14 de setembro de 2021

Serpentes no cinema

 


                      

Anchieta Fernandes

    Pois é: estes (ou estas? Geralmente, na língua portuguesa a sua designação é no feminino: serpente, cobra, víbora) animais da espécime dos ofídios também tem sido mostrados nas telas dos cinemas, computadores ou tvs em diversas situações e sob diversas intenções de diretores e estúdios produtores. Alguns países do Oriente são as terras dos encantadores de serpentes. Estes profissionais que enganam as cobrase as próprias pessoas que olham o espetáculo. Pois, já que as cobras tem uma audição muito fraca, elas sobem dos cestos quando os flautistas os destampam, não por ouvirem a música , e sim não somente por terem o impulso da postura ereta, mas por ficarem quase hipnotizadas com os movimentos dos braços dos tocadores de flauta, para cima e para baixo e para um lado e para o outro.
     Ver este movimento, mas também ouvir a música foi o que motivou a pequena personagem do filme O Balão Branco (1995, dirigido pelo iraniano JafarPanahi)a se arriscar a ir aos locais das ruas onde ficam os encantadores de serpentes, locais estes proibidos para as crianças, intuindo esperteza para a vida, com as cenas ilegais que os encantadores de serpentes praticam, inclusive tomar dinheiro de crianças. Mais adiante, falarei do que as cobras, serpentes etc. significam de negativo e de ruim para os seres humanos. Embora não se possa esquecer que, como mostrou o pequeno curta-metragem (9 minutos) Por Exemplo, Butantã, de Roman Stulbach, está-se sempre produzindo no instituto paulista soros anti-ofídicos, para serem usados na imunização das vítimas das picadas de cobras.
    Ao longo da História do Cinema, tem outros relacionamentos de crianças com cobras, seja para enfrenta-las e destruí-las, seja como adaptação à ação das cobras em nível de espiritualidade e poesia. O filme Kaliya(ou A Serpente Kaliya, na versão em português para dvd, dirigido por DhumdirajGovindPhalke, é um dos pioneiros do cinema indiano. Foi realizado em 1919. Conta passagens da vida da divindade Krishna quando ela era criança. São três episódios: a vingança da pequena deusa contra uma mulher que ofendeu seus amiguinhos crianças; uma pregação de susto noturno em um casal; e o final apoteótico, a pequena deusa domando a serpente marinha Kaliya, e sendo aplaudida entusiasticamente no vilarejo, beijada e carregada aos ombros pelos homens.
   Além de ter dialogado com uma cobra de umzoológico no primeiro filme da série(Harry Potter e a Pedra Filosofal, de 2001, dirigido por Chris Columbus), em Harry Potter e a Câmara Secreta (o segundo filme da série, de 2002, também dirigido por Chris Columbus), o pequeno bruxo se depara com a presença do basilisco, a serpente fabulosa. Que queria matar ele e sua amiga Gina Wisley. No entanto, Potter consegue matar o basilisco,e salvar a ele próprio e sua amiga, com a ajuda de uma coruja vermelha, cujas lágrimas, derramadas nos ferimentos, agem como um antídoto contra o veneno da grande cobra. Sob a direção de Columbus, as encantadoras estórias de J.K.Rowling se tornam clássicos da sétima arte, onde a peçonha das serpentes perde todo o seu poder maléfico.
   Outro filme muito bonito, que mostra também o relacionamento de crianças com cobras, embora de maneira mais simpática aos ofídios, é O Pequeno Príncipe, adaptação musical do diretor Stanley Donen em 1974, feita a partir da obra original de Saint-Exupéry. Quase ao final do filme, a cobra pica mortalmente o pequeno príncipe, que em espírito volta para a sua pequena estrela, mas deixando seu sorriso maravilhoso brilhando em cada uma das estrelas que o piloto que tivera seu avião avariado no deserto, passa a contemplar enquanto levanta vôo de novo após consertar o avião.É um filme belíssimo, emocionante, onde quase dá para intuir o destino das cobras, metaforicamente mais nobre. A deste filme diz ao seu interlocutor que sua picada é indolor.
     O animal peçonhento causa medo e raiva quando não se tem uma convivência compreensiva com ele. No filme Tainá – Uma Aventura na Amazônia, de 2000, dirigido por Sérgio Bloch e Tânia Lamarca, acontece uma situação comparativa de medos que nascem em aglomerados culturais diferentes: a pequena índia interpretada por Eunice Baía se assusta, fica com medo do relógio-despertador de um barco que dispara a campainha.Joninho, um menino branco que se torna amigo de Tainá, fica apavorado ao ver uma cobra, corre chamando a indiazinha para protege-lo, e encontra ela, tranquila, segurando ao pescoço uma grande cobra, que ela diz ser a protetora de tudo que existe, árvores, rios etc. É a pureza deste imaginário indígena que dá a conotação poética que fertiliza a visão infantil sobre animais, inclusive cobras.
   E as mulheres? Como é o relacionamento delas com cobras no cinema? Lembre-se, antes de tudo, que existe uma expressão popular que define mulheres ruins, malignas: “esta mulher é uma cobra” (ou, às vezes, detalhando a família de um ramo de cobras: “esta mulher é uma cascavel”; ou: “esta mulher é uma jararaca”; talvez se se quisesse denominar uma que fosse a representante da máxima ruindade feminina, poder-se-ia dizer: “esta mulher é uma taipan”, pois, de origem australiana, a taipan (oxyuranusscutellatus) é a cobra mais venenosa que existe, picando a pessoa várias vezes seguidas. Seu veneno faz efeito mortal em poucos minutos. A mais venenosa do Brasil é a coral verdadeira (gênero micrurus), cujo veneno mata a vítima em algumas horas, se ela não for logo socorrida. O veneno age sobre o pulmão e coração.
    Mas é mesmo somente uma expressão metafórica popular, pois não existem mulheres-cobras, a não ser em férteis imaginações artísticas, fabulares etc. Cobras são animais répteis da espécime dos ofídios, e mulheres são também animais (racionais), bípedes, da espécime dos hominidas. No entanto, não resta dúvida que no cinema, algumas vezes, a imagem das cobras aparece junto da imagem das mulheres. O que pode ser reforçado com a lenda bíblica, segundo a qual o próprio Satanás usou a forma do animal ofídico para tentar o suposto primeiro casal da espécie hominida, Adão e Eva, sugerindolhes (falando a Eva) a comerem do fruto da árvore que Deus havia proibido eles comerem, pois então seus olhos se abririam e eles passariam a conhecer o bem e o mal. E Eva comeu e deu da fruta a Adão.
    Esta cena empreendida por Satanás sob a forma de serpente, que teria gerado o Pecado Original, foi filmada por John Huston para o seu filme “A Bíblia”, realizado em 1966. No contexto de filmes históricos da história do cinema, alguns focalizaram a vida da rainha egípcia Cleópatra e seus amores com os imperadores romanos Júlio César e Marco Antônio. Como ela era muito bonita, achava que poderia conquistar qualquer poderoso com seus encantos. Não conseguindo a façanha com outro imperador romano, Otávio, desgostosa suicidou-se deixando-se picar por uma cobra. Assim, em qualquer filome sobre Cleópatra as cobras são essenciais a se fazerem presentes nos cenários. Uma das primeiras intérpretes de Cleópatra foi ThedaBara, em filme de 1917 dirigido por J.Gordon Edwards. Uma das mais bonitas foi Elizabeth Taylor.
   No Brasil, um dos filmes que mostrou o relacionamento amistoso entre mulheres e cobras foi Luz delFuego, realizado em 1981 pelo diretor David Neves. Conta a história da pioneira do naturismo no Brasil, que se apresentava em shows nos anos 50 do século passado, “vestida” apenas por cobras que deslisavam em seu corpo nu. A atriz Lucélia Santos, que interpretou Luz delFuego, emdebora tendo crises de insônia e choro diante da perspectiva de ter jiboias passeando em seu corpo, terminou por criar uma relação de verdadeira dependência afetiva mútua entre ela e uma das cobras, a que ela batizou de Virgínia, de três metros, e que se enroscava no corpo da atriz e esfregava a cabeça em seu rosto. Aliás, no filmeBladeRunner o Caçador de Andróides (1981, Ridley Scott), tem uma replicante que dança com umacobra numa boate, o que pode representar sensualidade.
    Filmes deste tipo podem levar a outra especulação: e o relacionamento de homens com cobras no cinema, elas podem ser atrativas ao gênero masculino da espécie hominida por representarem sensualidade, seu corpo sugerindo uma forma fálica? Pode ser. Mas existem outros motivos de atração. No 1º documentário da série “Selvagem ao Extremo”, o cineasta João LuisUrbaneja documentou a coragem e o entusiasmo do cientista aventureiro Richard Rasmussen, arriscando de frente o contato com animais silvestres perigosos. Ele segura uma cobra sucuri e grita: “Que linda! Que linda! Que lindo animal!” Então, se pode saber que para Rasmussen cobras não são símbolos de sensualidade, ou armas para se suicidar, e sim elementos de preservação dos biomas nacionais, seja no Sul da Amazônia ou Pantanal Norte.
    Independente de ser o espectador homem oumulher, uma pergunta a mais: porque filmes como Serpentes a Bordo (2006, David R. Ellis) se tornam de repente sucesso na Internet (blogues, outros sites), para em pouco tempo fracassar diante do público em geral? Talvez a falsidade de algumas das cobras que atacam os passageiros do avião, criadas por efeito digital, correndo com velocidade exagerada, foram o estopim de desencanto do público que esperava desfrutar de mais um disastermovies aviatório. Em reportagem na revista Set, o diretor Ellis se explicou: “Serpentes não é uma piada, é um filme que se leva a sério, mesmo com sua premissa absurda”. E o ator Samuel L.Jackson: “Eu nem quero que os críticos vejam Serpentes – fiquem em casa! O que me importa é o moleque com o rosto coberto por espinhas e que de fato gosta de juntar a turma para ir ao cinema.”
     E as metáforas negativas a respeito de cobras que perpassam o núcleo de determinados filmes? Porque o filme de Bergman se chama O Ovo da Serpente? Diz o personagem Dr. Vergerus: “É como o ovo da serpente. Através da fina membrana, já se percebe o réptil perfeitamente formado.” O crítico Jairo Arco e Flexa, da revista Veja, complementou:“Com essa imagem, Bergman procurou mostrar no filme como nasce o nazismo – e, por extensão, todo tipo de regime totalitário” (revista Veja, 19/09/1979). Ou seja: o ovo da serpente não disfarça o corpo do réptil, visto através da fina membrana. E o nazismo pode ser observado através dasfinas idéias soltas em folhetos disfarçados de puras plaquetas literárias. É preciso um combate sério. È preciso destruir o ovo e mostrar idéias realmente novas e não as membranas idéias de plaquetas superadas.
   A forma do corpo da cobra e sua lembrança referente ao assassino de Maria Goretti. É no filme Céu Sobre o Pântano (1949, de Augusto Genina): crianças encontram uma cobra, e logo em seguida uma tomada em câmera alta do assassino de Maria Goretti, fazendo ele parecer uma cobra. No filme Adoradores do Diabo (1987, John Schlesinger), o sacerdote do mal adquire poderes, como, por exemplo, colocar cobras no ventre de um homem. Mas aí já é um exagero quanto ao uso das cobras para intervenção maléfica no corpo de uma pessoa, um exagero que talvez o próprio José Mojica Marins não usaria. Mas os exageros do filme Eraserhead (1976, David Linch), como, por exemplo, um personagem abrir a boca e uma pequena cobra sair voando de dentro da boca, são explicáveis porque o filme é de um teor surrealista, lembrando contos fantásticos góticos.
   Por ser a cobra um animal rastejante e traiçoeiro, em algumas cenas de filmes há a conotação dessas características do animal, através de momentos de suspense: no filme Os Caçadores da Arca Perdida (1981, Steven Spielberg), o personagem Indy desce num fosso, encontrando várias serpentes. São serpentes de verdade, separadas do ator Harrison Ford por uma parede de vidro. Durante a filmagem de uma das cenas, uma cobra chegou a cuspir veneno no lado do vidro onde estava. O filme Vício Frenético (2009, Werner Herzog), começa mostrando “na Nova Orleans destruída pelo furacão Katrina , uma cobra desliza pela água escura e oleosa que inundou um xadrez, no qual um único preso foi esquecido” (Isabela Boscov, em comentário sobre o filme na revista Veja, de 20 de janeiro de 2010, onde ela opina também que o filme “é uma criação integralmente original.”
   Enfim, a presença de serpentes é um verdadeiro mosaico de variedades. Seja a magia do desenho animado de Hong Kong Panda e a Serpente Mágica, dirigido por TalijiYobushita em 1975. Seja o filme de aventuras Os Caçadores da Serpente Dourada (1982, Anthony M. Dawson), quase uma imitação das aventuras de Indiana Jones, no caso a procura aqui é pelo amuleto, a serpente dourada, que também é cobiçada por fanáticos religiosos. Interessantes também são as cobras não verdadeiras, apenas fabricada em forma de brinquedos. No filme“Meu Pé de Laranja Lima”(realizado em 1970 pelo diretor Aurélio Teixeira, baseado em livro de José Mauro de Vasconcelos), o personagem Zezé (um menino), em determinada cena prega um susto numa transeunte mostrando-lhe uma cobra de papel. É o animal do mal prestando-se ao ludismo da  criança.

    Não se esqueça também que a imagem da serpente, da cobra etc., está na cabeça de diretores ou dos tradutores dos títulos dos filmes para o português, de tal maneira forte que cobras estão nos títulos sem aparecerem no enredo. Foi o caso de Na Cova da Serpente (1948, AnatoleLitvac), Blonde Cobra (1963, Ken Jacobs), Parente é Serpente (1992, Mario Monicelli). Contudo, é bom mencionar aqui um filme, que tem cobras no enredo (com idéia absurda: um cientista que tenta transformar um homem em cobra), mas cujo título é quase um objeto a ser lido como significante, mais do que como significado. Foi SSSSSSS, realizado em 1973 pelo diretor americano Bernard Kowalsky, e que, como se vê, tenta imitar o silvo das serpentes através de uma onomatopeia originalíssima. Kowalsky é um dos diretores de grande reputação como representante dos estúdios B.

4 de agosto de 2021

Natal, década de 40

                  

                                                                 


  
                                                                                     Maria Barros - conhecida como Maria Boa


(José Correia Torres Neto *)  

    A cidade fervilhava de militares americanos e brasileiros. Aviões, hidroaviões, Catalinas e Jeeps patrulhavam a vidados natalenses.Instalava-se na cidade a paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros (24/06/1920 - 22/07/1997). Começava neste ínterim a história da mais conhecida casa de tolerância do Estado (do país ou do mundo?).Entre as movimentações na Ribeira, nas pedidas de Cuba Libre no saguão do Grande Hotel, nas notícias pelas Bocas de Ferro, na Marmita, em Getúlio e em Roosevelt e na nova geração de meio americanos e meio brasileiros, lá estava Maria Barros enaltecendo-se na Cidade do Natal como a proprietária do melhor (ou maior) cabaré.Tornou-se conhecida como Maria Boa. Mesmo com pouco estudo ela despertou o gosto por música, cinema e leitura.
   O seu”estabelecimento” era o refúgio dos homens da cidade, com residência fixa ou, simplesmente, por passagem por Natal, e servia de referência geográfica na cidade. Jovens, militares e figurões acolhiam-se envoltos nas carnes mornas das meninas de Maria Boa. Muitas mães de família tiveram que amargar,em silêncio, a presença de Maria Boa no imaginário de seus maridos em uma época de evidente repressão sexual.Vários fatos envolveram a personagem. Um episódio muito comentado foi a pintura realizada pelos militares em um avião B-25. Um dos mais famosos aviões da 2a Guerra Mundial, os B-25 eram identificados com cores características de cada Base Aérea. Os anéis de velocidade das máquinas voadoras da Base Aérea de Salvador eram pintados com a corverde.
Os aviões de Recife, com a cor vermelha, e os de Fortaleza, com a cor azul. Para a Base de Natal foi convencionada a cor amarela.
   Os responsáveis pela manutenção dos aviões em Natal imaginaram também que deviam ser pintados no nariz do avião, ao lado esquerdo da fuselagem,junto ao número de matricula, desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia. Autorizada pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo, a idéia foi colocada em prática. Pouco tempo depois, os B-25 de Natal surgiram na pista com caricaturas femininas e alguns até com nomes de mulheres. Alguns militares da Base escolheram o B-25 (5079), cujo desenho se aproximava mais da imagem de Maria Barros.
   Outras aeronaves também receberam nomes como “Amigo da Onça” e “Nega Maluca”.Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até à linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar, para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato. As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição “Maria Boa”.O mito “Maria Boa” rendeu trabalhos acadêmicos: o de Maria de Fátima de Souza, intitulado: “A época áurea de Maria Boa (Natal-RN 1999)”. O trabalho aborda o “fenômeno da prostituição infanto/juvenil, suas conseqüências e causas no desenvolvimento físico e psicossocial de crianças e adolescentes (...). Com o aprofundamento dos estudos percebemos o importante papel dos bordéis na prostituição, bem como o fechamento dos mesmos (...). Chegamos então ao cabaré de Maria Boa, já fechado.
   Tivemos, assim, a oportunidade de conhecer um pouco da saga da Sra. Maria de Oliveira Barros, uma profissional do sexo, com grande importância na história da prostituição de adultos, ou ainda,tradicional; das histórias contadas a seu respeito chamou-nos atenção para sua representação social, seu “mito” e sua ligação com o imaginário masculino. Com isso, passamos a averiguar mais profundamente uma participação na sociedade da época e buscamos reconstruir parte de sua história enquanto meretriz, cafetina, e proprietária da mais famosa casa de prostituição que o RN já conheceu.”O Professor Márcio de Lima Dantas publicou em 2002 o texto “Retratos de silêncio de Maria Boa”. “(...) Para além da atitude ética de proteger sua família, o que faz parecer um jogo com a hipocrisia da sociedade, penso que, na atitude de se manter reservada, se inscreve outro aspecto digno de ser ressaltado.
  Falo do mito que entorna a personagem Maria Boa, de certa maneira, criada e ritualizada por ela mesma, dimensão de fantasia para além do empírico vivenciado. (...)Astuciosamente se fez conhecer por “Maria”, o antropônimo mais comum no universo feminino, genérico e pouco dado a divagações semióticas.Ironicamente é o nome da mãe de Jesus... Quem não tinha conhecimentono Estado de uma proprietária de um requintado lupanar, e que se chamava Maria, a Boa. O mito, da constituição do éter, era aspirado por todos, preenchendo necessidades, ocupando lugares no espírito,imprimindo fantasias nos adolescentes, despertando em jovens mulheres as aventuras da carne, engendrando adultérios imaginários.
   Integrava, assim, o patrimônio individual e coletivo. (...)”Eliade Pimentel, no artigo “E o carnaval ficou na memória” destaca a presença de Maria Barros nos carnavais de Natal: Lá pela década de 50,os desfiles passaram a acontecer na avenida Deodoro da Fonseca. Maria Boa desfilava com Antônio Farache em carros conversíveis. “Em 2003 o cantor Valdick Soriano, quando entrevistado por Everaldo Lopes, registrou que quando esteve em Natal, pela primeira vez, cantou até para as meninas de “Maria Boa”.Maria Barros é história. Mesmo sendo paraibana é a Primeira Dama (ou anti-Dama) de Natal. Impera nas lembranças dos seus contemporâneos e se faz presente nos prostíbulos que ainda resistem nas periferias da cidade ou travestidos de casas de “drinks” nos bairros mais nobres.Ela é citada no filme For All - O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado em 1997) de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz. O filme retrata a cidade do Natal em 1943 quando a base americana de Parnamirim Field, a maior fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.
   Para a população local a guerra possuiu vários significados. A chegada dos militares americanos alimentou fantasias de progresso material, romance e, também o fascínio pelo cinema de Hollywood. Em meio aos constantes blecautes do treinamento anti bombardeio, dos famosos bailes da base aos domingos, dos cigarros americanos, da Coca-Cola e do vestuário estavam os sonhos natalenses. Sem questionamentos, “Maria Boa” foi uma das principais atrizes no elenco desse belicoso teatro. A Primeira Dama Maria Boa... Para a dupla JL e Gê lembra dos tempos de gente pequena.
Quem não se lembra da famosa Maria Boa? Eu a conheci de uma forma muito interessante.
    Quando tinha uns 15 anos, a casa vizinha à nossa, na Cel. Glicério Cícero, no Barro Vermelho, foi alugada a uma senhora já idosa que tomava conta de dois netos, uma menina e um menino. Com o passar do tempo soubemos que a senhora era a mãe de Maria Boa e que as crianças eram seus filhos. O pessoal da rua se isolou daquela senhora. As crianças estudavam no Colégio das Neves, bem pertinho de onde morávamos. Um dia, a velha veio nos convidar para a primeira eucaristia de sua neta. Ninguém na rua compareceu, mas eu, sempre danada de curiosa fui lá contra a vontade de mamãe. Cheguei e encontrei uma grande festa com diversas senhoras, cada uma mais bem vestida do que a outra, com muitas jóias etc. Fui apresentada à mãe da menina, chiquérrima, elegantíssima e muito fina. Aí descobri porque era tão procurada...

9 de julho de 2021

Belas praias no RN

 


Praia de Pirangi           
            Em Pirangi do Norte fica localizada o maior cajueiro do mundo, uma árvore gigante localizada  a doze quilômetros ao sul de Natal. A árvore cobre uma área de aproximadamente 8500 m², 1 com um perímetro de aproximadamente 500 m e produz cerca de 70 a 80 mil  cajus  na safra, o equivalente a 2,5 toneladas. O seu tamanho é  equivalente a 70 cajueiros. O cajueiro teria sido plantado em 1888 por um pescador chamado Luís Inácio de Oliveira; falecido com 93 anos de idade, sob as sombras do cajueiro.
             O crescimento da árvore é explicado pela conjunção de duas anomalias  genéticas. Primeiro, em vez de crescer para cima, os galhos da árvore crescem para os lados; com o tempo, por causa do próprio peso, os galhos tendem a se curvar para baixo, até alcançar o solo. Segunda anomalia: ao tocar o solo, os galhos começam a criar  raízes, e daí passam a crescer novamente, como se fossem troncos de uma outra árvore. A repetição desse processo causa a impressão de que existem vários cajueiros, que na realidade trata-se de dois cajueiros.
            O tronco principal divide-se em cinco galhos; quatro desses galhos sofreram a alteração genética, e criaram raízes e troncos que deram origem ao gigantismo da árvore. Apenas um dos galhos teve comportamento normal, e parou de crescer após alcançar o solo. As raízes do cajueiro podem chegar a 10m de profundidade. Em 1955 a revista O Cruzeiro definiu o fenômeno como uma "sinfonia inacabada" de galhos lançados em progressão geométrica. Em 1994, o cajueiro entrou para o Guiness Book, livro de recordes. Atualmente existe um mirante no próprio cajueiro que é muito frequentado por turistas. Lá de cima, se tem uma visão panorâmica do cajueiro e também  da praia de Pirangi do Norte.
            Já Pirangi do Sul também é conhecida como Pirambúzios, por ser vizinha a praia de Buzios. Pirangi do Sul é uma uma praia considerada com banho calmo, ondas fracas, cercada por recifes e menos urbanizada. Na maré baixa, os bancos de corais formam ilhas e piscinas naturais a um quilômetro mar a dentro, chamado de Parachos de Pirangi. Proporciona um espetáculo maravilhoso da natureza, que é visitado por lanchas particulares e barcos da Marina Badauê, que organiza passeios diários com os turistas. No verão outra caracteristica da  praia, é que fica sendo muito procurada para a prática de esportes náuticos e pesca.

            

16 de junho de 2021

Prestes em Natal

 

                                                                                                   Luís Carlos Prestes

Por Franklin Jorge 

Pontual e de uma irrepreensível cortesia, Luís Carlos Prestes recebe-nos a mim e ao escritor Jarbas Martins às 6h30 da manhã, no saguão do hotel Samburá, onde está hospedado, no Centro da cidade.
Recém-saído do banho, ainda exalando um agradável cheiro de sabonete, o cabelo bem cortado, faz-se acompanhar do médico Salomão Gurgel, um norte-rio-grandense que ele conheceu em Moscou. Prestes, homem discreto, parece de alguma forma cansado, talvez, por tanta exposição na mídia que o persegue como se fora um animal pré-histórico. Veste-se com elegância e distinção.
Madrugador desde menino, reporta-se à  exaustiva homenagem que lhe foi prestada na Assembléia Legislativa do Estado, ontem à noite, em sessão que se prolongou demasiadamente além do previsto.
No Brasil, nada funciona, afirma numa voz calma, segura e polida. Até as homenagens excedem os limites da normalidade. Dormi pouco, mas após um banho frio, sinto-me renovado e pronto para responder aos seus questionamentos. Pergunte o que quiser.
Prestes tem 89 anos. De estatura abaixo da média, nem gordo nem magro, conduz a conversa com desenvoltura. Então os senhores são jornalistas. Pois saibam que os jornais e as rádios continuam sistematicamente a censurar minhas palavras. Geralmente, omitem minhas idéias quando não distorcem minhas palavras. Mesmo assim, continuo falando, pois dependo da palavra para ajudar na transformação de uma sociedade estigmatizada pela miséria e instruída pela corrupção. A palavra é a arma de que disponho e estou sempre a usá-la da melhor forma contra os políticos individualistas que oneram o país.
A imprensa é uma organização capitalista e está toda nas mãos da classe dominante. Portanto, não podemos estranhar que colabore para que tudo continue como está. Apesar da abertura, a imprensa continua comprometida com a classe dominante e nada faz para reduzir o quadro de alienação que vigora de Norte a Sul.
Costumo dizer que no Brasil ninguém nasce comunista. Falta-nos politização. O brasileiro não é politizado. Aqui, a ideologia é metida na nossa cabeça quase a marteladas. Nosso maior erro, contudo, é não fazer nada. Há uma cultura de acomodamento que dirige e entrava o país. Submetemo-nos a tudo sem espernear e sem usufruir desse direito legítimo. Não fazemos nenhum gesto passível de desmascarar o poder arbitrário que a tudo corrompe. De todos os brasileiros, o presidente Sarney é o mais submisso. E também o mais duvidoso dos brasileiros.
Nos países civilizados, as forças armadas são instrumentos do Estado. Aqui, ocorre o contrário: o Estado é instrumento das forças armadas. É refém delas.
Desde moço fiz uma opção reiterada pelo ser humano e pela liberdade. Por isso, desde a mais remota juventude – sempre renovada no entusiasmo de uma luta sem fim e sem fronteira -, jamais me curvei a interesses que contrariassem meu idealismo. Sempre me coloquei acima dos limites partidários. Não tenho nem nunca tive uma vida fácil.
Sentado numa poltrona à entrada do restaurante do hotel, Prestes fala torrencialmente, como alguém que tem urgência em comunicar suas experiências. Se eu o conhecesse, diria que está bem humorado. Ele confessa que não esperava que a entrevista fugisse ao ramerrão de praxe. Sempre me perguntam as mesmas coisas, como decorrência desse grande cansaço que mortifica os jornalistas brasileiros. Tenho a impressão de que eles fazem sempre as mesmas perguntas, em todos os lugares, a qualquer pretexto. Natal, de qualquer forma, me surpreende. Porém não posso dizer que conheço Natal. Não vim fazer turismo. São muitas as solicitações e os compromissos que ainda tenho de satisfazer.
O sofrimento é uma grande escola. Como sabe, muito moço, conheci a prisão. Quando descobri a ideologia marxista, vi-me obrigado a exilar-me
Em Santa Fé, na República Argentina, viveu por muitos anos na clandestinidade. Toda a minha vida, desde a mais tenra idade, foi marcada pelo sofrimento. O idealismo custa caro. A você, que é ainda bastante jovem, diria que fique atento a essa realidade: o idealismo custa caro, muito caro. Mas, em geral, só despertamos para esse fato demasiadamente tarde. Porém sem idealismo nada se faz que seja grande. O sacrifício pessoal faz parte do idealismo.
Filho de Antonio Pereira Prestes (1870/1908), e de Leocádia Felizardo Prestes (1874/1943), ficou órfão aos dez anos. Meu pai era engenheiro militar. Foi aluno de Benjamin Constant e sempre simpatizou com o Positivismo comtiano. Vivíamos em Alegrete, no Rio Grande do Sul, uma cidade abafada e insalubre, construída sobre uma grande lage de pedra.
Lá, em Alegrete, minha mãe contraiu tuberculose e mudou-se para Porto Alegre. Meu pai, porém, continuou em Alegrete. Ele tinha a patente de capitão do Exército. Quando morreu, seus próprios colegas de farda roubaram-lhe os pertences. Muito cedo, senti a necessidade de trabalhar.

Eu era o filho mais velho e sempre fui educado entre as mulheres. Morávamos numa casa modesta. Nossos recursos eram limitados. Diante disso, minha mãe passou a costurar para fora e matriculou-me num colégio militar. Fui a contragosto, mas não havia o que fazer. Eu me lembro que passei a chegar cedo ao colégio, para participar do almoço; depois das aulas, permanecia mais tempo na sala de aula, fazendo qualquer coisa, à espera do jantar. Agindo dessa forma eu diminuía as bocas que se alimentavam de um pequeno soldo, que foi tudo o que o meu pai nos deixou.
Minha mãe era uma mulher culta. Ela costumava dizer-me que a juventude era feita para o estudo. Era uma mulher que lia e educou-me na crítica aos militares. Aos dez anos, durante a famosa Campanha Civilista encabeçada por Ruy Barbosa, minha mãe levava-me com as minhas irmãs aos comícios. Aquilo me empolgou. O senhor deve saber que a mulher, quando é combativa, é mais conseqüente do que os homens. Assim era minha mãe. Uma mulher que não se deixou vencer. Dei o seu nome à minha filha.
Emocionado, evoca a grande marcha da “Coluna Prestes” que, sob o seu comando, cruzou o Brasil e passou pelo Rio Grande do Norte. Aqui cruzamos o alto sertão e nos aquartelamos em Luis Gomes, uma aldeia ainda e esquecida dos poderes constituídos. Nossa luta era fundamentalmente dirigida contra o presidente Arthur Bernardes. Era a luta contra a fraude que campeava por toda parte, arruinando o país e promovendo a descrença entre os cidadãos. Lutamos, como idealistas, contra o poder da justiça brasileira que já era muito corrupta naquela época e ignorava soberbamente o direito dos pobres. Lutamos por uma justiça limpa e um Estado livre da corrupção, representada, naquele momento, pelo governo de Arthur Bernardes.
Empolgado com as lembranças de sua luta, o velho cavaleiro da esperança, conforme o definiu o escritor Jorge Amado, Prestes refere-se longamente sobre a origem de tudo, o escândalo provocado pelas cartas, comprovadamente de autoria do presidente, como afirma com ênfase, dirigidas ao seu amigo Raul Soares. Divulgadas pelo jornal “Diário da Manhã”, indignou a opinião pública e o pôs em marcha, à frente de uma coluna, em sua heróica reação. Tantos anos depois, Prestes ainda sabe as cartas de memória e as repete com a indignação de sempre. “(...) Os militares podem ser comprados com outros galões e bordados”, escreveu o presidente Bernardes a Raul Soares.
Fragmento de “O Spleen de Natal” [V. 3-3, inédito]

29 de maio de 2021

Natal que Manoel Dantas não viu

 


 


                                    Baldo e Avenida Rio Branco no final da década de 50


A cidade do Natal, no ano de 1959, estava longe de ser a “metrópole do Oriente da América” que Manoel Dantas (1867-1924) previu na sua histórica conferência Natal daqui a cinqüenta anos, proferida no salão nobre do palácio do Governo do Estado, no dia 21 de março de 1909, e que segundo o poeta Jota Medeiros constitui o marco do Futurismo, antecedendo o manifesto de Marinetti.
Com uma população de aproximadamente 167.202 habitantes distribuídos em doze bairros – Santos Reis, Rocas, Ribeira, Cidade Alta, Petrópolis, Tirol, Alecrim, Lagoa Seca, Lagoa Nova, Dix-sept Rosado, Quintas e Mãe Luiza – Natal apresentava insuficiência urbanística caracterizada pela modéstia das edificações, precariedade da malha viária, transportes coletivos obsoletos e, sobretudo, ausência de indústrias.
A administração do município, que tinha 489 logradouros públicos (avenidas, ruas, travessas, praças e vilas), era coordenada por três secretarias (Finanças, Negócios Internos e Jurídicos, Viação e Obras) reunindo vinte e seis repartições. Tinha o suporte da Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil, Serviço de Água e Esgoto de Natal, Serviço de Limpeza Pública e o Serviço de Transportes Coletivos que supervisionava as doze linhas de auto-ônibus (Rocas/Matadouro; Jaguarari; Petrópolis/Grande Ponto; Tirol/Grande Ponto; Circular; Lagoa Nova/Alecrim; Avenida 4; Avenida 10; Rocas/Igapó; Grande Ponto/Praça Augusto Leite; Circular via Alexandrino de Alencar; Natal/Parnamirim) e treze linhas de auto-lotação e micro-ônibus, considerados coletivos de primeira categoria, atendendo no horário das 5 às 22 horas com pequenas modificações no percurso realizado pelos auto-ônibus que funcionavam das 5 às 24 horas.
A educação era ministrada por oito estabelecimentos de ensino superior (Escola de Engenharia, Escola de Serviço Social, Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Atuarias, Faculdade de Direito, Faculdade de Farmácia e Odontologia, Faculdade de Filosofia, Faculdade de Medicina, Instituto Filosófico São João Bosco); quatorze cursos secundários (Colégio Imaculada Conceição, Colégio N. Senhora das Neves, Colégio Santo Antônio, Escola Doméstica, Escola Industrial, Escola Normal, Escola Técnica de Comércio Alberto Maranhão, Escola Técnica de Comércio de Natal, Escola Técnica Visconde de Cairu, Ginásio São Luiz, Ginásio 7 de Setembro, Instituto de Educação do Rio Grande do Norte, Seminário e Instituto Batista Bereiano, Seminário Menor de São Pedro); cento e sessenta escolas mantidos pelo Governo do Estado e noventa e oito “escolinhas” mantidas pela Prefeitura, além de vinte e um cursos particulares.
O sistema de saúde tinha o atendimento de trinta e seis estabelecimentos (hospitais, casas de saúde e ambulatórios) sendo o principal deles o Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes.
O cemitério do Alecrim continuava a ser o nosso único Campo Santo, “onde o cipreste chora noite e dia a música dorida de saudades pungentes”.
A inexistência de supermercado forçava a população a fazer suas compras nos quatro mercados (Cidade Alta, Alecrim, Quintas e Ribeira) e nas mercearias e bodegas.
O lazer era feito nos vinte e cinco clubes recreativos existentes, no Teatro Alberto Maranhão, e nos cinemas, Rex, Rio Grande, Nordeste, São Luiz, São Pedro, São Sebastião, São João e Potengi, além do passeio de barco a motor e a vela até a praia da Redinha, com saída do porto flutuante do Canto do Mangue.
Os jornais “A República”, “Diário de Natal”, “Jornal de Natal”, “O Poti”, “Tribuna do Norte”,  e as estações de rádio, Cabugi, Nordeste, Poti e Emissora de Educação Rural, disputavam os leitores e a audiência da população que tinha poucos divertimentos.
Afora os equipamentos e serviços citados existiam em Natal, “no ano da Graça de 1959”, dez bancos, três bibliotecas, nove cartórios, seis consulados, doze cooperativas, dez agências de correios e telégrafos, treze hotéis, seis pensões, quarenta e sete templos católicos, vinte templos protestantes, dezessete centros espíritas, quatro lojas maçônicas, oito “praças” de automóveis de aluguel, trinta e um sindicatos, nove agências de transportes fluvial (Natal/Redinha), vinte e uma agências de transportes rodoviário e a Rede Ferroviária do Nordeste, que fazia o tráfego com municípios dos Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba, além da cidade do Recife.

João Gothardo Dantas Emerenciano

Fontes: Natal daqui a cinqüenta anos, de Manoel Dantas, Fundação José Augusto/Sebo Vermelho, Natal 1996; Guia da Cidade do Natal de J.A. Negromonte e Etelvino Vera Cruz.