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28 de fevereiro de 2020

Teresinha de Jesus


                                                                                                Foto: divulgação
A cantora Norte riograndense Terezinha de Jesus, estará se apresentando no dia 07 de março/2020, às 20 horas na Casa Galvão espaço Cultural e Bistrô, situada na   R. Dr. Manoel Augusto Bezerra de Araújo, 135 - Vila de Ponta Negra,
Entrevista cedida ao Jornal Zona Sul no ano de 2003
Quem é:Terezinha de Meneses Cruz nasceu em Florânia, no Rio Grande do Norte, a 3 de julho de 1951. . A discografia da seridoense inclui os elepês Vento Nordeste (1979), Caso de Amor (1980), Pra Incendiar Seu Coração (1981), Sotaque (1982) e Frágil Força (1983). A estréia no vinil se deu em um compacto lançado pela Funarte, em 1978, pelo projeto Vitrine. Esse registro está disponível em CD da gravadora Atração, junto com as primeiras gravações de Zizi Possi, Oswaldo Montenegro, Cláudia Savaget e Mongol, com participação de Grande Otelo. Os CDs lançados por Terezinha foram 20 Sucessos de Terezinha de Jesus (1997), pela Sony, e Mares Potiguares, uma produção independente datada do ano passado.
ZONA SUL - Como Terezinha de Meneses Cruz transformou-se em Terezinha de Jesus?
TEREZINHA -  Sou batizada como Terezinha mesmo, o diminutivo de Tereza. Quando comecei a cantar, eu tinha um apelido: Tiazinha. O grande poeta e compositor Abel Silva achava que esse era um nome muito familiar para ser o de uma artista. Lógico que essa Tiazinha de hoje ainda não tinha aparecido. Então Abel Silva decidiu sugerir um nome artístico pra mim. Uma certa ocasião ele perguntou o que eu achava de Terezinha de Jesus. Eu achei ótimo, lindo. Um nome bem brasileiro, que vem do folclore de Portugal. Tem até aquela musiquinha... Capinam e Paulinho da Viola, que estavam conosco, também gostaram. Com o aval de tantos poetas, resolvi, ali, passar a utilizar Terezinha de Jesus.
ZONA SUL - Como começou a cantar?
TEREZINHA - Minha família é toda musical. Em Currais Novos, quando criança, eu cantava em coral de colégio. Mas era com aquele monte de gente, eu não era solista. Quando vim do interior para Natal, minha irmã, Odaíres, já era cantora. O marido dela, Mirabô, também cantava, tocava e compunha. Fui convidada por eles para fazer uma participação especial em um show chamado Explo 70, no Sesc da Cidade Alta. Minha primeira aparição pra valer foi essa, em 1970. Depois da apresentação - que englobava artes plásticas, mostra audiovisual e um monte de coisas - disseram que eu não podia parar.
ZONA SUL - Quando você extrapolou as fronteiras do estado? Tentou seguir carreira em qual lugar?
TEREZINHA - Fiquei cantando aqui em Natal. Uma das boas lembranças que tenho é a participação em um festival de música popular nordestina. Eu cantei uma música de dois compositores potiguares: Ivanildo Cortez e Napoleão Veras. Quero Talvez Uma Nega era o título. Vencemos em Natal e Recife e perdemos em Salvador. Continuei em Natal por mais dois anos, integrando uma turma que tinha, além de mim, Mirabô, Márcio Tarcino, Expedito e outros. Era o Grupo Opção. Fomos todos para o Rio de Janeiro.
No Rio de Janeiro:
ZONA SUL - O sucesso chegou rápido? Foi fácil?
TEREZINHA - No Rio, antes de gravar, até 1978, 1979, eu trabalhei muito. Fui vocalista de Tim Maia, fiz vários jingles, gravei com o Trio Esperança, com os Golden Boys, o Quarteto em Cy... Sempre fazendo vocal. Depois, a convite de Fagner, que estava na CBS, gravei meu primeiro elepê. Eu já tinha repertório e muita gente me conhecia. Os shows que eu fazia estavam sempre lotados. Ía muita gente do meio artístico e jornalistas. Fagner perguntou se eu queria gravar. Claro que respondi que sim. Como tinha o aval de Fagner, entrei direto no estúdio, sem precisar de testes nem nada.
ZONA SUL - E o disco? Fez sucesso?
TEREZINHA - A repercussão de Vento Nordeste foi muito boa. A CBS nem pensava em trabalhar o elepê, em investir na divulgação. Só que, de cara, o disco vendeu três mil cópias. Aí eles resolveram me botar em campo, promover viagens para shows em São Paulo. Na verdade, a princípio eles não acreditavam. Gravaram o elepê para atender a um pedido de Fagner. Mas até hoje músicas como Curare, Vento Nordeste e Na Direção do Dia (também conhecida como Toada, música que depois foi gravada pelo Boca Livre) ainda são lembradas.
ZONA SUL - Como era a vida naqueles tempos do Rio?
TEREZINHA - Eu fiz muito programa de televisão. Participei do Chacrinha, do Fantástico... Estive em todos os musicais da TVE. Quando fui ao Chacrinha pela primeira vez, estava com medo de que fizessem comigo aquela onda de jogar pó de café. Mas, antes de eu entrar no palco, prometeram não jogar nada em mim. Fiz Chacrinha tanto na TV Bandeirantes quanto na Globo. Nessa emissora também participei de um programa chamado Geração 80, que passava nas tardes dos sábados. Fiz muitas vezes Almoço Com As Estrelas. Aliás, esse foi o primeiro programa em rede comercial do qual participei. Até então eu tinha feito vários especiais na TVE do Rio e na TV Cultura de São Paulo. O primeiro foi ao lado de Joanna, que também estava começando.
ZONA SUL - Além dessa história do temor de ser atingida por pó de café no programa do Chacrinha, você lembra algum outro fato inusitado na sua carreira?
TEREZINHA - Sim. Depois do primeiro disco, todas as vezes que eu lançava um novo a CBS fazia um clip para distribuir junto às emissoras de televisão. Eu estava gravando em umas dunas na Barra da Tijuca. Tinha dez crianças comigo. A música era Odalisca Em Flor, gravada no meu último elepê. Falava em elefante. Mas como alugar um elefante saía muito caro, eles optaram por uma leoa filhote. De repente, a leoa avançou em mim. Senti aquele peso na bunda. Mas a sorte é que não me feriu. Ficou só o vermelho da marca das unhas ou dos dentes do bicho, não tenho certeza. Também não inflamou, nem precisei tomar vacina. Mas o susto foi grande.
ZONA SUL - Qual o maior sucesso de sua carreira?
TEREZINHA - A música de maior sucesso foi Pra Incendiar Seu Coração, de Moraes Moreira e Patinhas. Aliás, Moraes Moreira é um dos meus compositores favoritos. Mirabô também. Gosto muito de Paulinho da Viola e de Fagner. Gravei uma de Fagner, depois de vê-lo cantando, que ele sequer pensava em gravar. Foi a música Cigano, que se destacou muito no meu elepê Vento Nordeste e posteriormente foi sucesso com ele também. Fagner, Paulinho da Viola e Abel Silva ajudaram muito na minha carreira artística.
De volta a Natal
ZONA SUL: Por que você não continua até hoje tocando sua carreira no eixo Rio-São Paulo?
TEREZINHA - Fiquei muitos anos no Rio de Janeiro. A gente sempre volta para a terra da gente quando as coisas começam a ficar difíceis... Saí da CBS porque quis. Já estava no terceiro contrato e aquilo começava a parecer um casamento. Eu achava que minha carreira não estava evoluindo, que eles poderiam investir mais em mim, que faltava vontade pra isso. Logo após gravar Frágil Força, em 1983, botei na cabeça que se o disco não emplacasse, não fizesse um grande sucesso, eu sairia da CBS. Eu pensava que seria mais ou menos fácil, com tanto tempo de carreira e tantos trabalhos bem feitos, conseguir uma outra gravadora. É um mistério até hoje. Não sei o que aconteceu, mas cansei de procurar. Então resolvi: se não querem que eu cante, então não vou mais cantar. Voltei para Natal em 1994.

Hoje em dia
ZONA SUL - As amizades daquele tempo não dão uma força para que você possa tentar voltar a impulsionar sua carreira?
TEREZINHA - Meu relacionamento com os cantores, compositores, os amigos daquele tempo, continua ótimo. Eu até precisaria, mas não sou de pedir nada. Eu sou persistente, mas somente até certo ponto. Pelo menos resta o reconhecimento do povo. As pessoas que me conhecem sabem que fiz um trabalho legal, que ficou marcado. Quando faço shows, cantam comigo. Pra Incendiar Seu Coração, cantam todinha. Esse ano, pela primeira vez, recebi uma homenagem no Rio Grande do Norte. Foi o Prêmio Hangar, pelo conjunto da obra. A premiação teve o patrocínio do Banco do Brasil.
ZONA SUL - O que toca atualmente no seu aparelho de som?
TEREZINHA - Não ando ouvindo muito essa geração mais nova. Ainda dou preferência aos mais antigos, como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa...também gosto de Marisa Monte. De Natal, gosto de muita gente: Pedrinho Mendes, Geraldinho Carvalho, Cleudo... Mirabô gravou, no disco que Babal lançou, uma música muito boa. Quem ouviu diz que ficou linda. Pra citar as mulheres também, porque se não fica muito machista, tem Odaíres, minha irmã, que também canta muito bem, tem Lane Cardoso, Lucinha Lira, Cida Oliveira e Glorinha Oliveira. Certamente esqueci alguém, já que Natal tem muita gente boa.


27 de fevereiro de 2020


João Bosco de Araújo

Entrevista no Jornal Zona Sul - fevereiro de 2012

No dia 24 de março de 1956, dona Alzira Tavares de Araújo saiu da propriedade rural localizada em Umbuzeiro e foi até Caicó para ter o seu quarto filho. Até então, haviam nascido três meninas. João Bosco de Araújo foi o quarto e primeiro dos três filhos homens que dona Alzira teve. Bosco nasceu na cidade, das mãos de uma parteira, e voltou para o sítio. Somente alguns anos depois, retornou a Caicó para estudar. De lá, ganhou o mundo. Hoje mora em Brasília. Na capital federal trabalha como jornalista do Ministério da Saúde. Também escreve um importante blog do cenário político-cultural potiguar, o AssessoRN. Durante mais de quatro horas ininterruptas, Bosco fez uma retrospectiva detalhada de sua vida. Nesse período foram consumidas algumas garrafas de vinho, outras tantas latas de cerveja e porções de linguiça, frango assado e frango à milanesa, acompanhados de salada de maionese e farofa. O álcool e os carboidratos fizeram com que Bosco falasse como se estivesse diante de um confessionário. Nenhuma pergunta ficou sem resposta. Nenhum segredo permaneceu oculto. Testemunhando essa catarse estivemos eu e o repórter fotográfico Roque de Sá – direto de Brasília – e o jornalista Roberto Fontes e o advogado Ronaldo Siqueira, via Skype, participando de Natal.

AS MEMÓRIAS E OS SEGREDOS DE UM SERTANEJO

ZONA SUL – Você nasceu em Caicó...
BOSCO - Sim, na Rua Augusto Monteiro. A casa ainda existe, mas não pertence mais à minha família. Ela ficava no centro da cidade, em frente a uma usina de beneficiamento de algodão pertencente ao ex-governador Dinarte Mariz. Essa usina funcionou no local até os anos 1960. Depois de ter ficado fechada cerca de uma década, a usina foi demolida e o terreno passou a sediar lojas de comércio e oficina mecânica. Hoje a rua é totalmente comercial, mas a nossa casa - que foi vendida após a morte do meu pai, em 1981 - ainda existe. Meu pai, Pedro Salviano de Araújo, sempre foi agricultor e morou na zona rural. Ele nasceu no Sítio Umbuzeiro, em 1907, a 25 quilômetros de Caicó, na divisa com Ouro Branco. Minha mãe, Alzira Tavares de Araújo, nasceu em São Mamede, na Paraíba, em 1929. A casa foi vendida porque, naquele período, meus irmãos já moravam em Natal. Viúva, mamãe foi morar com os filhos. Minha mãe ainda está viva. Os pais dela foram chapeleiros: Severino Tavares de Araújo e Luzia Maria da Conceição. Casaram na Paraíba e, depois de três anos juntos, mudaram para Caicó. Foram pioneiros nessa arte de fazer chapéus de couro. Depois eles levaram vários parentes da Paraíba para morar no Rio Grande do Norte. Minha mãe e meus tios foram educados graças aos recursos que meus avós conseguiram trabalhando com a fabricação e a venda de chapéus. Em 1945 minha mãe foi designada para ser professora na região de Umbuzeiro. Lá, conheceu meu pai. Quando casaram, ele já tinha 42 anos.
ZONA SUL – A casa da fazenda onde o seu pai morava ainda pertence à família?
BOSCO – Nós a vendemos entre 1983 e 1984, mais ou menos na época em que também negociamos a casa de Caicó. Com o dinheiro, compramos a atual casa, em Natal, onde minha mãe mora hoje, aos 82 anos, com a com a minha irmã mais velha, que é professora aposentada e tem 63 anos. Nós somos sete irmãos: quatro mulheres, que nasceram primeiro, e três homens. Sou o mais velho dos homens. Minha mãe foi professora até por volta de 1952, quando nasceu sua terceira filha. A partir daí ela entregou o cargo na prefeitura e passou à atividade doméstica. Aposentou-se pelo INSS como costureira. Meu pai, antes de se casar, era comerciante-tropeiro. Ele conduzia os animais para o trabalho em usinas de cana-de-açúcar instaladas no sul de Pernambuco. Após o casamento, em 1947, se dedicou exclusivamente à família, na fazenda.    
ZONASUL – Quais as recordações que você guarda dos seus primeiros anos de vida?
BOSCO – Minha mãe resolveu desde cedo que educaria os filhos, ao invés de nos deixar seguir a sina de ser vaqueiros. Meu pai queria que os filhos fossem caminhoneiros. Antes de casar, ele foi noivo de uma mulher, Severina, mas não casou com ela. Meu pai foi vivo, escolheu minha mãe, que era professora, ao invés de Severina, que era analfabeta. A gente nascia em Caicó e depois ia para o sítio. Quando chegava a época de estudar, ia para a casa do meu avô, pai da minha mãe, na Rua Augusto Monteiro. Meus irmãos se chamam Gilberto e Flávio. Depois que três das minhas irmãs – Socorro, Salete e Sônia – já estavam estudando e morando nessa casa do meu avô, quando chegou a vez de minha irmã Suelen ir também, meu pai comprou a casa vizinha à do meu avô. Nós, os filhos que estudávamos, moramos lá. Meus pais iam duas vezes por semana visitar a gente e levar mantimentos, como leite e queijo, que eles mesmos produziam. Um desses dias era o sábado, que era dia de feira.
ZONA SUL – Quer dizer que a sua infância foi um pouco distante dos seus pais.
BOSCO – Sim, por isso tive mais afinidade com a minha avó. Fui alfabetizado na escola de Dona Marizene. Nasci na cidade, nas mãos de uma parteira. Meu pai era um pequeno fazendeiro, tinha 300 hectares de terra. Como a região é pobre, ele era, digamos assim, classe média. Até os sete anos morei na roça, mas como privilegiado, na fazenda. Por perto tinha gente que passava fome. A gente naquela alegria, no jantar, e eles bem pertinho da casa grande onde a gente morava. Eu, como criança, não percebia isso. Tomei consciência depois. Meu pai ajudava essa família. Nós, os filhos, éramos ilhados desses problemas sociais. Meu pai era generoso, também costumava ajudar os parentes e os vizinhos que mais precisavam. Ele tinha uma caminhonete 1951 Chevrolet, comprada em Campina Grande. Esse veículo transportou muita gente na região. Outras pessoas tinham carro, mas não davam carona nem nada. Meu pai era o contrário. Chegava gente de madrugada pedindo para levar alguém para o hospital. Até defunto ele carregou em cima dessa caminhonete. Fazia sem cobrar nada. Ajudava a quem podia. Minha mãe tinha outras características marcantes, como seu lado de liderança e de organização muito fortes.
ZONA SUL – De quais jogos e brincadeiras você participou na infância?
BOSCO – Eu gostava muito de jogar futebol. Também fazia coruja, que chamam de pipa. A barra-bandeira era toda noite, era sagrado. Lembrei-me de um fato interessante: quando criança eu era metido a besta e meu apelido era Boscão. Eu era valente, mas depois, quando cresci, coitado... (risos) Deus sabe o que faz! Nunca tive inimigo, mas, quando criança, andei me estranhando com um colega conhecido por Geraldo Besteira. Nossa turma brincava de manzuá, de bandido, de tica... Tinha também o garrafão. Uma vez, brincando de garrafão, dei uma lapada tão grande que Geraldo Besteira caiu. Nessa brincadeira, quem fica por último leva uma porrada. Um tempo desse ele veio falar comigo, em Natal: “Bosco, você se lembra que a gente era intrigado?”. (risos)
ZONA SUL – Então vocês já fizeram as pazes.
BOSCO – Sim. Quando eu era criança, não podia ver alguém da minha idade que dava vontade de bater nessa pessoa. Tinha uma raiva danada de menino. Lembro também que eu costumava ameaçar um senhor, contratado do meu pai, que fazia remonte de selas e cangalhas de animal. Eu costumava dizer a ele: “vou matar você, seu velho safado”. (risos). Nessa época eu adorava ameaçar que matava, que esfolava... Eu tinha mesmo uma inclinação muito ruim. Acho que se eu tivesse nascido antes, teria virado um cangaceiro ou um bandido.
ZONA SUL – Então se pode dizer que Lampião teve sorte, não foi obrigado a enfrentar a sua concorrência. (risos). Você
BOSCO – Não vamos exagerar... (risos). Mas eu queria contar que quando meus tios - os irmãos da minha mãe - foram embora para São Paulo, deixaram muitos livros. Li muitas publicações de filosofia lá na casa da minha avó. Mas o que eu gostei mesmo foi da sobra deixada pelo meu tio Antenor, que era uma pessoa bem participativa na vida social. Tio Antenor teve até blocos de carnaval. Foi com esse material que aprendi a tocar tamborim, chocalho e outros instrumentos de percussão. Hoje sou percussionista. Aproveitei as sobras do bloco de carnaval do meu tio para aperfeiçoar nossas brincadeiras. Por exemplo: fizemos o nosso próprio circo. Eu era o diretor: armava as tramas, as cenas... Nos Sete de Setembro, também, a gente construía os instrumentos e tocava na rua.
ZONA SUL – E os estudos?
BOSCO - Eu cursava o ginásio. Quando terminava a aula - depois que almoçava, em casa - ia brincar na rua, ao invés de estudar. Sorte que eu não era muito burro, pelo contrário, era sabido. Enquanto alguns colegas bagunçavam durante as aulas, eu ficava na minha escutando, prestando atenção, vendo o que a professora ensinava. O dever de casa eu já fazia na hora em que estava copiando no caderno. Já levava para casa tudo pronto. No outro dia era só entregar a ela.
ZONA SUL – Você já pensava em ser jornalista?
BOSCO - Até a véspera de eu fazer vestibular, queria ser engenheiro. Esse era o meu sonho. Já o meu pai queria que eu fosse advogado ou juiz. Foi em 1968, quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, que começou a aparecer essa escoliose que tenho até hoje. A partir daí a minha vida e a minha personalidade começaram a mudar. Passei a me sentir rejeitado. Com a escoliose, passei a ser excluído. Meu pai até tinha condições financeiras de pagar um tratamento para mim, quando o problema apareceu. Seria até fácil corrigir, eu soube depois. Hoje em dia até com exercícios feitos na natação se corrige. Minha irmã, com o mesmo problema, já tinha se submetido a um tratamento com colete. Mas parece que ficou pior, não houve êxito nesse tratamento. Provavelmente por isso meus pais resolveram não repetir esse tratamento comigo.
ZONA SUL – Você ficou revoltado quando passou a se sentir rejeitado?
BOSCO – Sim, um pouco. Eu me olhava no espelho e não aceitava. Como já tinha uma inclinação ruim, sem perceber eu descontava maltratando as pessoas. A única coisa boa é que fui dispensado da educação física. Mas, em compensação, eu queria jogar bola e não podia. Também fui excluído da banda da cidade. Eu tocava tarol como ninguém. Esse é um instrumento muito difícil, requer muita habilidade. A banda tocava no desfile de Sete de Setembro. Cheguei a desfilar um ano, mas, logo em seguida, fui desligado do grupo. Então, excluído da educação física, dos jogos e do desfile, criei a minha própria banda e a brincadeira de circo com os colegas. Construí um tarol com couro de gato. Consegui restos do couro em oficinas de instrumentos musicais. Alguns dos instrumentos da banda aproveitamos das sobras do meu tio. As cornetas foram feitas com mangueira. A gente saía à noite tocando nas ruas próximas lá de casa. Muitos que tocaram comigo, depois foram para a banda da cidade. Anos depois surgiram em Salvador aquelas bandas, como a Olodum, montadas com a participação da população. Mais ou menos como a gente tinha feito lá em Caicó. Nas brincadeiras de circo eu tocava uma bateria construída por mim mesmo. Além de diretor, eu era o baterista. A gente usava um armazém abandonado para as brincadeiras. O lugar tinha sido uma fábrica de queijo. Esse ano foi muito intenso de brincadeiras: só não rui reprovado na escola por milagre. Dois colegas não tiveram essa sorte. Na verdade, a gente não estudava, só brincava.
ZONA SUL – Por que você saiu de Caicó e para onde foi?
BOSCO – Morei em Caicó até 1973, quando completei 17 anos. De lá fui para São Paulo. Resolvi ir embora para um centro grande justamente por me sentir excluído. Eu ia para os clubes e não arranjava namorada. As mulheres só queriam galã. Na escola eu era vítima de piadinhas, como me chamarem de Nélson Ned. Mas eu levava na esportiva e respondia: “eu não pareço com Nélson Ned, ele é quem parece comigo”. Apesar de eu não me incomodar mais com essas gozações, comecei a beber. Caicó não tem muitas diversões a não ser frequentar bares. Como eu não estava fazendo muito sucesso nos clubes perto lá de casa, passei a frequentar os bairros mais afastados, como o João XXIII, onde as meninas pobres não tinham aquele “cu doce” comum nas garotas da sociedade. Naquele tempo eu bebia conhaque e cinzano. A gente arrumava as meninas e descia para a beira do rio. Na época não se transava, mas a gente tirava um sarro. Na periferia tudo transcorria numa boa. Foi quando minha irmã se casou com um marceneiro. Desempregado e sem formação acadêmica, precisando trabalhar, ele atendeu ao convite do Tio Antenor, que já morava em São Paulo, e foi tentar a sorte na capital paulista. Minha irmã me convidou para ir com eles e eu topei.
ZONA SUL – Pelo visto, já que você não estava fazendo nada mesmo, deixar Caicó não foi tão difícil.
BOSCO – Eu não tinha concluído ainda o segundo grau, o ano letivo sequer tinha terminado, mas, mesmo assim, fui. Antes de ir para São Paulo eu tinha trabalhado com o namorado de outra irmã. Ele era representante do Óleo Mavioso, produzido em Jardim do Seridó. Eu tinha uns 15 pra 16 anos. Arrecadava o dinheiro no comércio de Caicó e levava para Jardim, de do ônibus. Isso me deu muita responsabilidade. No final de semana esse “cunhado” saía com a minha irmã e me levava.  A gente ia tomar cerveja na AABB. Na hora da conta, enquanto todos pensavam que ele estava bancando a minha parte, acontecia era o contrário: ele registrava tudo e descontava na hora de pagar meu salário. Nesse emprego eu só ganhei experiência, responsabilidade e a bebida. Quando fui para São Paulo, arranjaram um senhor para me substituir. Na primeira viagem ele roubou uma caixa de óleo. Botaram pra fora e contrataram meu irmão, Gilberto. Ele era mais novo do que eu um ano. Quando eu estava mamando, ele nasceu e tomou o peito de mamãe. Eu era puto com ele. (risos). Quando cresceu virou um monstro, de grande. Depois sofreu um acidente e quase morreu. Hoje esse meu irmão trabalha no Bradesco.
ZONA SUL – Como foi a vida em São Paulo?
BOSCO – Fiquei dois anos em São Paulo, até 1975. Morei no bairro Santana. No primeiro ano, por já ser final de ano letivo, fiz um curso de contabilidade, à noite. No ano seguinte fui estudar em uma escola estadual perto da casa do meu cunhado. Lembro que certa vez o professor de literatura organizou um trabalho de pesquisa que era visitar algumas redações de veículos de comunicação em São Paulo. Foi quando estive no Estadão, no Grupo Abril, na Folha... Achei aquela vida bacana. Gostei do tipo de trabalho, ali sentado, escrevendo. Mas eu queria ainda era ser engenheiro. Naquele tempo eu era bem magro. Em seguida fui para o alistamento do Exército. Fui dispensado por insuficiência física. Paralelo a isso comecei a assistir os programas de Benito de Paula. Na metade dos anos 1970 o Brasil estava cheio de problemas sociais, a luta contra o regime militar estava pegando fogo e a ditadura continuava a torturar nos porões, enquanto os guerrilheiros assaltavam bancos e sequestravam diplomatas. E eu permanecia alienado a tudo isso. Só me politizei na universidade.
ZONA SUL – Em São Paulo você conseguiu trabalhar?
BOSCO – Fui para São Paulo dar um pontapé inicial na minha vida, na minha carreira. Quando completei 18 anos comecei a fazer testes em empresas. Fiz um curso de auxiliar administrativo, da prefeitura, que incluía datilografia e relações públicas. Passei a fazer provas para trabalhar como contínuo. Tentei na Credicard, no Banco Mercantil de São Paulo e em outros locais. Foi quando minha irmã, depois de ter desistido de um trabalho que arranjou, resolveu voltar para Caicó. Como eu não tinha conseguido nem emprego, nem namorada, voltei com ela. Apesar de não ter sequer iniciado a minha vida profissional em São Paulo, em compensação foi lá que que tive a minha primeira noite como homem.
ZONA SUL – Como foi?
BOSCO – Fui até a Boca do Lixo com o irmão do meu cunhado. Lá ele me deu uma grana para eu pagar a prostituta e foi embora. As “meninas” ficavam desfilando com aquelas botas de salto alto. Eu nem tinha carteira de identidade, levei o registro de nascimento no bolso. Naquela época não tinha Aids, só tinha doença venérea. Esse cara me deixou na Boca do Lixo como quem solta um bicho faminto. Peguei uma mulatona novinha. Fomos a um hotel que cobrava por hora. Funcionava em um prédio antigo. Na portaria, pediram meus documentos. Lá em cima tinha vários quartos. O pagamento era adiantado. Só que, quando o cliente estava animado, um cara vinha e batia na porta mandando apressar, dizendo que o tempo tinha acabado. Por conta dessa agonia toda, nessa minha primeira vez nem houve penetração. Não deu tempo. Quando acabei, a mulher se levantou, se lavou e caiu fora. Mas foi bom porque aprendi o caminho.
ZONA SUL – Como foi o retorno a Caicó?
BOSCO – Na volta concluí o segundo grau no Colégio Diocesano. Cheguei na cidade usando cabelo black power e calça boca de sino. No primeiro dia no colégio a professora perguntou de onde eu estava vindo. Quando respondi que era de São Paulo, as meninas completaram: “do Potengi... São Paulo do Potengi”. Terminei o científico e fui prestar vestibular em Natal. Como eu sempre tirei notas razoáveis em Caicó, achei que seria aprovado. Foi uma decepção quando saiu o resultado e não passei. Reprovado, com o apoio das minhas irmãs entrei no Ferro Cardoso. No cursinho comecei a despertar para o jornalismo. Foi quando chegou a notícia de que haveria vestibular para o curso de jornalismo, em Campina Grande. Passei. Isso foi em julho de 2007. Fiquei três anos e meio lá. Na época do cursinho eu morava na casa de um irmão da minha mãe, na Rua Joaquim Fagundes, na Praça Augusto Leite.
ZONA SUL – Foi na faculdade de Campina Grande que surgiu seu interesse pela política?
BOSCO – Sim, no curso de jornalismo foi que passei a ter consciência social e humana. Como eu falei, em São Paulo era totalmente alienado. Na faculdade comecei a despertar vendo aqueles grupos, o sentimento de antiamericanismo... Como eu tive uma formação religiosa muito forte, ficava confrontando o comunismo com a religião. Minhas avós são católicas, vim dessa tradição. A mãe do meu pai era rezadeira, era beata, vivia rezando terços. Na época da universidade eu achava que o socialismo era bom. Mas não concordava com o comunismo, devido a minha formação. Não cheguei a pensar em ser guerrilheiro, mas tinha certa tendência de esquerda. Eu nunca entrei naquele fanatismo de pregar que tudo que é americano não presta. Porém, nunca gostei da política deles de tirar o que é nosso, de ter aproveitado o momento político brasileiro para apoiar o golpe militar de 1964. Eu sabia que se o americano era ruim, o russo poderia ser pior. Na minha lógica, ao invés de escolher entre um e outro a gente tinha que ser brasileiro mesmo.
ZONA SUL – E o jornalismo?
BOSCO – Sempre gostei de ler e de ir ao cinema. Aos 17 anos eu acompanhava Osni Damásio – que hoje também é jornalista – no mural que ele fazia no colégio e também nas cartas que ele escrevia para emissoras de rádio de ondas curtas, como as rádios Moscou, Vaticano, BBC e Voz da América. Na adolescência eu escrevia crônicas e mandava para as emissoras de rádio. Assinava com pseudônimos, tipo Johnny Boscóli, e ficava aguardando para escutar esses textos serem lidos. Ninguém sabia que era eu. Perto de concluir jornalismo, em 1980, passei em um concurso do IBGE para trabalhar no censo, como recenseador. Estudava pela manhã e fazia as pesquisas nas casas à tarde. Esse emprego me rendeu uma boa poupança. Com o dinheiro comprei meu primeiro paletó e paguei as despesas da minha festa da minha formatura. O trabalho no IBGE era com carteira assinada, apesar de provisório. Éramos regidos pela CLT. A turma que trabalhou comigo foi admitida definitivamente, depois de recorrer à Justiça. Eu não pleiteei esse direito porque preferi atender ao chamado de minha irmã para voltar a morar em Natal.
ZONA SUL – Tinha algum emprego certo na cidade?
BOSCO – Não, mas consegui um estágio na Rádio Rural. Eu recebia umas fichas para fazer ligações em orelhão e ia para a rua, entrevistar o povo. Eu não recebia salário. Fiquei lá até Orlando Caboré me indicar para fazer um trabalho de pesquisa na Fundação José Augusto. Era um levantamento sobre a história dos municípios. Fui para Serrinha e fiquei dois meses pesquisando. Vivi esse período na maior mordomia... Foi a partir daí que comecei a engordar. (risos). Depois de Serrinha, como gostaram do meu trabalho, me enviaram para Santo Antônio. Quando concluí o trabalho, não teve mais outra, acabou o emprego. Resultado: fiquei desempregado. Fiz concurso para a UFRN, em 1981. Nessa época a cachaça era o centro de tudo. Isso me lascou. Dos 300 candidatos, apenas seis foram aprovados para a prova prática. Eu estava entre eles. O emprego era no laboratório fotográfico do curso de jornalismo da Universidade. Na noite anterior à prova, enchi a cara na festa de aniversário de um sobrinho. Nem pensei que no dia seguinte tinha a prova. Quando cheguei na universidade, ainda estrava tremendo. Mandaram-me tirar uma foto, revelar e copiar. Não consegui nem colocar o filme na máquina. Não sei o que foi aquilo, mas fui reprovado.
ZONA SUL – Foi aí que você se mudou para Fortaleza?
BOSCO – Um parente do meu pai era dono de uma empresa de informática de Fortaleza que era ligada à Sistema Informática, de Natal. Esse parente do meu pai tentou conseguir um emprego pra mim na Sistema. Não consegui a vaga porque acharam que eu era comunista. O jeito foi ir trabalhar no Ceará. Isso foi em 1982. Comecei arrumando pacotes, embalando e despachando para os caminhões entregarem nas empresas. Daí, progredi e fui para a digitação. Cheguei até o setor de vendas, local onde se trabalhava de paletó. Era a turma que vendia os produtos, que firmava os contratos. Desisti porque vi que aquilo não dava para mim. Voltei para Natal e fui novamente procurar emprego. Nessa época meu pai tinha morrido, a fazenda estava abandonada e a minha mãe estava só. Fui morar com ela e trabalhar no jornal que Paulo Tarcísio estava montando.
ZONA SUL – Você demorou muito tempo com Paulo Tarcísio?
BOSCO – Não. Minha irmã conseguiu uma vaga pra mim no “trem da alegria” promovido pelo então governador José Agripino. Fui para a TV Universitária através daquele convênio com o SITERN. Rogério Cadengue me levou para lá. Fui pauteiro, coordenador de telejornalismo, redator, produtor, coordenador de rede, pauteiro, editor de textos e de imagens, entre outras atividades. Quando Geraldo Melo assumiu o governo, como eu era formalmente lotado na Secretaria da Educação, fui convidado para trabalhar na redação oficial de lá. Fiquei quatro anos, recebendo também uma gratificação. Nessa época Geraldo Melo acabou com os técnicos A, B e C e formou a categoria de Técnico de Nível Superior. Passamos a ganhar, como jornalistas, o equivalente a médico: 10 salários mínimos. Os professores ficaram putos, pois Geraldo Melo privilegiou somente os jornalistas e a polícia. Só que como o salário não era vinculado ao salário mínimo, em poucos anos a inflação comeu tudo.
ZONA SUL - Por que você pediu as contas do Estado?
BOSCO – Antes de sair, em 1990, houve outro concurso para trabalhar no censo do IBGE. Fernando Collor era o presidente da República. Fiz concurso para supervisor e passei.
A legislação permitia acumular com o emprego no Estado. Desde o primeiro, os censos no Brasil eram realizados a cada dez. Só esse, que deveria ter sido em 1990, passou para 1991. Collor aguardou ser aprovado o Regime Jurídico Único para não ser obrigado a efetivar quem trabalhasse no censo. Voltei para a TVU, no turno noturno, enquanto trabalhava no censo durante o dia. Terminado o censo, permaneci na TV. Em 1994, já no governo Itamar Franco, fui aprovado em um concurso para o Ministério da Educação. A prova foi em João Pessoa, em julho. No mês seguinte saiu o resultado: passei em segundo lugar. Eu não estava inscrito nas vagas de deficiente. No mesmo período passei para a Polícia Federal, para escrivão. Não fui aceito no teste físico.
ZONA SUL – O MEC lhe chamou?
BOSCO – Em virtude de o resultado do MEC ter saído perto das eleições, não podia haver contratação. Foi adiada para o próximo ano. Minha vaga era em Cuiabá, no Mato Grosso. Na Delegacia do MEC de Natal me informaram que eu trabalharia em Cuiabá. Eu soube que o primeiro lugar havia desistido e que eu seria o primeiro a ser contratado. A vaga era minha, mas não pude ser nomeado, por causa das eleições. Pediram para eu adiantar a minha documentação e mandaram aguardar, pois a contratação seria em janeiro. Só que Fernando Henrique Cardoso, logo que assumiu a presidência, suspendeu todas as nomeações. O concurso tinha validade de dois anos. Esse primeiro prazo foi renovado para 1998. Mesmo assim, não fui chamado. Em 1997 eu ainda estava na TV-U. Resolvi ir a Cuiabá e, para isso, pedi uma licença especial de três meses. Um amigo meu, militar, estava terminando o tempo dele em Rondônia. Chamou-me para passar por lá, antes de ir a Cuiabá. Embarquei no ônibus, em Natal, em uma segunda-feira, às seis da tarde. Cheguei na sexta, ao meio-dia, em Porto Velho. Estava todo quebrado. Fiquei uma semana em Porto Velho. Logo ao chegar - como era o meu aniversário - fui logo para um cabaré, comemorar. Lá conheci uma mineira do cabelão. Era primeira. Fiquei uma semana com essa mulher. Apaixonei-me e decidi levá-la para Mato Grosso. Expliquei que estava indo morar em Cuiabá para assumir um emprego. Ela topou ir comigo. Essa mineira tinha uma filha. Foi expulsa de casa aos 16 anos, quando a menina nasceu. A criança foi criada pela avó. Passei a semana namorando com ela. O combinado era eu deixá-la em Pontes de Lacerda enquanto eu resolvia a vida em Cuiabá. Não deu certo.
ZONA SUL – Você chegou a ir mesmo até Cuiabá?
BOSCO – Sim. Fui apresentado como o novo funcionário que seria nomeado em 15 dias. Já tinha uma sala com computador, pronta pra mim. O chefe disse que eu ficasse esperando a nomeação, mas eu respondi que tinha que ir a Natal pegar minha roupa. Na verdade, viajei foi para Brasília. Fui no Ministério da Educação, procurar saber a quantas andava a minha nomeação. Estava na mesa do ministro Bresser Pereira. Voltei para Natal. O governo estava com um programa de demissão voluntária. Aproveitei e assinei minha demissão. Cresci os olhos, pois tudo indicava que eu seria nomeado e não poderia manter os dois empregos. Só que veio a crise e Fernando Henrique acabou com as nomeações. Fiquei desempregado. Com o dinheiro da rescisão, depois de 13 anos de serviço, comprei três carros e fui trabalhar com um amigo, alugando veículos. Paralelo, fui escrever como colaborador nos jornais de Natal. Um dia, entregando uma crônica no Diário, fui convidado para trabalhar por Osair Vasconcelos. Era para atuar no interior, em um projeto sobre os municípios. Era ano de eleição. O projeto que duraria até lá. Topei. Ganhava sete salários mínimos. Era dinheiro demais pra quem estava desempregado. Mesmo assim, botei banca: pedi, além do salário, uma assinatura do jornal.
ZONA SUL – O projeto durou mesmo até as eleições?
BOSCO - O projeto foi um sucesso tão grande que o caderno continuou, mesmo após a eleição. Fiquei dez anos nesse trabalho, só que eles nunca assinaram a minha carteira. Quando a nova direção chegou no Diário, nem pôde me demitir, já que eu não tinha carteira assinada. Eu ia trabalhar todo dia, como se fosse bobo. Eles prometiam assinar a carteira e regularizar a minha situação. Nesse período que fiquei lá, junto com Paulo Tarcísio, revitalizamos a Rádio Poti. O projeto dos municípios passou a ser programa de rádio também. Mas isso durou pouco, logo em seguida a Rádio Clube tomou conta da Poti. Foi aí que aconteceram as demissões. O Sindicato dos Jornalistas botou um advogado e eu fui indenizado quando saí. Na verdade, eu tinha começado com sete salários mínimos, mas, no final, o salário não valia mais nada. Comecei a me endividar. Vendi um carro, um golzinho que tinha, para pagar o cartão de crédito. Os juros do cartão tinham engolido tudo. A locadora já tinha acabado há quatro anos.
ZONA SUL – Você casou? Tem filhos?
BOSCO - Vivi junto com uma mulher e tive uma enteada que me adotou. Hoje ela é minha filha, a Maria Fernanda. Ela me adotou: disse que eu era o pai dela, com dois anos de idade. Achei isso muito bonito. Passei um tempo com essa mulher. Depois que perdi o emprego, perdi a mulher também. Foi quando resolvi vender o carro e comprar um computador para voltar a estudar. Isso foi em 2009. Naquela época estavam ocorrendo muitos concursos. Depois de seis meses estudando, fiz concurso para o IBGE, para recenseamento. Passei, mas não me chamaram. Até então eu fazia concurso disputando as vagas normais. Foi quando um médico falou que eu podia utilizar o meu atestado de insuficiência física que me dispensou do serviço militar para pleitear a cota de portador de necessidade especial. Minha escoliose permitia isso. Resolvi tentar na área de jornalismo: passei em três. O primeiro que me chamou, em 2010, foi o Ministério da Saúde, em Brasília. Estou trabalhando nesse emprego até hoje.
ZONA SUL – Além dele, você também tem um blog.
BOSCO – Tenho esse blog desde 2006, quando trabalhava no Diário de Natal. As matérias que eu fazia, as dos municípios, eu aproveitava e colocava no blog. Foi na época do surgimento dos blogs. Como o meu trabalho era mais ou menos uma assessoria, eu coloquei ASSESSORN, mistura de Assessor com RN, de Rio Grande do Norte. Quando saí do jornal, uma das atividades que mantive foi escrever para o blog, mesmo sem receber remuneração nenhuma. O endereço é www.assessorn.com . A média de acessos chega a quase mil por dia. Além das notícias, no blog também estão disponíveis artigos que eu publiquei em vários veículos de comunicação. Pretendo reuni-los para lançar um livro. Tenho muita coisa que merece ser publicada.

7 de maio de 2018

ENTREVISTA: SÉRGIO FARIAS NO JORNAL ZONA SUL - OUTUBRO 2011


                                                                    Sérgio Gondim


Incluído em qualquer relação dos melhores músicos potiguares, o violonista e compositor Sérgio Gondim Miranda de Farias nasceu no Rio de Janeiro. Algumas semanas antes de embarcar para uma longa temporada na França, ele conversou comigo, com o jornalista Roberto Fontes e com o advogado Ronaldo Siqueira. O anfitrião, como não poderia deixar de ser quando as entrevistas são realizadas em Natal, foi o Veleiros Restaurante, de Ricardo Menezes. Durante pouco mais de uma hora, Sérgio Farias traçou um resumo de sua trajetória. Falou sobre os irmãos músicos, as precoces apresentações nos barzinhos de Natal, o retorno ao Rio para se aperfeiçoar no violão, o festival de música da Rede Globo e sua primeira ida à França. Vamos acompanhar o que Sérgio tem para contar. (robertohomem@gmail.com)

DE VOLTA AO VELHO CONTINENTE

ZONA SUL – Você não nasceu no Rio Grande do Norte...
SÉRGIO – Nasci no Rio de Janeiro. Meu pai, José Miranda de Farias, era militar da Marinha: vivia viajando. A vida de militar era itinerante. Minha família morou em Belém, Recife, Rio de Janeiro e em Natal. Mamãe era daqui de Natal. Somos sete irmãos. Fui o único que nasci fora. Todos os outros são de Natal. Passei só dois anos e pouco no Rio, não assimilei nada. De lá, meu pai fixou-se com a família em Natal. Só voltei ao Rio já velho.
ZONA SUL – Quer dizer que você não acompanhou a vida itinerante do seu pai.
SÉRGIO – Não. Peguei o final, quase a aposentadoria dele. Meu pai era militar da parte médica, era dentista. Sua participação nas Forças Armadas era mais leve. Nunca senti papai militar, até porque ele deixava essa faceta na Marinha. Fora alguns stress, ele não trazia para dentro de casa.
ZONA SUL – Sua mãe tinha alguma ocupação?
SÉRGIO – Mamãe, Guacyra Gondim Miranda de Farias, é uma heroína, como toda mãe. Além de ter criado os sete filhos, quando completei uns sete anos ela voltou à faculdade. Concluiu e passou a atuar como professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi engraçado porque eu acompanhava, como criança, essa participação científica dela. Os outros curtiram mais o lado dela de mãe. Na minha época ela passava o dia todo na universidade, pesquisando.
ZONA SUL – Ela pesquisava em qual área?
SÉRGIO – Bioquímica. Começou a pesquisar nessa área numa época em que não havia nem centro de pesquisa. Os equipamentos eram adaptados. Quando os pesquisadores de São Paulo vinham a Natal, achavam surpreendente a maneira como os pesquisadores daqui trabalhavam, sem aquele apoio tecnológico ao qual eles estavam habituados. Hoje - graças a esse desbravamento feito por ela e por uma geração de pesquisadores – a bioquímica de Natal é superequipada. Logicamente ainda não é comparada a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, mas já atingiu um nível importante.
ZONA SUL – Seus pais tinham alguma ligação com a música?
SÉRGIO – Tanto a família da minha mãe como a do meu pai gostavam muito de música. Eu tinha menos contato com a família do meu pai, que é de Pernambuco. Às vezes a gente passava anos sem se ver, mas quando se reencontrava, parecia que tinha acabado de se deixar. O pernambucano têm um espírito muito vivo e alegre. Não é a toa que o frevo nasceu lá. Meu avô, Mário Henrique de Farias, gostava de cantar e de dançar. Contam que ele saía de casa para dançar. Mas não era em clubes, como hoje. Ele morava no interior, no distrito de Casinhas, em Surubim. Saía de noite para cantar e dançar ciranda com as crianças, na rua. Nem precisava de acompanhamento: era só o canto e as palmas. Quando a gente chegava em Pernambuco, sempre tinha uma ciranda da família nas nossas reuniões.
ZONA SUL – E na família da sua mãe?
SÉRGIO – Dois tios gostavam muito de música e de boemia: Carlos Gondim, o filho, e Tota, o Fernando Antônio. Dentro da minha casa também tinha música. Meu irmão mais velho, Mário Henrique (as pessoas o conhecem pelo trabalho que fez na Banda Anos 60), é um compositor fantástico. É impressionante a tranquilidade com a qual ele toca bossa nova. Ele tem uma facilidade enorme de acompanhar.
ZONA SUL – Mário Henrique foi a fonte através da qual você se inspirou para ingressar no caminho da música?
SÉRGIO – Não sei. De qualquer forma era uma facilidade muito grande ter, dentro de casa, uma referência ótima de violão. No começo eu queria tocar como ele. Mas não havia disputa, porque além de ele tocar muito mais do que eu, na verdade comecei estudando bandolim. Por tocarmos instrumentos diferentes, ele geralmente me acompanhava. Outro irmão, Carlos Gondim, também me acompanhou muito, tocando violão. 
ZONA SUL – Nas suas brincadeiras de criança a música entrava de alguma maneira?
SÉRGIO – Dividi muitas brincadeiras com meus primos. A família pra mim era uma coisa muito legal. Tive muitos primos praticamente da mesma idade. Às vezes juntávamos uns oito, todos na mesma sintonia. Naquela época a gente era mais solto, tudo era mais natural. Sem jogos eletrônicos, o negócio era a criatividade. Brincávamos de forte apache, de jogar bola ou outros jogos coletivos, como esconde-esconde, 31 alerta... Nunca esqueci certa ocasião quando, ao término das férias, comecei a pensar que a volta às aulas significaria uma diminuição no ritmo daqueles encontros. Eu tinha uns sete anos. Foi quando Elis Regina interpretou: “O bêbado e o equilibrista”. Um mês depois de aquelas férias acabarem, bastava eu escutar aquela música que eu caía no choro. A dose emocional era duplicada: o fato das férias terem acabado e própria música, que de tão bonita mexia lá no fundo. Quando a música acabava, eu repetia e chorava de novo. Apesar de naquela época eu já escutar muita música, foi essa a primeira pancada musical que recebi.
ZONA SUL – O que você ouvia?
SÉRGIO – Carlinhos, meu irmão, brincava dizendo: “Serginho, você gosta de escutar esse tipo de música para agradar papai”. Senti uma empatia muito grande com algumas músicas de compositores que saíram em uma coleção de música popular brasileira. Nela vinham discos encartados com seis músicas. Eram de um tamanho intermediário: nem compacto simples, nem longplay. Nessa coleção descobri João de Barro e Alberto Ribeiro, Ismael Silva, Ary Barroso. Gostava mais deles do que dos mais modernos, como Caetano Veloso. Uma das músicas que eu mais gostava era “Antonico”. Quando comecei a tocar violão, com oito ou nove anos de idade, eu já sabia essas músicas.
ZONA SUL – Como você começou a tocar?
SÉRGIO – Aprendi o básico e pouco a pouco passei a conhecer um acorde ou outro mais complexo com meu irmão Mário Henrique. Os sambas que eu gostava não eram tão difíceis como a bossa nova, que tem acordes demais. Não tinham harmonia nem melodia difíceis, nem enorme sofisticação. Mas a letra e a melodia eram bem feitas. Outra música ótima que recordo é “Seu Libório”, de Alberto Ribeiro e João de Barro. Ainda tenho vontade de criar um grupo chamado “Lado B”, pois sempre gostei dessas músicas que ficavam do lado menos interessante do disco. Antigamente o lado A do disco tinha as músicas mais populares. No segundo lado as gravadoras deviam dizer para o artista: “nesse aí você faz o que quiser”. O primeiro lado era para vender o produto. Eu sempre gostei do segundo lado.
ZONA SUL – Mas você estava contando como começou a tocar... Você participou de algum grupo musical na escola?
SÉRGIO – Minha participação na escola, sobretudo até o ginásio, não teve nada a ver com música. As pessoas só sabiam que eu tocava quando tinha, por exemplo, um encontro. Até porque estudei no Colégio Marista no finalzinho da ditadura. Ainda tinha um ranço danado. Não foi uma época boa.
ZONA SUL – Você foi bom aluno?
SÉRGIO – Nunca fui bom aluno. Engraçada essa coisa de ser bom aluno. Somente quando fui convidado pela UFRN para participar de uma banca, de um júri, e para falar sobre a minha experiência na França, foi que me dei conta que nunca tinha gostado de estudar. Apesar disso, fiz uma quantidade enorme de cursos musicais. Só pós-graduações, fiz umas três. Apesar de não ser tão dedicado, enquanto estudava, procurei sempre aprender e absorver alguma coisa. Sobretudo depois de mais velho. Até a universidade, eu estudava para me livrar daquela obrigação.
ZONA SUL – Você foi aluno da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte?
SÉRGIO – Sim, fiz mecânica na ETFRN. Se pagassem bem, naquela época, a um técnico de mecânica, eu teria seguido carreira. Adorava abrir um motor, regular um carburador. Depois fiz até o terceiro ano de engenharia mecânica. Vi que não queria aquilo quando fui fazer um estágio. Descobri que o engenheiro tinha que ficar em uma mesa, desenvolvendo projetos, sem se sujar com nada. Eu não queria ser o engomadinho da mecânica. Tive o bom senso de desistir na metade do curso. Depois fiz educação artística, com habilitação em música. Eu queria fazer música, mas não tinha.
ZONA SUL – O que veio primeiro: suas composições ou as apresentações?
SÉRGIO – Comecei acompanhando alguns artistas. Na época foi difícil, pois eu era bem novinho, tinha 16 anos. As primeiras apresentações fiz com Edimar Costa, da Caixa Econômica. Ele também era um cara novo e tinha a versatilidade de acompanhar vários estilos. Edimar gostava muito de Gonzaguinha. Antes de a gente se apresentar, ele teve que ir conversar com o meu pai, assegurar que eu não me envolveria com bebida...
ZONA SUL – Foi quase como um pedido de noivado...
SÉRGIO – Foi. Papai achava a música legal em casa. Mas ele tinha um medo danado da boemia, sobretudo de os filhos passarem a beber. Como eu era o mais novo, a preocupação crescia. Papai não tinha medo de a gente entrar no mundo da droga. Até porque a droga era um negócio escondido e distante da vida de todos nós. Não havia nem recomendação com relação a isso.
ZONA SUL – Onde foram suas primeiras apresentações?
SÉRGIO – Nos bares em Ponta Negra, como “Casa da Sogra”. Tocávamos eu, Edimar, Fábio Fernandez, no baixo, e Carlinhos, na bateria. Depois dessa fase, comecei a fazer uns cursos de harmonia. Não lembro se eu paguei integralmente esses cursos, mas sei que no começo papai não queria ajudar. Usei os cachês com essa finalidade. O professor era Manoca Barreto. Logo que ele voltou do Rio, colocou um cursinho. Devo ter bancado uns dois meses. A partir daí, vendo o meu interesse, papai e mamãe devem ter passado a ajudar. Não lembro exatamente, mas sei que na época foi difícil, houve resistência. Através de Manoca, em pouco tempo apareceram outros trabalhos. Éramos poucos os músicos de Natal que, naquela época, líamos cifra. Contavam-se nos dedos os guitarristas que liam cifras e que moravam em Natal. Apesar de eu ser muito novo, já era requisitado. Manoca foi super importante para Natal: ele ensinou vários músicos a ler cifra e muitas outras coisas. Eu, Erick (que passou mais de 15 anos tocando com Margareth Menezes) e Wallid fomos alguns dos que aprendemos com ele. Toda uma geração foi pegar essa informação que Manoca buscou lá fora. Alexandre Siqueira e Ricardo Menezes foram outros alunos dele. Manoca, quando não podia fazer alguns trabalhos, passava para mim. Foi assim que surgiu a oportunidade de trabalhar com Pedrinho Mendes. Fiz trabalhos com outros artistas que gostavam da praticidade que a banda da gente tinha de ler partituras e cifras, de fazer dois ou três ensaios e não esquecer no próximo encontro.
ZONA SUL – Você tocou com Pedrinho naquela fase do “Boteco”?
SÉRGIO – Não, já peguei Pedrinho na época de campanha, dos carnavais. Fizemos o primeiro Carnatal. Pedrinho era o máximo. Natal mal conhecia as bandas de Salvador. Poucas rádios tocavam uma ou outra música, mas, no geral, ninguém conhecia, com exceção de Luiz Caldas, Banda Mel e duas ou três outras. No primeiro Carnatal, a apoteose do evento foi Pedrinho Mendes e Moraes Moreira. A gente olhava para a Prudente de Moraes, da Praça Cívica, e via gente entupida até a Apodi. Foi uma grande novidade para Natal, aquele povo todo e os trios elétricos passando. Era enorme a quantidade de pessoas ali. As pessoas tinham uma idolatria por Pedrinho. Fiquei morto de nervoso quando fui ensaiar com ele. Pedrinho era um grande astro e talvez ainda seja para muita gente, ainda hoje. Tenho grande respeito pelo trabalho dele. O brasileiro, de uma maneira geral, não tem muito sentimento de patriotismo, de bairrismo. A gente sempre acha legal o que vem de fora.
ZONA SUL – Talvez seja uma característica do potiguar. Pernambucano, por exemplo, se adora. O paraense e o paraibano também curtem seus artistas. O Ceará, do mesmo jeito.
SÉRGIO – Não sei, mas acho que se Pedrinho tivesse nascido na Bahia, teria sido mais do que Gilberto Gil. No mínimo ele deveria ser para o potiguar como Gilberto Gil é para o baiano. Babal também é outra fera. Tem alguns outros. Era para o potiguar ver Pedrinho em um restaurante e pedir um autógrafo. O cara devia entrar em um bar, ver Pedrinho e sentir orgulho de ter um cara como aquele na nossa terra. Mas vejo o pessoal desrespeitar até Câmara Cascudo! Quantas vezes ouvi comentários de que Câmara Cascudo inventava, quando não sabia determinada história. Quantas vezes escutei essa imbecilidade. Câmara Cascudo é o maior expoente da cultura popular no mundo.
ZONA SUL – E ele construiu sua obra sem internet, com os meios de comunicação precários da época, recorrendo a cartas e bibliotecas.
SÉRGIO – Não existe um paralelo para ele. Não existe pesquisador americano ou francês que tenha feito o que ele fez. E ele recebia a todos na sua casa. Mas a gente não idolatra nem Câmara Cascudo. Tem gente que fica procurando defeitos.
ZONA SUL – Que outros artistas você acompanhou nessa época em que dava seus primeiros passos na música? Você já compunha?
SÉRGIO – Ainda não. Acompanhei vários artistas: Sueldo Soaress, Cleudo Freire, Tarcísio Flor, Valéria Oliveira, Galvão, Babal... Naquela época as pessoas gostavam do nosso núcleo de instrumentistas. Esse grupo variava alguns integrantes: Manoca (depois ele parou um pouco), eu na guitarra, no baixo Erick (tocava com 100% dos artistas), Eduardo Taufic nos teclados, e Sílvio, na bateria. Depois entraram Distéfano (bateria) e outros artistas. O grupo começou a aumentar até se dividir. Mas foi um núcleo de músicos que acompanhou muita gente, como Antônio Ronaldo, Manassés Campos e o pessoal do Trampo. 
ZONA SUL – Foi nessa época sua ida para o Rio?
SÉRGIO – Depois que trabalhei com Joca Costa resolvi fazer um curso de arranjo. Quando fui assumir a direção do Instituto Waldemar de Almeida, da Fundação José Augusto, tive oportunidade de dizer a Joca – que é professor de lá – que devo a ele parte da minha vontade de ser músico.  Minha trajetória mudou muito quando o conheci. Ele fazia arranjos belíssimos. Escrevia para cordas, para metais, para flauta... Construía a grade de partitura... Eu queria aprender aquilo. Assim, aos 20 anos, resolvi fazer um curso de arranjo no Rio de Janeiro. Quando concluí, com menos de um ano, surgiram as composições. Por causa do curso, tive que fazer arranjos e composições também. Comecei a compor uma música, duas, três... Quando voltei para Natal um ano e meio depois, estava com umas 14 músicas. Me deu aquela vontade louca de fazer um disco. Foi quando surgiu “Palmyra”, o primeiro CD.
ZONA SUL – O disco foi gravado em Natal?
SÉRGIO – Sim, mas a qualidade na época não era boa, a cidade só tinha um estúdio. No Rio fiz o curso de harmonia com o maestro Yan Gest, acho que ele é até húngaro. Ele representou para o Rio o que Manoca significou para Natal: trouxe um curso de arranjo para o Rio de Janeiro. Os compositores e arranjadores tinham que estudar com ele. Até hoje ele é referência. Por isso fui lá fazer com ele. Depois de gravar “Palmyra”, voltei com o disco debaixo do braço para o Rio. Visitei as gravadoras que trabalhavam com música instrumental. Gostavam do disco, mas por serem pequenas, não tinham condições de fazer nada. O cara da Perfil Musical disse que também tinha gostado, mas a gravadora havia acabado de investir em Romero Lubambo e na diva do jazz brasileiro, Leny Andrade. Levei também na Vison e voltei achando que não tinha conseguido nada. Mas no outro dia me ligaram dizendo que se eu gravasse de novo, eles lançavam. Avaliaram que as composições eram ótimas, mas que a qualidade de gravação não era nada boa. Fiz um projeto dentro do Profinc e regravei no Rio. Interagi com muitos músicos, conheci Rildo Hora, Sérgio Galvão (irmão do Lula Galvão). Gravei com a Companhia de Cordas do Rio de Janeiro. Conheci Iura Ranevisky, outra figura importante. Em estúdio você conhece muitas pessoas. Foi mais fácil depois voltar pro Rio e começar a trabalhar. Quem também deu muita força foi um amigo daqui, Murilo, que tinha tocado um tempo com o MPB-4. Ele facilitou esse contato. Depois do disco, pude começar a trabalhar no Rio, pouco a pouco.
ZONA SUL – O que você fez de mais importante nessa passagem pelo Rio?
SÉRGIO – Pra mim o mais importante Rio foi mudar minha maneira de tocar. Eu tocava muito  pra mim, solava demais. Era igual aquela pessoa que, numa conversa, fala muito e ouve pouco. Então, comecei a relaxar mais. Percebi que a minha participação tinha que ser menor em todas as músicas. Pra mim foi difícil. Você pode ser o artista principal, mas está tocando em um grupo. Esse comportamento você tem que guardar para o resto da vida. A música é um trabalho em equipe. A dúvida entre um ser humano e outro é grande, imagine entre vários músicos tocando uma peça. A música suscita esse descobrimento interior. A prática musical leva você a algumas reflexões e atitudes. Ao mesmo tempo, é como criar um filho. Estou criando um filho agora. Estou com um menino lá em casa. Você nunca sabe bem como vai proceder. Você tem que refletir o tempo todo. São sempre situações novas, nunca é a mesma situação. As músicas que aparecem para a gente tocar dão isso pra gente. Quanto mais experiência você tem para tratar com a música, melhor. A música é muito exigente, ela lhe obriga a ficar em forma, sobretudo intelectualmente. A música é como um diálogo. Se você está falando com uma pessoa e ela começa a olhar para o lado, ela perde o fio da meada um pouquinho, quando volta, não está mais por dentro daquele assunto. Se é em grupo, pior. Se tem várias pessoas interagindo dentro de uma peça sonora, aí é que é complicado mesmo. Tem gente que é muito desleixado tocando. Bota as notas dentro do compasso e nem escuta. A música é uma exigência profunda.
ZONA SUL – Você se apresentou com quem nessa primeira temporada no Rio?
SÉRGIO – Toquei com vários artistas. Tive um parceiro que foi muito legal pra mim, o Miltinho, do MPB-4. Ele é um excelente compositor, apesar de o Brasil pouco conhecer. E olhe que tem muitas músicas consagradas, como “Cicatrizes”, que Roberta Sá gravou agora. Ele tem um trabalho fantástico. E como integrante do MPB-4, nem precisa ser apresentado. A gente fez um trabalho instrumental e cantado muito íntimo. Eu tocava bandolim e violão com ele. Teve também a Dora Vergueiro, filha do Carlinhos Vergueiro. Também toquei com a Carol Saboya, filha do Antonio Adolfo. Teve uma temporada que integrei o Quarteto em Cy, quando a Celinha não pôde tocar. Tive um trabalho de parceria com a Simone Guimarães, com quem toquei um tempo. Eu era do Rio Grande do Norte e ela de Santa Rosa de Virtebo, interiorzão brabo de São Paulo. Ambos chegando ao Rio de Janeiro, àquela coisa grande. Também interagi com o Mauro Aguiar, que hoje é parceiro do Guinga. Foi o Guinga quem me apresentou a ele. Gravei um filme cujos arranjos foram de Maurício Maestro e, dessa forma, fiquei amigo dele. Quando houve aquela classificação minha no Festival da Rede Globo, em 2000, ele fez os arranjos. Uma coisa vai puxando outra.
ZONA SUL – Como foi a história desse festival?
SÉRGIO – Escolheram a minha música entre 24 mil e poucos candidatos inscritos.
ZONA SUL – Você tinha esperança de classificar alguma música para a fase final do festival?
SÉRGIO – Tive um pouco de esperança porque a Simone Guimarães, que tem uma belíssima voz, cantou na gravação. Tinha uma possibilidade, de repente. Mas não achei que tivesse uma forte chance.
ZONA SUL – Você estava morando no Rio ou em Natal?
SÉRGIO – Em Natal. Antes do festival começar, fizeram quatro ou cinco reuniões. Na primeira, um diretor da Globo chegou pra gente e disse: “quem acha que isso é um festival de música, está enganado. Isso é um festival de imagem, é um festival da Rede Globo”. Foi a primeira coisa que ele falou. O que valia era a imagem, as performances, os aspectos. Ali eu vi logo o que aquele festival seria. Mas, como eu dizia, passei uns quatro ou cinco anos morando no Rio, tocando com esse pessoal. Coloquei a cara entre os violonistas do Rio de Janeiro daquela época. Pensei que chegaria lá e seria apenas mais um violonista desapercebido. Mas notei que a música é uma coisa especial mesmo, sobretudo dentro de uma área específica. Na área da bossa nova, disponível para trabalhar, com gás para acompanhar um novo cantor e também com um cachê acessível, não tinha 500 violonistas. No final, mesmo longe de ser um violonista famoso no Rio, me tornei uma pessoa conhecida em todos os meios. Fui indicado para tocar com vários artistas, entre eles Ivan Lins.
ZONA SUL – Vamos falar na sua fase da França.
SÉRGIO – Voltei do Rio para Natal, e, depois que fiz meu curso superior, surgiu a oportunidade de uma bolsa da CAPES. Eu já estava praticamente noivo, minha esposa é cantora lírica. Nós dois fizemos projetos para uma bolsa de estudos da CAPES pra França, na mesma escola. Na época eu já era parceiro de Hermínio Belo de Carvalho, que fez uma carta de apresentação para mim. Acho que Miltinho também fez. Eu tinha várias cartas de recomendação de músicos da MPB, um belo currículo e dois discos publicados: “Palmyra” e “A nuvem acende”. Minha esposa fez também e o projeto dela foi aceito. Fomos para a França começar tudo do zero. Lá a linguagem musical é muito diferente. O francês tem uma paixão pelo som enorme. Se o músico tem uma grande virtude - que ele chama virtuose - no instrumento, tem uma velocidade muto grande, mas as notas não são muito bem explicadas, se o tempo não é precisamente controlado, se a emoção daquela pessoa não está na mão daquele artista, e se ele não dá o máximo de si e o som dele não é belíssimo, esse artista não terá muito futuro. Mas de todas as exigências, as maiores são o som e a afinação. Você tendo um belo som e uma bela afinação, eles perdoam um pouco o resto. No Brasil a gente é muito emotivo, gosta muito da cena, do palco, da performance da pessoa. O artista tem que dar um show, um espetáculo. Percebi morando na França que a grande referência do brasileiro são os Estados Unidos. ZONA SUL – Na França você tocou profissionalmente?
SÉRGIO – Lá fiz curso de composição para música de filme e também fiz várias apresentações. Uma semana depois que toquei pela primeira vez na França, meu telefone tocou. “Estou ligando porque um amigo músico viu você tocar e me recomendou, pois estou precisando de alguém que toque jazz, algumas coisas latinas e tal”. Depois desse segundo show, outro telefonema. No terceiro ano em que eu estava na França, meu telefone tocava três ou quatro vezes por semana. Eram pessoas diferentes procurando músico. No meu penúltimo ano na França fiz 67 concertos com artistas brasileiros, franceses e também apresentando meu trabalho. Aqui, pra fazer uma quantidade de show dessa tem que ser um artista de muito nome. Lógico que o fato de ser violonista é bom porque você se integra a vários grupos, mas pra um mercado musical, é fantástico.
ZONA SUL – Além disso, pelo que você mesmo falou, é fantástico pelo fato de o mercado ser superexigente. E de você ser um estrangeiro.
SÉRGIO – Por falar nisso, é um mito terrível que eles tenham alguma coisa contra contra brasileiro. Quando a gente vai para um lugar acaba entendendo algumas coisas, mesmo que não apoiando. Por exemplo: quando um estrangeiro vem ao Brasil e observa a violência e a miséria, ele não vai defender, mas vai entender o que são esses fenômenos. Vai saber que o brasileiro pode ir com certa tranquilidade a um restaurante à beira-mar sem sentir pavor de ser assaltado. Pelo menos a maioria das pessoas não sentem esse pânico. Para o estrangeiro a visão é mais ameaçadora. Já na visão do brasileiro, o estrangeiro é o cara que trás o dinheiro. Porém, de uns três anos para cá o brasileiro está percebendo que o estrangeiro também pode representar um problema. Ele pode estar aqui pelo turismo sexual, ou porque é trambiqueiro, ou até por estar usando dinheiro de maneira ilegal... Em suma, ele traz muita coisa positiva, mas também tem seus probleminhas. Na França é o contrário. O estrangeiro que se instala lá traz, na visão do francês, um problemão. Acima de tudo, ele vai usufruir de alguns direitos sociais concedidos no país. Independente de ser francês ou não, na França todo mundo tem. Então, na medida em que chega um a mais, vão ter que repartir a mais um bolo que continuará do mesmo tamanho. O francês também está perdendo poder aquisitivo.
ZONA SUL – Com todas essas oportunidades na França, porque você retornou para Natal?
SÉRGIO – Meus pais estavam doentes e eu estava cansado. Não morar no seu país é muito. Chega um momento em que a pessoa se estafa, fica estressada. É muito tempo você desconectado de tudo, até da maneira de falar. Eu falava português com a minha esposa, mas tinha todo um universo de amigos franceses. Consegui amigos fantásticos.
ZONA SUL – Como é hoje sua relação com a música?
SÉRGIO  O principal de uma música é a mensagem. Se eu vou dizer uma mensagem que você não é sensível a ela, é a mesma coisa de eu estar falando com uma parede. Se o povo hoje só abre o canal do seu coração pra se liberar, para dançar - que é bom também, faz parte – ele só vai receber aquilo. O processo de mudança ao qual me submeti no Rio de Janeiro e também na França me fez melhorar um bocado. Fiquei mais atento com o meu som, passei a me olhar mais. Não melhorei porque estou tocando melhor, mas por ter ficado mais crítico comigo mesmo. Estou cada vez mais exigente e vigilante comigo mesmo e sobretudo isso: eu acho cada vez mais importante o que eu faço. Engraçado, tem tanta gente com profissões tão importantes, mas as minhas notas musicais já me levaram para tanto canto... Já fui para Nova Caledônia (arquipélago da Oceania), para o Caribe, França, Portugal, Itália, Espanha, passando muitas vezes dois ou três meses em cada lugar. Passei dois meses e meio na Itália, conhecendo cada lugarejo. Passamos quase um mês na Espanha, degustando os vinhos, comendo jambon, o presunto.
ZONA SUL – Fale um pouco do trabalho da sua esposa, a cantora lírica Alzeny Nelo.
SÉRGIO – Ela foi uma coisa fantástica na minha vida porque sou músico popular. Não somente a música que ela gosta é erudita, como ela própria é erudita. Alzeny é uma personalidade assim: ela combina demais com a França, é impressionante.
ZONA SUL – Ela é de Natal?
SÉRGIO – Sim, ela é da Cidade da Esperança. Alzeny tem um temperamento bem adequado ao tipo de música que escolheu. Termina me complementando, pois sou bem alvoroçado. A música popular tem um lado rítmico muito forte: o bolero, o samba, o chorinho... Quando a gente fala em música popular, o ritmo vem logo junto. Na música erudita a percussão é um detalhe. Só “Bolero”, de Ravel, que tem aquela marcação contínua. No resto das músicas a percussão é um detalhe, um bolo na cereja. O cara fica um ano esperando um prato. A harmonia, o ritmo são as cordas. Você imagina 80 músicos tocando juntos. Aquele ritmo é muito flutuante. É preciso e não é. São vários músicos que vão dar o ritmo, e geralmente de natureza diferente. Às vezes é a flauta que dá o ritmo, noutras é o violoncelo, a corda grave. Esse bando de instrumentos tocando juntos é uma loucura. A noção de tempo de cada um é diferente. Já começa daí o grande aprendizado. E pra você tocar no tempo tem que ouvir aquele bando de instrumentos e jogar a nota naquele exato instante. Diferente do violão, que o cara toca a corda e o outro responde no baixo e o outro na bateria. Em um grupinho pequeno, a mensagem é rápida. A música erudita é delicada pela sua própria formação. Então, acabei assumindo esse mundo de Alzeny também. Compus uma sinfonia na época em que estudei na França. Fiz em homenagem a um músico de Natal que tinha falecido, Carlão, da Orquestra Sinfônica. A sinfonia chama-se “No tempo das árvores”. Foi apresentada uma vez. Estudei música erudita e análise musical durante quatro anos, na França.
ZONA SUL – Como surgiu a oportunidade de voltar a morar na França.
SÉRGIO – Agora vamos em outras circunstâncias. Já fiz um belo núcleo de amigos, que é o principal na vida. Já volto tocando em grupos musicais, e tenho até show marcado lá. Tenho coisa marcada até em novembro de 2012! Esse show será em uma casa de jazz, acompanhando uma cantora. É muito raro conseguir espaço lá. Eles dão oportunidade de você ensaiar cinco dias no lugar, antes do show. A cantora me disse que a agenda desse local está completa até 2015.
ZONA SUL – A França será a sua base, mas você deverá tocar na Europa toda.
SÉRGIO – É, com certeza. A base é a França. E é uma base fantástica e legal.
ZONA SUL – Você já domina o francês.
SÉRGIO – Falo fluentemente. Lógico que aqui e acolá posso cometer um erro. Mas isso é comum até no português. Para viver na França é diferente. O brasileiro é muito mais acolhedor, ele aceita que o estrangeiro passe a vida toda sem aprender o português. O espanhol ou o alemão vem para o Brasil e não domina a pronúncia de algumas palavras e não aparece um brasileiro para corrigi-lo, não liga muito para isso. Mas, para o francês, a linguagem é muito importante. A gente tem que respeitar essa diferença. Você deve aceitar o francês como ele é e não criar um gueto e se juntar com um bando de outros brasileiros. Ainda mais você como visitante.
ZONA SUL – Seria a mesma coisa de ir a uma festa e se juntar em um grupinho para falar mal do dono.
SÉRGIO – É, estou indo para a casa deles. Se a gente colocar dentro dessa maneira, eu estou indo para a casa de uma pessoa. Então tenho que respeitar o dono.
ZONA SUL – Você vai ficar em Paris?
SÉRGIO – Sim, em Paris.
ZONA SUL – Chegou a hora de partir para os finalmentes: você tem algum plano específico, pensa em gravar?
SÉRGIO – Desde 2005 estou compondo para o terceiro disco. Fiz vários experimentos em estúdio. Gravei três, quatro músicas e vi que não era aquilo que eu queria. Agora, depois desse tempo todo, é que estou voltando uma ideia que tive em 2005. Acho que naquela época eu não tinha habilidade para tocá-la. Eu não estava satisfeito. É uma coisa muito delicada você formar um grupo para gravar um disco. Na época eu gostaria de ter feito violão, baixo acústico e percussão. Eu queria menos ritmo no meu trabalho. Queria uma coisa bem silenciosa, para que a escuta do violão fosse bem presente. Quando o violão vai tocar com o piano na mesma hora, é muita frequência. Acusticamente já é difícil de equilibrar esses dois instrumentos. Quando você vai tocar com outro instrumentista, tem que ser muito planejado. Dois violões, um violão e uma guitarra... Tem que ser tudo muito combinadinho. Na medida em que você não tem esse outro instrumento harmônico e o solista, é só o violão, você tem muito espaço. Mas aí você tem que ser muito sintético também, porque se você tocar demais, acaba anulando os outros instrumentos que também tem que falar. Na época eu tentei e não consegui. Agora estou mais satisfeito. Já fiz umas gravações aqui...
ZONA SUL – A tecnologia em Natal já melhorou ao ponto de ser possível gravar um disco com qualidade?
SÉRGIO – Já, agora está tranquilo. Pode gravar aqui e lançar até na França, sem problema nenhum.
ZONA SUL – Como seus fãs aqui em Natal e no restante do país poderão acompanhar suas aventuras nessa nova temporada que você passará na Europa?
SÉRGIO – Acho que pelo Facebook. Agora, pela primeira vez, estou dando mais atenção à internet. Talvez porque a internet esteja mais interessante. No começo era um negócio aberto onde as pessoas escreviam o que queriam... Hoje está mais regulamentado e os sites estão mais interessantes. Por outro lado, em ferramentas como o Facebook a gente termina encontrando pessoas com afinidades parecidas e dizendo coisas interessantes também. No Facebook publico pouca coisa. Por exemplo, não publiquei nenhuma música minha. Vou começar a explorar o Youtube também. No Facebook as pessoas podem me encontrar pesquisando Sérgio Farias. Mas penso em fazer um site. Logo que ele esteja pronto, divulgarei pelo Facebook. Meu irmão Carlos Gondim é o grande incentivador.
ZONA SUL – Sua esposa também vai para a França?
SÉRGIO – Sim, e meu filho, Paulo Henrique, que tem três anos. Ele já toca bateria. Paulinho começou a tocar bateria com um ano e meio. Eu toco violão, o último instrumento que eu o estimularia a tocar seria a bateria. Mas ele acordava de madrugada e pegava várias bacias, com um ano e meio, e ficava tocando. E dizia: “bateria, bateria”.
ZONA SUL – Para o pai deve ser uma “maravilha” acordar de madrugada com o filho tocando bateria...
SÉRGIO – Já me acostumei. Dois meses depois de ver essa coisa natural dele, comprei uma bateria.
ZONA SUL – Deixe uma mensagem para o leitor do jornal.
SÉRGIO – Sinto, com os 39 anos que tenho hoje, que a vida é muito boa. A ideia original da vida, eu sinto isso, é perfeita. A gente tem um planeta belíssimo, eu sinto que a missão que temos no mundo é muito simples: é se relacionar. Essa é a coisa mais importante que temos que aprender: se relacionar bem com a natureza e com o ser humano. O que estou buscando é não atrapalhar o fluxo natural da vida. Ou seja, fazer as coisas que vão contribuir para o meu crescimento. Luto muito para procurar não me sentir especial. Especial de verdade, para mim, é ser mais um. É ser uma pessoa que, se não atrapalhar, já está bom. Essa mania de que a gente tem que ser grande atrapalha muito. A gente se envolve demais com os problemas cotidianos, fica fixado naquela vida pequena, voltado para nosso núcleo, nossa família, para meu filho, minha mulher, para o meu, o meu... E vai dando as migalhas para o próximo. O que sobra do estresse do dia a dia é o que a gente dedica ao próximo. Precisamos reverter esse quadro, a família é importante, mas a grande família é mais importante.