12 de agosto de 2022

Imprensa feminina no Rio Grande do Norte

 


Constância Lima Duarte e Diva Cunha Pereira de Macêdo

Em 1993, quando revirávamos bibliotecas e arquivos em busca dos traços mais remotos da produção literária feminina do Estado, fomos surpreendidas com notícias da existência de inúmeros jornais e revistas dirigidas e compostas exclusivamente por mulheres. Essas publicações evidentemente pretendiam legitimar uma produção intelectual, na medida em que se colocavam enquanto um espaço legítimo de veiculação de trabalhos literários.
Assim, de uma pesquisa em andamento, uma outra nasceu. Buscávamos o corpus da literatura de autoria feminina no Rio Grande do Norte, e encontramos o meio utilizado pelas autoras para a divulgação de seus escritos. Aos poucos, juntando informações como quem junta um quebra-cabeça, reunimos títulos, datas e alguns nomes das que primeiro por aqui tentavam romper barreias sociais e ensaiavam investidas no espaço público.
Anteriormente tínhamos encontrado a notícia de um jornal chamado Primavera, que havia sido publicado por um certo senhor Custódio L. R. d”A em Açu, no ano de 1875, e que se dirigia “às caras e inestimáveis leitoras”. Os jornais e revistas dirigidos por (e para) mulheres apenas começam a surgir no início do século, como A Esperança, que circulou entre os anos de 1903 e 1908, em Ceará - Mirim, e que surpreende por ter sido todo ele manuscrito! O fato de não ter acesso às tipografias não impediu que Dolores Cavalcanti e Isaura Carrilho se investissem do papel de redatores registrassem, numa caligrafia caprichada, as veleidades literárias das jovens de seu tempo. Aquelas moças provavelmente estavam impelidas pela esperança de um dia também elas serem reconhecidas enquanto escritoras...
Anos depois, em 1913 em Macau, surgiu (devidamente impresso) a Folha Nova, dirigido inicialmente pro Alexandrina Chaves e depois por Maria Emília e Joana G. Sampaio. Eram suas colaboradoras Leonor Posada e Olda e Dulce Avelino, conhecidas poetisas de seu tempo. Em Açu, de 1917 a 1919, circulou O Alphabeto sob a direção de Maria Antônia de Morais, com a colaboração de Cecília Cândida Silva, Maria Leitão e América de Queiroz e Palmyra Wanderley. Em Macau encontramos também notícias do jornal A Salinésia, de 1926, criado por um grupo de jovens e que era apresentado oralmente (!) no Teatro Moderno. Em Caicó, neste mesmo ano de 1926 circulou pela primeira vez o Jornal das Moças, dirigido por Georgina Pires e Dolores Diniz. As colaboradoras assinavam seus textos sob os pseudônimos de Marinetti, Potiguara, Violeta, Flor de Liz, Helenita, Sertaneja, entre outros. E em Currais Novos existiu O Galvanópolis, de 1931 q 1932, sob a direção de Maria do Céu Pereira.
Em Natal, a primeira iniciativa parece ter sido Via-Láctea,  idealizada e dirigida por Palmyra e Carolina Wanderley, que circulou durante os anos de 1914 e 1915. Além dele encontramos ainda em Natal os jornais Sursum, de 1937, O Potiguar, de 1939, entre outros.
Vejamos esta publicação intitulada Via-Láctea. Após tê-la procurado nas principais bibliotecas públicas e particulares de Natal e do interior, sem sucesso, fomos encontrá-la na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em meio a outros periódicos de mesmo nome, de locais e épocas diferentes. Ali estava, em nossas mãos, a mesma Via-Láctae de Palmyra e Carolina Wanderley que numa estrelada noite de 1914 havia surgido nos céus potiguares. Eram apenas oito números – de outubro de 1914 a junho de 195 – mas o suficiente para testemunhar a iniciativa daquelas moças de também participar do espaço público.
Como no oitavo número uma das redatoras reclamava da pequena participação das colaboradas, julgamos que a publicação tivesse terminado aí. Mas pesquisas posteriores, principalmente em A República, revelaram que mais alguns números – pelo menos uns quatro ou cinco – foram publicados de Via-Lácea. Aliás, encontramos em A República referências a praticamente todos os números do jornal. Cada novo lançamento era noticiado, sendo que algumas vezes com veementes elogios à coragem de suas autoras e à qualidade o Material impresso.
Mas nem tudo eram flores para as jovens redatoras. No mês que comemoravam um ano da existência do jornal, por exemplo, encontra-se o comentário de um jornalista que nos permite perceber com nitidez a resistência que enfrentaram, as críticas e uma certa descrença no trabalho que realizavam. O autor da nota confessa abertamente sua surpresa pelo fato de a Via-Láctea ter conseguido sobreviver tanto tempo, nestes termos:
A Via-Láctea festejou ontem o seu primeiro aniversario. Não nos queriam mal as redatoras da simpática revista por lhes dizer que nunca acreditamos na realização deste milagre. Sempre pensamos que uma revista de moças, redigida exclusivamente por moças, terá em nossa terra a prematura existência das rosas Não havia nesse pressuposto sombra de desconfiança na inteligência e boa vontade as colegas que revelaram, dês da publicação do primeiro número da Via-Láctea, qualidades à altura da espinhosa iniciativa. O nosso receio provinha do ambiente intelectual indígena, dessa indiferença de natal para manifestações artísticas, tidas como desnecessárias à vida da cidade. (A República, 26/10/1915)
Esta confissão de pouca fé na sobrevivência da revista, devido principalmente ao fato de se tratar de uma publicação feita por mulheres, encontra-se também em outros artigos. Da mesma forma, a confusão entre as autoridades e o seu trabalho através do emprego sistemático de expressões concernentes às qualidades esperadas ou desejadas para s moças. Assim, para a maioria dos jornalistas, a Via-Láctea era sempre “mimosa” “encantadora” e “gentil”, numa flagrante feminização do periódico que lutava par se impor enquanto trabalho sério, e que se propunha lutar pelo aperfeiçoamento intelectual da mulher potiguar.
O primeiro grupo de colaboradoras foi constituído por oito moças da melhor sociedade  letrada de Natal, como Palmyra e Carolina Wanderley, Stella Gonçalves, Maria da Penha, Joanita Gurgel, anilda Vieira, Dulce Avelino e Cordélia Sílvia e Sinhazinha Wanderley. A forma como se dava a colaboração de Cada uma com certeza era diferenciada, pois é comum encontrar um número maior de textos assinados por algumas no mesmo periódico, enquanto outras aparecem apenas com um artigo ou poema. E logo no segundo número Palmyra e Carolina Wanderley assumem a coordenação geral dos trabalhos.
Um dos graves problemas que uma pesquisa como esta costuma enfrentar è justamente a identificação dos pseudônimos, que terminam por funcionar como verdadeiras máscaras que se multiplicavam sempre em touros e novos nomes. O uso do pseudônimo, aliás, foi um artifício muito utilizado pelas mulheres nos séculos passados, e mesmo nas primeiras décadas deste, como forma de se proteger e de preservar os familiares da exposição pública e da crítica. Adentrar pelo campo literário (ou o jornalístico) naqueles tempos era uma atitude decididamente audaciosa para qualquer mulher, por mais competente ou talentosa que fosse. E no Rio Grande do Norte não era diferente.
Assim, apesar de a Via-Láctea trazer na primeira página os nomes de suas autoras, os textos estão quase sempre assinados por outros nomes, como Fanette, Mércia, Marluce, Hilda, Nídia, Zanze, Myriam, Ida Silvestre, Ângela Marialva, Violante do Céu, Jandira, etc. etc, totalizando cerca de vinte e cinco pseudônimos. Quanto ao teor dos escritos o subtítulo “Religião, Arte, Ciências e Letras” aponta para seu conteúdo.  Predominam poemas, contos e crônicas, em meio a comentários obre arte, descobertas científicas e matérias sobre o papel da educação na formação das moças.
Encontra-se nas páginas da Via-Láctea, inclusive, uma polêmica entre duas colaboradoras Acerca da educação que devia ser ministrada à mulher, que bem deve revelar as opiniões conflitantes sobre o tema que circulavam na época. Uma defenda educação voltada para s funções domésticas; a outra por acreditar na emancipação feminina através da educação, exige uma educação mais consistente que permitisse à jovem competir com o rapaz no campo de trabalho. Aliás, esta discussão devia estar na ordem do dia pois, acabava de ser inaugurada na cidade, com muita pompa e circunstância, a Escola Doméstica, cujos diretores alardeavam que sua proposta educacional representava a Última palavra na Europa em educação de meninas...
Em matérias de jornais, um cronista que costumava assinar “Jacynto” (e que não era outro senão Eloy de Souza, irmão de Henrique Castriciano, o fundador da Escola Doméstica) refere-se de modo desabonador ao Via-Láctea  e defende a função social da mulher preconizada pela nova escola. Não deixa de ser bem significativo, comparar o nome do jornal que veiculava as idéias da Escola Doméstica. “O Lar”, com ao da revista “Via-Láctea”: enquanto um refletia nitidamente os limites domésticos de seu horizonte de atuação, outro adotava um título que bem pode ser considerado a prova contundente de que maiores e bem mais elevados era os seus ideais.
Estas questões, aqui aprestadas tão ligeiramente, refletem apenas nosso desejo de incentivar outros pesquisadores para o estudo da participação das mulheres potiguares na história intelectual do Estado. Se queremos realmente conhecer o difícil trajeto percorrido por nossas antepassadas na busca de seus direitos e na conquista de seus espaços, será preciso pesquisar em antigos jornais e revistas. Lá com certeza ainda encontram-se ainda hoje o eco de suas vozes.

Transcrito do Jornal Cultural “O Galo” de junho de 1997.


24 de junho de 2022

O nordeste dos violeiros e repentistas

 

Talvez a figura mais popular do Nordeste brasileiro seja o cantador, o violeiro. Por muitos anos, o repente serviu como o único meio de comunicação em terras áridas e inóspitas. Fazia as vezes de rádio, de tevê, de revistas. E não era só isso: as notícias vinham em forma de versos, rimados, ritmados, poéticos. Ivanildo Vilanova é hoje, reconhecidamente, o maior repentista brasileiro. O mais respeitado de todos. Mora em Campina Grande, Paraíba, capital dos repentistas, dos cantadores, a três horas de João Pessoa. Lá reúnem alguns dos maiores violeiros do Brasil.
            Eles se espalham por todo o Nordeste, de ônibus, de carro, a cavalo - sempre para uma cantoria num centro comercial ou numa distante fazenda. Ivanildo, e todos os outros violeiros, recebem cartas-convites, telefones, telegramas, todos convocando, ou propondo, alguma noitada de cantoria. Quem envia são os chamados "apologistas", espécie de animadores e entusiastas da poesia popular. O trabalho de Ivanildo Vilanova se destaca entre as centenas de violeiros pela sutileza de seus versos, pela síntese de seus improvisos e pela variedade temática. Pertence ao grupo de cantadores que são capazes de improvisar, com conhecimento de causa, sobre qualquer tema, da História Universal à Química, da política as artes plásticas – uma raridade, de fato.
            Todas as tardes, os violeiros se reúnem no Drink's Bar, boteco localizado em frente à Rádio Borborema, em Campina Grande. No bar, recebem telefonemas, recados, são convidados para cantorias, trocam impressões sobre os melhores pontos, formam duplas para uma viagem repentina, e no final da tarde participam do programa diário na Rádio Borborema. É um quadro ouvido em toda a região: comunica as cantorias do dia, os locais, as duplas, informa os violeiros que estão com a agenda livre e, de quebra, coloca ao vivo alguns repentes. O repentista Ivanildo Vila Nova diz que  em 1974 ele e outros amigos  fizeram um congresso de violeiros, reunindo os melhores repentistas do Nordeste.
            Até então, os congressos que aconteciam não chegavam a chamar a atenção. “Conseguimos então mostrar ao público inclusive cantadores ótimos, e totalmente desconhecidos. Nos anos seguintes, o congresso passou não só a revelar novos talentos, como a mostrar a criação de novos gêneros: como o Brasil Caboclo, por exemplo. O O violeiro é de suma importância para o Nordeste. Ele é o principal veículo, a principal manifestação de folclore, como querem dizer. O repente tem tudo: boa poesia, ritmo, rima, bom humor, romantismo, tudo.  Desafio é logo o primeiro verso dum violeiro para o outro, quando o convoca para a cantoria. O desafio é somente um dos muitos gêneros do repente. Repentista é coisa herdada. Não se aprende, é coisa de hereditariedade, herança.
            As apropriações indébitas, das canções de violeiros,  Ivanildo Vila Nova explica este fato .  Ele diz que  não é só pessoal da MPB de elite, mas todos, até do bolerão que plageia  as musicas dos repentistas, como por exemplo  o Reginaldo Rossi, que copiou um mourão todinho e não deu crédito. O Fagner pegou a letra duma canção de fogo e nada disse. Os versos: "Eu sou igual ao deserto/aonde ninguém quer viver/mais triste do que eu/ninguém quer ser." Estes versos estão na página 33 duma canção de fogo. Ele, o Fagner, roubou tanto o Patativa do Assaré, que teve de aproveitar o homem.Pegou aqueles versos - "eu venho desde menino/desde muito pequenininho/cumprindo belo destino/eu nasci pra ser vaqueiro - que são do Patativa.
            Gilberto Gil, idem. Pegou os versos de Domingos da Fonseca - "Falar de nobreza e cor/é um grande orgulho seu/morra eu e morra o pobre/se enterra o rico e eu/que depois ninguém descobre/o pó do rico do meu." Isso é de Domingos da Fonseca. E aconteceu agora com Zé Ramalho. Essa música que a Amelinha canta - "Mulher nova e carinhosa..." - é de Otacílio Batista. Não, de Otacílio e Zé Ramalho. Zé fez apenas o arranjo, não a melodia. A música já existia - eu mesmo já a gravei duas vezes. Não acho que Otacílio devesse dar a parceria. Ora, quer gravar, grave. Isso me deixa revoltado. E muito.


(Fonte. Miguel de Almeida - Banco de Dados da Folha de São Paulo).


6 de maio de 2022

Padre Luiz Monte



Jurandyr Navarro

As individualidades animadas de propósitos generosos são tendentes a abraçar causas elevadas. O estudo da Ciência é uma das preocupações mais altas do espírito humano. No seu livro “Futuro da Ciência”, Ernesto Renan a considera uma Religião.E o estado de espírito religioso é um êxtase, uma contemplação, um entusiasmo recolhido, na exclamação de Amiel.
Encontrou este estado de espírito? rejubile-se!
Num instante de inspiração afirmou Agostinho Thierry: “Há no mundo algo mais do que as forças materiais, mais que a fortuna, mais que a própria saúde: é o devotamento à Ciência”.
Tal devotamento por estudo tão desafiador foi uma das belas causas abraçadas pelo Padre Luiz Monte. Dentre outras ocupações de caráter religioso e de homem de cultura, devotou tempo precioso da sua existência a investigação científica.
Não somente teórico esse seu empenho, foi ele, também, um homem da praxis. A sua curiosidade científica chegou ao ponto dele próprio montar um pequeno laboratório no Seminário de “São Pedro”, onde fez muitas experiências, inclusive, análise de minérios. Foi ele o detector da shelita na região do Seridó do nosso Estado. Adquiriu uma acuidade toda especial em detectar essas pedras, que o fazia, para algumas delas, somente atra­vés das suas propriedades organoléticas.
O seu saber abarcava outros conhecimentos científicos por ele divulgados nos livros que escreveu - "Fundamentos Biológicos da Castidade" (“Fisiologia da Castidade”), “Biolo­gia” e a obra sobre o Espiritismo, ainda inédita. Muitos escritos seus foram publicados pela imprensa.
A Psicologia e a Psicanálise foram investigação precursora entre nós, da sua inten­sa curiosidade científica.
A Teoria da Relatividade, do emérito sábio germânico, mereceu dele estudo exausti­vo, discordando em certos pontos.
O seu pioneirismo, entre nós, alcançou, também, a Biotipologia, a Sexologia, a Embriologia e a Endocrinologia.
Interessantes os seus trabalhos espelhados pelas páginas da nossa imprensa, tra­tando assuntos os mais diversos, hoje encontradiços na Antologia que recebeu o seu nome. Publicou textos sobre Astronomia, Antropologia, Endocrinologia, Fisiologia, Psiquia­tria, Biologia, Química, Física, Matemática, Botânica, Geologia, Paleontologia e outros.
Na década de 40, do século XX, recebeu o Padre Monte elogio do então conceituado médico psiquiatra Dr.João da Costa Machado, que dissera numa de suas alocuções, ouvi­da pela Professora Albertina Guilherme, nos termos: “- O padre Monte está em dia com a Ciência atual.
Lembra a opinião do escritor Manoel Onofre Júnior, segundo a qual “Padre Monte sabia tudo, ou quase tudo...”
O seu devotamento por causa tão nobre o fez um dos arquitetos do belo adificio da ciência experimental do Rio Grande do Norte.
Consagrou grande parte da sua existência, embora curta, pois viveu somente 39 (trinta e nove) anos, a este ramo cientifico, onde tão intensamente brilhou a sua inteligência privilegiada. Interessou-se, outrossim, por outros ângulos da Cultura.
Discorrendo sobre a história da Medicina! assim se expressou:
“A Medicina antes de ser iátrica, foi primeiramente heráltica. Foi ritual e mágica antes de ser ciência positiva e experimental. As escrituras cuneiforme e hieroglífica trouxeram até nós a origem sacerdotal da medicina”.
O Padre Luiz Monte foi o primeiro vulto eminente da Cultura do Rio Grande do Norte aclamado sábio. Os seus estudos transcendentes devassaram múltiplas ciências.
A sua extraordinária capacidade de assimilação fez com que acumulasse imenso cabedal de cultura com apenas 39 (trinta e nove) anos de vida, quando muitos outros não alcançaram esse limite mesmo vivendo a idade octagenária.
Por proposta do Acadêmico-fundador Vingt-un Rosado, o seu nome figura como Patrono de uma das cadeiras da Academia de Ciências do Rio Grande do Norte, tendo o seu irmão médico e emérito pesquisador de Biologia Marinha, Sebastião Monte, como o seu primeiro ocupante.
A respeito da sua obra “Fundamentos Biológicos da Castidade”, disse o seu biógrafo Cônego Jorge O'Grady, numa das páginas do livro “Verdade Vida”:
Fundamentos Biológicos da Castidade” responde a Ribbing, médico e cientista sue­co que, à página 167 da sua obra "Higiene Sexual e suas consequências Morais", (pub. em Paris, F. Ancan, Ed, 1901) pergunta: "Será possível ao Clero examinar essa questão (fisio­logia da castidade) em toda sua extensão?". Ejulgando que "a instrução e a educação dos sacerdotes não comportam conhecimentos de fisiologia", reclama para a classe médica a exclusiva orientação da mocidade, nesse particular. Responde o Pe. Monte, ainda, a todos os detratores da castidade, pulverizando os velhos e arraigados preconceitos de que a continência atenta contra a natureza e é prejudicial ao corpo e à alma".
Do livro "Fundamentos Biológicos da Castidade", disse o Dr.Henrique Tanner de Abreu, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, seu Prefaciador:
"(...) A extensa e seleta bibliografia e as citações mostram bem a louvável preocupa­ção de senhorear o assunto apropriando-se das noções mais importantes e de interesse para a matéria a desenvolver. Nela figuram tratados de anatomia, histologia, fisiologia, endocrinologia, psiquiatria, psicopatologia sexual etc, além de muitas contribuições especializadas. Apercebido de todos esses abundantes recursos o talentoso autor soube criteriosamente aproveitá-los no esmiuçar, esclarecer e comprovar teses da maior rele­vância.
Depois de apresentar os fundamentos biológicos da castidade e de demonstrar a influência trófica e a possibilidade fisiológica da continência o escritor culto e ponderado dá notícia, em capítulos sucessivos, das mais recentes conquistas científicas e as aprecia no que entende com o papel da castidade em suas relações com a eugenia, a alienação mental e a delinquência. (...)
A propósito desse devotamento à Ciência, disse João Batista Dumas:
"Ah: se fosse possível que eu viesse a perder a avidez pelo saber e pela investigaçâo,a sede pela ciência que pomada se apagará, a vida não me ofereceria mais nenhuma consolação. Que deleites acompanham o exercício das faculdades intelectuais: Diz-se do saber o que se diz do poder: é o banquete dos deuses".
O Padre Luiz Monte foi Professor de Matemática e de Latim no Atheneu Norte-Rio-Grandense, no Colégio Marista e da Imaculada Conceição. Na docência do Seminário lecionou outras disciplinas.
Era um professor que falava em pátria, na família e da religião, argumentando o seu valor de grandeza moral e espiritual. O que muitos hoje têm vergonha e covardia de tratartemas tão importantes para a mocidade, sobre a educação e a cidadania. Dai, o surgimen­to dos chamados párias sociais: alienados da prática social saudável, formando para a vida uma juventude destituída de idealismo e sem orientação pautada na moral religiosa, atrativa do sublime e do belo.
As suas aulas transmitiam e refletiam reverberações de luz da moral católica. Ja­mais dissociou a ciência da religião. Os grandes sábios assim procediam. Cito apenas um deles: Einstein: “- Não posso concordar um cientista autêntico que não tenha uma fé pro­funda. A situação pode se resumir numa imagem: a ciência sem religião é manca”.
O imediatismo da vida atual, a velocidade do tempo, as ocupações supérfluas do modismo impedem que a inteligência se debruce, em escritos considerados eruditos. E assim os grandes nomes da nossa Ciência vão sendo esquecidos, dando lugar a outros de lavra mais superficial. Tudo bem, isso é o natural das coisas humanas.
Todavia, a memória dos grandes homens não deve ser relegada a segundo plano, porque eles foram os guieiros, os lideres do pensamento, e portanto, eternos.
Não se deixe que o comodismo urda contra memória tão sagrada a sinistra "conspi­ração do silêncio", de que falava Émile Faguet.
Inobstante a tudo isso, os grandes nomes, qual "coluna de fogo", continuarão a bri­lhar, intensamente, nas noites escuras do deserto do comodismo, da indiferença e da insensibilidade cultural.
Até o seu derradeiro dia, o Padre Luiz Monte permaneceu no seu trabalho intelectual à luz da Fé, chamada “senhora da verdade”. E os homens de fé na vanguarda sempre estiveram.


       

21 de março de 2022

Orcas e outros cetáceos no cinema

 

                             
Anchieta Fernandes
        
 Os cetáceos, espécies de animais em forma de peixe, não são peixes: são mamíferos, embora vivam sempre em ambientes líquidos, ou mar ou rios (no caso deste último, exemplificável com o boto, muito freqüente no rio Amazonas). Não são animais muito captados em obras cinematográficas, talvez  pela dificuldade de se filmá-los, já que alguns são enormes (a baleia-azul, por exemplo, atinge 30 metros de comprimento, pesando 200 toneladas na idade adulta).
         Esta enormidade de tamanho levou talvez a serem mal-vistos determinados gêneros de cetáceos, cujo comportamento não seria muito amigável. As orcas (orcinus orca, da família dos delfinídeos), inclusive são chamadas de baleias assassinas, porque são agressivas e carnívoras, atacando outros viventes dos mares, pingüins, outros tipos de baleias e peixes de grande porte. Mas somente quando estão famintas. A espécie humana elas não agridem.
         Mas adotando a antipatia com que elas são vistas, o diretor norte-americano Michael Anderson realizou em 1977 o filme “Orca, a baleia assassina”, com Richard Harris, Charlotte Rampling e Bo Derek no elenco. A história conta que um capitão de barco pesca uma orca que está abortando. O feto é lançado ao mar, gesto que provoca uma tentativa de “vingança” do macho da orca. O comentarista do Guia de Vídeo da Nova Cultural relativo a 1991 classificou o filme de “desastre aquático com alguma tensão”.
         Mas este tema (da inimizade entre alguns seres humanos e baleias) também pode render filmes bons sob outro ponto de vista. Foi o caso de”Moby Dick”, realizado pelo diretor John Huston em 1956, a partir do famoso romance de Herman Melville, de mesmo título, publicado pela primeira vez em 1851, pela editora Harper, de Nova Iorque. Se Samuel Thomas definiu o romance como um “oceano turbulento de idéias”, a crítica de cinema teve também várias opiniões e dissecações sobre o filme.
         A história do demoníaco Capitão Ahab, que comanda um baleeiro por vários mares em busca da grande baleia branca, para a qual perdeu uma perna em confronto violento, provocou várias interpretações, inclusive uma psicanalítica: de que a narrativa descreve mais a “viagem de um homem para dentro de si mesmo, à procura de seu próprio monstro interior” – como foi dito no comentário do Guia de Vídeo da Nova Cultural de 1991. A obra de Huston também se destaca pela bela fotografia de Freddie Francis.
         O tema do filme de Huston mereceu dois remakes: em 1967, uma animação, produzida pelos desenhistas dos estúdios Hanna-Barbera; e em 1998, um filme dirigido nos Estados Unidos pelo cineasta Franc Roddam, com o mesmo Gregory Peck que já atuara no papel principal na primeira adaptação em 1956. Outros tipos de cetáceos resultam (na vida real e no cinema) em cenas demonstradoras de mais amizade com a espécie humana do que as baleias de “Moby Dick” e “Orca, a baleia assassina” demonstram.
         Golfinhos, por exemplo. No filme “O dia do golfinho”, realizado em 1974 por Mike Nichols, há um entrosamento admirável entre o biólogo Jake Terrell (interpretado por George C.Scott) e golfinhos que ele ensina a falar inglês. Mas, talvez contribuindo negativamente para uma espécie de auto-estima misógina, o biólogo não se interessa pela própria esposa, protagonizando a prática do erotismo em cena de balé aquático com uma golfinha. A não ser que se veja a cena como poesia da vida natural.
         Mas, a amizade entre cetáceos (principalmente baleias) e seres humanos, não pode ser descartada só por o filme contar com orcas como protagonistas (principalmente quando aparecem com crianças). O espectador, por exemplo, viu nas noites de sábado e domingo de 25 e 26 de dezembro de 1993, em pleno clima do Natal, no Cine Natal 1, do Natal Shopping, o filme encantador chamado “Free Willy”, dirigido por Simon Wincer. Uma orca, batizada de Free Willy, tem num menino de 12 anos seu melhor amigo.
          Aliás, existe até uma coincidência entre a biografia da baleia e a do menino. A orca tem também 12 anos, e foi separada de outros companheiros e companheiras de sua espécie para viver num parque aquático, obrigada a fazer shows acrobáticos. O menino foi abandonado pelos pais e obrigado a viver num abrigo do juizado de menores. De onde foge, encontrando em Free Willy uma amizade que não recebeu de humanos. Baleia e criança, até dialogam por gestos.
         O filme é agradável. Tem a denúncia de maltrato aos animais, acompanhada dos acordes bem comunicativos com crianças, da música  de Michael Jackson, e inicia com imagens muito bonitas, mostrando as brincadeiras de um cardume de orcas no oceano, que resulta paea a nossa sensabilidade visual em um verdadeiro balé sincronizado, pontuado pelo brilho preto e branco do dorso dos animais. O filme foi realizado na última década do século passado (no ano de 1993).
         E foi tão bem sacado o achado ecológico do roteiro, que já neste século 21, em 2009, foi realizado um remake pelo diretor Will Geiger. Só que desta vez a amizade não ocorre mais entre um menino e a baleia. O protagonismo humano fica a cargo de uma linda adolescente, interpretada pela lourinha Bindi Irwin, Kina na história, que luta contra a ambição de um proprietário de parque aquático, que quer aprisionar uma outra orca chamada também Free Willy, para transformá-la em atração.
         Aliás, parece que dá certo criar histórias cinematográficas onde o relacionamento entre adolescentes e baleias tenha um significado a mais, que o simples afeto por animais de estimação. No filme “Encantadora de baleias”, realizado em 2003 pelo neo-zelandês Niki Caro, o significado atinge um nível antropológico. A história do filme remete às tradições culturais do povo Maori, da Nova Zelândia, sua identidade cultural restaurada por uma corajosa adolescente.
        O povoado está sem chefe e não há quem o substitua. Ao completar 12 anos, a menina Paikea resolve ser a chefe. Obedece ao ritual da tradição. Se o antepassado chefe cavalgara uma baleia para levar seu povo à terra do seu destino, Paikea também monta uma baleia, corajosamente, dando um sentido ao seu povo e à sua terra. “Não bastou afirmar sua genealogia: ela teve que provar publicamente sua habilidade” – como é dito na crítica sobre o filme, no livro “A infância vai ao cinema” (Autêntica, 2006).
         Ao contrário deste e de outros filmes em que cetáceos de verdade são protagonistas, mas dentro de um roteiro ficcional, existem os filmes puramente documentários, onde se aprende melhor como é a vida delas em seu habitat natural. Em 1982, no contexto serial da “Odisséia de Cousteau”, filmes que o naturalista francês Jacques Cousteau realizou em suas viagens pelo mundo, foi lançado o que recebeu o título “Mamíferos das profundezas do mar”, em produção conjunta França, Estados Unidos e Alemanha.
      Reportando-se ao comportamento de mamíferos marinhos, principalmente baleias e golfinhos, Cousteau não deixa de trabalhar as possibilidades estéticas do assunto. Informa sobre a evolução das baleias, mas acompanhadas todas as informações de belas imagens e citações literárias (como a do poeta e dramaturgo francês Jean Baptiste Racine, que com Molière e Corneille escreveu o melhor do teatro francês, além de ter sido também historiador, da época do rei Luis XIV).
          Outro bom documentário, agora especificamente sobre baleias, foi “As Grandes Baleias”, realizado em 2000 pela National Geographic Society, sob a direção de Nicolas Naxon, na duração do média metragem. Como é dito no Guia de Vídeo da Nova Cultural, de 1991, é apresentada no documentário a vida de diferentes espécies de baleias, mostrando didaticamente o seu comportamento em diversas situações. As filmagens submarinas são de grande beleza. Mostra inclusive o nascimento de um bebê-baleia.

       O filme contém uma intenção ecológica, defendendo inclusive o trabalho do Green Pace, grupo europeu de defesa dos animais e do meio ambiente, praticando verdadeiros atos de heroísmo no enfrentamento aos pesqueiros caçadores de baleias. Essa intenção ecológica é sempre elogiável na produção cinematográfica, seja nos bem elaborados documentários da National Geographic Society, seja nos protestos ao jeito brasileiro, envolvidos com o humor brega de Renato Aragão em “O Trapalhão na Arca de Noé”


10 de fevereiro de 2022

Voltando da Guerra

 Finalmente Jonhn estava de volta ao lar após vários anos de luta no Vietnã. Tão logo chegou a São Francisco, ligou para os pais.

Jonhn- “ Mãe eu estou voltando para a casa e estou levando um amigo que gostaria que ficasse conosco.
Mãe-“Claro, eu e seu pai adoraríamos conhecê-lo”
Jonhn-“Há algo que vocês precisam saber. Ele foi bastante ferido na luta, pisou numa mina e perdeu um braço e uma perna. Não tem para onde ir e, por isso, eu quero que venha morar conosco”.
Mãe- “Sinto muito filho, talvez possamos encontrar outro lugar para ele morar. Filho, alguém com tanta dificuldade seria um fardo para nós. Temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar pra casa e esquecer este rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver por si mesmo.”
Neste momento o filho bateu o telefone.
Alguns dias depois, os pais receberam um telefonema da polícia de São Francisco. O filho havia morrido, depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio
Os pais aflitos foram para São Francisco, onde identificaram o corpo do filho. Eles reconheceram, mas, para o horror deles, descobriram que o filho tinha apenas um braço e uma perna.
-Precisamos aceitar as pessoas como elas são, e ajudar a todos a compreender aqueles que são diferentes de nós.
Há um milagre chamadoAMIZADE, que mora em nosso coração.
Você não sabe como ele acontece ou quando surge.
Mas, você sabe que este sentimento especial aflora e percebe que a Amizade é o presente mais precioso de Deus.
Amigos nos fazem sorrir e nos encorajam para o sucesso. Nos emprestam um ouvido, compartilham uma palavra de incentivo e estão sempre com o coração aberto...

(Autor desconhecido)