Bené Chaves
AFINAL, eu nasci. Demorei sim, mas surgi, talvez já tivesse
incomodando Mainhô dentro de sua barriga. Se bem que depois, me parece, os
embaraços vêm em maiores inquietações. Cheguei sob influências simples. Nada do
sonho extravagante de Painhô. Nada de sangue azul. Nem o florir de belas
flores. Era sangue vermelho mesmo, igual a todo mundo. Nasci muito a
contragosto, mas tive de nascer. Claro que eu preferiria ter ficado no ventre
de Mainhô. Como não tive opção, o jeito foi ser retirado pela alegre parteira.
Achei que este mundo não
serviria para mim, era um mundo de feridas. Feridas expostas e não
cicatrizadas. Um mundo de falsidades e hipocrisias, falso-moralista. E também
de incompreensões e decepções. Portanto, eis-me aqui para tentar enfrentar suas
mazelas ou questionamentos ambíguos.
BEM que tinha dito: ainda moro numa fazenda, ou melhor, passo
alguns dias naquele recanto agradável. O cheiro de vacaria me fazia sentir um
cheiro de terra firme, molhada, terra de futuras colheitas. Mainhô é que sempre
tapava o nariz quando subia no ar o odor de bosta mesmo, das vacas que sempre
pastavam despejando entre as pernas o adubo de suas entranhas.
E o vaqueiro de Painhô sempre
metido que estava a tirar leite enquanto a pobre vaca dava uma mijada daquelas.
Arre, arre! Tirava leite até altas horas da noite, quase não ia dormir, meu pai
ainda na varanda tocando violão e tudo. Vida boa aquela, ar puro, cristalino.
Mundão aberto, cheiroso. Pena que a permanência durasse pouco tempo.
COMO entrei num colégio de
padres não sei bem, mas o certo é que estudei semi-interno. Época boa, sem
muitos interesses. O ruim era durar o tempo inteiro trancado. Tornei-me, então,
uma pessoa susceptível e sensível. Quando o almoço era servido eu destampava o
protetor e estavam lá as moscas servindo de tempero pro feijão.
Enjoava aquilo tudo e ficava mais um dia de
fome. No recreio não me divertia com a barriga roncando, fingia que jogava bola
e fugia pra cima das mangueiras a chupar mangas espada e rosa. E depois voltava
palitando os dentes com a língua.
À tarde, os deveres, os
insuportáveis deveres. Enquanto a obrigação não saísse correta, eu ficava
mofando ali na sala quente e olhando apenas paredes brancas e janelas sujas.
Ufa!, como era chato aquilo. Dava vontade de abandonar e fugir para novos ares.
DEI pra falar logo
pequenininho, talvez uma precocidade advinda de meus ancestrais, sei lá. Já
balbuciava algumas palavras incorretas, claro, mas com o sentido voltado para a
sua significação. Acho que Painhô deve ter começado a dizer algo desde cedo,
não duvido nada disso. Talvez até soletrado algumas cantorias e arquivadas no
diminuto cérebro.
As suas célebres emboladas já deviam há muito
tempo estar em formação embrionária naquela pequena cachola. Nada se podia
duvidar de Painhô. E era quase certo que herdara tudo, pois o que é de bom ou
ruim vem sempre de nossas raízes.
EM frente, quase perpendicular, onde Painhô e Mainhô moravam,
existia uma pracinha, acanhada, com uma casa onde vendiam peixes, limitado
lugar também de gostosas iguarias. Nem tanto como as comidas de Tia Chica,
porém a freguesia se reunia no local. Mas, eu ainda pequeno, talvez com uns
sete anos, presenciei, sem querer, claro, um crime nas imediações da mesma.
Foi horrível para a minha
idade. E Gupiara começara, aos poucos, a mostrar outra face de sua existência.
Lembro vagamente: tardezinha, um cidadão, sem motivo aparente, pegou seu
revólver e atirou, pum!, pum!, pum!
E, depois, com uma faca,
ainda cortou metade da orelha do pobre homem, saindo com a dita na mão, o
sangue misturado, o outro estendido na barafunda. Nunca souberam o paradeiro do
criminoso e ele certamente desapareceu para sempre. Seria o início, talvez, de
casos sem soluções e crimes que compensassem suas autorias.
FUI logo sabendo que o pequeno comércio que Painhô instalou em
Gupiara começava a dar bons lucros. Vez em vez ele mandava me chamar para
ajudá-lo naquele Armazém varejista. E eu até gostava de ficar ali pesando
quilos de arroz, feijão ou farinha, feito menino instruído, sabichão.
Meu
pai da porta olhando pro próspero movimento, às vezes piscando para a bonita
moça (não tomava jeito esse Painhô...) em frente, outras vezes me observando
com atenção. Claro que ficava direitinho, necessitava muito da minha mesada,
pois queria tanto ir a um cinema...
GARANTO que cheguei logo a ler e escrever, claro, fui um menino
educado, não dei trabalho a ninguém, Mainhô que o diga. Uma vezinha ou outra a
gente perde um pouco os bons costumes, mas é coisa sem importância. O chato mesmo
é a vida desassossegada, estudar, estudar, depois trabalhar, trabalhar...
A gente devia viver
brincando, ora essa! O divertimento nos dá saúde, despreocupação. E as
obrigações diárias cansam nossa mente, às vezes com tarefas supérfluas apenas
como vaidades bestas, ambições, troços levados como supremacias.
A modesta
inteligência ancestral (acho que em grande parte de Painhô) que herdei deve ter
me facilitado sem precisar ficar com os olhos grudados em livros ou cadernos.
Penso que a consciência fluiu espontaneamente e fui absorvendo quase tudo com
melhor facilidade.
HOUVE um tempo muito bom em
minha vida: coleção de revistas de cinema com artistas na capa e tudo. Possuía
um álbum com todas aquelas lindas mulheres à minha frente. E me deliciava num
cansaço quase extremo vendo Kim Novak, Gina Lollobrigida, Ava Gardner, Cláudia
Cardinale, Ingrid Bergman, Brigitte Bardot, Silvana Mangano e outras lindas
atrizes mostrando as pernas em variadas poses.
Coxas? Raramente apareciam... Também naquela
época... Só um tiquinho de nada, o que era uma pena enorme. Mas, que teria sido
uma beleza perscrutar o corpo nu de uma miss
Novak, por exemplo, claro que ninguém duvida disso.
E as lindas mulheres
passavam junto de mim o dia inteiro, principalmente quando ia tomar um salutar
banho. Aí, então, flutuava na minha imaginação e o ralo do chuveiro era quem
recebia toda a descarga. Atrizes em ruma, oh, fascinantes... E os citados
periódicos se amontoavam para o meu bel prazer.
Tempo bom que não
voltará jamais. Porém fico com aquela bela recordação de que gamei em todas,
revistas e mulheres, seria evidente que sim. E o prazer que senti nos meus
primeiros anos de uma pré-adolescência.
IDEAL
também dizer: gostava de jogar bola. A gente formava um time respeitado e eu,
no meio dele, metido a bicho medonho, conhecedor (nem tanto) da arte de lidar
com a pelota. Espaços compridos possibilitavam o aproveitamento da área larga.
E naquele campo não-oficial dominava o redondo objeto de couro como se fosse um
verdadeiro craque. Apenas como se fosse...
Voltava à noitinha, cabisbaixo, recebendo
carões. Mainhô parece que só queria me ver nos estudos, nada de distrações
extras. E dizia: você,
hein?, por acaso disse pra sair? Botava-me de castigo e lá ficava
eu mofando e olhando para aquela horrível parede descolorida.
Saía desconfiado e com os pés doídos.
Esmurrando o muro, sem cor, teimava em largar tudo enquanto Mainhô se enfezava
com minha atitude, para ela, um modo de proceder desrespeitoso.
Seria depois surpreendido a jogar botão de mesa...
JOVEM ainda voltei para a fazenda. Cheguei, montei um dos cavalos
bonitos e saí a trotear gostoso pelo espaço aberto do campo, aquele lugar
desabitado onde predominava os cantos dos passarinhos e o cheiro do ar puro, a
vastidão das matas florestais a nos trazer saúde. Vidinha mansa, como diria
Painhô. Aliás, foi ele quem me ensinou a montar naquele alazão formoso, bom da
peste, no modo de dizer, claro.
E
eu pulava em cima do animal e vez em vez levantava suas duas patas e segurando
nas rédeas, chicoteava-o, ele abrindo as ventas e rinchando um grito talvez de
dor. Saltava com ele, então, aqueles enormes cardeiros e xiquexiques que se
punham à nossa frente. E o alazão elevava-se com vigor, feito menino, éramos
então duas crianças a correr estrada afora como se estivéssemos num campo de
hipismo.
Depois tudo acabou: a criação da
fazenda foi devassada e devastada, acho que meu cavalo morreu quando a máquina
chegou. Feiíssimo e horrível... O progresso matara a ingenuidade e o ar
escurecia. E a gente teve de correr às pressas. Homem e máquina: natureza
perdida.
KNOW HOW eu ainda não
tinha nenhum, mas com certeza e o passar dos anos iria adquiri-lo sem
pestanejar. Seria questão de paciência e tempo também. E principalmente estudo.
Portanto, dali em diante teria de me esforçar para entender tudo. E Painhô
certamente ensinaria o que ele já aprendera na vida.
LUTEI desde criança para manter boa aparência. Com idade de quatro
ou cinco anos todos gostavam de mim. Ao menos imaginava que sim. Um gênio ou um
imbecil? Nem uma coisa e nem outra.
Disso sei: nasci com aquele belo porte que tanto a parteira
avisara.
Mas, depois, é que a gente, no crescimento,
perde algo e fica frugal. Ou vice-versa. E parece que os cinco quilos e
duzentos gramas se malograram e diluíram com a idade avançando e fui ficando
magro, mas, ao mesmo tempo, esbelto, no que redundou depois um rapaz, modéstia
à parte, de estatura modelar.
Que o dissessem depois as
mulheres... E que mulheres! Nem gosto de pensar, pois me dar uma saudade danada
de um tempo que ficou perdido entre as sombras de uma ilusão. E com ele, o tempo, tudo se dissipou e depois
acabou. Restam, atualmente, lembranças de uma época onde a inocência e a
felicidade não tinham data para cessar. E tudo que a gente fazia sentia um
sabor agradável do desmedido.
MEU colégio era obrigação ir pra missa. Confessionário,
hóstia, um verdadeiro santo. Imaginem que até cantar em coral da igreja eu
cantei. Fiz a chamada primeira comunhão bem comportado e as traquinices e
indiferenças (ou descrenças) vieram com o tempo. Mas, na narração desta letra
estava eu em estado de graça. Ou presumia que estivesse.
Hora
da celebração: era mais um pretexto de moças e padres carentes. E as paqueras
aconteciam nos bastidores entre um olhar e outro. Os sacerdotes depois largavam
tudo e fugiam com as meninas também ávidas para pegar o seu homem. Era um
sacrilégio em nome de uma pseudovocação. O que valia mais seria o desejo em
pleno palco de uma igreja que ficava desmoralizada ante o fastio de também
falso-moralistas.
E quando cresci entendi melhor a trama amorosa
dos padres no horário dito religioso, mas com os olhos nas lindas (algumas nem
tanto) donzelas ansiosas para casar. O fato é que pouco tempo depois não
existiam quase presbíteros naquele educandário.
Muitos deles fugiram com as meninas-moças que, nas suas supostas inocências,
viam naqueles domingos matinais uma oportunidade de um casamento talvez seguro
em nome de um desejo inicial.
NÃO
sei por que nasci uma pessoa tímida, muito tímida, nada puxando ao meu pai.
Talvez as raízes ancestrais tenham vindo de Mainhô, sei não... E às vezes
também era um pouco pensativo. Mais tarde soube através de minha mãe que teria
puxado a ela no aspecto da timidez.
Seria um predestinado e teria sido
enviado para detonar e clarear mentes obtusas e que pudesse tomar impulsos
extraordinários com o decorrer do tempo?
Sei que a vida tem lá seus mistérios, a origem de todas as coisas voa
igual um passarinho além mares. Quando atravessa o tempo, não sabe de onde
partiu.
E somente tenho certeza que
saí de um enorme buraco, porém não sabia a razão e nem para onde iria depois.
Achei, contudo, bacana ser um menino sensível, que tentava compreender tudo.
Entretanto, um temor sempre surge na nossa frente e a gente fica a lamentar um
medo da obscuridade. O diabo é que parece que ainda não consegui superar!
O carnaval chegou e a gente formou um
bloco: ‘A cobra que mordeu o Belo’,
uma espécie de roteiro matinal destinado às brincadeiras do período. O título
não soube bem o motivo, se existia ou não a citada cobra, embora soubesse que o
tal significado indicasse alguém de especial atenção.
E a razão da existência da turma de rapazes
seria o assalto às casas conhecidas, uma talvez leve (ou
pesada) maneira de tomarmos uma bebidinha a mais.
Uma velha camioneta servia de percurso e era uma pena que as mocinhas da época,
ainda acanhadas ou pressionadas, não aparecessem como integrantes também do
citado acompanhamento.
Eram somente marmanjos, o que não deixava
de ser triste. E seria ótimo se algumas delas estivessem perto de nós, então a
alegria ia ser redobrada. Mas, a compensação nós tirávamos no divertimento, de
vez em quando exagerado pelos mais afoitos.
Porém eu não deixava de me lembrar que as
supostas donzelas pudessem estar ali nos fazendo belas parcerias.
Sim, adivinhei o motivo do título do bloco: era um belo carnaval. É de lamentar
apenas que o ofídio o tenha mordido.
PAINHÔ
às vezes ralhava comigo, implicava quando não o obedecia. Mas, tudo isso era
coisa de criança mesmo. Bem que eu lutei pra ficar no ventre de Mainhô... Mas,
infelizmente, não somos donos de nossos narizes. E ele gostava de um cocorote
que doía pra valer. Minha cabeça voava e passava dias com o couro cabeludo
doendo.
Quem mandava ser medonho,
hein? Sei que o cérebro tem os seus
emaranhados, ninguém imagina, é cheio de ondulações. Quando um tálitro é dado
com força, aí esfacela, a moleira afunda. Evidente que não foi o meu caso, mas
sofria um pouco com aquela indisposição.
Os embaraços e situações incômodas eu não
posso precisar ou alegar de que foram. São acontecimentos que aparecem ao
acaso.
Porém, nossas vidas são ambíguas. E o
simples fato de eu existir acarreta súbitos interesses alheios. Perguntas são
postas e daí surgem discussões que raramente têm respostas que satisfaçam o
interlocutor.
QUANDO meu pai me levava a passear, eu sempre pedia pra entrar numa
daquelas salas de cinema. Ali ele subia comigo e conseguia através da amizade
com o ‘dono da câmera’ me mostrar uma enorme máquina de rolos gigantescos a
girar ininterrupta. Então discutia com o homenzinho sobre assuntos que eu nada
entendia e metia o olho direito num daqueles buracos, enquanto gesticulava
mandando que examinasse uma luminosidade retangular na minha frente.
Parece-me que exibiam um seriado
desses que obrigavam você a acompanhar toda semana. E eu me entusiasmava tanto
que ficaria o dia todo na observação não fosse o próprio sujeito a me lembrar
que teria de sair. Sabia que era gostoso o suspense de um filme para o
seguinte, vendo-me depois na expectativa de nova espiada na aparelhagem
cinematográfica. Fui daí, então,
me interessando pela continuação da fita e sempre fugia pra assistir os seriados
com a ajuda do amigo de Painhô.
REGISTREI, desde cedo, em meu diário, que não tinha quase
esperanças com esse mundo que aí está. Talvez fosse preciso muitas
transformações. De qualquer maneira apenas tento colocar e, se possível,
corrigir fatos danosos que marcam irregularidades absurdas nesta nossa
vivência. Então, a lamentação é freqüente à insensibilidade do ser dito humano.
E dei,
portanto, o veredicto simples, porém implacável: meus olhos viam, desde
criança, uma humanidade bestificada.
Quando ficar adulto e sentir atrações externas e sentimentos próprios ao meu
corpo jovem, farei o que for possível para tudo se transformar como uma flor
desabrochada em plena madrugada.
SÚBITO lembro-me de um episódio: ainda no ventre de Mainhô vi uma
infinita escuridão acercar-se, pensando depois e batucando sobre a causa e
efeito de tais ruídos estranhos. Pareciam ser labirintos inatingíveis e cores
diversas em constantes combates.
Fios corriam
dispersos, atingiam meu cérebro, deslocavam-se em círculos e incomodavam o
corpo inteiro. Mas, depois tudo passou e me vi livre de misteriosa e
azucrinante coação. Foi um sufoco que deixou tonto um bom período o feto que
ainda estava em estrutura de se desenvolver.
TODOS viram (ou quase) naquele menino um ser talvez destemido e
disposto a enfrentar situações que a vida iria impor. Marco de uma
determinação? Pressenti o acontecido e fiquei boquiaberto ao saber da
extravagância e fecundidade do problema. Mainhô e Painhô saíram a gritar de
contentamento e felicidade, o oposto do que senti quando soube que iria nascer.
Já tinha dito:
não era o que desejava. Não queria assistir o que o mundo parecia programar
ante meus (e talvez seus) frágeis olhos: o sofrimento da grande maioria das
pessoas. E observei-o e ainda observo-o assombrado e temeroso.
UMA
vez tive um sonho estranho: estando sozinho neste mundo áspero e rude, não pude
deixar de retalhá-lo, golpeando-o em partes iguais. Permanecia sedicioso em
querer mudar aquele inferno. Olhava em frente e via o trajeto repartido em não
sei quantas divisões. Cheguei a me assustar, juro.
Atravessei enormes desfiladeiros e pegando
um atalho parecia fugir, como em filmes de faroeste, de grande quantidade de
índios. Intrincado e emaranhado, o solo ficou secarrão.
Claro que não estava acostumado com essas andanças, a bem dizer talvez fosse a
primeira vez que saía de casa. Mundão matuto esse, tudo no desprimor.
Então, tardinha, eu vinha vindo tardo
para me achegar no lugarejo. O que não gosto nem de contar. Mas, houve uma
espécie de explosão e gente muita havia morrido. Tudo tomado nas devidas
apropriações, com queimação, saque... Haviam desmandado. E fiquei ardendo nas
supostas chamas. Uma espécie de delírio...
Quando minha mãe me acordou, estava
lá eu no escuro a debater contra o próprio travesseiro, parecia mesmo
evidenciar tais episódios. Passou, repassou e ficaram somente as distâncias. E
até o presente momento não entendi a razão daquela seqüência de imagens. Talvez
fenômenos psíquicos postos involuntariamente.
VEZ ou outra Painhô lia no
sofá um livro de historinhas que ele conservava na estante. Dizia: esse
capítulo é ótimo, tem cada piada... Dobrei, então, a folha e ele começou a ler,
parando na metade. Vi seus pêlos dos braços arrepiarem e os cabelos também,
parecendo mais uma vassoura ao contrário.
Na verdade, ele puxou o livro com força e não
leu mais nada. Falou que os relatos eram meio obscenos e foi guardar o dito
compêndio ou coisa parecida. Deve ter escondido entre as traças da velha
estante. Mas, outro dia ainda irei testemunhar suas páginas.
Depois encontrei meu pai na rede nova
relembrando os dias que passava na fazenda, quando dizia que remoçara dezenas
de anos. E concluí que se ele morasse lá talvez nunca fosse envelhecer, mesmo
com o reforço da palavra. Vê como era o vaqueiro de meu avô, moço, moço,
disposição de bicho, carinha de menino. E ali mesmo ele dormiu uma soneca, era
hábito a sesta de Painhô depois do almoço.
XIXI
eu ainda fazia no berço. Como não existiam fraldas descartáveis, sobrou
mesmo pra Tia Chica que lavava uma a uma aquelas intermináveis de tecidos de
algodão. E tinha, claro, que suprir minhas necessidades fisiológicas. Ficava
ali sem fazer nada, a espera de uma mão bondosa que viesse trocar a velha urina
escorrendo nas minhas robustas pernas.
Que cuidassem de mim, pois! Afinal de
contas, não tenho culpa dos acontecimentos. Se existem responsáveis no caso aí
são os meus pais que resolveram fazer amor e então, depois de nove meses
daqueles entreveros na cama, eu nasci. Isto é mais do que evidente e todos
devem pensar assim, inclusive eu, que sou parte interessada.
E
digo mais: de certa maneira Painhô e Mainhô também não tiveram lá a culpa toda,
pois já são frutos de outros amores. Partindo dessa premissa, todos têm sua
parcela de uma forma ou outra. Não irei, tenho certeza, desabrochar uma vida
quando estiver de colóquios amorosos com uma mulher? Nesse ponto, sou
responsável também. Ou irresponsável?
ZONZEIRA essa minha. Tinha o
hábito de zanzar. Mas, voltei a interrogar entre paredes: a vida é uma loucura?
Acho que Painhô acreditava que sim, embora Mainhô não ligasse pra essas coisas.
Preferia ficar na sua cadeira de balanço a cerzir alguma roupa tirada do baú. E
Tia Chica, o que falava? A preta velha envergonhada dizia que todas as pessoas
são loucas, umas com mais intensidades e outras com menos. Mas, ela era assim
mesmo, sempre exagerava quando ia dizer algo. Porque, de certa forma, toda
regra teria sua exceção. Porém, logo se dirigia ao seu local de trabalho. Ou
seja: a cozinha. Ali iria se entreter com suas iguarias inigualáveis. Os outros
filhos, ainda pequenos, não alcançavam assunto tão pertinente.
Sabia, eu, entretanto, que a grande maioria
sofria de distúrbios ocasionados, acho, pela hereditariedade. Os fatores
externos seriam meras conseqüências. Acreditava que o gene caracterizava a
índole do ser humano. A vida tem lá seus
monstrinhos... O seu ciclo é engraçado:
desde tempos idos existem mutações, variações, atos e fatos. O ciclo-vicioso
dos mundos e fundos.
Abri a janela e fui tomar um pouco
de ar, talvez um ar impuro. Divisei, do parapeito, pessoas tristes jogando-se
num chão intervalado onde um longo rio de sangue afogava transeuntes que
circulavam pelo local.
Mas aí já é outra estória, pois adormeci e comecei a sonhar...