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16 de agosto de 2020

Cinema no Alecrim

Anchieta Fernandes

O bairro do Alecrim tem um pioneirismo que pouca gente conhece (ou se lembra): foi nele que pela primeira vez foi mostrado cinema falado em Natal. A 08 de abril de 1931, uma quarta-feira, o primeiro filme falado em Natal foi visto no Cine-Teatro São Pedro. A velha casa de espetáculos da Aven. 10, n° 674 (ou Presidente José Leite) era considerada na época o maior e mais confortável cinema do Rio Grande do Norte. Fora inaugurado na Noite de Natal de 1930 com o filme “Vivendo e Aprendendo”, da Fox. Tinha 700 poltronas. Era propriedade da Empresa Medeiros & Cia., de Lauro Medeiros.
                           O filme que mostrou, naquela sessão inaugural de cinema falado, aos natalenses – dentro de um novo contexto de objetivos que prosseguiria nos dias, meses e anos seguintes, tirando de vez a era do cinema mudo em nossa capital, e despertando a concorrência da Empresa Cavalcanti & Cia., proprietária dos cinemas Politeama e Royal, e que pela mesma época anunciava a próxima inauguração de filmes falados nos referidos cinemas – foi “General Crack”, da Warner Brothers, um musical colorido, apresentando legendas em português e o trabalho de intérprete de John Barrymore.
                              O sistema Vitafone, reproduzindo o som de uma orquestra de 60 professores, veio acabar em Natal com a era das orquestras ao vivo, tocando por trás da tela. E serviu para que o poeta Jaime Wanderley, em artigo publicado no jornal “A República” de 12 de abril de 1931 (“As Cintas Sonoras””) já defendesse filmes falados em português, que “agradarão melhor, mesmo porque, são para o gosto e senso estético e artístico de nossa sociedade.”
                                 O que é inegável é que as sessões normais (7.30 da noite), as “soirées elegantes” (08 da noite) e as vesperais (05.30 da tarde) do Cine São Pedro, em filmes falados/musicados, vieram animar muito o setor de divertimentos do Alecrim. Anos e anos a velha casa de espetáculos foi ponto de encontro de gerações, e quando passou a exibir matinês, em sessões matutinas aos domingos, a criançada decidiu também formar em sua calçada o mercado sui-gêneris de troca, compra e venda de revistas de estórias em quadrinhos, precursor dos sebos natalenses.
                                    Mas o São Pedro não foi o único cinema no bairro. Antes, a 07 de outubro de 1923, no Alecrim já fora inaugurado o Cine José Augusto. Anos depois, mais outro cinema alecrinense foi inaugurado: o Cinema São Luiz, que foi chamado “Palácio Encantado do Alecrim”, inaugurado no sábado, 26 de outubro de 1946, com o filme “Amar Foi Minha Ruína” (do diretor John M.Stahl). Depois de anos e anos divertindo e educando o povo, em meados dos anos 60 o seu proprietário, Senador Luiz de Barros, vendeu o prédio ao Banco do Brasil (ao preço de 500 cruzeiros), e o palácio encantado desencantou-se, encerrando suas atividades a 07 de março de 1974 (uma quinta-feira), com a apresentação do filme “A Morte em Minhas Mãos” (dublado em inglês com o título “The Chinese Boxer”), filme feito em Hong-Kong, produzido pela Companhia Show Brothers Company, dos irmãos Rumne e Run Run.
                                           O Cine Alecrim, por sua vez, é do ano seguinte. Este cinema, de propriedade de Cristóvão Bezerra, e instalado à Praça Gentil Ferreira, com 400 plotronas, foi inaugurado no sábado, 13 de setembro de 1947, com o filme “Perseguidos”, onde se destacavam os astros Errol Flyn e Helmut Dantine. A sessão inaugural começando às 3.20 da tarde, com o público pagando Cr$ 2.40 pelo ingresso (mas com a possibilidade de algumas pessoas ganharem “valioso brinde”). Neste início do Cine Alecrim foram apresentados em seus salões, além de filmes, shows com cantores, mágicos e um deles com um recital de Zé Praxedes – o “poeta vaqueiro”.
                                              Outros cinemas tradicionais se conta na história do bairro que Palmira Wanderley chamou poeticamente “bairro do samba, da folia/Das advinhações e da magia/...bairro da feira domingueira,/Numa algazarra louca.” Um cinema tradicional: o São Sebastião, existindo na Rua dos Paianazes. Outro: o Paroquial, ao lado da Igreja de São Pedro, inicialmente pertencendo à paróquia, como o próprio nome diz. Deste, derivou o Cinema Olde, que foi inaugurado no sábado, 17 de janeiro de 1970, inicialmente passando filmes de 16mm.
                                                 A 17 de outubro de 1991, à Avenida Coronel Estêvam, foi inaugurado o Cine Espacial, com o filme “Darkman – Vingança Sem Rosto”. O proprietário do Cine Espacial era o Sr. Erinaldo Bezerra da Silva, e o gerente Vinício Canindé Fernandes. Mas este cinema durou pouco tempo.

                                                   Esta, a história cinematográfica do bairro pioneiro em cinema falado para o espectador natalense. Uma história que falta ser completada: quando algum cineasta se interessar em documentar a paisagem humana e sócio-cultural das suas feiras, da vida no centro comercial, dos tipos humanos, dos variados tipos de habitações, das suas festas (profanas e religiosas), até mesmo da forma de agir dos seus marginais – em fim, da psicologia e filosofia de vida de um povo que mescla raças e simboliza estratos sociais dos mais simples. 

11 de agosto de 2020

O cinema em Mossoró

 


Anchieta Fernandes
     
 Embora Natal tenha uma intensa e bonita história da presença da arte cinematográfica na capital, Mossoró também não deixou de marcar sua presença pioneira (v. primeira eleitora no Brasil, libertação dos escravos antes da Lei Áurea da Princesa Isabel) no setor. Veja-se bem: o primeiro cinema a existir no Rio Grande do Norte foi em Mossoró. Muito cedo, aliás, quase na infância da 7ª Arte, em 1908, Francisco Ricarte de Freitas inaugurou naquela cidade seu Cine-Teatro Dr. Almeida Castro.
       Quando começavam a espocar foguetões na praça do Almeida Castro, era sinal de que a fita havia chegado de Aracati; à noite haveria sessão de cinema – relembrou Lauro da Escóssia no livro “Memórias de um Jornalista de Província.” O Cine Almeida Castro, aliás, foi o primeiro que exibiu filme falado na capital do Oeste, o que ocorreu a 22 de novembro de 1933, apresentando a película “Ama-me Esta Noite”, com o ator e cantor Maurice Chevalier e a atriz Jeanethe McDonald. Outros cinemas mossoroenses foram:
        Cine Ferreira Chaves, inaugurado por J.Soeiros à Rua do Comércio (hoje, Rua Vicente Sabóia). Este cinema passou a ser chamado Cine Politeama quando José Vasconcelos e Antônio Filgueira o adquiriram. Em 1925, Bonifácio Costa e Cornélio Mendes inauguraram à Rua João Pessoa o Cine Glória, cujos proprietários deixaram existir “uma segunda classe, ao relento, por trás de sua tela. O letreiro aparecia pelo avesso”, e então os espectadores (e eram muitos) resolveram contratar um professor para ler as legendas em voz alta.
        Depois do Glória, foi a vez do Cine-Teatro Pax, de propriedade da empresa Cine-Teatro Mossoró S/A (Jorge de Albuquerque Pinto), localizado à Praça Rodolfo Fernandes, e inaugurado a 23 de janeiro de 1943 com o filme “A Formosa Bandida”. O Pax foi inaugurado com 1.200 cadeiras. Em entrevista concedida ao suplemento “Domingo”, do Jornal de Fato, edição 225, de 5 de novembro de 2006, o então proprietário do Pax, Luiz Pinto, revelou que os filmes que mais lotaram o cinema foram “Os Dez Mandamentos”, “O Ébrio”, e “Dio Como Te Amo.”
         Na reportagem “Decadência do cinema em Mossoró”, publicada no jornal natalense O Poti (edição de domingo, 22 de outubro de 1995), Emery Costa faz o levantamento histórico de todos os cinemas que existiram em Mossoró. Pelo qual, fica-se sabendo que após o Pax, veio o Cine Déa, no ano de 1944, de propriedade de José de Oliveira Costa, e gerenciado por José Moreira. Emery registra: “Em 28 de maio de 1955, o Cine Caiçara, inaugurado por Renato Costa, que dotaria ainda a cidade de um cinema de bairro, o Jandaia, à Avenida Alberto Maranhão.”

          Houve ainda o Cine São José, no bairro Paredões, por iniciativa de “José Bedéo”. Segundo o levantamento histórico de Emery, houve ainda o Cinema Rivoli, à Avenida Rio Branco, de propriedade de Lenilton Moreira Maia, e inaugurado em 1962 com o filme “Pecados de Amor”. A 22 de julho de 1964, foi inaugurado o Cine Cid, de um grupo liderado pelo político e empresário Dix-Huit Rosado. O primeiro filme apresentado foi “O Candelabro Italiano”. O Cine Centenário e o Cine Imperial foram os últimos cinemas de rua em Mossoró.

19 de julho de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( HÚNGARO - final )

Bené Chaves

A Hungria deu, antes da segunda guerra mundial, inúmeros artistas, diretores e produtores cinematográficos aos grandes estúdios da Europa e da América. E talvez por isso mesmo não tenha conseguido organizar sua própria indústria de filmes. O cosmopolita Alexander Korda (considerado um dos fundadores do cinema húngaro) foi um dos que deixaram sua pátria e passou a filmar em diversos países, enquanto o naturalizado americano Mihaly Kertesz (que mudou o nome para Michael Curtiz) também abandonava seu solo pátrio. São húngaros Geza von Bolvary, Paul Fejos, Geza Radvany, Peter Lorre e Frigyes Ban, entre outros.
            Em maio de 1949 a Hungria  perdia um notável teórico do cinema. Autor de ensaios de fundamental importância sobre a estética em geral, estabelece que a linguagem se realize pela montagem, enquadramento e grande plano. Estamos falando de Bela Balázs, que ainda diz: ‘talvez nenhuma outra arte permita constatar e avaliar o próprio aspecto e alcance social como a arte do cinema, a ponto de se poder dizer que no cinema a arte não é o mais importante’. Balázs foi autor de argumentos de fitas célebres, como A ópera de três vinténs (Pabst, 31), Em qualquer parte da Europa (Radvany, 47), e Pedaços da terra ( Frigyes Ban).
            Aliás, foi com Radvany e Ban que o cinema húngaro manifestou – no pós-guerra – toda a sua pujança, projetando-se pela primeira vez no cenário mundial. O tema da infância abandonada é abordado no filme Em qualquer parte da Europa (que foi exibido aqui em Natal ainda no tempo do Cine-clube Marista, uma época áurea e saudosa para quem a vivenciou), que o cineasta Nicolai Ekk já focalizara – mais de dez anos antes – em Caminho da vida, de 1931, o Vittorio De Sica em Sciuscià/Vítimas da tormenta, de 1945/46 e o espanhol Luis Buñuel em Los Olvidados/Os Esquecidos, que realizou no México em 1950.
            Foram com estes dois nomes, enfim, (Radvany e Ban) que o cinema na Hungria iniciou uma sólida confiança nas possibilidades e perspectivas de um futuro para o cinema do país.

11 de julho de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( SOVIÉTICO )

Bené Chaves

O cinema soviético foi um dos últimos a aderir ao período sonoro. O primeiro filme falado ‘Caminho da vida’, dirigido por Nicolai Ekk, data de 1930. Depois tivemos ‘O Desertor’ (1933), do também ator Vsevolod I. Pudovkin e ‘Groza’ (L’Orage, 1934) de Vladimir Petrov. Apesar do advento do som, alguns cineastas ainda fariam filmes mudos e Mikhail Romm realizou Boule de Suif/ Bola de Sebo, em 1934, numa adaptação de um conto de Maupassant. No mesmo ano Sergei Vassiliev fez Tchapaev. E o Dziga Vertov, um dos grandes pioneiros do cinema-documentário e que revolucionou a montagem, realizou também Três canções para Lênin, em 1934.

Alexandre Dovjenko, diretor de origem ucraniana( A Terra, exibido aqui entre nós na época do Cine-Clube Tirol, “quis mostrar o estado de uma aldeia ucraniana em 1929 no momento em que aí se produziam transformações econômicas e, sobretudo, de mentalidade”, segundo as palavras do próprio cineasta), fez em 1935 Aerogrado, em que críticos amadurecidos consideram o melhor filme sonoro do cinema soviético.
Surgem depois Pedro, o Grande(Petrov, 37/39), Alexandre Nevski/ Ivã, o Terrível(Eisenstein, 38/44), O General Suvurov/Guerrilheiros e Heróis(Pudovkin, 41) e A Batalha pela Ucrânia (Dovjenko, 45). São epopéias cinematográficas em que se revivem e atualizam os heróis da libertação popular.

O som para Pudovkin devia ser usado “para calibrar e aumentar a capacidade expressiva do cinema”. Mas, foi com O encouraçado Potemkin (Eisenstein, 25), na fase muda, que o cinema soviético conseguiu projeção e renome no mundo inteiro. É um filme que ficará gravado na memória do povo como um libelo contra as opressões fascistóides. (Vide versos abaixo sobre a bela seqüência nas escadarias de Odessa).

O clima hostil imposto à cinematografia soviética na última guerra mundial resultou na danificação de laboratórios e estúdios, enquanto técnicos e artistas morriam nas mãos dos inimigos. Porém a recuperação se mostrou rápida e febril. Em 1949, no festival de Marianske-Lazni, algumas produções soviéticas arrebataram significativos prêmios. Entre elas o laurel de melhor filme em favor da paz coube a Encontro no Elba(49), de Gregory Alexandrov. E com A batalha de Stalingrado(48/49, duas partes), Petrov conquistou o principal prêmio.

30 de junho de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( ESPANHOL )

Bené Chaves

O cinema espanhol nasceu em 1896, quando Fructuoso Gelabert rodou para os irmãos Lumière as primeiras fitas documentárias do país. Em 1924, Florian Rey, um talentoso jornalista, apaixonou-se pela chamada ‘sétima-arte’. Realizou, então, seu primeiro filme, A Revoltosa, em 1924. Era um grande nome do cinema mudo. Depois realizou Nobleza  Baturra, de 1935, um dos primórdios da fase sonora. Mas é preciso a gente embrenhar-se antes no período silencioso e citar o nome de Luis Buñuel, que escandalizou o mundo  com dois filmes: o curta-metragem feito juntamente com Salvador Dali, Um  cão Andaluz(com a célebre cena de um olho sendo cortado por uma navalha), realizado em 1928 e   A idade do ouro, de 1930, duas imagens de um cinema notadamente surrealista.
         Em 1936 o mesmo Buñuel roda na Espanha Las Hurdes, um respeitável libelo onde “plantou sua câmera nas ruelas estreitas daquelas aldeias sem chaminés, onde os homens vivem – e sobretudo morrem – como os burocratas teriam querido ver viver e morrer o casal de A idade do ouro. Porque a sua projeção perturba sempre a digestão dos ventres bem alimentados”(Ado Kyrou).  Este documentário foi exibido na França com o título de Terra sem pão.
         Outro cineasta desta fase sonora foi Benito Perojo, que realizou no período  A Bodega, em 1930,  quando soube juntar-se ao campo republicano e abandoná-lo na hora certa e filmar nos estúdios alemães O Barbeiro de Servilha, em 1939.  
         Portanto, estamos aí diante dos primeiros passos da fase sonora do cinema espanhol, onde despontaram poucos realizadores.


19 de junho de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( POLONÊS )

Bené Chaves

No início a Polônia nunca chegou a ter um grande cinema, embora já possuísse uma indústria de filmes antes mesmo da última guerra mundial. Dos atores anteriores à segunda guerra, apenas Póla Negri(1899/1987), cujo verdadeiro nome era Bárbara Apolônia Chalupiec, representava papéis de vampira no cinema mudo alemão(A múmia, 1917 e Madame du Barry, 1919, ambos de Lubitsch). Participou também de filmes sonoros entre 1935 e 1938. E quando chegou a Hollywood, uns dizem que em 1921 e outros em 1923, atuou novamente com o diretor Ernst Lubitsch em Paraíso proibido, realização de 1924. As más línguas (ou boas?) costumavam dizer que ela era uma ‘vamp’, acreditando que levava os homens que se aproximavam dela ao perigo e ao pecado. Conseguiu, portanto, atingir o estrelato nos estúdios alemães, americanos e britânicos. Foi a vedete de outras fitas de Lubitsch e uma excelente atriz.

                        Na última guerra os bombardeios nazistas e a invasão dos  soldados do ditador Adolf Hitler acabaram de aniquilar o pouco que restava da cinematografia polonesa. Em 1945 foram destruídos os primeiros estúdios da ‘Film Polski’, em Lodz, equipados com moderna aparelhagem importada da Suécia e França. Mas, no ano de 1948 construíram os estúdios de Varsóvia, destinados à produção de documentários.

                        Com a queda do ditador alemão, as nações estavam livres e reiniciaram os trabalhos em paz. No mesmo ano, perto da cidade polonesa, os técnicos arquitetaram a chamada ‘Cidade do filme’, centro industrial e artístico, funcionando também em Lodz um instituto para a formação de especialistas em todos os ramos da produção cinematográfica.

                        Eis, aí, em rápidas palavras, o início suado do cinema polonês e as dificuldades que o mesmo encontrou.       

13 de junho de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( ITALIANO )

Bené Chaves

O primeiro filme sonoro italiano foi ‘Canção de amor’/ La canzone del amore, dirigido pelo Gennaro Righelli e realizado em 1930. O roteiro foi extraído de uma novela de Pirandello, escrito pelo Giorgio Simonelli. Daí em diante todos os diretores da era muda puseram-se a falar.
                        Mário Camerini, o mestre da ‘ironia amável’ fez ‘La Riva dei Burti (1930)’ e ‘L’ Ultima aventura (1931), enquanto Alessandro Blasetti foi outro que também marcou e muito contribuiu no início da chamada era sonora. A colaboração e a participação do mesmo foram das mais proveitosas para o cinema italiano. Fez algumas fitas importantes para o começo de sua carreira, a destacar:  ‘Terra Mãe’ (1931), ‘Velha guarda’ (1934)  e ‘Ressurrectio’ (1930). É bom lembrar que Blasetti trabalhou também como ator em ‘Belíssima (1951), do Luchino Visconti. Interessante assinalar que o cineasta alemão Walter Ruttman foi peça importante a partir da fase sonora italiana. 
                        A lista de cineastas italianos vindos em grande parte da experiência sonora é simplesmente imensa. Muitos já morreram, alguns permanecem com menos ímpetos, outros surgem e se sobressaem. Daremos aqui alguns nomes que apareceram neste segundo pós-guerra:  Luigi Zampa, que conheceu o sucesso com ‘Viver em paz’ (1946), Alberto Lattuada, que passa pelo neo-realismo com ‘ Sem piedade’ (1947), Pietro Germi em ‘Juventude Perdida’ (1947) foi também um dos nomes importantes do neo-realismo, Guiseppe De Santis, que com ‘Trágica perseguição’(1947) fez o seu melhor filme, Vittorio De Sica, também do neo-realismo, iniciando como cineasta em ‘Rose Scarlatte” (1939). Não podemos deixar de citar o grande Luchino Visconti, que realizou já durante a Segunda Guerra, o seu primeiro longa, ‘Ossessione’, em 1942. Como também um Federico Fellini ou um Michelangelo Antonioni iniciando com o documentário Gente del Po, em 1943.
                        Ficamos, é claro, no início da era sonora. E aqui foi somente uma amostragem,  é lógico que faltam importantes nomes na continuidade da tecnologia do som no atualmente tão falado cinema italiano.

3 de junho de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( INGLÊS )

Bené Chaves

Anthony Asquith (1902/68) fez soar, em 1929, ‘A cabana de Dartmoor’ juntamente com o diretor alemão André-Ewald Dupont (1891/1956), depois de este ter ido trabalhar na Inglaterra e realizar ‘Atlântico’ também no mesmo ano. Foram, então, as primeiras vozes do cinema inglês. Na década 29/30 houve grande atividade nos estúdios britânicos e os cineastas de renome foram o próprio Asquith, Basil Dearden, William Howard, Alfred Hitchcock e o húngaro Alexander Korda. O húngaro era meio cosmopolita e realizou em Hollywood ‘A vida privada de Helena de Tróia’ (1927). Como parecia gostar das ‘vidas privadas’, fez mais duas, sendo uma de Don Juan (1934) e a outra, feita na Inglaterra, de Henrique VIII (1933), com o grande ator Charles Laughton em começo de carreira. Neste período duas obras se destacaram no gênero dramático: ‘Pigmalião’(1938) de Asquith e ‘Os 39 degraus’ (1935) de mestre Hitchcock.
Iniciou-se também o cinema-documentário e John Grierson, fundador da escola documentarista inglesa, foi o principal articulador, pois via o gênero como “um tratamento poético da realidade”. Trouxeram conhecimentos e experiências, enriquecendo a escola, o americano Flaherty, o brasileiro Alberto Cavalcanti e os soviéticos Eisenstein e Aleksandr Dovjenco. Destacamos ainda os pioneiros Arthur Elton, Basil Wright, Paul Rotha, Harry Walt, entre outros. Citamos alguns títulos realizados por esta equipe britânica: ‘Correio da noite’, ‘Mar do norte’, ‘Rostos de carvão’, ‘A voz de Londres’ e ‘Desemprego’.
Fitas que pertencem hoje à filmografia mundial datam da guerra e pós-guerra. Entre elas, ‘O caminho das estrelas (Asquith, 45), ‘Desencanto/Grandes Esperanças’(David Lean, 45/46),‘O condenado’(Carol Reed, 47), ‘Narciso negro/Os sapatinhos vermelhos’(da dupla Powell/Pressburger, 47/48), ‘Na solidão da noite’ (em cinco episódios e dirigidos por Charles Crichton, Alberto Cavalcanti, Robert Hamer e Basil Dearden, 45), ‘Henrique V/Hamlet’ (Laurence Olivier, 44/48), dentre outras.
Enquanto isso manobravam – no campo econômico – atrás dos bastidores da produção e distribuição cinematográfica o húngaro Alexander Korda e o industrial e principal exibidor britânico J. Arthur Rank.
Eis aí, portanto, em rápidas pinceladas, o começo da era sonora do cinema inglês. E com a participação de cineastas de outros países.




29 de maio de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA ( AMERICANO )

Bené Chaves

A partir de Alan Crossland com ‘Dom Juan’(26) e ‘O Cantor de Jazz’(27), primeiro filme falado e cantado e de King Vidor, com ‘Aleluia’(29), a produção sonora de Hollywood tomou novas dimensões e adquiriu um volume inigualável. Fitas de todos os gêneros se destacavam: policiais, westerns, musicais, tragédias, comédias, tragicomédias e etc, etc... Grandes filmes se sobressaíam ou mesmo se consagravam. Charlie Chaplin, o maior gênio e inventor do personagem Carlitos, sonoriza “Tempos Modernos” (1936) e chega mesmo a falar em “O Grande Ditador” (1940) e “Monsieur Verdoux” (1947).
Frank Capra, de origem siciliana, foi fotógrafo, auxiliar de diretor, ator, montador e gag-man durante o período silencioso. Algumas de suas comédias mais famosas na fase sonora: ‘O Galante Mr. Deeds’(36), ‘Do mundo nada se leva’(38), ‘Aconteceu naquela noite’(34), ‘Dama por um dia’(33) e A felicidade não se compra’(46).
O norte-americano Van Dyke, filho de uma atriz, iniciou-se no teatro antes de ser contratado por David Griffith como assistente para as filmagens de ‘Intolerância’(16). Seu primeiro filme sonoro ‘Sombras brancas nos mares do sul’(28), com co-direção de R. Flaherty, despertou atenção nas salas exibidoras e na crítica européia e foi bastante admirado pelos surrealistas. Daí em diante fez de tudo, para todos os gostos.
Robert Flaherty também não deve ser omitido, falando-se tanto da fase silenciosa quanto da sonora. Seu primeiro filme data de 1922, ‘Nanuk, o Esquimó’, destruído pelo fogo. Realizou ‘Tabu’, em 1931 com F.W. Murnau(‘Aurora’,27). Revelou-se principalmente em ‘Louisiana Story’(48), um documentário de grande força humana. Ele era, sobretudo, notável pela visão que tinha das pequenas comunidades isoladas do mundo, além do toque poético que impunha aos filmes. Era considerado o Jean-Jacques Rousseau da tela.
O inesquecível John Ford atingiu o clímax da criação cinematográfica na fase sonora. Fitas como ‘O Furacão’(1937), ‘No tempo das diligências’(1939), ‘Paixão dos Fortes’(1946), ‘As vinhas da ira’(1940), ‘O Delator’(1935) e outras, constituem os primeiros passos desta era. São obras que as platéias não esquecerão e ficarão marcadas como precursoras do som. Depois, obviamente, dois filmes, em definitivo, elevaram mais ainda o seu já consagrado nome: ‘Rastros de Ódio’(56) e ‘Depois do Vendaval’(52). Foi o cineasta que estudou a sociologia no Oeste americano.
A lista de diretores seria interminável... E de uma maneira, ou de outra, todos contribuíram para o surgimento do som no cinema. Citaríamos nomes como Ben Hecth, Henry Hathaway, James Whale, Franz Borzage, Stenrberg, Murnau, Fleming (‘O mágico de Oz’, 39), Dieterle (‘O corcunda de Notre-Dame’/39, versão com Laughton/Maureen O’Hara), William Wyler, Rouben Mamoulian (‘Ama-me esta noite’, 32, com a bela seqüência inicial anunciando o advento do cinema sonoro), Wellman (‘Asas’, 28), o genial Orson Welles( ‘Cidadão Kane’, 41) dentre alguns outros.


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25 de maio de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA (ALEMÃO)

Bené Chaves

        Embora o cinema italiano deva muitos favores a Walter Ruttman, foi ele um dos que primeiro falaram também no período alemão. Em 1929,  a ‘Tobis’ alemã exibiu ao público Melodia do Mundo, juntamente com outras fitas sonoras de Frank Clifford e Brauer. Os três iniciaram a chamada fase do  som.
        Joseph von Sternberg estreou em Hollywood ainda no período silencioso, onde triunfou, enquanto G.W. Pabst, vindo também da fase muda, fez na época  Rua das Lágrimas (25), O amor de Jeanne Ney(27) e a obra-prima A caixa de Pandora(28). E no período sonoro realizou Guerra, flagelo de Deus (30, versão alemã de Nada de novo no Front), A ópera dos pobres (31) e Camaradagem (31). Como viajava para diversos países, fez na França o seu Dom Quixote (33) e na Áustria realizou O Processo (47).
        Fritz Lang, outro nome importante do cinema na Alemanha, rodou Asssassino (28), seu primeiro filme sonoro. Fez o Testamento do Dr. Mabuse (32), na época, proibida  pela censura por ser uma obra anti-nazista. Deixando a Alemanha, Lang realizou na França Lilliom/Coração de Apache (33) e depois seguiu para Hollywood onde sua obra sofre um declínio assustador. Salvam-se apenas os filmes Fúria (36) e Vive-se uma só vez (37). Porém, o grande nome na filmografia deste cineasta não deixa de ser M, o vampiro de Dusseldorf  que realizou em 1931.
        Um dos mais famosos filmes sobre temas juvenis(Meninas de uniforme, 31)  foi realizado pela diretora Leontine Sagan com a participação de Carl Froelich e abordava o lesbianismo em um pensionato. Era um tema muito forte para a época. Já Goebbels lançou mão do cinema para fins políticos e guerreiros, utilizando o Hans Steinhoff como autor de Jovem Hitlerista Quex, realizado em 1933. As obras contrárias eram postas à revelia. E a Leni Riefenstahl, jovem atriz e bailarina, estreou no cinema em O inferno branco de Piz Palu (Pabst) e no ano de 1936 surgiu como diretora de documentários, onde destacaram-se O triunfo da vontade(36) e Olympia (38).
        Max Ophuls, grande nome do passado, autor do belo Lola Montés (55), realiza na época Liebelei/Uma história de amor (32) que  valeu sua celebridade. E o Willi Forst, ator e diretor austríaco, fez Correm suaves os meus cantos, tomando como base condutora a sinfonia inacabada de Schubert, fita datada de 1933. Depois realizou Mascarada (34), Mazurca (35) e o sucesso de Opereta (40), tendo  como base a música de Strauss.
        Slatan Dudow, mais um da safra, realizou na fase sonora um verdadeiro libelo contra a fome, a miséria e o desemprego, a chamada tríade de uma esfera social que acaba com as massas populacionais. Seu filme Kuhle Wampe ou A quem pertence o mundo?, foi roteirizado pelo Bertolt Brecht e realizado em 1932. Causou grande impacto aos espectadores de então.
        Eis aí, em rápidos traços, o começo da era sonora alemã.  




 

19 de junho de 2019

Os melhores filmes vistos nos anos 60 – II





                                          Cinema Rex - foto divulgação

Anchieta Fernandes

         O cinema Rex, situado no espaço, à Av. Rio Branco, onde hoje estão as lojas Insinuante e Express, teve uma bonita história na vida cultural de Natal. Idealizado e concretizado por Enéas Reis e Francisco Nogueira do Couto (Xixico, conhecido capitalista nos anos 30), ficou como mais um cinema da empresa Rex, administradora também dos cinemas Rival (na Ribeira), Royal Cinema (na Rua Ulisses Caldas) e  cinema São Pedro (no bairro do Alecrim).
      O Rex seria o primeiro cinema no Grande Ponto, ao lado do prédio da representação da Cruz Vermelha na cidade. Sua planta foi traçada pelo arquiteto Heitor Maia Filho e a construção do prédio esteve sob a direção do engenheiro Omar O`Grady, que já havia sido prefeito de Natal, criando o seu primeiro Plano Geral de Sistematização. O novo cinema foi inaugurado a 18 de julho de 1936 com o divertimento musical “Melodias da Broadway de 1936”, produção da Metro Goldwyn Mayer, enviada pela referida companhia, por via aérea, especialmente para a inauguração da nova casa de espetáculos cinematográficos de Natal.
         Na tela do Rex, depois, foram mostradas muitas obras-primas da Sétima Arte. Vejamos algumas, ou que pelo menos se aproximam desta categoria, e que marcaram a década 60 do espectador natalense no século passado com visuais e timbres qualitativos inesquecíveis, além do humanismo dos enredos. Lembre-se, por exemplo, Um Rosto na Noite, filme com o qual, em 1957, o diretor italiano Luchino Visconti antecipou-se a Antonioni e sua trilogia famosa (“A Aventura”, “A Noite” e “O Eclipse”), com o enfoque preciso de um fotógrafo sensível (como o Giuseppe Rotunno deste filme), na beleza estética de um preto-e-branco a comunicar o trágico sentimento de seres solitários. O filme estava em cartaz no Rex a 01 de maio de 1960.
          Um ano depois, precisamente a 11 de maio de 1961, o velho cinema trintenário dava de presente ao nosso espectador a magia do filme de marionetes Velhas Lendas Tchecas. Realizado em 1953 pelo mestre Jiri Trnka, consegue, com a linguagem de um verdadeiro cine-balé, iluminar de forma bem criativa a história e o folclore de um povo, os filhos da Tchecoslováquia.
              Seguiu-se, em 1962, a exibição da grande obra-prima da nouvelle vague, o filme que às vezes lidera listas dos melhores filmes de todos os tempos (como aconteceu na escolha da crítica cinematográfica, que em março/abril de 1980, pôs em primeiro lugar para o suplemento cultural “Contexto”, do jornal “A República”, o referido filme): Hiroshima, Meu Amor, realização de 1959 de Alain Resnais, e que estava em cartaz no Rex a 06 de maio de 1962, trazendo uma revolução de linguagem (planos-sequência, imagens trabalhadas em laboratório, junção de cenas em incríveis visualizações de flashes de ao mesmo tempo memória e esquecimento, documentários crus dos efeitos da bomba atômica sobre o cenário urbano e sobre as pessoas) para formar um novo tipo de espectador.
           Quando o Cine Clube Tirol criou as sessões do Cinema de Arte, escolheu o Rex para nele serem exibidos os filmes, começando com o ótimo Glória Feita de Sangue, do diretor Stanley Kubrick, de 1957 e em sessão de 16 de fevereiro de 1963. É uma forte denúncia do carreirismo dos oficiais superiores durante a Primeira Guerra Mundial, que não se pejam de contribuirem para o massacre dos seus soldados, contanto que a honra deles, oficiais, não seja atingida.
          Na seqüência, o cinema Rex mostrou outro ótimo filme, de autoria não de um norte-americano mas de um brasileiro, um dos criadores do movimento cinema novo. Trata-se de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1959, de Glauber Rocha, de teor revolucionário (em tema e linguagem), visto em sessão de 04 de outubro de 1964. E a 28 de abril de 1965, sendo exibido El Cid, bem realizado épico histórico, por Anthony Mann, em 1961.
        Vieram, em seguida, a ser apresentados no Rex, obras-primas inesquecíveis: Os Reis do Iê-Iê-Iê, de 1964, de Richard Lester, exibido a 26 de janeiro de 1966; Sempre aos Domingos, de 1962, de Serge Bourguignon, exibido a 18 de julho de 1967; O Eclipse, de 1962, de Michelangelo Antonioni, exibido a 03 de março de 1968; e O Fofoqueiro, de 1967, de Jerry Lewis, exibido a 18 de outubro de 1969.
         O cinema Rex fechou as portas após a sua última sessão, que foi na noite de 30 de julho de 1984, exibindo o filme A Morte em Minhas Mãos, feito em Hong Kong pela dupla de irmãos Rumne e Run-Run, da Show Brothers Company, sem um mínimo de qualidade, ao contrário do que se pode deslumbrar em outro filme de caratê, O Tigre e o Dragão, do consagrado diretor Ang Lee.

28 de maio de 2019

FILMES QUE NÃO ESQUECI


Bené Chaves

Os filmes que a gente nunca esquece – na maioria das vezes - eu acho que são justamente aqueles de valores artísticos indiscutíveis. Mas, existem também os de valores estimados e que marcaram nossas vidas por um fato ou outro. Mesmo que não sejam assinalados pela excepcionalidade.
É o caso aqui de, por exemplo, ‘Férias de Amor’, de Joshua Logan e que vi pela primeira vez - no dia 3 de dezembro de 1957 - no sempre saudoso cine Rex. E que, aliás, é um bom filme. Assisti ainda na pré-adolescência e deixou em mim um sinal de carinho na minha quase meninice. Eu tinha na época uns 13 anos e a atriz principal (Kim Novak) me encantou com sua beleza deslumbrante. E, daí por diante, não mais o esqueci, nem o filme e nem a atriz, claro.
E quem poderia esquecer-se de ‘Tempos Modernos’ do genial Charles Chaplin e que vi no cine Rex no finzinho de 1958?
Outros exemplos poderiam ser citados como ‘Amor na Tarde’, com a delicada Audrey Hepburn e a boa direção de Billy Wilder, filme que vi em 18 de abril de 1959 no, então, cine Nordeste; depois poderia citar ‘Por ternura também se mata’, do René Clair, exibido aqui em Natal em julho de 1959, no cinema Rex e que, na época, me deixou uma boa impressão; também citarei e não esquecerei ‘Um rosto na multidão’, do Elia Kazan, ‘Depois do vendaval’(um Ford delicioso), ‘Um corpo que cai’(novamente com a deslumbrante Kim Novak, aqui em papel duplo- loira e morena) e ‘O príncipe e a parisiense’, com a estonteante Brigitte Bardot e que inaugurou o cinema Nordeste em dezembro de 1958. E miss Bardot viria ‘arrepiar’ novamente em ‘...E Deus criou a mulher’, onde ela exibiu  o seu dom fascinante e excitou a nossa libido de jovem mancebo. 
 Foram filmes que não esqueci porquanto também iniciava na chamada ‘sétima-arte’ e estava na adolescência, idade-chave para alumbramentos e coisa e tal.
Mais tarde vi ‘A marca da maldade’, um Welles fabuloso, assim como ‘Rastros de ódio’, outra obra-prima de John Ford. Não poderei esquecer também de ‘Hiroshima meu amor’, o excepcional filme de Alain Resnais, assim como ‘A Doce Vida’, do mestre Federico Fellini. Nesse entremeio poderia citar ‘Quero viver’(1958), que vi em novembro de 1961 no cine Nordeste e também ‘Brinquedo proibido’, do René Clement, visto em abril de 1962 no mesmo cinema,     além de ‘O encouraçado Potemkin’(1925), marco maior do então cinema soviético.
Sem falar, claro, de como vi ‘O martírio do silêncio’(Mackendrik, 1952) no dia 13 de outubro de 1961 no cine São Pedro, o único filme que assisti naquela outrora casa de exibições. Como não lembrar o encantamento que o mesmo trouxe para mim? E poderia esquecer o belo final de ‘Os brutos também amam/Shane’ que assisti em 17 de abril de 1962 no Rio Grande?
E como deixar cair no esquecimento ‘Rocco e seus irmãos’, do Luchino Visconti, que o cine Nordeste exibiu em junho de 1963?E de como fomos assistir (juntamente com os saudosos Moacy Cirne e Berilo Wanderley) a ‘O Processo’, de Orson Welles, no Recife, quase no final do mesmo ano? E de também ‘Clamor do sexo’ no mesmo período? É claro que não poderei esquecer-me da atriz Jean Seberg andando e vendendo jornais nas ruas de Paris em ‘Acossado’, do polêmico Jean-Luc Godard. Assim como também da incrível panorâmica de carros enfileirados (em ‘Week-end à francesa’, do mesmo Godard) que se prolonga por uns sete minutos com a câmera lentamente mostrando seu desfecho trágico. Aqui a radicalidade atingindo o clímax.   
E do emblemático ‘No tempo das diligências’ no Cine Clube Tirol, em janeiro de 1964? E do otimismo de ‘A felicidade não se compra’, quem poderia esquecer? E do melhor Truffaut em ‘Jules e Jim’ com a fascinante Jeanne Moreau? Não poderei esquecer também de ‘A Aventura’, do Antonioni, assim como não esquecerei ‘Deus e o Diabo na terra do sol’, o melhor Glauber Rocha e de ‘Vidas Secas’, o melhor Nelson P. dos Santos. E do melhor Fritz Lang em ‘M, o vampiro de Dusseldorf’, quem poderia esquecer?
Como esquecer ‘Amor sublime amor’, que vi pela primeira vez no cine Panorama em março de 1967? E de ‘Cidadão Kane’, que vi no dia 9 de abril do mesmo ano? Não poderia esquecer nunca ‘Oito e meio’, o melhor trabalho de Fellini. E ‘O anjo exterminador’, de Buñuel, também sua obra máxima. E também não poderia esquecer ‘Persona’, a obra-prima de Ingmar Bergman, assim como ‘2001: uma odisséia no espaço’, do Stanley Kubrick. E o que dizer de ‘O ano passado em Marienbad’, que vi pela primeira vez (na Aliança Francesa) em setembro de 1967? Sempre me lembrarei, claro. 
E ‘Luzes de cidade’, do genial Chaplin, quem poderia esquecer? E ‘Meu Tio’, outra comédia excelente do Jacques Tati, você esqueceria?  Outra fita importante e que não esquecerei: ‘O último Tango em Paris’, que depois de proibida pela Censura formou uma gigantesca fila no cine Nordeste em janeiro de 1980. E ‘Cantando na chuva’, com o genial Gene Kelly, eu não poderia jamais esquecer.
Como não lembrar sempre de ‘Desencanto’, a obra-prima de David Lean?  E de ‘Terra Prometida’, de polonês Wajda, que vi no saudoso Rio Grande (hoje transformado, infelizmente, em um ‘palco do horror’) em outubro de 1982? E de ‘Mephisto’(que vi em janeiro de 1984 no Rio de Janeiro e revi aqui em Natal em DVD) e de ‘Despair – uma viagem para a luz’, do Fassbinder e com uma performance excepcional do Dirk Bogarde? Aliás, incluo também ‘O criado’, do Losey, em outra criação fantástica do Bogarde.
Enquanto vida tiver, obviamente, me lembrarei de ‘1900’, do Bertolucci e que retrata toda a história do fascismo no Itália, assim como de ‘O Baile’, mostrando (sem diálogos) quatro décadas da vida política e social na França. E de ‘Aurora / Sunrise’, como esquecer? Feito em 1927 o filme de Murnau revela, entre outros fatos, de como o amor e o ódio andam juntos dos seres que se dizem humanos.
Não posso me esquecer de ‘O Poderoso Chefão’(1972), uma aula de cinematografia dada pelo Francis Ford Coppola. E nem de ‘Morte em Veneza’, outro belo filme que o Visconti realizou em 1971. Também não esquecerei ‘A dupla vida de Veronique’, admirável fita do polonês Krzysztof Kieslowski. E também não posso deixar sair da memória as belas e fortes cenas de ‘O martírio de Joana D’Arc’, do Dreyer. E como ignorar ‘A regra do jogo’, do Renoir? Poderei esquecer ‘Crepúsculo dos Deuses’, o magnífico filme do Wilder? E de Eric Rohmer, cineasta que só vim a conhecer em DVD, como esquecer grande parte de seus filmes (entre eles ‘Conto de Verão’, ‘Amor à Tarde’ e ‘Minha noite com ela’) - especialmente os da série ‘os contos das quatro estações’ – com belos relatos de amor e desamor?   
E como esquecer o belo e apocalíptico ‘O Cavalo de Turim’, produção de 2011 do cineasta húngaro Béla Tarr e que vi bem recentemente? Na continuidade irei ver outros filmes deste diretor, acredito que sim.
É certo que faltaram algumas outras fitas inesquecíveis...


 
                
       

28 de março de 2019

A SONORIDADE NO CINEMA (1) Americano




Bené Chaves
         A partir de Alan Crossland com ‘Dom Juan’(26) e ‘O Cantor de Jazz’(27), primeiro filme falado e cantado e de King Vidor, com ‘Aleluia’(29), a produção sonora de Hollywood tomou novas dimensões e adquiriu um volume inigualável. Fitas de todos os gêneros se destacavam: policiais, westerns, musicais, tragédias, comédias, tragicomédias e etc, etc... Grandes filmes se sobressaíam ou mesmo se consagravam. Charlie Chaplin, o maior gênio e inventor do personagem Carlitos, sonoriza “Tempos Modernos” (1936) e chega mesmo a falar em “O Grande Ditador” (1940) e “Monsieur Verdoux” (1947).
         Frank Capra, de origem siciliana, foi fotógrafo, auxiliar de diretor, ator, montador e gag-man durante o período silencioso. Algumas de suas comédias mais famosas na fase sonora: ‘O Galante Mr. Deeds’(36), ‘Do mundo nada se leva’(38), ‘Aconteceu naquela noite’(34), ‘Dama por um dia’(33) e A felicidade não se compra’(46).
         O norte-americano Van Dyke, filho de uma atriz, iniciou-se no teatro antes de ser contratado por David Griffith como assistente para as filmagens de ‘Intolerância’(16). Seu primeiro filme sonoro ‘Sombras brancas nos mares do sul’(28), com co-direção de R. Flaherty, despertou atenção nas salas exibidoras e na crítica européia e foi bastante admirado pelos surrealistas. Daí em diante fez de tudo, para todos os gostos.
         Robert Flaherty também não deve ser omitido, falando-se tanto da fase silenciosa quanto da sonora. Seu primeiro filme data de 1922, ‘Nanuk, o Esquimó’, destruído pelo fogo. Realizou  ‘Tabu’, em 1931 com F.W. Murnau(‘Aurora’,27). Revelou-se principalmente em ‘Louisiana Story’(48), um documentário de grande força humana. Ele era, sobretudo, notável pela visão que tinha das pequenas comunidades isoladas do mundo, além do toque poético que impunha aos filmes. Era considerado o Jean-Jacques Rousseau da tela.
         O inesquecível John Ford atingiu o clímax da criação cinematográfica na fase sonora. Fitas como ‘O Furacão’(1937), ‘No tempo das diligências’(1939), ‘Paixão dos Fortes’(1946), ‘As vinhas da ira’(1940), ‘O Delator’(1935) e outras, constituem os primeiros passos desta era. São obras que as platéias não esquecerão e ficarão marcadas como precursoras do som. Depois, obviamente, dois filmes, em definitivo, elevaram mais ainda o seu já consagrado nome: ‘Rastros de Ódio’(56) e ‘Depois do Vendaval’(52). Foi o cineasta que estudou a sociologia no Oeste americano.
         A lista de diretores seria interminável... E de uma maneira, ou de outra, todos contribuíram para o surgimento do som no cinema. Citaríamos nomes como Ben Hecth, Henry Hathaway, James Whale, Franz Borzage, Stenrberg, Murnau, Fleming (‘O mágico de Oz’, 39), Dieterle (‘O corcunda de Notre-Dame’/39, versão com Laughton/Maureen O’Hara), William Wyler, Rouben Mamoulian (‘Ama-me esta noite’, 32, com a bela seqüência inicial anunciando o advento do cinema sonoro), Wellman (‘Asas’, 28), o genial Orson Welles( ‘Cidadão Kane’, 41) dentre alguns outros.


28 de dezembro de 2018

PATHÉ CINEMA


Anchieta Fernandes

O ano de 1913 foi muito feliz (não deu azar a terminação em 13) para a Sétima Arte em Natal, pois foi o ano em que se inauguraram dois cinemas em nossa cidade: o Pathé Cinema, de propriedade de Antônio Serrano (o nome todo de Antônio Serrano era Antônio Serrano Filho), situado à Avenida Tavares de Lira e inaugurado numa quarta-feira, dia 19 de fevereiro de 1913; e o sempre lembrado Royal Cinema, de propriedade da firma Paiva & Irmão, situado na Cidade Alta (aliás, foi o primeiro cinema a se inaugurar no bairro) e inaugurado numa segunda-feira, dia 13 de outubro de 1913.
O que é que significava o nome Pathé de tão importante para denominar o novo cinema de Natal, depois do Cinema Natal e do Politeama? Era uma homenagem a um dos pioneiros da Sétima Arte, o francês Charles Pathé. Nascido em Chevry-Cossigny, a 25 de dezembro de 1863 (há 150 anos), ele comprou um fonógrafo de Thomas Edison e o expôs em uma festa em 1894. Depois, passou a vender mais fonógrafos, e logo descobriu também outra novidade tecnológica da Belle-Époque projetores de filmes, que eram então produzidos isoladamente, enão industrialmente.
Ele pensou pioneiramente e foi a mola propulsora do início do cinema no contexto da revolução industrial comunicacional, aindaantes de Hollywood se afirmar, convocando seus irmãos Emile, Jacques e Théophile criou em Vincennes, em 1896, a empresa Pathé Frères, inicialmente apenas dedicadaa à venda de projetores de filmes. Mas Charles Pathé era um homem dinâmico não somente do ponto de vista industrial, mas também intelectual. Expressou certa vez um pensamento: “o cinema será o teatro, o jornal e a escola de amanhã”. Quem falava assim, não era apenas um comerciante.
Logo, os Pathé Freres começaram a produzir seus próprios filmes (dois dos primeiros foram “A Quadrilha” e “Moulin Rouge”,este realizado em 1897”. Foi criado o símbolo da companhia, por sinal coincidentemente tendo a ver algo com Natal, pois o símbolo era um galo que surgia na tela, batia as asas e abria o bico (como se estivesse cantando, embora não se ouvisse nada, pois ainda era a época do cinema mudo) e o galo é um dos símbolosde Natal, fixado na nossa memória pela imponência singela do galo metálico na torre da Igreja de Santo Antônio, e pelos galos de louça da artesã Loma Nenem.
Em 1901, Charles deixou sue irmão Emile como administrador de venda de projetores, e partiu para concretizar seus sonhos mais altos. Construiu seu estúdio de produção de filmes, laboratórios e contratou outro inventivo sonhador: o ator Ferdinand Zecca, vindo do chamado café-concerto parisiense. Enquanto Zecca se afirmava como autor dos argumentos, ator e diretor dos filmes produzidos pela empresa, Charles pesquisava a melhoria dos aparelhos projetores, criando o filme de 9,5 milímetros com perfurações centrais, facilitando o uso da câmera por cineastas amadores.
Zecca realizou em 1902 o filme “História de um crime” que é considerado o primeiro filme policial da história do cinema. Depois da primeira guerra mundial, os Pathé Freres criaram o Pathé Color, produzindo e distribuindo filmes para todo o mundo, e construindo e monopolizando salas exibidoras em vários países. A essas alturas, o Pathé Journal já fora lançado, iniciando a modalidade que seria normal no cinema e depois na televisão, do noticiário cinematográfico contínuo, registrando filmicamente o que se passava dia a dia nas ruas e ambientes interiores do mundo.
Numa das apresentações do Pathé Journal bastante emocional para os espectadores foi noticiada “A travessia do Canal da Mancha por Bleriot”, visto nos anúncios do Cinema Natal, em 1909, como o feito mais importante da aviação. É que o engenheiro e aviador francês Louis Bleriot batera o recorde, a 25 de jullho de 1909, sobrevoando o Canal da Mancha em trinta e dois minutos, em um aparelho de sua invenção. Pelo imediatismo do seu feito foi premiado, recebendo mil libras, oferecidas pelo jornal inglês Daily Mail, que circulava em Londres.
Em 1908, a quantidade de filmes começados com o galo batendo asas e cantando silenciosamente e vendidos nos Estados Unidos era maior que a dos filmes produzidos pela terra do òscar. Um homem de cinema alemão chegou a dizer de Charles Pathé: “ganhou no nosso país muito mais do que os cinco milhões pagos pela França após 1871” (ele estava falando de indenização paga pela França à Prússia – como se chamava a Alemanha - após perder na guerra entre ambos os países nos anos de 1870/1871; a proposta de paz da Prússia provocou a insurreição popular de sentido marxista, conhecida como Comuna de Paris).
Afinal, não se deve esquecer que os Pathé Freres produziram desde que Ferdinand Zecca entrou para a equipe, uma série de filmes que fizeram sucesso, como as comédias “A Sopeira”, “A Megera Recalcitrante”, “As Lentes da Vovó”, “Como Fabiano vem a ser Arquiteto”, “A Batalha dos Travesseiros”, ou, no outro lado do interesse da emoção humana, os dramas sociais, como “Um Drama na Mina”, “A Vida Perigosa”, “A Honra de um Pai”, “A Escola da Infelicidade”, “Vítima do Alcoolismo”; Zecca também realizou um filme endereçado as pessoas de fé cristã, uma “Vida de Jesus”, e alguns filmes infantis.
Além dos seus filmes vistos na América do Sul, e dos vários cinemas com o nome Pathé em cidades de vários países da América do Sul, este nome, Pathé, influenciou, parece, um fato cinematográfico pioneiro aqui no Rio Grandedo Norte; foi a primeira filmagem de terras norte-rio-grandenses. A 21 de dezembro de 1922, uma quarta-feira, descendo do hidroavião Sampaio Correia II (primeiro avião a cruzar os céus do Brasil vindo dos Estados Unidos, e também o primeiro a sobrevoar e pousar no Rio Potengi), o cinegrafista John Thomas Baltzel, da Companhia Pathé News, fez estas filmagens.
A diferença entre os irmãos Pathé e antecessores como Lumiére e Meliès e’que, enquanto estes últimos mandavam seus câmeras-mens irem filmar pelo mundo, para voltarem a Paris e apresentarem na capital francesa o material filmado, os Pathé começaram a instalar sucursais próprias nos diversos países, tanto da Europa (Bélgica, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Rússia), como da América (Estados Unidos) e, inclusive, da Ásia (Índia e Singapura). Assim, filmes feitos nestes países eram primeiro vistos localmente, e depois mostrados aos parisienses. Com isso, se criavam novos tipos de espectadores.
E se enriqueceram as situações temáticas, já que países diferentes tem costumes e tradições diferentes, e os cinegrafistas procuravam focalizar as peculiaridades antropológicas testemunhadas. Foram se definindo o filme histórico, o filme de mágicas e circenses, filmes políticos, filmes esportivos, filmes religiosos. Além das variações dos dramas cotidianos (às vezes mesclados de humor). Como pioneiros, os estúdios Pathé criaram até histórias que depois cineastas famosos reutilizaram. Como o filme “Le Voleurs de Bicyclette”, de 1905, e que Vitorio De Sica refilmaria em 1948, apenas pluralizando o título.
Mas nas décadas vinte e trinta, o sonhador e inventor começou a ser cercado pelas empresas endinheiradas, cujos diretores já haviam notado o quanto o cinema e outras invenções vindas do século dezenove seriam fonte de lucro. Em 1928, os Pathé Freres, que haviam feito aperfeiçoamentos revolucionários na tecnologia de gravação do som, substituindo o cilindro de gravação pelo disco de gravação vertical e depois lateral, não resistiram à oferta e venderam sua indústria de fonógrafosà English Columbia Company. Enquanto isso, a poderosa RKO Radio Pictures Filme começou a voltar as vistas para a empresa Pathé Freres.
Não deu outra: em 1931, a RKO comprou o que restava dos setores de produção e distribuição de filmes do império dos Pathé Freres, que já se estendia até a Austrália e Japão.... e Brasil, é claro. Charles recolheu-se à Mônaco, vindo a falecer em Monte Carlo a 26 de dezembro de 1957. Pelo que fez pela arte cinematográfica, tanto em termos de invenções para melhorias técnicas, quanto em termos de criação de um mercado consumidor para os filmes produzidos merece ser sempre homenageado ainda hoje; donos de cinema em todo o mundo não fazem mais do que justiça pondo o nomePathé nas fachadas dos prédios.
Bibliografia:
“DBU – Dicionário Biográfico Universal Três” – Tonso, Lívia De Caroli e Minillo, Marcia Maria, 2ª edição, Três Livros e Fascículos Ltda., 1984.
“Dicionário dos Cineastas”; Sadoul, Georges, Livros Horizonte, 1979.
“Le Cinéma”; Charensol, Georges, Libraírie Larousse, 1966.
“1000 Que Fizeram 100 Anos de cinema”; Pereira, Arley e Castellon, Lena, ISTO É, The Times, Editora Três Ltda., sem data.

“Romance do Gato Preto”; Ortiz, Carlos, Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, sem data


9 de outubro de 2018

O cinema em Mossoró


                                                                                                 Cine Pax
           
           Embora Natal tenha uma intensa e bonita história da presença da arte cinematográfica na capital, Mossoró também não deixou de marcar sua presença pioneira (v. primeira eleitora no Brasil, libertação dos escravos antes da Lei Áurea da Princesa Isabel) no setor. Veja-se bem: o primeiro cinema a existir no Rio Grande do Norte foi em Mossoró. Muito cedo, aliás, quase na infância da 7ª Arte, em 1908, Francisco Ricarte de Freitas inaugurou naquela cidade seu Cine-Teatro Dr. Almeida Castro.
           Quando começavam a espocar foguetões na praça do Almeida Castro, era sinal de que a fita havia chegado de Aracati; à noite haveria sessão de cinema – relembrou Lauro da Escóssia no livro “Memórias de um Jornalista de Província.” O Cine Almeida Castro, aliás, foi o primeiro que exibiu filme falado na capital do Oeste, o que ocorreu a 22 de novembro de 1933, apresentando a película “Ama-me Esta Noite”, com o ator e cantor Maurice Chevalier e a atriz Jeanethe McDonald. Outros cinemas mossoroenses foram:
            Cine Ferreira Chaves, inaugurado por J.Soeiros à Rua do Comércio (hoje, Rua Vicente Sabóia). Este cinema passou a ser chamado Cine Politeama quando José Vasconcelos e Antônio Filgueira o adquiriram. Em 1925, Bonifácio Costa e Cornélio Mendes inauguraram à Rua João Pessoa o Cine Glória, cujos proprietários deixaram existir “uma segunda classe, ao relento, por trás de sua tela. O letreiro aparecia pelo avesso”, e então os espectadores (e eram muitos) resolveram contratar um professor para ler as legendas em voz alta.
           Depois do Glória, foi a vez do Cine-Teatro Pax, de propriedade da empresa Cine-Teatro Mossoró S/A (Jorge de Albuquerque Pinto), localizado à Praça Rodolfo Fernandes, e inaugurado a 23 de janeiro de 1943 com o filme “A Formosa Bandida”. O Pax foi inaugurado com 1.200 cadeiras. Em entrevista concedida ao suplemento “Domingo”, do Jornal de Fato, edição 225, de 5 de novembro de 2006, o então proprietário do Pax, Luiz Pinto, revelou que os filmes que mais lotaram o cinema foram “Os Dez Mandamentos”, “O Ébrio”, e “Dio Como Te Amo.”
           Na reportagem “Decadência do cinema em Mossoró”, publicada no jornal natalense O Poti (edição de domingo, 22 de outubro de 1995), Emery Costa faz o levantamento histórico de todos os cinemas que existiram em Mossoró. Pelo qual, fica-se sabendo que após o Pax, veio o Cine Déa, no ano de 1944, de propriedade de José de Oliveira Costa, e gerenciado por José Moreira. Emery registra: “Em 28 de maio de 1955, o Cine Caiçara, inaugurado por Renato Costa, que dotaria ainda a cidade de um cinema de bairro, o Jandaia, à Avenida Alberto Maranhão.”
         Houve ainda o Cine São José, no bairro Paredões, por iniciativa de “José Bedéo”. Segundo o levantamento histórico de Emery, houve ainda o Cinema Rivoli, à Avenida Rio Branco, de propriedade de Lenilton Moreira Maia, e inaugurado em 1962 com o filme “Pecados de Amor”. A 22 de julho de 1964, foi inaugurado o Cine Cid, de um grupo liderado pelo político e empresário Dix-Huit Rosado. O primeiro filme apresentado foi “O Candelabro Italiano”. O Cine Centenário e o Cine Imperial foram os últimos cinemas de rua em Mossoró. 

8 de outubro de 2018

Interface do espectador dos antigos cinemas natalenses


                                                                                            Teatro Alberto Maranhão

Anchieta Fernandes

            Embora o século passado  (século 20) tenha recebido impactos influenciadores de outros segmentos culturais, nenhum destes segmentos conseguiu superar a influência do cinema. A chamada Sétima Arte nos deu a chance maior de conscientização, ao passar por seu crivo as ações corajosas ou covardes dos homens, as problemáticas sociais, as belezas criadas pelos artistas, os movimentos instintivos dos animais, as explosões fenomênicas da Natureza. A primeira vez que a História do Cinema em Natal foi registrada pelo suplemento Nós do RN foi no nº 13, de dezembro de 2005.
             Uma segunda vez foi no nº 52, de agosto de 2009, onde foi contada exclusivamente a história do primeiro cinema a existir na cidade, o Cinema Natal, que não tinha prédio próprio, funcionando no interior do então Teatro Carlos Gomes (atual Teatro Alberto Maranhão). Portanto, a história dos chamados cinemas de rua natalenses já está um pouco fixada nas páginas destes números mencionados. O que desejo comunicar agora aos leitores do suplemento, são detalhes do relacionamento das pessoas com os cinemas e com os filmes vistos em velhos e novos cinemas da capital norte-riograndense.
           Primeiro, o susto e o deslumbramento mesmo ainda antes dos cinemas. Naquela noite de sábado, 16 de abril de 1898, Nicolau Maria Parente, que chegara à cidade com um estranho aparelho chamado cinematógrafo, fez com que, da projeção de luz do aparelho na parede de um depósito de açúcar, começassem a se animar fotografias. Alguns espectadores quiseram correr com medo, ao verem uma locomotiva vindo em toda disparada daquele foco de luz, em risco de “atropelar” perigosamente as pessoas (era o pequeno filme “A Chegada do Trem”, de Luis Lumière, um dos inventores do cinema.

Do Politeama ao São Pedro

          Algum tempo depois, foi a inauguração do primeiro cinema em prédio próprio. Era o tempo do governador Alberto Maranhão, um jovem administrador, que revolucionou a fisionomia urbana de Natal, inaugurando a luz elétrica da cidade a 02 de outubro de 1911. O Cinema Politeama, a primeira casa de espetáculos construída especificamente para mostrar filmes, em Natal, foi inaugurado a 08 de dezembro do mesmo ano. O nome fora escolhido através de concurso no jornal A República, por sugestão do leitor do jornal Orículo Silva, que como prêmio ganhou ingresso aos filmes durante um mês.
               O primeiro cinema do bairro Cidade Alta, o Royal Cinema, foi inaugurado entre as ruas Vigário Bartolomeu e Ulisses Caldas, na segunda-feira, dia 13 de outubro de 1913. Na época, a direção do novo cinema já se preocupava com a poluição ambiental, pois nas paredes tinha um aviso proibindo fumar no recinto do cinema. Mas alguns espectadores não ligavam ao aviso e continuavam tirando suas baforadas. Quando chegava o São João, a meninada, com algazarra, provocava mais fumaça queimando traques e bombas, além de cobrinhas que corriam às vezes para debaixo das saias das espectadoras.
              O Teatro Carlos Gomes, que já abrigara em seu interior o Cinema Natal, passou a ser mesmo cinema a partir de 13 de outubro de 1928, um sábado, com o título Cine-Teatro Carlos Gomes. As crianças natalenses tiveram um motivo para irem ao cine-teatro a 24 de abril de 1932. É que, neste dia, com a apresentação de um filme publicitário sobre o inseticida Flit (aquele do “soldadinho na lata amarela com a faixa preta”), as crianças que ali compareceram ganharam soldadinhos de brinquedo (os famosos “soldadinhos de chumbo” que fizeram a alegria de tantos meninos de outras épocas).
                Adultos também ganhavam brindes nos cinemas. Do cinema Rex, na Cidade Alta, inaugurado a 18 de julho de 1936, pode-se tirar exemplos desta distribuição de brindes. As mulheres que foram ao cinema a 04 de junho de 1941, receberam amostras do esmalte Fátima e das águas de colônia Serenata e Volúpia. Outro tipo de brinde, para homens, na época do carnaval, era caixas com vários tubos de lança-perfume, sem proibição policial ainda não existente, e aproveitando que os cinemas exibiam no referido período filmes carnavalescos, projetando na tela os cantores famosos vindos do rádio.
            E é claro que retrato era uma coisa muito valorizada pelo espectador da era de ouro do cinema. Em Natal, meninos se reuniam em frente aos cinemas Rex e São Pedro (este inaugurado no Alecrim, na Noite de Natal de 1930), para formarem a feirinha de troca, venda e compra de revistas de histórias em quadrinhos. Também apareciam nas mãos da criançada os famosos álbuns de figurinhas, as estampas Eucalol, e os álbuns com as fotos de astros e estrelas do céu do espetáculo hollywoodiano. Muitas vezes, se escrevia para os próprios artistas que, de volta, mandavam as fotos autografadas.

Novidades desde a Segunda Guerra

               Aliás, durante a Segunda Guerra Mundial, muitos atores e atrizes de Hollywood passaram por Natal, indo em direção ao front, eles para combaterem, elas para se apresentarem em shows no front. Dentre as atrizes que passaram por Natal, estava Kay Francis. Tendo oportunidade de vê-la ao vivo, o jornalista Venturelli Sobrinho publicou no jornal A República um artigo com entusiásticos elogios à beleza e ao talento dela. Alguém leu e traduziu o artigo para ela, que, sensibilizada, escreveu uma carta ao jornalista agradecendo os elogios. Outras atrizes inspiravam sonetos aos nossos poetas.
              Ao longo da história da Sétima Arte na cidade, espectadores viram muita violência representada na tela. E também praticaram ou sofreram violência nos cinemas. Em determinado dia, o Cine Alecrim exibiu poucos minutos do filme. Como não continuou, os espectadores depredaram, quebrando 10 cadeiras. A 11 de maio de 1964, um sargento da polícia tentou matar com um tiro um estudante que assistia um filme no cinema Rio Grande. Alguns outros espectadores se levantaram, apavorados, e o tiro foi atingir não o estudante mas uma espectadora que estava na linha do tiro (mas ela não morreu).
            Aliás, o cinema Rio Grande merece um destaque: caracterizou-se como lançador de novidades tecnológicas, algumas até modificando o jeito do espectador olhar as imagens. Exemplo: logo nos primeiros anos da década 50 lançou filmes em 3D, Terceira Dimensão, bastante antes do “Avatar” lançado nos cinemas dos shoppings recentemente, sendo então ou agora necessário o espectador botar no rosto sobre os olhos as lentes polaróides (óculos bicolores), que possibilitam ler o processo de construção da imagem em 3D. O cinema Rio Grande também lançou em Natal filmes cinemascope.
              A melhor interface seria o próprio espectador passar à prática, para se modificar na cena do cine-mundo, atendendo ao convite da fala fala final de Chaplin em “O Grande Ditador”: “Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela. De faze-la uma aventura maravilhosa. Vós, o povo, tendes o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo do trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.” Este filme eu vi, pela primeira vez, no cinema Rex, a 09 de setembro de 1961.

Quando e onde passaram em Natal alguns filmes-marcos (necessariamente, não é colocada aqui a primeira data em que o filme foi visto em Natal, mas também reprisis, quando não foi possível encontrar a data do lançamento na cidade):
A Chegada em Gôndola, pequeno filme-documentário de Promio, o cinegrafista dos irmãos Lumière, filme realizado em 1896 e que criou o travelling (movimento de câmera, deslisando ao longo de objetos e personagens , aproximando-se ou afastando-se deles); foi mostrado na primeira sessão de cinema apresentada em Natal, em um depósito de açúcar, na Ribeira, na noite de sábado, 16 de abril de 1898.
Cine-Jornal do Rio Grande do Norte, primeiro filme realizado no Rio Grande do Norte, dirigido por Anfilóquio Câmara em 1924, foi mostrado em première nos cinemas Politeama e Royal Cinema, a 18 de outubro de 1924.
Volga-Volga, o primeiro filme cantado e musicado, sincronizado o som às imagens via uma eletrola Victor, e dirigido por Tourganski, foi visto pela primeira vez em Natal no Cine-Teatro Carlos Gomes, a 08 de maio de 1930.
Branca de Neve e os Sete Anões, primeiro desenho animado em longa metragem, produção dos estúdios Disney, estreou em Natal no Cinema Rex, a 22 de junho de 1939.
Cidadão Kane, filme dirigido por Orson Welles, revolucionando a linguagem do cinema com a sua multiplicidade de planos, estreou em Natal no Cinema Rex, a 26 de fevereiro de 1943.
O Manto Sagrado, do diretor Henry Koster, estreando filmes em cinemascope em Natal, estava sendo exibido no Cinema Rio Grande a 25 de junho de 1955 (aliás, foi mesmo o primeiro filme realizado na dimensão cinemascope).
Glória Feita de Sangue, um dos melhores filmes anti-guerra, dirigido por Stanley Kubrick, iniciou a 16 de fevereiro de 1963, no Cinema Rex, as sessões de Cinema de Arte promovidas pelo Cine Clube Tirol.
Contos da Lua Vaga, do diretor japonês Kenji Mizoguchi, um dos mais belos trabalhos fotográficos no cinema, foi apresentado no Cinema Rex a 21 de novembro de 1964.
Oito e Meio, de Federico Fellini; as imagens cinematográficas traduzindo fielmente as imagens nos sonhos de um diretor de cinema, ou seja, metalinguagem neste filme mostrado no Cinema Rio Grande a 06 de agosto de 1967.
Woodstock, o melhor documentário sobre o famoso festival de música hippie acontecido numa fazenda do estado de Nova Iorque (EUA); dirigido por Michael Wadleigh, o filme se fragmenta dinamicamente em vários planos opcionais à visão do espectador, simultaneamente: foi visto no Cinema Rio Grande a 24 de outubro de 1980.
Deus e o Diabo na Terra do Sol, a revolução de linguagem efetuada por Glauber Rocha no cinema brasileiro, via Cinema Novo; estava em cartaz no Festival Glauber Rocha, no cinema Rio Grande, a 25 de setembro de 1981.
Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock; verdadeiro poema dramático que começa com puro poema gráfico, nos créditos de apresentação criados por Saul Bass; além de vezes anteriorea, foi mostrado no Cinema Rio Grande a 15 de agosto de 1986.