30 de novembro de 2021

Lembrança de filmes natalinos

 


Anchieta Fernandes

        Quando chega o período entre o final de um ano e começo de novo ano, me chega à lembrança as imagens de filmes natalinos, que vi ou nos cinemas da cidade, ou nas programações cinematográficas da televisão, ou em fitas de vídeo, ou em discos para dvd. Os filmes se caracterizam como natalinos ou porque o próprio tema é o Natal, ou porque o tema, não sendo o Natal, é contado na época desta festa e em ambientes decorados com os elementos da simbologia natalina.
      Em minha memória visual cinematográfica (não importando aqui a referência prioritária às casas de exibição de filmes, e sim lembrando-me também do que vi nas telinhas caseiras) perpassam estas imagens de um doce encanto do Natal, acompanhadas de um bimbalhar mágico de sinos e corais de crianças cantando músicas folclóricas vindas das profundidades do tempo. Me marcaram principalmente 4 filmes onde, embora a intervenção dos insucessos e da maldade tente atrapalhar o vigor da mensagem natalina, esta termina por ocorrer, de uma forma ou de outra, em algum momento do filme. São eles:
        Sempre aos Domingos, de Serge Bourguignon, e que estava em cartaz a 18 de julho de 1967 no cinema Rex. A tragédia da incompreensão que cerca a beleza da amizade entre um ex-piloto de guerra e uma menina. O crítico Moura Reis escreveu sobre este filme: “em todo o filme há uma preocupação evidente: a de escrever um poema.”
         Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman, do qual tenho cópia em dvd comprada em banca de revista. O diretor trouxe para o cinema as memórias do Natal escandinavo de sua infância, período em que um dos personagens, ator teatral, morre de ataque cardíaco ao interpretar num auto natalino.
         A Felicidade Não Se Compra, de Frank Capra, e que estava em cartaz a 28 de agosto de 1963 no cinema Rex. Conta a história do homem bondoso que termina por se desiludir, ante a maldade e a ingratidão humana, pensando em se suicidar às vésperas do Natal. Mas Deus o socorre, mandando um anjo convencê-lo a continuar vivo e fazendo o bem.
         A Filha dos Trapalhões, de Dedé Santana, do qual tenho cópia em dvd. Filme criativo, com o final trazendo a bonita mensagem: para uma órfã que nunca viu sua mãe desde que chegou à fase de compreender como afeto fisionomias familiares, o melhor presente de Natal é encontrar e abraçar sua mãe.                                                                         

25 de outubro de 2021

A GENIALIDADE DÊ NEWTON NAVARRO

 

                                                                                                                    Newton Navarro

Odúlio Botelho Medeiros-ex-presidente da OAB/RN

Tive o prazer e a felicidade de ter conhecido e convivido com o pintoe poeta Newton NavarroVivenciei, portantoo seu lado boêmio e o seu valor culturalQuando em estado de "graça", apesar de não lhe fugir à genialidade, tomava-se irônicede uma certa formapolêmico. Todaviaesse comportamento diferenciado é próprio dos poetasque sãrebeldes por natureza. E esse conviver esporádico com o grande artista deveu-se à amizade que elmanteve comeu irmão Emanoel Botelh(Maneco, que se foi para o Estado do Pará e nunca mais voltou) e com eLeandro de Castro, tudo nas décadas de 50/60, nos velhos tempos do Granada Barque funcionava na AvenidRio Branco em Natal.
O Granada era, com toda certeza, o centro culturada boêmia natalense. Nos seus corredoresenas suas mesas não era difícilàqueles da minha geração encontrar figuras como Câmara CascudoLuís Carlos Guimarães, Nei LeandroJurandyrNavarroBerilo Wanderley, Diógenes da Cunha Lima, Nilson Patriota, Sanderson Negreiros, Moacir Cirne.Veríssimo de Melo, o própriNewton Navarro, talvez o seu mais assíduo freqüentador, Luis Rabelo, que fez escolna literatura norte-riograndensena opinião dos críticos da época.
A minha geração, essa geração dpós-guerra, foi muitrica evalores intelectuais e boêmios famosos, como Roldão BotelhoLTavaresAlexandre Garcia, Valter CanutoNei MarinhoAntônio Elias França, e seu filho Glicério, Gil Barbosa, Luís CordeiroCastilho, Raimundo do Cartório, Albimar Marinho, a figura mais pitoresca da cidade. Aencontrao advogado João Medeiros Filho, indagava-lhe cheio de prosopopéia: "e então, DT. João Medeiros, o direito continua líquido e certo?". Isso era ótimo! Peço venia aos outros que aqui não foram mencionadosEram tantos e tantos que os seus nomes não comportariam nesse pequeno espaçoNatal era uma festa!
Na verdade, o que me inspira mesmo a escrever essas reminiscências é a grandiosidade de
Newton Navarro. Entendo que Natal esqueceu muito cedo o seu maior artista, ou melhor, possivelmente um dos mais completos intelectuais na modesta maneira de eu enxergar a cena urbana da cidadeSendo um intelectual polivalente, Newton foo mestre maior da pintura nordestinaAlém disso, era excelente cronista, com as suas estórias curtasricas de beleza e criatividade. E que dizer de sua poesia? Lembro-me que foi ele quem desasnou o grande Nei Leandro para a vocação poética, ao dar-lhe régua e compasso para esse difícil campo das atividades humanasAlém das citadas qualidadesainda escreveu peçasteatrais, literatura infantil, perfilando no campo da oratória, a meu ver o mais completo orador de sua geração, com atuação em todos os campos do discursosacropopular, em recinto fechado, em palanques públicos, em grandes eventos sociais eprincipalmentenos bares da vida. Nesses é que os homens revelam os seus melhores sentimentos e os seus dotes humanitários.
Destacou-setambém, como novelista ... (De Como se Perdeu o Gajeiro Curió)Não se pode
esquecer o Newton folclorista, cultor dos fandangoschegam asbumba-meu-boilapinhas, pastoriscocos de roda, maxixes, xotese tantas outras manifestações populares atualmente esquecidas e em desuso.
Tudo issoDjalma Maranhão incentivava na condição de Prefeito de NatalFoiinegavelmente, o mais lírico e populaprefeito desta cidade de xarias e canguleiros. A obra deixada pelo genial escritor é significativa, por ser variada e múltipla; Poesias: Subúrbio do Silêncio; ABC do Cantador Clarimundo. Crônicas: 30 Crônicas Não Selecionadas. Contos: O Solirio Vento do Verão; Os Mortos são Estrangeiros (o seu livro preferido)Do Outro Lado do Rio, Entre os Morros. NovelaDe Como se Perdeu o Gajeiro Curió (o escritor Nilo Pereira afirmou que esta novela deveria tesido filmada)Teatro: Um Jardim Chamado GetsemaniO Caminho da Cruz uma Via Sacra encenada ao ar livre, em Natal, pioneira nesse ramo teatralHoje tem Poesiaencenada no TAMO Muro, encenada no TAM. Além dessas, existem muitas outras peças inéditas que sua mulher Salete Navarro esperava que fossem publicadas, por quem de direito. Salete lutava rdentemente pela criação de uma fundação para que a obra do grande escritonão viesse a perecer.Morreu sem poder realizar o seu sonhoInesquecível Newton Navarrofalecido aos 63 anos de idade, receba esta crônica pelo menos comouma homenagem da minha geração. Ainda bem, que agora, o atual governo prestou-lhe merecidahomenagem ao denominaPontNewton Navarroessa grande obra de integração urbana e social. Somente assim Newton, essa cidade continuará sempre sua.

Meu amigo poeta

 Walter Medeiros


As gavetas da minha lembrança ficam meio emperradas em certas circunstâncias, como a que vivencio neste momento. Quero lembrar o instante em que conheci um amigo de longas datas. Mas sinto que é mesmo impossível. O que resta é saber que o conheci em uma noite triste, mesmo que o tenha conhecido de dia.

Era o tempo em que o simples fato de conversar com alguém podia gerar sérios problemas. Para trocar ideias e tratar das lutas pela liberdade no Brasil, frequentemente era necessário marcar encontros, conversas e reuniões em bares. Assim ocorria nos anos setenta do século passado. Havia quem dissesse que quando escrevessem a história da revolução brasileira os bares teriam um capítulo especial.

Conheci, então, o amigo nesse ambiente. Nos bares da época: Pitombeira, Postinho, Asfarn, Castanhola, Jangadeiro. Além dos bares, sempre nos encontrávamos no Cine Clube Tirol, no Cinema de Arte do Rio Grande – manhãs de domingo, nas casas de amigos. Também nos ambientes legislativos, comícios, feiras, debates.

Posso definir esse amigo como um revolucionário, poeta, boêmio, notívago, intelectual, operário do dia a dia. Uma pessoa de bom gosto.

Daquelas gavetas sem datas precisas surgem as lembranças de sua habilidade com o violão, cantando músicas de Geraldo Vandré e falando sobre seu prazer de ouvir Capinam. Tudo junto com os amigos que corajosamente faziam tudo que podiam para mudar o mundo. Era tudo difícil, indefinido, duvidoso, aflitivo, mas era viver ou viver aquele momento, assim definido por outro amigo, filho de um homem da Escola Superior de Guerra – ESG: “Se peguei o bonde errado, agora vou até o fim da linha.”

Nos passos desse amigo vi seus versos delirantes e fascinantes, que expôs para o mundo em seus livros e recitais informais. Vejo sua mansidão e humanismo sem igual. Sua presença já é suficiente para completar a nossa vida, a nossa cidade, o nosso mundo.

No dia de hoje vi certas alusões ao dia do amigo. Sendo ou não – não conferi – aqui presto uma homenagem a esta figura que consegue até desfazer uma máxima segundo a qual “toda unanimidade é burra”. Ele é uma unanimidade e não torna burrice assim defini-lo.

A significância desse nosso amigo é tanta que o que sei, vi, vivi e compartilho com ele é uma palhinha diante do que certamente têm dele a dizer os outros. Os inúmeros amigos de Manoel Fernandes, Volonté.

14 de setembro de 2021

Serpentes no cinema

 


                      

Anchieta Fernandes

    Pois é: estes (ou estas? Geralmente, na língua portuguesa a sua designação é no feminino: serpente, cobra, víbora) animais da espécime dos ofídios também tem sido mostrados nas telas dos cinemas, computadores ou tvs em diversas situações e sob diversas intenções de diretores e estúdios produtores. Alguns países do Oriente são as terras dos encantadores de serpentes. Estes profissionais que enganam as cobrase as próprias pessoas que olham o espetáculo. Pois, já que as cobras tem uma audição muito fraca, elas sobem dos cestos quando os flautistas os destampam, não por ouvirem a música , e sim não somente por terem o impulso da postura ereta, mas por ficarem quase hipnotizadas com os movimentos dos braços dos tocadores de flauta, para cima e para baixo e para um lado e para o outro.
     Ver este movimento, mas também ouvir a música foi o que motivou a pequena personagem do filme O Balão Branco (1995, dirigido pelo iraniano JafarPanahi)a se arriscar a ir aos locais das ruas onde ficam os encantadores de serpentes, locais estes proibidos para as crianças, intuindo esperteza para a vida, com as cenas ilegais que os encantadores de serpentes praticam, inclusive tomar dinheiro de crianças. Mais adiante, falarei do que as cobras, serpentes etc. significam de negativo e de ruim para os seres humanos. Embora não se possa esquecer que, como mostrou o pequeno curta-metragem (9 minutos) Por Exemplo, Butantã, de Roman Stulbach, está-se sempre produzindo no instituto paulista soros anti-ofídicos, para serem usados na imunização das vítimas das picadas de cobras.
    Ao longo da História do Cinema, tem outros relacionamentos de crianças com cobras, seja para enfrenta-las e destruí-las, seja como adaptação à ação das cobras em nível de espiritualidade e poesia. O filme Kaliya(ou A Serpente Kaliya, na versão em português para dvd, dirigido por DhumdirajGovindPhalke, é um dos pioneiros do cinema indiano. Foi realizado em 1919. Conta passagens da vida da divindade Krishna quando ela era criança. São três episódios: a vingança da pequena deusa contra uma mulher que ofendeu seus amiguinhos crianças; uma pregação de susto noturno em um casal; e o final apoteótico, a pequena deusa domando a serpente marinha Kaliya, e sendo aplaudida entusiasticamente no vilarejo, beijada e carregada aos ombros pelos homens.
   Além de ter dialogado com uma cobra de umzoológico no primeiro filme da série(Harry Potter e a Pedra Filosofal, de 2001, dirigido por Chris Columbus), em Harry Potter e a Câmara Secreta (o segundo filme da série, de 2002, também dirigido por Chris Columbus), o pequeno bruxo se depara com a presença do basilisco, a serpente fabulosa. Que queria matar ele e sua amiga Gina Wisley. No entanto, Potter consegue matar o basilisco,e salvar a ele próprio e sua amiga, com a ajuda de uma coruja vermelha, cujas lágrimas, derramadas nos ferimentos, agem como um antídoto contra o veneno da grande cobra. Sob a direção de Columbus, as encantadoras estórias de J.K.Rowling se tornam clássicos da sétima arte, onde a peçonha das serpentes perde todo o seu poder maléfico.
   Outro filme muito bonito, que mostra também o relacionamento de crianças com cobras, embora de maneira mais simpática aos ofídios, é O Pequeno Príncipe, adaptação musical do diretor Stanley Donen em 1974, feita a partir da obra original de Saint-Exupéry. Quase ao final do filme, a cobra pica mortalmente o pequeno príncipe, que em espírito volta para a sua pequena estrela, mas deixando seu sorriso maravilhoso brilhando em cada uma das estrelas que o piloto que tivera seu avião avariado no deserto, passa a contemplar enquanto levanta vôo de novo após consertar o avião.É um filme belíssimo, emocionante, onde quase dá para intuir o destino das cobras, metaforicamente mais nobre. A deste filme diz ao seu interlocutor que sua picada é indolor.
     O animal peçonhento causa medo e raiva quando não se tem uma convivência compreensiva com ele. No filme Tainá – Uma Aventura na Amazônia, de 2000, dirigido por Sérgio Bloch e Tânia Lamarca, acontece uma situação comparativa de medos que nascem em aglomerados culturais diferentes: a pequena índia interpretada por Eunice Baía se assusta, fica com medo do relógio-despertador de um barco que dispara a campainha.Joninho, um menino branco que se torna amigo de Tainá, fica apavorado ao ver uma cobra, corre chamando a indiazinha para protege-lo, e encontra ela, tranquila, segurando ao pescoço uma grande cobra, que ela diz ser a protetora de tudo que existe, árvores, rios etc. É a pureza deste imaginário indígena que dá a conotação poética que fertiliza a visão infantil sobre animais, inclusive cobras.
   E as mulheres? Como é o relacionamento delas com cobras no cinema? Lembre-se, antes de tudo, que existe uma expressão popular que define mulheres ruins, malignas: “esta mulher é uma cobra” (ou, às vezes, detalhando a família de um ramo de cobras: “esta mulher é uma cascavel”; ou: “esta mulher é uma jararaca”; talvez se se quisesse denominar uma que fosse a representante da máxima ruindade feminina, poder-se-ia dizer: “esta mulher é uma taipan”, pois, de origem australiana, a taipan (oxyuranusscutellatus) é a cobra mais venenosa que existe, picando a pessoa várias vezes seguidas. Seu veneno faz efeito mortal em poucos minutos. A mais venenosa do Brasil é a coral verdadeira (gênero micrurus), cujo veneno mata a vítima em algumas horas, se ela não for logo socorrida. O veneno age sobre o pulmão e coração.
    Mas é mesmo somente uma expressão metafórica popular, pois não existem mulheres-cobras, a não ser em férteis imaginações artísticas, fabulares etc. Cobras são animais répteis da espécime dos ofídios, e mulheres são também animais (racionais), bípedes, da espécime dos hominidas. No entanto, não resta dúvida que no cinema, algumas vezes, a imagem das cobras aparece junto da imagem das mulheres. O que pode ser reforçado com a lenda bíblica, segundo a qual o próprio Satanás usou a forma do animal ofídico para tentar o suposto primeiro casal da espécie hominida, Adão e Eva, sugerindolhes (falando a Eva) a comerem do fruto da árvore que Deus havia proibido eles comerem, pois então seus olhos se abririam e eles passariam a conhecer o bem e o mal. E Eva comeu e deu da fruta a Adão.
    Esta cena empreendida por Satanás sob a forma de serpente, que teria gerado o Pecado Original, foi filmada por John Huston para o seu filme “A Bíblia”, realizado em 1966. No contexto de filmes históricos da história do cinema, alguns focalizaram a vida da rainha egípcia Cleópatra e seus amores com os imperadores romanos Júlio César e Marco Antônio. Como ela era muito bonita, achava que poderia conquistar qualquer poderoso com seus encantos. Não conseguindo a façanha com outro imperador romano, Otávio, desgostosa suicidou-se deixando-se picar por uma cobra. Assim, em qualquer filome sobre Cleópatra as cobras são essenciais a se fazerem presentes nos cenários. Uma das primeiras intérpretes de Cleópatra foi ThedaBara, em filme de 1917 dirigido por J.Gordon Edwards. Uma das mais bonitas foi Elizabeth Taylor.
   No Brasil, um dos filmes que mostrou o relacionamento amistoso entre mulheres e cobras foi Luz delFuego, realizado em 1981 pelo diretor David Neves. Conta a história da pioneira do naturismo no Brasil, que se apresentava em shows nos anos 50 do século passado, “vestida” apenas por cobras que deslisavam em seu corpo nu. A atriz Lucélia Santos, que interpretou Luz delFuego, emdebora tendo crises de insônia e choro diante da perspectiva de ter jiboias passeando em seu corpo, terminou por criar uma relação de verdadeira dependência afetiva mútua entre ela e uma das cobras, a que ela batizou de Virgínia, de três metros, e que se enroscava no corpo da atriz e esfregava a cabeça em seu rosto. Aliás, no filmeBladeRunner o Caçador de Andróides (1981, Ridley Scott), tem uma replicante que dança com umacobra numa boate, o que pode representar sensualidade.
    Filmes deste tipo podem levar a outra especulação: e o relacionamento de homens com cobras no cinema, elas podem ser atrativas ao gênero masculino da espécie hominida por representarem sensualidade, seu corpo sugerindo uma forma fálica? Pode ser. Mas existem outros motivos de atração. No 1º documentário da série “Selvagem ao Extremo”, o cineasta João LuisUrbaneja documentou a coragem e o entusiasmo do cientista aventureiro Richard Rasmussen, arriscando de frente o contato com animais silvestres perigosos. Ele segura uma cobra sucuri e grita: “Que linda! Que linda! Que lindo animal!” Então, se pode saber que para Rasmussen cobras não são símbolos de sensualidade, ou armas para se suicidar, e sim elementos de preservação dos biomas nacionais, seja no Sul da Amazônia ou Pantanal Norte.
    Independente de ser o espectador homem oumulher, uma pergunta a mais: porque filmes como Serpentes a Bordo (2006, David R. Ellis) se tornam de repente sucesso na Internet (blogues, outros sites), para em pouco tempo fracassar diante do público em geral? Talvez a falsidade de algumas das cobras que atacam os passageiros do avião, criadas por efeito digital, correndo com velocidade exagerada, foram o estopim de desencanto do público que esperava desfrutar de mais um disastermovies aviatório. Em reportagem na revista Set, o diretor Ellis se explicou: “Serpentes não é uma piada, é um filme que se leva a sério, mesmo com sua premissa absurda”. E o ator Samuel L.Jackson: “Eu nem quero que os críticos vejam Serpentes – fiquem em casa! O que me importa é o moleque com o rosto coberto por espinhas e que de fato gosta de juntar a turma para ir ao cinema.”
     E as metáforas negativas a respeito de cobras que perpassam o núcleo de determinados filmes? Porque o filme de Bergman se chama O Ovo da Serpente? Diz o personagem Dr. Vergerus: “É como o ovo da serpente. Através da fina membrana, já se percebe o réptil perfeitamente formado.” O crítico Jairo Arco e Flexa, da revista Veja, complementou:“Com essa imagem, Bergman procurou mostrar no filme como nasce o nazismo – e, por extensão, todo tipo de regime totalitário” (revista Veja, 19/09/1979). Ou seja: o ovo da serpente não disfarça o corpo do réptil, visto através da fina membrana. E o nazismo pode ser observado através dasfinas idéias soltas em folhetos disfarçados de puras plaquetas literárias. É preciso um combate sério. È preciso destruir o ovo e mostrar idéias realmente novas e não as membranas idéias de plaquetas superadas.
   A forma do corpo da cobra e sua lembrança referente ao assassino de Maria Goretti. É no filme Céu Sobre o Pântano (1949, de Augusto Genina): crianças encontram uma cobra, e logo em seguida uma tomada em câmera alta do assassino de Maria Goretti, fazendo ele parecer uma cobra. No filme Adoradores do Diabo (1987, John Schlesinger), o sacerdote do mal adquire poderes, como, por exemplo, colocar cobras no ventre de um homem. Mas aí já é um exagero quanto ao uso das cobras para intervenção maléfica no corpo de uma pessoa, um exagero que talvez o próprio José Mojica Marins não usaria. Mas os exageros do filme Eraserhead (1976, David Linch), como, por exemplo, um personagem abrir a boca e uma pequena cobra sair voando de dentro da boca, são explicáveis porque o filme é de um teor surrealista, lembrando contos fantásticos góticos.
   Por ser a cobra um animal rastejante e traiçoeiro, em algumas cenas de filmes há a conotação dessas características do animal, através de momentos de suspense: no filme Os Caçadores da Arca Perdida (1981, Steven Spielberg), o personagem Indy desce num fosso, encontrando várias serpentes. São serpentes de verdade, separadas do ator Harrison Ford por uma parede de vidro. Durante a filmagem de uma das cenas, uma cobra chegou a cuspir veneno no lado do vidro onde estava. O filme Vício Frenético (2009, Werner Herzog), começa mostrando “na Nova Orleans destruída pelo furacão Katrina , uma cobra desliza pela água escura e oleosa que inundou um xadrez, no qual um único preso foi esquecido” (Isabela Boscov, em comentário sobre o filme na revista Veja, de 20 de janeiro de 2010, onde ela opina também que o filme “é uma criação integralmente original.”
   Enfim, a presença de serpentes é um verdadeiro mosaico de variedades. Seja a magia do desenho animado de Hong Kong Panda e a Serpente Mágica, dirigido por TalijiYobushita em 1975. Seja o filme de aventuras Os Caçadores da Serpente Dourada (1982, Anthony M. Dawson), quase uma imitação das aventuras de Indiana Jones, no caso a procura aqui é pelo amuleto, a serpente dourada, que também é cobiçada por fanáticos religiosos. Interessantes também são as cobras não verdadeiras, apenas fabricada em forma de brinquedos. No filme“Meu Pé de Laranja Lima”(realizado em 1970 pelo diretor Aurélio Teixeira, baseado em livro de José Mauro de Vasconcelos), o personagem Zezé (um menino), em determinada cena prega um susto numa transeunte mostrando-lhe uma cobra de papel. É o animal do mal prestando-se ao ludismo da  criança.

    Não se esqueça também que a imagem da serpente, da cobra etc., está na cabeça de diretores ou dos tradutores dos títulos dos filmes para o português, de tal maneira forte que cobras estão nos títulos sem aparecerem no enredo. Foi o caso de Na Cova da Serpente (1948, AnatoleLitvac), Blonde Cobra (1963, Ken Jacobs), Parente é Serpente (1992, Mario Monicelli). Contudo, é bom mencionar aqui um filme, que tem cobras no enredo (com idéia absurda: um cientista que tenta transformar um homem em cobra), mas cujo título é quase um objeto a ser lido como significante, mais do que como significado. Foi SSSSSSS, realizado em 1973 pelo diretor americano Bernard Kowalsky, e que, como se vê, tenta imitar o silvo das serpentes através de uma onomatopeia originalíssima. Kowalsky é um dos diretores de grande reputação como representante dos estúdios B.

4 de agosto de 2021

Natal, década de 40

                  

                                                                 


  
                                                                                     Maria Barros - conhecida como Maria Boa


(José Correia Torres Neto *)  

    A cidade fervilhava de militares americanos e brasileiros. Aviões, hidroaviões, Catalinas e Jeeps patrulhavam a vidados natalenses.Instalava-se na cidade a paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros (24/06/1920 - 22/07/1997). Começava neste ínterim a história da mais conhecida casa de tolerância do Estado (do país ou do mundo?).Entre as movimentações na Ribeira, nas pedidas de Cuba Libre no saguão do Grande Hotel, nas notícias pelas Bocas de Ferro, na Marmita, em Getúlio e em Roosevelt e na nova geração de meio americanos e meio brasileiros, lá estava Maria Barros enaltecendo-se na Cidade do Natal como a proprietária do melhor (ou maior) cabaré.Tornou-se conhecida como Maria Boa. Mesmo com pouco estudo ela despertou o gosto por música, cinema e leitura.
   O seu”estabelecimento” era o refúgio dos homens da cidade, com residência fixa ou, simplesmente, por passagem por Natal, e servia de referência geográfica na cidade. Jovens, militares e figurões acolhiam-se envoltos nas carnes mornas das meninas de Maria Boa. Muitas mães de família tiveram que amargar,em silêncio, a presença de Maria Boa no imaginário de seus maridos em uma época de evidente repressão sexual.Vários fatos envolveram a personagem. Um episódio muito comentado foi a pintura realizada pelos militares em um avião B-25. Um dos mais famosos aviões da 2a Guerra Mundial, os B-25 eram identificados com cores características de cada Base Aérea. Os anéis de velocidade das máquinas voadoras da Base Aérea de Salvador eram pintados com a corverde.
Os aviões de Recife, com a cor vermelha, e os de Fortaleza, com a cor azul. Para a Base de Natal foi convencionada a cor amarela.
   Os responsáveis pela manutenção dos aviões em Natal imaginaram também que deviam ser pintados no nariz do avião, ao lado esquerdo da fuselagem,junto ao número de matricula, desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia. Autorizada pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo, a idéia foi colocada em prática. Pouco tempo depois, os B-25 de Natal surgiram na pista com caricaturas femininas e alguns até com nomes de mulheres. Alguns militares da Base escolheram o B-25 (5079), cujo desenho se aproximava mais da imagem de Maria Barros.
   Outras aeronaves também receberam nomes como “Amigo da Onça” e “Nega Maluca”.Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até à linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar, para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato. As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição “Maria Boa”.O mito “Maria Boa” rendeu trabalhos acadêmicos: o de Maria de Fátima de Souza, intitulado: “A época áurea de Maria Boa (Natal-RN 1999)”. O trabalho aborda o “fenômeno da prostituição infanto/juvenil, suas conseqüências e causas no desenvolvimento físico e psicossocial de crianças e adolescentes (...). Com o aprofundamento dos estudos percebemos o importante papel dos bordéis na prostituição, bem como o fechamento dos mesmos (...). Chegamos então ao cabaré de Maria Boa, já fechado.
   Tivemos, assim, a oportunidade de conhecer um pouco da saga da Sra. Maria de Oliveira Barros, uma profissional do sexo, com grande importância na história da prostituição de adultos, ou ainda,tradicional; das histórias contadas a seu respeito chamou-nos atenção para sua representação social, seu “mito” e sua ligação com o imaginário masculino. Com isso, passamos a averiguar mais profundamente uma participação na sociedade da época e buscamos reconstruir parte de sua história enquanto meretriz, cafetina, e proprietária da mais famosa casa de prostituição que o RN já conheceu.”O Professor Márcio de Lima Dantas publicou em 2002 o texto “Retratos de silêncio de Maria Boa”. “(...) Para além da atitude ética de proteger sua família, o que faz parecer um jogo com a hipocrisia da sociedade, penso que, na atitude de se manter reservada, se inscreve outro aspecto digno de ser ressaltado.
  Falo do mito que entorna a personagem Maria Boa, de certa maneira, criada e ritualizada por ela mesma, dimensão de fantasia para além do empírico vivenciado. (...)Astuciosamente se fez conhecer por “Maria”, o antropônimo mais comum no universo feminino, genérico e pouco dado a divagações semióticas.Ironicamente é o nome da mãe de Jesus... Quem não tinha conhecimentono Estado de uma proprietária de um requintado lupanar, e que se chamava Maria, a Boa. O mito, da constituição do éter, era aspirado por todos, preenchendo necessidades, ocupando lugares no espírito,imprimindo fantasias nos adolescentes, despertando em jovens mulheres as aventuras da carne, engendrando adultérios imaginários.
   Integrava, assim, o patrimônio individual e coletivo. (...)”Eliade Pimentel, no artigo “E o carnaval ficou na memória” destaca a presença de Maria Barros nos carnavais de Natal: Lá pela década de 50,os desfiles passaram a acontecer na avenida Deodoro da Fonseca. Maria Boa desfilava com Antônio Farache em carros conversíveis. “Em 2003 o cantor Valdick Soriano, quando entrevistado por Everaldo Lopes, registrou que quando esteve em Natal, pela primeira vez, cantou até para as meninas de “Maria Boa”.Maria Barros é história. Mesmo sendo paraibana é a Primeira Dama (ou anti-Dama) de Natal. Impera nas lembranças dos seus contemporâneos e se faz presente nos prostíbulos que ainda resistem nas periferias da cidade ou travestidos de casas de “drinks” nos bairros mais nobres.Ela é citada no filme For All - O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado em 1997) de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz. O filme retrata a cidade do Natal em 1943 quando a base americana de Parnamirim Field, a maior fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.
   Para a população local a guerra possuiu vários significados. A chegada dos militares americanos alimentou fantasias de progresso material, romance e, também o fascínio pelo cinema de Hollywood. Em meio aos constantes blecautes do treinamento anti bombardeio, dos famosos bailes da base aos domingos, dos cigarros americanos, da Coca-Cola e do vestuário estavam os sonhos natalenses. Sem questionamentos, “Maria Boa” foi uma das principais atrizes no elenco desse belicoso teatro. A Primeira Dama Maria Boa... Para a dupla JL e Gê lembra dos tempos de gente pequena.
Quem não se lembra da famosa Maria Boa? Eu a conheci de uma forma muito interessante.
    Quando tinha uns 15 anos, a casa vizinha à nossa, na Cel. Glicério Cícero, no Barro Vermelho, foi alugada a uma senhora já idosa que tomava conta de dois netos, uma menina e um menino. Com o passar do tempo soubemos que a senhora era a mãe de Maria Boa e que as crianças eram seus filhos. O pessoal da rua se isolou daquela senhora. As crianças estudavam no Colégio das Neves, bem pertinho de onde morávamos. Um dia, a velha veio nos convidar para a primeira eucaristia de sua neta. Ninguém na rua compareceu, mas eu, sempre danada de curiosa fui lá contra a vontade de mamãe. Cheguei e encontrei uma grande festa com diversas senhoras, cada uma mais bem vestida do que a outra, com muitas jóias etc. Fui apresentada à mãe da menina, chiquérrima, elegantíssima e muito fina. Aí descobri porque era tão procurada...