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6 de setembro de 2020

O real nome de Deus em Maimônides e Nicola de Cusa

DIEGO AVELINO DE  MACÊDO

(D. MACÊDO – diegoavelinohistoriador@yahoo.com.br)

 

As diversas tradições judaico-cristãs veem na sua expoente fonte de credo um profundo mistério. O livro sagrado de ambas as religiosidades externam Deus correspondendo as imagens dos seres criados. As associações acontecem gerando uma personificação teosófica desse SER tão (des)conhecido. Os esforços dos religiosos judaico-cristãos estão numa dedicação descritiva de Deus, para isso, lançam-se numa linguagem que possa tornar o Divino perceptível ao humano. Portanto, para este trabalho, analisaram-se os capítulos XXIV, XXV e XXVI do livro “Douta ignorância” de Nicola de Cusa e os capítulos LXI, LXII, LXIII e LXIV do livro “Guia dos Perplexos” de Maimônides.

 

INTRODUÇÃO

 

A Bíblia está repleta de textos acerca de Deus de tal modo que, aparentemente, descreve-o como sendo um Ser cuja natureza divina assume características físicas e/ou atributos sensíveis. Analisando as obras de Nicola de Cusa e de Maimônides percebe-se, que a promoção do distanciamento epistemológico entre tais pensadores, enquadra-se na perspectiva da natureza divina. Para Nicola, Deus é “uno-trino”. Contudo, em Maimônides Deus é “uno”. Agora, há um certo ponto de aproximação entre ambos, quando eles se posicionam ser a teologia negativa um bom meio para explicação do divino assim como traçar associações entre Deus com suas criações – entenda-se, aqui, representando Deus através de nomes.

           

Nome divino

           

"שמע ישראל הי אלוקינו הי אחד" (דברים 06)¹

 

O ser humano tão limitado, em decorrência de sua estrutura finita, busca compreender o fundamento de Deus, notadamente, detentor de uma natureza infinita sobre os moldes racionais. Esta ação árdua rendeu diversas obras teológicas, contudo, para desenvolvimento deste trabalho haverá o foco em um pensador cristão [Nicola de Cusa] e noutro judeu [Maimônides].

A fundamentação do pensamento nos moldes da racionalidade, permite destinar projeções lógicas no reconhecimento de Deus, i.e., a adefagia em querer entender, desvendar ou compreender o Divino poderá ser suprida [mesmo que momentânea] no caminho ascese da articulação entre a razão e o metafísico. Desta maneira, a tentativa de superar a si mesmo para adentrar-se dentro de um “recinto misterioso” para o cognoscível tem sido uma condição de constante luta racional. Não é simples tornar compreensível àquilo de natureza inacessível.

 

“(...) capaz de conocer a Dios a la medida de su própria capacidade de recibirle.” EVDOKIMOV, p.15

 

Os nomes associados ao Divino são pronunciados visando facilitar a compreensão dos sujeitos. Obviamente, Deus, não seria o nome que pensamos ser! A mais singela percepção acerca da divindade só poderá estar na adoção de uma postura racional tendenciosa ao negacionismo – é mais fácil ditar o que Deus não é [ex.: Deus não é bom; Deus não é perfeito; Deus não é soberano].

 

“Saiba que a verdadeira descrição de Deus ocorre por meio de atributos negativos, que dispensam uma linguagem imprecisa e não implicam qualquer tipo de imperfeição no que se refere a Ele.” MAIMONIDES, p. 225.

 

Pois bem, de todos os nomes ditos acerca de Deus um é mais especial.

 

Todos os nomes de Deus encontrados nas Escrituras derivam das Suas ações – isto não deve ser esquecido – exceto um, e este é: “Yod, He, Vav, He”. MAIMONIDES, p. 239.

 

Caixa de Texto: ¹Trecho central sobre a Unicidade divina – “Ouve Israel, o Eterno, é Nosso Deus, o Eterno é único (SHeMaH YSRaEL ADONAY ELOKeYNU ADONAY ECHaD)” (Deuteronômio 06).O Tetragrama ((יהוה é o nome exclusivo de Deus representando sua genuína essência. Alguns teólogos tentaram traçar uma pronunciação para o Tetragrama (YHVH = YodHeVavHe, heb. transliterado) descaracterizando-se, profundamente, um nome de cunho impronunciável² da qual sua verbalização correta é desconhecida.

 

Mesmo assim havia uma situação solene da qual o misterioso nome de Deus seria pronunciado. Todavia, a pronunciação do nome era feita somente por um clérigo judeu [Sumo-sacerdote]. A irrestrita pronunciabilidade deste nome visava evitar profanações.

 

And here we come to a point the importance of which has not been fully recognized by the historian. In pre-exilic Israel, as among other nations, none but the priest, or some holy person, was permitted to approach the Deity in the sanctuary and invoque the name of Jahve. KOHLER, p. 23.

 

Os outros nomes associados a YHVH traçam, apenas uma pluralidade de Deus, entre elas citam-se alguns: צדק, 6אלהים, 5דין, 4רחמן, ³רחמים7 e  8חסו. Essa pluralidade corresponde às ações divinas, não a um critério ontológico. Assim, os tantos nomes usados para Deus trazem consigo, apenas o critério derivado de sua existência estar associada às suas atividades e/ou perfeição. Ditas nas palavras de Dionísio Areopagita, em seu livro De los nombres divinos, no capítulo V, pgs. 75-82: “Digo que esos nombres sagrados se aplican a la providencia divina considerada en la totalidad de sus buenas acciones”.

Mesmo com uma enorme quantidade de nomes, o YHVH ainda permanece sendo àquele equivalente à essência divina. Esse Tetragrama denota, portanto, a existência absoluta e eterna de Deus. Nela [YHVH] não há derivação alguma de nenhum atributo.

            Deparando-se, com o texto de Nicola de Cusa, percebe-se uma abordagem bastante similar de Maimônides – exceto, o uso de terminologias hebraicas, salvo, a transliteração do Nome Inefável. Segundo Nicola, seria Maimônides o Rabi Salomão – provavelmente, em alusão ao grande saber que este rei judeu teve. Esta latente sabedoria está externado num guia filosófico-teológico nomeado como Guia dos Indecisos ou Guia dos Perplexos.

Caixa de Texto: ²O nome de Deus – Tetragrama – era recitado somente uma única vez no Templo Sagrado durante o Yom Kippur pelo Sumo-Sacerdote. 
3 Misericordioso (RaCHaMYM, heb. transliterado).
4 Clemente (RaCHaMaN, heb. transliterado)
5 Juiz (DaYaN, heb. transliterado)
6 “Deus” (ELoHYM, heb. transliterado)
7 Justo (TZaDiK, heb. transliterado)
8 Força (CHaSON, heb. transliterado).Obviamente, haverá na obra cristã de Nicola uma agregação à natureza de Deus bastante diferente daquela visão maimonidiana. Em Maimônides, Deus é único estando longe de qualquer outra divindade. Já, em Nicola [na obra “Douta Ignorância”] acontece o aparecimento trino para sua divindade. Mesmo com tal divergência há similares olhares entre ambos pensadores.

            Nicola de Cusa menciona que os homens criam nomes para Deus, i.e., atribuem características ao divino mediante as evidências existentes nas criaturas. Isto permite mostrar, que os humanos se baseiam na assimilação comparativa das criaturas com o divino.

A sagrada ignorância ensinou-nos que Deus é inefável; e isto porque é infinitamente maior do que tudo o que se possa nomear; e porque isto é sumamente verdadeiro, dele falamos de modo mais verdadeiro por remoção e negação (...)  CUSA, p.63.

 

Basicamente, em Nicola, quando é abordada a condição dos nomes associados a Deus, justifica-se que Deus se apresenta ao humano segundo as características da sua criação, i.e, ELE é Criador conhecido, a partir, dos elementos criados. Dessa maneira, recai a incumbência ao afirmar que a concepção trina de Deus acontece seguindo, necessariamente, as características das criaturas. A ordem existente na natureza sensível se realizará porque Deus é pai, filho e espírito santo. Ora mesmo caminhando nessa direção, as comparações ocorrem, simplesmente, porque o humano enxerga o divino com seus pobres olhares existenciais. Para se compreender Deus seria importantíssimo romper cada vez os limites temporais-existenciais.

Embora, aconteça tal fato é necessário que haja uma forte presença do intelecto humano no momento de reconhecimento do Divino. Em ambos pensadores analisados, Deus, deve ser adorado sobre a base da racionalidade e não meramente, a partir, do regimento da fé

 

“Mas porque o nome de Deus é Deus, o seu nome não é conhecido senão pelo intelecto que é o próprio máximo e o nome máximo.” CUSA, p. 56.

 

Eis que foi esclarecido que a condição de o intelecto, o ser inteligente e o inteligível serem numericamente ”um” não se aplica ao Criador, mas a qualquer intelecto. Portanto, também em nós o ser inteligente, o intelecto e o inteligível, são uma coisa só, desde que o nosso intelecto esteja atuante (...). MAIMONIDES, p. 263

 

Conclui-se, portanto, que tanto Maimônides quanto Nicola pensam semelhantes na questão do nome de Deus e, qualquer associação com a criatura seria apenas mais “uma criatura sendo adorada”, não o Criador. Daí, aconteceria algo tão banido por Deus, registrado no livro sagrado [Bíblia], a condição da idolatria. Outra intepretação plausível seria que se o humano usa as prerrogativas existentes em seu mundo sensível para discorrer acerca de Deus, precisa-se que o uso de tais atributos não constituam a característica una do divino. Isso seria ultrajante porque Deus seria um ser plural e não simplista. Ele se mostra através desses atributos (teosofia), mas não é o fator essencial dele. Como o humano é possuidor de inteligência, que assim faça quando pense sobre Deus [mesmo sabendo das restrições mentais]. Até porque Deus se mostra oculto, sendo assim, necessário “conhecê-lo”, somente sobre viés da reflexão, inteligência, racionalidade – como queira chamar.


 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

AREOPAGITA, Dionísio. De los nombres divinos. Edicomunicación, S.A., 1988.

 

EVDOKÍMOV, Paul. El conocimiento de Dios en la tradición oriental. Ediciones Paulinas.

 

GUTTMAN, Julius. A filosofia do judaísmo: a história da filosofai judaica desde os tempos bíblicos até Franz Rosenzweig – São Paulo: Perspectiva, 2003.

 

KOHLER, K. Tetragrammaton (Shem ham-M’forash) and its uses. Journal of Jewish Lore and Philosophy, Vol. 1, No. 1 (January 1919), pp. 19-32. Published by Hebrew Union College – Jewish Institute of Religion.

 

MAIMONIDES, Moses. O guia dos perplexos – São Paulo: Landy Editora, 2004.

 

CUSA, Nicola de. A Douta Ignorância ___________________.

25 de maio de 2020

A SONORIDADE NO CINEMA (ALEMÃO)

Bené Chaves

        Embora o cinema italiano deva muitos favores a Walter Ruttman, foi ele um dos que primeiro falaram também no período alemão. Em 1929,  a ‘Tobis’ alemã exibiu ao público Melodia do Mundo, juntamente com outras fitas sonoras de Frank Clifford e Brauer. Os três iniciaram a chamada fase do  som.
        Joseph von Sternberg estreou em Hollywood ainda no período silencioso, onde triunfou, enquanto G.W. Pabst, vindo também da fase muda, fez na época  Rua das Lágrimas (25), O amor de Jeanne Ney(27) e a obra-prima A caixa de Pandora(28). E no período sonoro realizou Guerra, flagelo de Deus (30, versão alemã de Nada de novo no Front), A ópera dos pobres (31) e Camaradagem (31). Como viajava para diversos países, fez na França o seu Dom Quixote (33) e na Áustria realizou O Processo (47).
        Fritz Lang, outro nome importante do cinema na Alemanha, rodou Asssassino (28), seu primeiro filme sonoro. Fez o Testamento do Dr. Mabuse (32), na época, proibida  pela censura por ser uma obra anti-nazista. Deixando a Alemanha, Lang realizou na França Lilliom/Coração de Apache (33) e depois seguiu para Hollywood onde sua obra sofre um declínio assustador. Salvam-se apenas os filmes Fúria (36) e Vive-se uma só vez (37). Porém, o grande nome na filmografia deste cineasta não deixa de ser M, o vampiro de Dusseldorf  que realizou em 1931.
        Um dos mais famosos filmes sobre temas juvenis(Meninas de uniforme, 31)  foi realizado pela diretora Leontine Sagan com a participação de Carl Froelich e abordava o lesbianismo em um pensionato. Era um tema muito forte para a época. Já Goebbels lançou mão do cinema para fins políticos e guerreiros, utilizando o Hans Steinhoff como autor de Jovem Hitlerista Quex, realizado em 1933. As obras contrárias eram postas à revelia. E a Leni Riefenstahl, jovem atriz e bailarina, estreou no cinema em O inferno branco de Piz Palu (Pabst) e no ano de 1936 surgiu como diretora de documentários, onde destacaram-se O triunfo da vontade(36) e Olympia (38).
        Max Ophuls, grande nome do passado, autor do belo Lola Montés (55), realiza na época Liebelei/Uma história de amor (32) que  valeu sua celebridade. E o Willi Forst, ator e diretor austríaco, fez Correm suaves os meus cantos, tomando como base condutora a sinfonia inacabada de Schubert, fita datada de 1933. Depois realizou Mascarada (34), Mazurca (35) e o sucesso de Opereta (40), tendo  como base a música de Strauss.
        Slatan Dudow, mais um da safra, realizou na fase sonora um verdadeiro libelo contra a fome, a miséria e o desemprego, a chamada tríade de uma esfera social que acaba com as massas populacionais. Seu filme Kuhle Wampe ou A quem pertence o mundo?, foi roteirizado pelo Bertolt Brecht e realizado em 1932. Causou grande impacto aos espectadores de então.
        Eis aí, em rápidos traços, o começo da era sonora alemã.  




 

23 de maio de 2020

Natal, Amante

                                                                    Dorian Jorge Freire


Estou chegando a uma idade (ou já desembarquei?) na qual a evocação de antigas e perdidas amantes, matérias de memória ou de sonho, não incomoda sequer minha mulher. O mais que a recordação provoca é um muxoxo. De condescendência. Ou ceticismo.
Pois vá a confissão em boca de cena: Natal foi minha amante desde eu menino. Nem conhecia os calores femininos e ela já era meu segredo. Tudo que era, tudo que possuía, seus mistérios, e dengues, e faceirices, e simulações – eu conhecia no silêncio de minhas caladas tentações e posses. Natal era meu alumbramento. E não se diga que o menino de então não conhecia cidade maior do que a sua Mossoró. Não, não. Já vivera em Fortaleza. Natal era uma eleição, uma opção. Uma tendência.
E pela vida afora, daquela infância perdida a este velhice mais perdida ainda, ela tem sido minha obsessão constante, fiel. Livre ela aos ventos que vêm do mar e eu preso aos ciúmes, ternuras. Às coisas mais secretas e inefáveis do querer-bem.
Natal mudou, aleluia. Não mudou minha paixão pela cidade que se multiplica sem perder sua unidade. Cresce biblicamente em graça e em sabedoria: ela cresce e eu diminuo. O progresso não a avilta. Maior e quase cosmopolita, ela não é a “vaca colorida” ou “vício de pedra”, como das grandes cidades maldizia Nietzsche pela boca de fogo de Zaratustra.
Natal cresce sem perder a identidade, sem esfarelar seus miolos, sem soltar seu tutano, mantidos os escondidos que fazem a glória das autênticas cidades dos homens.
A minha primeira Natal foi a dos anos 40. Haviam rastros ainda de americanos que não conseguiram ordinarizá-la. Lá está a Ribeira, ali o Alecrim, Petrópolis, as Rocas proletárias, Tirol de Enéas Reis e Xixico Couto. Bondes, mangueiras, sombras e iluminações. Sobradões. Sítios. Solares dos últimos coronéis ainda não devastados pela cupidez da especulação capitalista, materialista. Foi a Natal de minha gente: Enéas Reis, Xixico Couto, Eutiquiano, tia Justa, tio Manuelzinho, o mulato Chagas, matinês do Rex, barracas na pracinha (cadê Ivone, meu bem?), Tirol terminando aos pés do Aero Clube, Redinha quase exclusivamente.Natal do “Jornal de Natal” Café, Sandoval, Calafange, Floriano, Dom Marcolino, Zé Varela. (Como eram gostosos os cigarros daqueles tempos, fumados às escondidas, comprados a retalho, Selma, Astória, Mistura Fina, Continental. Iguais, só as tentações não realizadas de ousar as noites longas nas ruelas proibidas de uma Ribeira que só despertava às desoras).
Natal dos anos 50. Cheguei, adolescente, trazido por Djalma Maranhão. Pensão Comercial da Rua Coronel Bonifácio, hoje Câmara Cascudo. Cuidados de dona Rosa, atenções de Morais. A aventura macha de morar sozinho. Trabalhava no “Diário de Natal” de Edilson Varela e admirava, de longe, respeito reverencial, justo respeito, Edgar Barbosa, Américo de Oliveira Costa, Danilo. Tempo de convivência diária com Leonardo Bezerra, Guaracy Queiroz de Oliveira, João Batista Pinto, William Cobbett, Araken Irerê Pinto, Aderbal Morelly, Ticiano Duarte, Luiz Maranhão Filho, Antônio Pinto de Medeiros, Ferdinando Couto.
Era a descoberta da inteligência, o orgulho de confraternizar com a melhor juventude da cidade, as noites ouvindo preleções de Leonardo, as madrugadas, sozinho, no quarto mínimo da pensão humilde, querendo descobrir, em velhos e ensebados manuais clandestinos, o que era mais-valia e se toda propriedade é um roubo.
Natal jovem, irreverente, carnavalesca, poética, política, subversiva, diurna e vespertina a preparar longas noites de vigílias. Bares. Sorveteria Cruzeiro. Taboleiro da Baiana. A cervejinha na Pensão Ideal. As putas que nos passavam gonorreia e humildade.
Tudo era deslumbramento. Newton Navarro, Dorian Gray, Meira Pires, Manuel Rodrigues de Melo, Esmeraldo, Luiz Maria Alves, a redescoberta de Jorge Fernandes, José Gonçalves de Medeiros. A pungência inata de Gilberto Avelino. Cascudo já era Cascudo. Monumento. Mito. Primeiro – por justiça justa justíssima. Primeiro Cascudo. Depois os outros.
Depois Natal nos anos ásperos de 60. A mesma humanidade. Escorrendo, quente, espumoso, o leite gordo da ternura humana. A solidariedade instantânea de Woden, radical até na generosidade. O encontro com Maria Emília-Berilo, que marcou tanto e tanto enriqueceu minha vida. Sanderson, Luiz Carlos, Rubens Lemos, Antônio Melo, o reencontro com a competência de João Neto, Luiz Maria Alves, Celso, Myriam Coeli (Maria do Céu), Zila. Amei tanto Natal dos anos 60 que lhe dei, de nascença, minha Raíssa. Natal – 60 prolongava a Natal de todas as décadas, de tal forma fascinante que adotei. Mossoró, Aracati, São Paulo, Ouro Preto, Salvador, São Luís.
A derradeira Natal foi recente. Eu já alcançado por um enfarte do miocárdio e uma isquemia cerebral. A cidade maior sem perder sua estatura. Fiel aos seus valores e desvalores, enriquecida por outras fortunas. Que Natal se renova sem cirurgia plástica e envelhece alegre com o segredo guardado da eterna juventude.
Os Alves – Aluízio, Agnelo, Gobat. Ednólia e Geraldo Melo, as noites estiradas na conversa amena. João Ururahy, Lalinha e Genibaldo, Zélia Freire, Teresa, Romeu Aranha, Nídia Mesquita, Marta e Milson, Roberto Varela, Serejo, Albimar, Paulo Tarcísio, Paulo Macedo, Odilon, Sarinho, Américo, Mário Moacir Porto, Veríssimo, o admirável Vivi, Elenir Fonseca, Haroldo e Selma, Nei Marinho, Nei Leandro, Tarcísio Gurgel, Leopoldo Nelson, Franklin Jorge, Eulício, Socorro Trindad, Gualberto, Marcos Aurélio, Rejane, Mariza. Próximo ou distante, presente, Nilo Pereira, o mestre, mais doce do que todo Ceará-Mirim.
Multidão. Diante da multidão, Jesus teve pena, Diante da humana gente de Natal, eu me ufano de meu país. Afonso Celso e eu. Porque se cada pessoa é ela e sua circunstância, as circunstâncias natalense têm grandezas. Paris seria melhor sem os parisienses? Natal carece de seu povo. Completa-se com ele. O mar, os morros, as dunas, o verde, os botecos, freges e forrós, os grande e os miúdos, becos e avenidas, calçadões e vielas, povo. Eis Natal humana. Que deve parar de crescer se não quiser desafiar o bom senso do meio termo.
Depois de deixar Natal pela última vez, fisgado pôr outra isquemia cerebral, aviso da delicadeza da Providência, passei a visita-la às pressas, às escondidas quase, o tempo necessário para beijar os netos e por a benção nos filhos. Com medo, quem sabe? Do visgo que Natal tem, o mesmo visgo de Mossoró e São Paulo, o perigo de não querer voltar, achar que pode se dar ao luxo da capital o interiorano matuto, mais certo no silêncio de seu caritó, entre livros, os olhos voltados para o pé de cajarana plantado por sua Mãe, faz oitenta anos.
Ela, minha mãe, Dolores Couto, quando falava de sua Escola Doméstica,com Jacira, Alda, Emília, Maria de Lourdes, Ilnah, Elza, Anatilde e Ricardina, dizia – “no tempo em quer eu era gente...” No tempo em que eu era gente, podia viver Natal. Hoje, não. Há muitas cruzes erguendo seus braços na procura da eternidade. Natal também passou a ser para mim um campo santo. Chão sagrado. Repouso de guerreiros. Os idos. Os idos.
Natal é isso. Só? Mais. Muito indefinível nos seus contrastes, pecados e santidade, risos e lágrimas, passado e futuro. A luz ardente dos refletores. A brisa fria de suas madrugada obscuras e insones.
Recife e São Luís lembrariam Veneza. Recife, para o Mestre Alceu, tem o cheiro de Florença. O que me lembrou Natal lá fora, nas Oropas agora dos impossíveis?
A luminosidade de Roma sua espontaneidade, sua abertura, até sua molecagem gostosa. Apimentada. Com pimenta malagueta.
Se eu não tivesse encontro marcado para daqui a pouquinho com meus pais e avós, juro que esperaria o fim do sonho em Natal. Tia Carmem, tio Enéas, Eider, Eutiquiano, Berilo, Myriam e Zila, Barca e Antônio Pinto, contariam histórias. Cascudinho as decifraria todas e lhes daria as origens.
Se não blasfemo – Deus me livre e guarde – que céu teria mais gosto de céu?

Dorian Jorge Freire (falecido), escritor e jornalista. Transcrito do jornal “O Galo” – dezembro/89.

11 de março de 2020

QUADRINHOS E EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS POSSÍVEIS



    A partir de abril, pelo terceiro ano consecutivo, o Centro de Estudos e Biblioteca Escolar Prof. Américo de Oliveira Costa estará realizando à Formação Continuada para educadores sobre as possibilidades do uso das histórias em quadrinhos (HQs) no Ensino.
   O Curso QUADRINHOS E EDUCAÇÃO: POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO é ministrado pelo professor e historiador, Beto Potyguara, que se dedica a pesquisa deste tema há mais de dez anos. O curso é fruto da parceria do Projeto Diálogos com os Quadrinhos, coordenado por Beto, e a Gibiteca Potiguar da Biblioteca Prof. Américo de Oliveira Costa. Esta iniciativa recebeu o reconhecimento de sua relevância por parte da Secretaria de Estado da Educação, da Cultura e do Lazer do Rio Grande do Norte, concedendo-lhe a Comenda RN Mais Leitor, no ano de 2018.
    Neste primeiro trimestre do ano serão ofertados dois Módulos independentes, na modalidade EaD semipresencial, com uma Carga Horária de 40h cada. Os cursos são gratuitos e possuem apenas cinco encontros presenciais, uma vez por semana, no horário das 8h às 11h.
    O Módulo 1, intitulado INTRODUÇÃO ÀS HQs: DA TEORIA À PRÁTICA, terá início no dia 06 de abril e será realizado nas segundas-feiras; o Módulo 2, TIRAS: LEITURA, PRODUÇÃO E APLICAÇÃO EM SALA DE AULA, começará no dia 02 de abril, ocorrendo sempre nas quintas-feiras.
    O Curso é indicado à educadores e à estudantes universitários de cursos das Áreas de Educação e das Ciências Humanas, mas demais interessados pelo tema também podem se candidatar. As inscrições podem ser solicitadas pelo e-mail da Gibiteca (gibitecapotiguar@gmail.com) e serão validadas após a devolutiva do Questionário de Sondagem encaminhado ao candidato(a). O prazo de inscrições se encerrará no próximo dia 31 de março para ambos os cursos.
SERVIÇO:
O QUE: CURSO QUADRINHOS E EDUCAÇÃO: POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO
ONDE: Centro de Estudos e Biblioteca Escolar Prof. Américo de Oliveira Costa, Av. Itapetinga 1430, Conj. Santarém, Potengi – Natal/RN – Fone: (84) 3232-7396 – E-mail: cebezn@gmail.com.
COMO SE INSCREVER: Preferencialmente pelo E-mail gibitecapotiguar@gmail.com
QUANDO:
Módulo 1: 06/04 das 8h às 11h.
Módulo 2: 02/04 das 8h às 11h.


2 de março de 2020

Casa do Cordel



          
Costa Junior

A Casa do Cordel é uma referência em nossa cidade para os apreciadores da literatura potiguar. Tem a difícil missão de se manter nos dias atuais, devido a falta de incentivo a nossa cultura popular.  Ela foi fundada em agosto de 2007, por Erivaldo Leite de Lima, mais conhecido como Abaeté do Cordel. "A cultura no RN não é valorizada e os que trabalham neste segmento não tem incentivo nenhum. Trabalhamos por amor a arte" argumenta Abaeté.
          Como a literatura de cordel, tem muita informação e atinge aos temas como, de cunho social e meio ambiente, ela é muito importante sua aplicação nas escolas públicas. "Era fundamental se os setores de educação pudessem levar os editores potiguares, para dar palestras nos estabelecimentos de ensinos. Os alunos da nossa cidade, alguns que residem em bairros periféricos, teriam a oportunidade de conhecer os autores norte riograndenses. A literatura serve também como uma forma de tirar os jovens das drogas".
         Para Abaeté do Cordel, outro segmento que deveria incentivar a nossa cultura, seriam os sindicatos. Esse setor poderia investir nas compras de livros, livretos e distribuir com os trabalhadores. "O que os sindicatos arrecadam dar demais para gastar com a produção cultural do Estado. Eu e muitos que lidam com cultura, sobrevivem apenas dos nossos trabalhos, sem receber incentivos de nenhum órgão."
          Outra instituição, na sua opinião, que não incentiva a nossa cultura é a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Ela é fechada para a cultura popular. Deveria realizar feiras de livros, palestras com autores do RN, incentivando os jovens a conhecer mais a cultura do Estado e os autores norte-rio-grandenses. " Nós precisamos muito do apoio de instituições, seja estadual ou federal, mas, infelizmente isso não acontece.  Investir na cultura é dar um conhecimento aos jovens e um futuro de vida melhor".
           A literatura potiguar não recebe apoio e   são poucos os que lutam por ela. O cordel, apesar de ser cem por cento nordestino, não recebe o incentivo que merece. Os cordelistas têm dificuldade de exercer seu trabalho, por falta de ajuda. Assim também é a literatura potiguar."Eu reverencio todos aqueles que conseguem divulgar os autores de livros norte-rio-grandenses, com os seus próprios esforços, criando editoras particulares"
                Hoje a Casa de Cordel é um espaço para receber alunos e professores das escolas de Natal. O Cordel é criado pelo povo e para o povo, o que falta são politicas públicas. "O trabalho que fazemos aqui não é só por dinheiro e sim por amor a nossa cultura. Trabalho para que nunca deixe de existir o cordel em nosso Estado. Luto pela valorização da nossa arte, dos nossos artistas e as potencialidades da literatura do RN, por isso a necessidade deste espaço ". Conclui Abaeté Cordel.

30 de dezembro de 2019

Praia de Pitangui


         
  
            No litoral norte está situado um  cenário perfeito, que possui praia, rio e cachoeira. Trata-se de Pitangui, que fica localizado a trinta quilômetros da cidade de Natal e situada no município de Extremoz. Ela fica  entre as praias de Graçandu e Jacumã. É muito conhecida pelo seu tradicional carnaval e também pelas casas de veraneios, onde é ocupada no verão. A vila de Pitangui é cercada por dunas onde se pode fazer passeios de buggy, tanto pelas dunas quanto pela praia.
            A principal duna se chama "dunas douradas", que pela sua extensão se tem a impressão que está em um deserto.  Em alguns pontos das dunas douradas pode-se tirar fotos em meio a imensidão de areia. Um lugar belo e que pode ser visitado pelos que frequentam o lugar. Ainda pelas dunas douradas, só que mais próximo à vila, em cima dos morros de areia  se tem uma vista privilegiada de Pitangui, onde pode ver ainda as praias de jacumã, Graçandu, Barra do Rio e Genipabu.
            Bem próximo à vila, além dos passeios nas dunas, há uma cachoeira de em que na atualidade tem uma boa estrtura para as pessoas passarem o dia lá. Neste recanto se tem um abrigo de uma sombra refrescante, sentado em mesas colocadas dentro do pequeno riacho. O frequentador pode saborear algumas petiscos da região, como espeto de  camarão , lagosta, assim  como ginga com tapioca. Do outro lado da vila de Pitangui fica a sua famosa lagoa, que possui infra-estrutura para turistas.
             Na lagoa, além da pessoa usufruir de nadar nas águas mansas, pode-se descer de tirolesa e navegar de  caiaque. Além de se divertir com toda a família e tranquilidade de harmonia com a natureza. A vila também  é dotada atualmente de pousadas. Mas o seu ponto forte são as casas de veraneio, que durante  a alta estação servem de  encontro de famílias da capital e do interior do Rio Grande do Norte, bem como de outros estados.
             Algumas destas casas estão disponíveis para aluguel por temporada. Outra  boa alternativa de lazer no lugar é a lagoa de pitangui, que fica cerca de 35km de Natal, no litoral norte. Ela também conta com o tradicional bar da lagoa, onde se concetra muitos turistas. As cadeiras, a beira do rio,  se tornou em uma atração para aqueles que visitam a lagoa. No verão ela vistada diariamente, diferentes das outras época do ano, onde a frequencia é mais nos fim de semana.
            A Lagoa é um lugar agradável e perfeito para lazer. A movimentação é grande, principalmente no periodo de férias, já que chama a atenção por ter muitas mesas e cadeiras dentro da água, dando maior conforto aos que visitam. Ela tornar-se divertimento também das crianças por possuir vários peixinhos pequenos na água. No local a variedade do cardápio é bem grande, não faltam opções, como, camarões, peixes e outros pratos tradicionais da região. Muitos turistas se encantam com a lagoa, que tem uma boa estrutura para um ótimo dia de lazer.





26 de dezembro de 2019

Praia da Redinha


        
                                                                  Praia da Redinha - Foto divulgação
            A praia da Redinha é mais uma das praias urbanas de Natal e fica na saída para o litoral norte. É um lugar bastante pitoresco. Tendo sido uma vila de pescadores, ela ainda guarda alguns recantos que não podem deixar de ser visitados pelos turistas. O Mercado Público é um destes atrativos, que tem a famosa Ginga com Tapioca, uma tradição do lugar. Tem a igreja Nossa Senhora dos Navegantes, outro ponto muito visitado, que foi construída com pedras retiradas dos arrecifes. Sua história mostra que a praia da Redinha não é apenas sol e mar.
            Os quiosques também são uma atração à parte, com seus pratos tradicionais como,  peixe frito, camarão, macaxeira, carne-de-sol, caldos e ginga, é uma gastronomia tipicamente local. Os pescadores da praia da Redinha oferecerem peixe frito diretamente para os turistas. Mas uma das suas maiores atrações é mesmo o  Aquário Natal, que é um lugar fascinante, que conta com aproximadamente 60 espécies de animais como tubarões, peixes de corais, cavalos marinhos, jacarés, pingüins, entre outros.
            Para chegar à Praia da Redinha, pode ser pelo acesso da ponte nova Forte-Redinha Newton Navarro ou então pela velha  Ponte de Igapó, passando por sobre o rio Pontegi. Ela fica distante do centro de Natal cerca de 20 quilômetros. È frequentada atualmente não só por moradores da região da Zona Norte, como por muitos turistas que vistam a cidade nesta época do ano. Sua fama é por possuir casas e bares simples e rústicos, além dos bons  peixes  e a famosa ginga com tapioca.
            É também a última praia do litoral urbano e nela que está localizada a Ponte Newton Navarro que atravessa o  Rio Potengi. Após a construção da nova ponte, uma parte da Redinha foi revitalizada, a área compreendida entre o Mercado Público da Redinha a Igreja de Pedra passou a se chamar Largo João Alfredo. A Redinha possui duas igrejas dedicadas a Nossa Senhora dos Navegantes e de pedra  e a mais antiga. Ela é divida em duas praias, ou seja,  Redinha Velha pertence a capital, enquanto que Redinha Nova pertence ao município  de Extremoz.