6 de maio de 2022

Padre Luiz Monte



Jurandyr Navarro

As individualidades animadas de propósitos generosos são tendentes a abraçar causas elevadas. O estudo da Ciência é uma das preocupações mais altas do espírito humano. No seu livro “Futuro da Ciência”, Ernesto Renan a considera uma Religião.E o estado de espírito religioso é um êxtase, uma contemplação, um entusiasmo recolhido, na exclamação de Amiel.
Encontrou este estado de espírito? rejubile-se!
Num instante de inspiração afirmou Agostinho Thierry: “Há no mundo algo mais do que as forças materiais, mais que a fortuna, mais que a própria saúde: é o devotamento à Ciência”.
Tal devotamento por estudo tão desafiador foi uma das belas causas abraçadas pelo Padre Luiz Monte. Dentre outras ocupações de caráter religioso e de homem de cultura, devotou tempo precioso da sua existência a investigação científica.
Não somente teórico esse seu empenho, foi ele, também, um homem da praxis. A sua curiosidade científica chegou ao ponto dele próprio montar um pequeno laboratório no Seminário de “São Pedro”, onde fez muitas experiências, inclusive, análise de minérios. Foi ele o detector da shelita na região do Seridó do nosso Estado. Adquiriu uma acuidade toda especial em detectar essas pedras, que o fazia, para algumas delas, somente atra­vés das suas propriedades organoléticas.
O seu saber abarcava outros conhecimentos científicos por ele divulgados nos livros que escreveu - "Fundamentos Biológicos da Castidade" (“Fisiologia da Castidade”), “Biolo­gia” e a obra sobre o Espiritismo, ainda inédita. Muitos escritos seus foram publicados pela imprensa.
A Psicologia e a Psicanálise foram investigação precursora entre nós, da sua inten­sa curiosidade científica.
A Teoria da Relatividade, do emérito sábio germânico, mereceu dele estudo exausti­vo, discordando em certos pontos.
O seu pioneirismo, entre nós, alcançou, também, a Biotipologia, a Sexologia, a Embriologia e a Endocrinologia.
Interessantes os seus trabalhos espelhados pelas páginas da nossa imprensa, tra­tando assuntos os mais diversos, hoje encontradiços na Antologia que recebeu o seu nome. Publicou textos sobre Astronomia, Antropologia, Endocrinologia, Fisiologia, Psiquia­tria, Biologia, Química, Física, Matemática, Botânica, Geologia, Paleontologia e outros.
Na década de 40, do século XX, recebeu o Padre Monte elogio do então conceituado médico psiquiatra Dr.João da Costa Machado, que dissera numa de suas alocuções, ouvi­da pela Professora Albertina Guilherme, nos termos: “- O padre Monte está em dia com a Ciência atual.
Lembra a opinião do escritor Manoel Onofre Júnior, segundo a qual “Padre Monte sabia tudo, ou quase tudo...”
O seu devotamento por causa tão nobre o fez um dos arquitetos do belo adificio da ciência experimental do Rio Grande do Norte.
Consagrou grande parte da sua existência, embora curta, pois viveu somente 39 (trinta e nove) anos, a este ramo cientifico, onde tão intensamente brilhou a sua inteligência privilegiada. Interessou-se, outrossim, por outros ângulos da Cultura.
Discorrendo sobre a história da Medicina! assim se expressou:
“A Medicina antes de ser iátrica, foi primeiramente heráltica. Foi ritual e mágica antes de ser ciência positiva e experimental. As escrituras cuneiforme e hieroglífica trouxeram até nós a origem sacerdotal da medicina”.
O Padre Luiz Monte foi o primeiro vulto eminente da Cultura do Rio Grande do Norte aclamado sábio. Os seus estudos transcendentes devassaram múltiplas ciências.
A sua extraordinária capacidade de assimilação fez com que acumulasse imenso cabedal de cultura com apenas 39 (trinta e nove) anos de vida, quando muitos outros não alcançaram esse limite mesmo vivendo a idade octagenária.
Por proposta do Acadêmico-fundador Vingt-un Rosado, o seu nome figura como Patrono de uma das cadeiras da Academia de Ciências do Rio Grande do Norte, tendo o seu irmão médico e emérito pesquisador de Biologia Marinha, Sebastião Monte, como o seu primeiro ocupante.
A respeito da sua obra “Fundamentos Biológicos da Castidade”, disse o seu biógrafo Cônego Jorge O'Grady, numa das páginas do livro “Verdade Vida”:
Fundamentos Biológicos da Castidade” responde a Ribbing, médico e cientista sue­co que, à página 167 da sua obra "Higiene Sexual e suas consequências Morais", (pub. em Paris, F. Ancan, Ed, 1901) pergunta: "Será possível ao Clero examinar essa questão (fisio­logia da castidade) em toda sua extensão?". Ejulgando que "a instrução e a educação dos sacerdotes não comportam conhecimentos de fisiologia", reclama para a classe médica a exclusiva orientação da mocidade, nesse particular. Responde o Pe. Monte, ainda, a todos os detratores da castidade, pulverizando os velhos e arraigados preconceitos de que a continência atenta contra a natureza e é prejudicial ao corpo e à alma".
Do livro "Fundamentos Biológicos da Castidade", disse o Dr.Henrique Tanner de Abreu, professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, seu Prefaciador:
"(...) A extensa e seleta bibliografia e as citações mostram bem a louvável preocupa­ção de senhorear o assunto apropriando-se das noções mais importantes e de interesse para a matéria a desenvolver. Nela figuram tratados de anatomia, histologia, fisiologia, endocrinologia, psiquiatria, psicopatologia sexual etc, além de muitas contribuições especializadas. Apercebido de todos esses abundantes recursos o talentoso autor soube criteriosamente aproveitá-los no esmiuçar, esclarecer e comprovar teses da maior rele­vância.
Depois de apresentar os fundamentos biológicos da castidade e de demonstrar a influência trófica e a possibilidade fisiológica da continência o escritor culto e ponderado dá notícia, em capítulos sucessivos, das mais recentes conquistas científicas e as aprecia no que entende com o papel da castidade em suas relações com a eugenia, a alienação mental e a delinquência. (...)
A propósito desse devotamento à Ciência, disse João Batista Dumas:
"Ah: se fosse possível que eu viesse a perder a avidez pelo saber e pela investigaçâo,a sede pela ciência que pomada se apagará, a vida não me ofereceria mais nenhuma consolação. Que deleites acompanham o exercício das faculdades intelectuais: Diz-se do saber o que se diz do poder: é o banquete dos deuses".
O Padre Luiz Monte foi Professor de Matemática e de Latim no Atheneu Norte-Rio-Grandense, no Colégio Marista e da Imaculada Conceição. Na docência do Seminário lecionou outras disciplinas.
Era um professor que falava em pátria, na família e da religião, argumentando o seu valor de grandeza moral e espiritual. O que muitos hoje têm vergonha e covardia de tratartemas tão importantes para a mocidade, sobre a educação e a cidadania. Dai, o surgimen­to dos chamados párias sociais: alienados da prática social saudável, formando para a vida uma juventude destituída de idealismo e sem orientação pautada na moral religiosa, atrativa do sublime e do belo.
As suas aulas transmitiam e refletiam reverberações de luz da moral católica. Ja­mais dissociou a ciência da religião. Os grandes sábios assim procediam. Cito apenas um deles: Einstein: “- Não posso concordar um cientista autêntico que não tenha uma fé pro­funda. A situação pode se resumir numa imagem: a ciência sem religião é manca”.
O imediatismo da vida atual, a velocidade do tempo, as ocupações supérfluas do modismo impedem que a inteligência se debruce, em escritos considerados eruditos. E assim os grandes nomes da nossa Ciência vão sendo esquecidos, dando lugar a outros de lavra mais superficial. Tudo bem, isso é o natural das coisas humanas.
Todavia, a memória dos grandes homens não deve ser relegada a segundo plano, porque eles foram os guieiros, os lideres do pensamento, e portanto, eternos.
Não se deixe que o comodismo urda contra memória tão sagrada a sinistra "conspi­ração do silêncio", de que falava Émile Faguet.
Inobstante a tudo isso, os grandes nomes, qual "coluna de fogo", continuarão a bri­lhar, intensamente, nas noites escuras do deserto do comodismo, da indiferença e da insensibilidade cultural.
Até o seu derradeiro dia, o Padre Luiz Monte permaneceu no seu trabalho intelectual à luz da Fé, chamada “senhora da verdade”. E os homens de fé na vanguarda sempre estiveram.


       

21 de março de 2022

Orcas e outros cetáceos no cinema

 

                             
Anchieta Fernandes
        
 Os cetáceos, espécies de animais em forma de peixe, não são peixes: são mamíferos, embora vivam sempre em ambientes líquidos, ou mar ou rios (no caso deste último, exemplificável com o boto, muito freqüente no rio Amazonas). Não são animais muito captados em obras cinematográficas, talvez  pela dificuldade de se filmá-los, já que alguns são enormes (a baleia-azul, por exemplo, atinge 30 metros de comprimento, pesando 200 toneladas na idade adulta).
         Esta enormidade de tamanho levou talvez a serem mal-vistos determinados gêneros de cetáceos, cujo comportamento não seria muito amigável. As orcas (orcinus orca, da família dos delfinídeos), inclusive são chamadas de baleias assassinas, porque são agressivas e carnívoras, atacando outros viventes dos mares, pingüins, outros tipos de baleias e peixes de grande porte. Mas somente quando estão famintas. A espécie humana elas não agridem.
         Mas adotando a antipatia com que elas são vistas, o diretor norte-americano Michael Anderson realizou em 1977 o filme “Orca, a baleia assassina”, com Richard Harris, Charlotte Rampling e Bo Derek no elenco. A história conta que um capitão de barco pesca uma orca que está abortando. O feto é lançado ao mar, gesto que provoca uma tentativa de “vingança” do macho da orca. O comentarista do Guia de Vídeo da Nova Cultural relativo a 1991 classificou o filme de “desastre aquático com alguma tensão”.
         Mas este tema (da inimizade entre alguns seres humanos e baleias) também pode render filmes bons sob outro ponto de vista. Foi o caso de”Moby Dick”, realizado pelo diretor John Huston em 1956, a partir do famoso romance de Herman Melville, de mesmo título, publicado pela primeira vez em 1851, pela editora Harper, de Nova Iorque. Se Samuel Thomas definiu o romance como um “oceano turbulento de idéias”, a crítica de cinema teve também várias opiniões e dissecações sobre o filme.
         A história do demoníaco Capitão Ahab, que comanda um baleeiro por vários mares em busca da grande baleia branca, para a qual perdeu uma perna em confronto violento, provocou várias interpretações, inclusive uma psicanalítica: de que a narrativa descreve mais a “viagem de um homem para dentro de si mesmo, à procura de seu próprio monstro interior” – como foi dito no comentário do Guia de Vídeo da Nova Cultural de 1991. A obra de Huston também se destaca pela bela fotografia de Freddie Francis.
         O tema do filme de Huston mereceu dois remakes: em 1967, uma animação, produzida pelos desenhistas dos estúdios Hanna-Barbera; e em 1998, um filme dirigido nos Estados Unidos pelo cineasta Franc Roddam, com o mesmo Gregory Peck que já atuara no papel principal na primeira adaptação em 1956. Outros tipos de cetáceos resultam (na vida real e no cinema) em cenas demonstradoras de mais amizade com a espécie humana do que as baleias de “Moby Dick” e “Orca, a baleia assassina” demonstram.
         Golfinhos, por exemplo. No filme “O dia do golfinho”, realizado em 1974 por Mike Nichols, há um entrosamento admirável entre o biólogo Jake Terrell (interpretado por George C.Scott) e golfinhos que ele ensina a falar inglês. Mas, talvez contribuindo negativamente para uma espécie de auto-estima misógina, o biólogo não se interessa pela própria esposa, protagonizando a prática do erotismo em cena de balé aquático com uma golfinha. A não ser que se veja a cena como poesia da vida natural.
         Mas, a amizade entre cetáceos (principalmente baleias) e seres humanos, não pode ser descartada só por o filme contar com orcas como protagonistas (principalmente quando aparecem com crianças). O espectador, por exemplo, viu nas noites de sábado e domingo de 25 e 26 de dezembro de 1993, em pleno clima do Natal, no Cine Natal 1, do Natal Shopping, o filme encantador chamado “Free Willy”, dirigido por Simon Wincer. Uma orca, batizada de Free Willy, tem num menino de 12 anos seu melhor amigo.
          Aliás, existe até uma coincidência entre a biografia da baleia e a do menino. A orca tem também 12 anos, e foi separada de outros companheiros e companheiras de sua espécie para viver num parque aquático, obrigada a fazer shows acrobáticos. O menino foi abandonado pelos pais e obrigado a viver num abrigo do juizado de menores. De onde foge, encontrando em Free Willy uma amizade que não recebeu de humanos. Baleia e criança, até dialogam por gestos.
         O filme é agradável. Tem a denúncia de maltrato aos animais, acompanhada dos acordes bem comunicativos com crianças, da música  de Michael Jackson, e inicia com imagens muito bonitas, mostrando as brincadeiras de um cardume de orcas no oceano, que resulta paea a nossa sensabilidade visual em um verdadeiro balé sincronizado, pontuado pelo brilho preto e branco do dorso dos animais. O filme foi realizado na última década do século passado (no ano de 1993).
         E foi tão bem sacado o achado ecológico do roteiro, que já neste século 21, em 2009, foi realizado um remake pelo diretor Will Geiger. Só que desta vez a amizade não ocorre mais entre um menino e a baleia. O protagonismo humano fica a cargo de uma linda adolescente, interpretada pela lourinha Bindi Irwin, Kina na história, que luta contra a ambição de um proprietário de parque aquático, que quer aprisionar uma outra orca chamada também Free Willy, para transformá-la em atração.
         Aliás, parece que dá certo criar histórias cinematográficas onde o relacionamento entre adolescentes e baleias tenha um significado a mais, que o simples afeto por animais de estimação. No filme “Encantadora de baleias”, realizado em 2003 pelo neo-zelandês Niki Caro, o significado atinge um nível antropológico. A história do filme remete às tradições culturais do povo Maori, da Nova Zelândia, sua identidade cultural restaurada por uma corajosa adolescente.
        O povoado está sem chefe e não há quem o substitua. Ao completar 12 anos, a menina Paikea resolve ser a chefe. Obedece ao ritual da tradição. Se o antepassado chefe cavalgara uma baleia para levar seu povo à terra do seu destino, Paikea também monta uma baleia, corajosamente, dando um sentido ao seu povo e à sua terra. “Não bastou afirmar sua genealogia: ela teve que provar publicamente sua habilidade” – como é dito na crítica sobre o filme, no livro “A infância vai ao cinema” (Autêntica, 2006).
         Ao contrário deste e de outros filmes em que cetáceos de verdade são protagonistas, mas dentro de um roteiro ficcional, existem os filmes puramente documentários, onde se aprende melhor como é a vida delas em seu habitat natural. Em 1982, no contexto serial da “Odisséia de Cousteau”, filmes que o naturalista francês Jacques Cousteau realizou em suas viagens pelo mundo, foi lançado o que recebeu o título “Mamíferos das profundezas do mar”, em produção conjunta França, Estados Unidos e Alemanha.
      Reportando-se ao comportamento de mamíferos marinhos, principalmente baleias e golfinhos, Cousteau não deixa de trabalhar as possibilidades estéticas do assunto. Informa sobre a evolução das baleias, mas acompanhadas todas as informações de belas imagens e citações literárias (como a do poeta e dramaturgo francês Jean Baptiste Racine, que com Molière e Corneille escreveu o melhor do teatro francês, além de ter sido também historiador, da época do rei Luis XIV).
          Outro bom documentário, agora especificamente sobre baleias, foi “As Grandes Baleias”, realizado em 2000 pela National Geographic Society, sob a direção de Nicolas Naxon, na duração do média metragem. Como é dito no Guia de Vídeo da Nova Cultural, de 1991, é apresentada no documentário a vida de diferentes espécies de baleias, mostrando didaticamente o seu comportamento em diversas situações. As filmagens submarinas são de grande beleza. Mostra inclusive o nascimento de um bebê-baleia.

       O filme contém uma intenção ecológica, defendendo inclusive o trabalho do Green Pace, grupo europeu de defesa dos animais e do meio ambiente, praticando verdadeiros atos de heroísmo no enfrentamento aos pesqueiros caçadores de baleias. Essa intenção ecológica é sempre elogiável na produção cinematográfica, seja nos bem elaborados documentários da National Geographic Society, seja nos protestos ao jeito brasileiro, envolvidos com o humor brega de Renato Aragão em “O Trapalhão na Arca de Noé”


10 de fevereiro de 2022

Voltando da Guerra

 Finalmente Jonhn estava de volta ao lar após vários anos de luta no Vietnã. Tão logo chegou a São Francisco, ligou para os pais.

Jonhn- “ Mãe eu estou voltando para a casa e estou levando um amigo que gostaria que ficasse conosco.
Mãe-“Claro, eu e seu pai adoraríamos conhecê-lo”
Jonhn-“Há algo que vocês precisam saber. Ele foi bastante ferido na luta, pisou numa mina e perdeu um braço e uma perna. Não tem para onde ir e, por isso, eu quero que venha morar conosco”.
Mãe- “Sinto muito filho, talvez possamos encontrar outro lugar para ele morar. Filho, alguém com tanta dificuldade seria um fardo para nós. Temos nossas próprias vidas e não podemos deixar que interfira em nosso modo de viver. Acho que você deveria voltar pra casa e esquecer este rapaz. Ele encontrará uma maneira de viver por si mesmo.”
Neste momento o filho bateu o telefone.
Alguns dias depois, os pais receberam um telefonema da polícia de São Francisco. O filho havia morrido, depois de ter caído de um prédio. A polícia acreditava em suicídio
Os pais aflitos foram para São Francisco, onde identificaram o corpo do filho. Eles reconheceram, mas, para o horror deles, descobriram que o filho tinha apenas um braço e uma perna.
-Precisamos aceitar as pessoas como elas são, e ajudar a todos a compreender aqueles que são diferentes de nós.
Há um milagre chamadoAMIZADE, que mora em nosso coração.
Você não sabe como ele acontece ou quando surge.
Mas, você sabe que este sentimento especial aflora e percebe que a Amizade é o presente mais precioso de Deus.
Amigos nos fazem sorrir e nos encorajam para o sucesso. Nos emprestam um ouvido, compartilham uma palavra de incentivo e estão sempre com o coração aberto...

(Autor desconhecido)

24 de janeiro de 2022

MENINOS DO RIO ( contos )

 Tarcisio Rosas 


José Batista, Zequinha ou simplesmente Zé, nascera e sempre vivera às margens do Potengi. Quando criança, em gratas manhãs ensolaradas, mergulhava nas águas cálidas e transparentes do calmo Canto do Mangue, ali brincando e, eventualmente, junto com os colegas, recolhendo peixinhos coloridos para aquários, estes diligentemente montados por sua mãe que os comercializava no Mercado das Rocas. Que época!... - pensava, repassando aquelas cenas em quase êxtase.
Mais tarde fôra iniciado na pesca em mar aberto (Santa Rita a Macau, ao norte, Redinha a Baía Formosa na região centro-sul) e na tecedura de puçás e redes de arrasto, de ambas atividades se tornando consumado mestre entre seus pares.
Anos a fio naquela vida de sol/sal o deixara calejado, mãos fortes que nem tenazes, pele curtida, semblante grave: testa franzida, lábios tensos e olhos fixos nalgum ponto imponderável, talvez observando as insondáveis águas abissais que sempre singrara.
Agora, aposentado, vivia atormentado pelas singelas lembranças d’outrora. Sua “compulsória” chegara com a artrite crônica, cansaço muscular e curteza de vista. O corpo doía-lhe em tempo integral e singular sonolência acometia-lhe de vez em quando. E, mais: na mesma proporção em que lembrava tudo do passado, esquecia não raro quase tudo do presente. Perguntassem-lhe porventura o que almoçara na véspera responderia peixe sem pestanejar, visto que se tratava de prato invariável; não saberia, contudo, se fora arabaiana, cioba, xaréu, cavala, atum, tainha, traíra, tilápia, piau, saúna, pescada, dourado, carapeba, curimatã ou qualquer outra iguaria de nossa piscosa costa. E isso, de certa forma, o consumia por dentro, provocando uma sensação de inutilidade que resultava em aguda depressão.
Justo por seus achaques mudara-se, conforme recomendação médica. A acentuada claridade no Canto do Mangue agravava seus problemas de visão. Mas não conseguia afastar-se do Rio e transferiu-se para as proximidades da Ponte de Igapó, além do cais do refoles, hoje ocupado pela Base Naval, arrastando consigo todo o passado que ficava a remoer, dia pós dia. Não fora diferente naquele 27 de agosto de um ano qualquer.
Estava, como sempre nos últimos tempos, à porta do seu mocambo observando o vário acontecer. Nada escapava aos seus olhos experientes - embora enfraquecidos, agora mais seletivos.
                                                         * * *
O olhar comprido e o ligeiro esgar de sorriso do velho homem do Rio denunciavam a tristeza que lhe ia na alma. Observava barcos à vela e algumas jangadas singrando em procura do mar. Quantas vezes fizera semelhante percurso!... Nos mangues próximos, crianças em alegre algazarra pescavam aratus, siris, caranguejos e outros exóticos crustáceos, vez por outra afastando-se do lamaçal e mergulhando nas águas turvas, outrora límpidas, do Potengi. Eles deviam estar na escola mas, nestes tempos difíceis, era questão de sobrevivência participarem da formação da renda familiar, com o que tinham a educação em segundo plano e a infância parcialmente perdida.
Sentado em rústico tamborete à porta do velho barraco, coisa de dez horas, pôs-se a imaginar sua época e os ralhos de sua mãe, uma morena de corpo arredondado, voz forte e coração mole: “Zequinha, onde ocê se meteu, moleque?!, gritava a cada instante. Sorriu, de novo, um não-sei-quê de nostálgico no semblante. Crianças são muito instáveis, irrequietas e irreverentes.
Uma asa-delta fez acrobacias sobre sua cabeça e mergulhou lépida, desaparecendo num rasante em direção à Redinha, enquanto portentoso navio resfolegava no porto em formidáveis urros e um carro em alta velocidade cruzava a ponte de Igapó, demandando as praias do litoral norte. O homem balançou a cabeça, desiludido: “o alvoroço é o mal deste tempo!”, pensou, aduzindo: “só há progresso nas máquinas”. Aperfeiçoada a cada instante, a tecnologia vai deixando para trás valores humanos antes tidos como indiscutíveis - esta a essência do seu pensamento.
Na verdade, aquele raciocínio não era impressão de momento; mais que isso, aquela visão de mundo se encorpara ao longo dos últimos anos, intensificando-se sobretudo desde quando se aposentara. Vê-se, a pressa é um estado de espírito próprio aos jovens. Paradoxalmente, os velhos parecem ter todo o tempo do mundo.
Tornando a fixar os garotos, pouco a pouco, como se fossem imagens em dégradé, o conjunto de gestos e cores passou a se confundir com cenas do remoto passado, para cuja memória terá contribuído o sensual e intimista ruído das marolas lambendo os suportes das velhas palafitas.

2
A Água fria aos seus pés e a ânsia de se atirar no rio, como os colegas da mesma idade, causavam alguma coisa intermediária entre euforia e medo, algo como irresistível excitação pelo desejo de encarar o desconhecido, mas temendo-o. Zequinha hesitou, claro. Na verdade, ainda estava bastante nítida em sua memória o acidente que vitimara Ivo, outro menino da comunidade, apenas dois anos antes. Tinha então oito anos mas a celeuma da vizinhança e o desespero da família pareciam ter se cristalizado em suas retinas, tornando-o menos afoito. Decidiu-se, enfim, tocando as pontas dos dedos na água e benzendo-se. Andou alguns passos e mergulhou, sentindo confortável sensação de tepidez na pele. Emergindo cinco metros adiante, deu algumas braçadas e aproximou-se dos companheiros.
“Zeca, cadê ocê diacho?!”, gritava a mulher ainda jovem, apesar do excesso de rugas no rosto de pele curtida e as mãos calosas, de dedos grossos e unhas malcuidadas. “O condenado desse menino ainda acaba me tirando o juízo, ave-maria!”, prosseguia a resmunguenta lavadeira. Na verdade, Maria não era lavadeira, apenas se desincumbia dessa tarefa naquele momento. A1iás, a cada instante do dia tinha uma tarefa a cumprir, como cozinhar, varrer o mocambo, lavar e passar peças de roupa, tomar conta dos meninos e, ainda, ajudar o marido num quiosque anexo preparando bolos, pastéis e cocadas à noite.
O Zeca apareceu, finalmente, no entanto aos gritos: um molusco aferrara-se ao seu calcanhar como uma tenaz e ele, apavorado, sentia calafrios. Pulando num pé só procurou o aconchego da mãe, o que se revelou iniciativa pouco alvissareira. Rugiu ela, então: “Desgraçado, só assim tu me procura, né?!”, e aditou a boa-nova: “Vou te quebrar no pau, infeliz!”. O jovem sentiu-se encurralado entre respeitável pata de caranguejo e a temível ira materna.

3
Semidesperto, o velho levantou o pé automaticamente acariciou a cicatriz embranquecida. Àquela noite tivera febre e delírios mas nunca mais desobedeceria a mãe. “Não há mais crianças como naquele tempo” - sentenciou.
Nuvens escuras perpassavam o céu, antes apropriado às asas-delta dos vôos juvenis. Esfregou os olhos, bocejou. Absorto em divagações não percebera que o tempo, apesar da aparente ociosidade, não parara, e que a tarde se fizera alta. Olhou uma última vez os manguezais meio-destruídos pela poluição. Tudo em volta estava quieto, irrepreensivelmente quieto. Não havia mais pressa.

14 de dezembro de 2021

A viagem

 Lá estava eu com minha família, em férias, num acampamento isolado e com carro enguiçado. Isso aconteceu há vários anos, mas me lembro como fosse ontem. Tentei dar partida no carro e nada. Caminhei para fora do acampamento e felizmente meus palavrões foram abafados pelo barulho do riacho.

Minha mulher e eu, concluímos que éramos vitimas de uma bateria arriada. Sem alternativa, decidi voltar a pé até a vila mais próxima e procurar ajuda. Depois de uma hora e um tornozelo torcido, cheguei finalmente a um posto de gasolina. Ao me aproximar do telefone público e uma lista telefônica já com folhas em frangalhos.
Consegui ligar para a única companhia de auto-socorro que encontrei na lista. Localizada a 30Km dali. “Não tem problema” disse a pessoa do outro lado da linha, “normalmente estou fechado aos domingos, mas posso chegar aí em mais ou menos meia hora” . Fiquei aliviado, mas ao mesmo tempo consciente das implicações financeiras que essa oferta de ajuda me causaria. Logo seguíamos eu e o Zé, no seu reluzente caminhão guincho em direção ao acampamento. Quando sai do caminhão, observei com espanto o Zé descer com aparelhos na perna e a ajuda de muletas para se locomover.
Santo Deus ! Ele era paraplégico! Enquanto se movimentava, comecei novamente minha ginástica mental em calcular o preço da ajuda.
“ É só uma bateria descarregada. Uma pequena carga elétrica e vocês poderão seguir viagem” disse-me ele.
O homem era impressionante, enquanto a bateria carregava, ele distraiu o meu filho com truques de mágica e chegou a tirar uma moeda da orelha, presenteando-o ao garoto. Enquanto colocava os cabos de volta no caminhão, perguntei quando lhe devia. “Oh! Nada” respondeu, para a minha surpresa.
“Tenho que pagar alguma coisa” insistir. “Não”, reiterou ele. Há
Muitos anos atrás, alguém me ajudou a sair da situação muito pior, quando perdia as minhas pernas e o sujeito que me socorreu, simplesmente me disse; “ Quando tiver uma oportunidade, passe adiante. Eis minha chance. Você não me deve nada. Apenas lembre-se: Quando tiver uma oportunidade semelhante , faça o mesmo......
Somos todos anjos de uma asa só, precisamos nos abraçar para alçar vôo”
Gostou???
Não agradeça....Apenas PASSE ADIANTE.....
(autor desconhecido)