, cuja eleição, a exemplo do que ocorria na política geral, era indireta: cinco presidentes de diretórios elegiam o Presidente do DCE.

Em 1976, na eleição para o DCE o candidato dos democratas e das chamadas esquerdas era o estudante de Direito Jair Elói de Souza. Mas havia uma informação de que poderia ter seu nome vetado pela Assessoria de Segurança e Informação – ASI, por conta da sua atuação política. Havia a impressão de que o meu nome seria menos visado, daí a decisão de registrarmos a minha candidatura a Presidente do DCE. Caso a candidatura de Jair não fosse vetada, eu retiraria a minha. E foi o que aconteceu. Depois de confirmada a candidatura, retirei a minha e aquele colega foi eleito Presidente do DCE, entidade que tinha sede no prédio do IFRN da Avenida Rio Branco.

Cada fato político de importância nacional era comentado e discutido pelas lideranças estudantis universitárias, que diariamente planejavam suas atividades nos mais diversos locais, sempre driblando aqueles agentes dos órgãos de segurança que podiam até saber parte dos nossos roteiros, porém eram seguramente despistados. Mas chegavam a desenvolver ações mais diretas na tentativa de inibir o movimento.

Em dado momento houve uma manifestação de estudantes em São Paulo, com cerca de cem participantes. Era uma grande multidão para a época onde três pessoas conversando já preocupavam à repressão. O fato foi noticiado por mim através da Rádio Cabugi, onde trabalhava como redator. Poucos minutos depois o diretor da Rádio, José Gobat foi chamado a dar explicações na Polícia Federal, que funcionava perto da sua residência, em Tirol. Ia ser noticiado na Tribuna do Norte, através de matéria de Edilson Braga, mas a PF tomou conhecimento e Agnelo Alves foi chamado para receber a informação de que a matéria estava censurada.

Nos dias seguintes os estudantes de Natal elaboraram e divulgaram uma nota de apoio ao movimento de São Paulo, numa reunião de cerca de sessenta pessoas realizada no Campus. Como resultado, todos foram chamados a depor para dar explicações na ASI ou na Polícia Federal. Naquele tempo a agenda dos colegas era complicada. François Silvestre também fazia parte da nossa turma de Direito e havia sido preso pela PF. Em dado momento invadiram e fizeram uma busca na casa de Juliano Siqueira, situada na rua Jundiaí. Lembro de quando nos reencontramos com ele e ele relatou sobre coisas que levaram, inclusive alguns poemas de sua lavra. Não sei se os resgatou.

Minha namorada à época (home minha mulher), Graça foi chamada à ASI e sofreu pressões para afastar-se de mim e dos demais participantes do Movimento Estudantil. Fui caçado em casa e na rua, até que me pegaram na redação da Tribuna do Norte e fui levado a depor na Polícia Federal, onde compareci por três dias. Ali fizeram acareação minha com François, para tentar criar contradições em nossos depoimentos. Quando cheguei à PF e fui levado à presença do superintendente Hugo Pôvoa, o professor Varela Barca estava tratando da liberação de um curso de Russo para um dentista que necessitava de literatura naquele idioma. Varela Barca afirmou que a partir daquele momento estava ali como meu advogado. Mas o policial garantiu não ser necessário que permanecesse. Também meu irmão Wellington Medeiros, chegando de viagem a São Paulo foi até a PF tomar pé da situação. Estava terminando meu depoimento e fui liberado, saindo com ele.

Em 1977, para concluir o curso, candidatei-me a orador da solenidade geral de colação de grau. Apresentei o discurso a ser proferido e fui chamado pelo professor Paulo Soares, que sugeriu retirar o discurso para que não fosse vetado. Disse-lhe que não desistiria e que se tivessem de vetar, que o vetassem. Assim ocorreu. O discurso foi vetado e o orador da solenidade naquele ano foi um sargento do Exército. Paralelamente eu havia sido escolhido orador da turma de Direito. Resultado: o mesmo discurso vetado eu li na Aula da Saudade, que ainda tenho na memória. O professor Américo de Oliveira Costa fez referência ao meu discurso considerando-me um “idealista”.

Os fatos importantes daquela época passavam pela discussão do grupo, que reunia estudantes de todos os centros, bem como agregados das lutas democráticas e, pela clareza com que conseguia interpretar e orientar as ações, a maioria tratava, merecidamente, Juliano como o Mestre. O local era determinado pelas circunstâncias: uma sala de aula, um cinema, um bar, o cineclube. Juliano conseguia transmitir um imenso amor à causa do povo, uma fé na força popular, uma esperança num futuro livre daquelas aflições, uma certeza em meio a um imenso mar de dúvidas. A lembrança de escrever esse relato tem, portanto, como objetivo, deixar esse registro da homenagem ao amigo lutador, a quem os potiguares e brasileiros devem parte do que conquistaram a partir dos avanços democráticos das décadas seguintes aos anos 70.

*_JornalistaO Mestre

--- Walter Medeiros* – waltermedeiros@supercabo.com.br

A história do Rio Grande do Norte estaria incompleta se não fosse dada a verdadeira importância do Movimento Estudantil, que foi resgatado a duras penas por dedicados militantes que colocaram a luta contra a ditadura militar acima de qualquer outro interesse. Mas entre esses militantes existe uma pessoa cuja participação precisa ser bem situada, explicada e entendida. Trata-se de Juliano Siqueira, que já havia passado pelos porões da repressão e retomava sua vida estudantil como estudante de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN, a partir da inauguração do campus.

Juliano foi a maior referência da resistência, tanto pela sua experiência e preparo, como pela liderança nata que levou a estudantada a reunir-se em torno das lutas que eram identificadas como necessárias e indispensáveis. Era um tempo em que a sala de aula da nossa turma – tive o privilégio de ser seu colega de curso – reunia nada menos que oito agentes da Polícia Federal e outros órgãos de segurança. Tempo em que todos desconfiavam de praticamente todos. A relação de confiança para participação nas atividades políticas era algo construído com o máximo de cautela, mas era impossível não correr certos riscos.

Nesse cenário iam sendo retomadas as atividades da política estudantil, das quais lembro bem a primeira, a eleição do representante dos estudantes de Direito no colegiado do curso. Disputa acirrada entre um civil, no caso eu mesmo, e um estudante de Direito capitão da Polícia Militar, Domício Damásio. Ganhamos a eleição com uma grande margem, o que nos deixava com um sentimento indescritível: um misto de vitória e vibração, com receio do que poderia advir naquele novo cenário. Depois nossos colegas democratas e socialistas foram sendo eleitos para os diretórios acadêmicos e finalmente para o Diretório Central de Estudantes - DCE, cuja eleição, a exemplo do que ocorria na política geral, era indireta: cinco presidentes de diretórios elegiam o Presidente do DCE.

Em 1976, na eleição para o DCE o candidato dos democratas e das chamadas esquerdas era o estudante de Direito Jair Elói de Souza. Mas havia uma informação de que poderia ter seu nome vetado pela Assessoria de Segurança e Informação – ASI, por conta da sua atuação política. Havia a impressão de que o meu nome seria menos visado, daí a decisão de registrarmos a minha candidatura a Presidente do DCE. Caso a candidatura de Jair não fosse vetada, eu retiraria a minha. E foi o que aconteceu. Depois de confirmada a candidatura, retirei a minha e aquele colega foi eleito Presidente do DCE, entidade que tinha sede no prédio do IFRN da Avenida Rio Branco.

Cada fato político de importância nacional era comentado e discutido pelas lideranças estudantis universitárias, que diariamente planejavam suas atividades nos mais diversos locais, sempre driblando aqueles agentes dos órgãos de segurança que podiam até saber parte dos nossos roteiros, porém eram seguramente despistados. Mas chegavam a desenvolver ações mais diretas na tentativa de inibir o movimento.

Em dado momento houve uma manifestação de estudantes em São Paulo, com cerca de cem participantes. Era uma grande multidão para a época onde três pessoas conversando já preocupavam à repressão. O fato foi noticiado por mim através da Rádio Cabugi, onde trabalhava como redator. Poucos minutos depois o diretor da Rádio, José Gobat foi chamado a dar explicações na Polícia Federal, que funcionava perto da sua residência, em Tirol. Ia ser noticiado na Tribuna do Norte, através de matéria de Edilson Braga, mas a PF tomou conhecimento e Agnelo Alves foi chamado para receber a informação de que a matéria estava censurada.

Nos dias seguintes os estudantes de Natal elaboraram e divulgaram uma nota de apoio ao movimento de São Paulo, numa reunião de cerca de sessenta pessoas realizada no Campus. Como resultado, todos foram chamados a depor para dar explicações na ASI ou na Polícia Federal. Naquele tempo a agenda dos colegas era complicada. François Silvestre também fazia parte da nossa turma de Direito e havia sido preso pela PF. Em dado momento invadiram e fizeram uma busca na casa de Juliano Siqueira, situada na rua Jundiaí. Lembro de quando nos reencontramos com ele e ele relatou sobre coisas que levaram, inclusive alguns poemas de sua lavra. Não sei se os resgatou.

Minha namorada à época (home minha mulher), Graça foi chamada à ASI e sofreu pressões para afastar-se de mim e dos demais participantes do Movimento Estudantil. Fui caçado em casa e na rua, até que me pegaram na redação da Tribuna do Norte e fui levado a depor na Polícia Federal, onde compareci por três dias. Ali fizeram acareação minha com François, para tentar criar contradições em nossos depoimentos. Quando cheguei à PF e fui levado à presença do superintendente Hugo Pôvoa, o professor Varela Barca estava tratando da liberação de um curso de Russo para um dentista que necessitava de literatura naquele idioma. Varela Barca afirmou que a partir daquele momento estava ali como meu advogado. Mas o policial garantiu não ser necessário que permanecesse. Também meu irmão Wellington Medeiros, chegando de viagem a São Paulo foi até a PF tomar pé da situação. Estava terminando meu depoimento e fui liberado, saindo com ele.

Em 1977, para concluir o curso, candidatei-me a orador da solenidade geral de colação de grau. Apresentei o discurso a ser proferido e fui chamado pelo professor Paulo Soares, que sugeriu retirar o discurso para que não fosse vetado. Disse-lhe que não desistiria e que se tivessem de vetar, que o vetassem. Assim ocorreu. O discurso foi vetado e o orador da solenidade naquele ano foi um sargento do Exército. Paralelamente eu havia sido escolhido orador da turma de Direito. Resultado: o mesmo discurso vetado eu li na Aula da Saudade, que ainda tenho na memória. O professor Américo de Oliveira Costa fez referência ao meu discurso considerando-me um “idealista”.

Os fatos importantes daquela época passavam pela discussão do grupo, que reunia estudantes de todos os centros, bem como agregados das lutas democráticas e, pela clareza com que conseguia interpretar e orientar as ações, a maioria tratava, merecidamente, Juliano como o Mestre. O local era determinado pelas circunstâncias: uma sala de aula, um cinema, um bar, o cineclube. Juliano conseguia transmitir um imenso amor à causa do povo, uma fé na força popular, uma esperança num futuro livre daquelas aflições, uma certeza em meio a um imenso mar de dúvidas. A lembrança de escrever esse relato tem, portanto, como objetivo, deixar esse registro da homenagem ao amigo lutador, a quem os potiguares e brasileiros devem parte do que conquistaram a partir dos avanços democráticos das décadas seguintes aos anos 70.

*_Jornalista


4 de novembro de 2014

CONHEÇA SEUS DIREITOS

Caros leitores muito tem se falado na falência das construtoras e incorporadoras pelo Brasil afora, façamos alguns esclarecimentos sobre as controvérsias desse tema.

Primeiro saibamos a diferença entre uma incorporadora e uma construtora. O objetivo da incorporação imobiliária é formalizar junto ao cartório de imóveis como será o empreendimento, qual o número de unidades autônomas, as áreas das mesmas, o número de vagas de garagem, as áreas comuns. Somente a partir desse registro no cartório é que pode-se comercializar os apartamentos, também denominados como unidades autônomas, Assim, o responsável por todo esse processo é denominada de incorporadora ou incorporador.

Já a construtora é a empresa contratada e responsável para executar as obras do projeto incorporado de acordo com as especificações técnicas, o memorial descritivo e o prazo contratual, dentro das normas vigentes prezando pela melhor técnica.
Todos os riscos inerentes à construção são de responsabilidade da construtora como os acidentes do trabalho, o atraso nos pagamentos das medições por parte da incorporadora, execução de atividade fora de norma ou especificação que, no futuro, vai gerar reparos ou retrabalhos, pagamento de impostos sobre a mão-de-obra, responsabilidade técnica, etc.

Passado este entendimento vejamos os passos para aquisição de um imóvel na planta:

Tomada a decisão de concretizar o negócio é preciso ler atentamente o contrato, dando especial atenção aos seguintes pontos:
a) o objeto do contrato deve descrever detalhadamente as características do imóvel e do empreendimento onde está inserido;
b) a cláusula do preço e forma de pagamento deve contemplar corretamente os valores acordados e a forma de cálculo da correção monetária, quando for o caso, incidência de juros, índice e período de aplicabilidade, penalidades a que esteja sujeito o comprador na hipótese de inadimplemento e atraso no pagamento.
Outra cláusula de grande importância é a que estabelece o prazo de entrega das unidades e demais obrigações assumidas pela incorporadora, devendo constar uma multa por atraso na entrega da obra.
Também é interessante constar uma cláusula que, caso ocorrer este atraso deve a Incorporadora suspender imediatamente a continuidade da aplicação da correção monetária sobre o saldo devedor do imóvel, pelo Índice Nacional de Custo da Construção – INCC (esse é o índice que corrige os valores dos contratos de construção de imóveis).

Recomenda-se que o seu contrato seja registrado no cartório de registro de imóveis competente e que sejam guardados todos os materiais de publicidade para que numa eventualidade possam ser usados como prova das promessas anunciadas.

Os problemas mais comuns e o que deve ser levado em consideração na hora de optar pela compra de uma casa ou apartamento cujas obras ainda não foram iniciadas.
Custo da espera pode não compensar a compra
Um imóvel na planta tem uma vantagem clara: o preço. Caso seja bem negociado, pode ser de 20% a 25% mais barato do que o imóvel pronto para morar. 
Desistência do negócio pode dar prejuízo
De acordo com decisão do Superior Tribunal da Justiça (STJ), o consumidor pode receber de volta entre 75% e 90% do valor pago à construtora ou incorporadora caso desista da compra do imóvel durante a obra, informa o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec). O valor retido serve para cobrir custos administrativos da construtora.
O consumidor deve reunir provas que o levaram a desistir do imóvel para fundamentar os motivos da quebra de contrato. Posteriormente, é necessário elaborar um documento que deve ser assinado pelo comprador e a construtora, definindo as condições para devolução dos valores pagos.
Construtora pode enfrentar problemas durante a obra
Entidades de defesa do consumidor recomendam consultar sites especializados e visitar outros empreendimentos da construtora para verificar sua solidez antes de fechar a compra de um imóvel na planta. 

 

O mérito do Advogado é não fugir da luta, ao contrário, sua satisfação só se alcança com a vitória acerca da dificuldade.
Dr. Carlos Cardoso ,Advogado Causas cíveis ,trabalhistas e criminais.
Rua Desembargador José Gomes da Costa, 1645, Capim Macio – Natal/RN – contato (84) 9994 8435.




Financiamento de campanhas eleitorais e reforma politica

      Homero de O. Costa, prof. do Departamento de Ciências Sociais da UFRN.


                  Entre os dias 2 a 7 de setembro foi realizada a Semana Nacional de Luta pela Reforma Política Democrática, uma iniciativa de mais de 400 entidades da sociedade civil articuladas na Plataforma Nacional dos Movimentos Populares para uma Constituinte Exclusiva para a reforma do sistema político brasileiro. O objetivo da semana foi o de consultar a população para saber se ela é ou não favorável à convocação de um plebiscito para a realização de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do sistema político e ao mesmo tempo, recolher assinaturas para um Projeto de Lei de Iniciativa Popular para uma “reforma política democrática”.
                 A iniciativa é louvável porque se depender apenas do Congresso Nacional, não haverá nem plebiscito e muito menos uma reforma política. Por isso, a mobilização da sociedade civil organizada. A Plataforma Nacional dos Movimentos Populares elaborou um conjunto de propostas para uma reforma política e entre as mais importantes estão duas que também tem sido defendida pelas comissões especiais de reforma política do Congresso Nacional desde 1995, sem que sequer sejam votadas em plenário. Trata-se do fim das coligações em eleições proporcionais que, se aprovada significaria o fim das legendas de aluguel, que para aderir às coligações (já que sozinhas não teriam chances eleitorais) negociam, em troca de cargos e benesses, o horário eleitoral de rádio e televisão e, talvez a mais importante,  porque decisivo nas campanhas eleitorais, aprovar o financiamento público de campanhas, proibindo o financiamento privado.
            Se o Congresso Nacional não faz sua parte, a justiça eleitoral (TSE) tem feito e a cada eleição, avança no processo de moralização da eleições, com rigorosa fiscalização do processo eleitoral e através do artigo 36 da resolução 23.406/2014, contribui para a transparência desse processo,  tornando públicas as informações das prestações de contas dos partidos, candidatos e comitês financeiros, com a discriminação dos recursos arrecadados para financiamento de campanhas eleitorais. E nesse sentido, as duas parciais divulgadas a primeira em agosto e a segunda no início de setembro (dia 6) revelam as distorções e desigualdades do processo eleitoral brasileiro no qual o poder econômico, com o financiamento privado de campanhas, é cada vez mais decisivo. As eleições são cada vez mais caras. Segundo dados do TSE relativo às eleições de 2010 os gastos para campanha de um deputado federal foi, em média, R$ 1,1 milhão e para as eleições de outubro de 2014 a projeção é de que sejam em torno  R$ 3,5 milhões (e R$5,6 milhões para senador). Se são tão caras, quem as financiam? Basicamente as grandes empresas (construtoras, em particular) e os bancos. Em 2010, 91% do total arrecadados pelos partidos e candidatos foi de empresas e em 2014, a segunda parcial revela que chega a 95%, no qual apenas três empresas, sendo duas construtoras (OAS e Andrade Gutierrez) e o frigorífico JBS doaram 39% do total arrecadado.  Há, portanto, um seleto grupo de doadores. De 15.733 pessoas físicas e jurídicas que contribuíram com mais de R$ 100 reais na primeira prestação de contas feitas em agosto de 2014, apenas 32 empresas foram responsáveis por 50% do total arrecadado, tendo o frigorífico JBS se destacado como maior doador (qual será o interesse de um frigorífico em financiar campanhas eleitorais?) com R$ 59 milhões, seguida pela construtora OAS.  Na segunda parcial (divulgada no dia 6 de setembro de 2014), conforme levantamento da Transparência Brasil e Estadão Dados, a Construtora OAS, o frigorífico JBS e a Construtora Andrade Gutierrez, juntas, doaram quase R$ 64 milhões para os três principais candidatos a presidente da República. A OAS doou R$ 17 milhões, a Ambev (fabricante de bebidas) R$ 16,7 milhões e a Construtora Queiroz Galvão, R$ 11,3 milhões, além de bancos (Safra, Bradesco, BTG Pactual, Itaú Unibanco – e que doou mais dinheiro para o candidato do PSDB, Aécio Neves – R$ 2 milhões), empresas de telecomunicações como a telemont, hospitais (9 de julho, de São Paulo), planos de saúde (Amil Assistência Médica Internacional S/A que doou R$ 4 milhões para a campanha da presidente Dilma Rousseff e Bradesco Vida e Previdência, entre outras), além de construtoras como Norberto Odebrecht, UTC Engenharia S/A (doou  R$ 5 milhões para a campanha da presidente Dilma Rousseff e R$ 1 milhão para a de Aécio Neves), MRV Engenharia e participações S/A, entre outras que doaram para candidatos e partidos distintos, que mostra o pragmatismo dos doadores. A OAS é a líder no ranking de doações, com R$ 26,1 milhões repassados nos três primeiros meses de campanha. A principal beneficiária foi a presidenta Dilma Rousseff, que recebeu 77% do total. O JBS vem logo a seguir, com R$ 26 milhões (inclui doações da empresa Flora Produtos de Higiene e Limpeza, do grupo JBS) e a Andrade Gutierrez que doou R$ 11,8 milhões. No total, a maior beneficiada foi a presidente Dilma Rousseff que até o momento (segunda parcial) já arrecadou R$ 123,6 milhões (cerca de cinco vezes o valor declarado pelas contas da campanha presidencial do PSB, partido de Marina Silva), ou seja, mais da metade dos cerca de R$ 200 milhões declarados por todos os presidenciáveis nas duas parciais entregues ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em segundo lugar vem Aécio Neves (PSDB), com R$ 44,5 milhões, e em terceiro, Marina Silva cujo partido (PSB) declarou ter arrecadado R$ 24 milhões.
                O que vemos é poder econômico sendo cada vez mais decisivo nas campanhas eleitorais. Pelos dados da segunda parcial, são as grandes empresas e bancos que financiam as campanhas eleitorais e, assim a composição do Congresso Nacional (deputados federais e senadores) a exemplo da atual legislatura, deverá ser eleita, majoritariamente, financiada por eles e através de coligações (uma minoria é eleita com votos próprios) e a possibilidade de uma reforma politica que tenha o financiamento público como um dos objetivos, certamente não será aprovada. Daí a importância de iniciativa como a da Plataforma dos Movimentos Populares pela reforma do sistema político, porque, sem pressão população, não haverá reforma política e as eleições, cada vez mais caras, dependerão de financiamento de empresas, com suas  consequências (danosas)  para a representação política e para o sistema politico brasileiro.