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6 de setembro de 2020

O real nome de Deus em Maimônides e Nicola de Cusa

DIEGO AVELINO DE  MACÊDO

(D. MACÊDO – diegoavelinohistoriador@yahoo.com.br)

 

As diversas tradições judaico-cristãs veem na sua expoente fonte de credo um profundo mistério. O livro sagrado de ambas as religiosidades externam Deus correspondendo as imagens dos seres criados. As associações acontecem gerando uma personificação teosófica desse SER tão (des)conhecido. Os esforços dos religiosos judaico-cristãos estão numa dedicação descritiva de Deus, para isso, lançam-se numa linguagem que possa tornar o Divino perceptível ao humano. Portanto, para este trabalho, analisaram-se os capítulos XXIV, XXV e XXVI do livro “Douta ignorância” de Nicola de Cusa e os capítulos LXI, LXII, LXIII e LXIV do livro “Guia dos Perplexos” de Maimônides.

 

INTRODUÇÃO

 

A Bíblia está repleta de textos acerca de Deus de tal modo que, aparentemente, descreve-o como sendo um Ser cuja natureza divina assume características físicas e/ou atributos sensíveis. Analisando as obras de Nicola de Cusa e de Maimônides percebe-se, que a promoção do distanciamento epistemológico entre tais pensadores, enquadra-se na perspectiva da natureza divina. Para Nicola, Deus é “uno-trino”. Contudo, em Maimônides Deus é “uno”. Agora, há um certo ponto de aproximação entre ambos, quando eles se posicionam ser a teologia negativa um bom meio para explicação do divino assim como traçar associações entre Deus com suas criações – entenda-se, aqui, representando Deus através de nomes.

           

Nome divino

           

"שמע ישראל הי אלוקינו הי אחד" (דברים 06)¹

 

O ser humano tão limitado, em decorrência de sua estrutura finita, busca compreender o fundamento de Deus, notadamente, detentor de uma natureza infinita sobre os moldes racionais. Esta ação árdua rendeu diversas obras teológicas, contudo, para desenvolvimento deste trabalho haverá o foco em um pensador cristão [Nicola de Cusa] e noutro judeu [Maimônides].

A fundamentação do pensamento nos moldes da racionalidade, permite destinar projeções lógicas no reconhecimento de Deus, i.e., a adefagia em querer entender, desvendar ou compreender o Divino poderá ser suprida [mesmo que momentânea] no caminho ascese da articulação entre a razão e o metafísico. Desta maneira, a tentativa de superar a si mesmo para adentrar-se dentro de um “recinto misterioso” para o cognoscível tem sido uma condição de constante luta racional. Não é simples tornar compreensível àquilo de natureza inacessível.

 

“(...) capaz de conocer a Dios a la medida de su própria capacidade de recibirle.” EVDOKIMOV, p.15

 

Os nomes associados ao Divino são pronunciados visando facilitar a compreensão dos sujeitos. Obviamente, Deus, não seria o nome que pensamos ser! A mais singela percepção acerca da divindade só poderá estar na adoção de uma postura racional tendenciosa ao negacionismo – é mais fácil ditar o que Deus não é [ex.: Deus não é bom; Deus não é perfeito; Deus não é soberano].

 

“Saiba que a verdadeira descrição de Deus ocorre por meio de atributos negativos, que dispensam uma linguagem imprecisa e não implicam qualquer tipo de imperfeição no que se refere a Ele.” MAIMONIDES, p. 225.

 

Pois bem, de todos os nomes ditos acerca de Deus um é mais especial.

 

Todos os nomes de Deus encontrados nas Escrituras derivam das Suas ações – isto não deve ser esquecido – exceto um, e este é: “Yod, He, Vav, He”. MAIMONIDES, p. 239.

 

Caixa de Texto: ¹Trecho central sobre a Unicidade divina – “Ouve Israel, o Eterno, é Nosso Deus, o Eterno é único (SHeMaH YSRaEL ADONAY ELOKeYNU ADONAY ECHaD)” (Deuteronômio 06).O Tetragrama ((יהוה é o nome exclusivo de Deus representando sua genuína essência. Alguns teólogos tentaram traçar uma pronunciação para o Tetragrama (YHVH = YodHeVavHe, heb. transliterado) descaracterizando-se, profundamente, um nome de cunho impronunciável² da qual sua verbalização correta é desconhecida.

 

Mesmo assim havia uma situação solene da qual o misterioso nome de Deus seria pronunciado. Todavia, a pronunciação do nome era feita somente por um clérigo judeu [Sumo-sacerdote]. A irrestrita pronunciabilidade deste nome visava evitar profanações.

 

And here we come to a point the importance of which has not been fully recognized by the historian. In pre-exilic Israel, as among other nations, none but the priest, or some holy person, was permitted to approach the Deity in the sanctuary and invoque the name of Jahve. KOHLER, p. 23.

 

Os outros nomes associados a YHVH traçam, apenas uma pluralidade de Deus, entre elas citam-se alguns: צדק, 6אלהים, 5דין, 4רחמן, ³רחמים7 e  8חסו. Essa pluralidade corresponde às ações divinas, não a um critério ontológico. Assim, os tantos nomes usados para Deus trazem consigo, apenas o critério derivado de sua existência estar associada às suas atividades e/ou perfeição. Ditas nas palavras de Dionísio Areopagita, em seu livro De los nombres divinos, no capítulo V, pgs. 75-82: “Digo que esos nombres sagrados se aplican a la providencia divina considerada en la totalidad de sus buenas acciones”.

Mesmo com uma enorme quantidade de nomes, o YHVH ainda permanece sendo àquele equivalente à essência divina. Esse Tetragrama denota, portanto, a existência absoluta e eterna de Deus. Nela [YHVH] não há derivação alguma de nenhum atributo.

            Deparando-se, com o texto de Nicola de Cusa, percebe-se uma abordagem bastante similar de Maimônides – exceto, o uso de terminologias hebraicas, salvo, a transliteração do Nome Inefável. Segundo Nicola, seria Maimônides o Rabi Salomão – provavelmente, em alusão ao grande saber que este rei judeu teve. Esta latente sabedoria está externado num guia filosófico-teológico nomeado como Guia dos Indecisos ou Guia dos Perplexos.

Caixa de Texto: ²O nome de Deus – Tetragrama – era recitado somente uma única vez no Templo Sagrado durante o Yom Kippur pelo Sumo-Sacerdote. 
3 Misericordioso (RaCHaMYM, heb. transliterado).
4 Clemente (RaCHaMaN, heb. transliterado)
5 Juiz (DaYaN, heb. transliterado)
6 “Deus” (ELoHYM, heb. transliterado)
7 Justo (TZaDiK, heb. transliterado)
8 Força (CHaSON, heb. transliterado).Obviamente, haverá na obra cristã de Nicola uma agregação à natureza de Deus bastante diferente daquela visão maimonidiana. Em Maimônides, Deus é único estando longe de qualquer outra divindade. Já, em Nicola [na obra “Douta Ignorância”] acontece o aparecimento trino para sua divindade. Mesmo com tal divergência há similares olhares entre ambos pensadores.

            Nicola de Cusa menciona que os homens criam nomes para Deus, i.e., atribuem características ao divino mediante as evidências existentes nas criaturas. Isto permite mostrar, que os humanos se baseiam na assimilação comparativa das criaturas com o divino.

A sagrada ignorância ensinou-nos que Deus é inefável; e isto porque é infinitamente maior do que tudo o que se possa nomear; e porque isto é sumamente verdadeiro, dele falamos de modo mais verdadeiro por remoção e negação (...)  CUSA, p.63.

 

Basicamente, em Nicola, quando é abordada a condição dos nomes associados a Deus, justifica-se que Deus se apresenta ao humano segundo as características da sua criação, i.e, ELE é Criador conhecido, a partir, dos elementos criados. Dessa maneira, recai a incumbência ao afirmar que a concepção trina de Deus acontece seguindo, necessariamente, as características das criaturas. A ordem existente na natureza sensível se realizará porque Deus é pai, filho e espírito santo. Ora mesmo caminhando nessa direção, as comparações ocorrem, simplesmente, porque o humano enxerga o divino com seus pobres olhares existenciais. Para se compreender Deus seria importantíssimo romper cada vez os limites temporais-existenciais.

Embora, aconteça tal fato é necessário que haja uma forte presença do intelecto humano no momento de reconhecimento do Divino. Em ambos pensadores analisados, Deus, deve ser adorado sobre a base da racionalidade e não meramente, a partir, do regimento da fé

 

“Mas porque o nome de Deus é Deus, o seu nome não é conhecido senão pelo intelecto que é o próprio máximo e o nome máximo.” CUSA, p. 56.

 

Eis que foi esclarecido que a condição de o intelecto, o ser inteligente e o inteligível serem numericamente ”um” não se aplica ao Criador, mas a qualquer intelecto. Portanto, também em nós o ser inteligente, o intelecto e o inteligível, são uma coisa só, desde que o nosso intelecto esteja atuante (...). MAIMONIDES, p. 263

 

Conclui-se, portanto, que tanto Maimônides quanto Nicola pensam semelhantes na questão do nome de Deus e, qualquer associação com a criatura seria apenas mais “uma criatura sendo adorada”, não o Criador. Daí, aconteceria algo tão banido por Deus, registrado no livro sagrado [Bíblia], a condição da idolatria. Outra intepretação plausível seria que se o humano usa as prerrogativas existentes em seu mundo sensível para discorrer acerca de Deus, precisa-se que o uso de tais atributos não constituam a característica una do divino. Isso seria ultrajante porque Deus seria um ser plural e não simplista. Ele se mostra através desses atributos (teosofia), mas não é o fator essencial dele. Como o humano é possuidor de inteligência, que assim faça quando pense sobre Deus [mesmo sabendo das restrições mentais]. Até porque Deus se mostra oculto, sendo assim, necessário “conhecê-lo”, somente sobre viés da reflexão, inteligência, racionalidade – como queira chamar.


 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

AREOPAGITA, Dionísio. De los nombres divinos. Edicomunicación, S.A., 1988.

 

EVDOKÍMOV, Paul. El conocimiento de Dios en la tradición oriental. Ediciones Paulinas.

 

GUTTMAN, Julius. A filosofia do judaísmo: a história da filosofai judaica desde os tempos bíblicos até Franz Rosenzweig – São Paulo: Perspectiva, 2003.

 

KOHLER, K. Tetragrammaton (Shem ham-M’forash) and its uses. Journal of Jewish Lore and Philosophy, Vol. 1, No. 1 (January 1919), pp. 19-32. Published by Hebrew Union College – Jewish Institute of Religion.

 

MAIMONIDES, Moses. O guia dos perplexos – São Paulo: Landy Editora, 2004.

 

CUSA, Nicola de. A Douta Ignorância ___________________.

11 de março de 2020

QUADRINHOS E EDUCAÇÃO: DIÁLOGOS POSSÍVEIS



    A partir de abril, pelo terceiro ano consecutivo, o Centro de Estudos e Biblioteca Escolar Prof. Américo de Oliveira Costa estará realizando à Formação Continuada para educadores sobre as possibilidades do uso das histórias em quadrinhos (HQs) no Ensino.
   O Curso QUADRINHOS E EDUCAÇÃO: POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO é ministrado pelo professor e historiador, Beto Potyguara, que se dedica a pesquisa deste tema há mais de dez anos. O curso é fruto da parceria do Projeto Diálogos com os Quadrinhos, coordenado por Beto, e a Gibiteca Potiguar da Biblioteca Prof. Américo de Oliveira Costa. Esta iniciativa recebeu o reconhecimento de sua relevância por parte da Secretaria de Estado da Educação, da Cultura e do Lazer do Rio Grande do Norte, concedendo-lhe a Comenda RN Mais Leitor, no ano de 2018.
    Neste primeiro trimestre do ano serão ofertados dois Módulos independentes, na modalidade EaD semipresencial, com uma Carga Horária de 40h cada. Os cursos são gratuitos e possuem apenas cinco encontros presenciais, uma vez por semana, no horário das 8h às 11h.
    O Módulo 1, intitulado INTRODUÇÃO ÀS HQs: DA TEORIA À PRÁTICA, terá início no dia 06 de abril e será realizado nas segundas-feiras; o Módulo 2, TIRAS: LEITURA, PRODUÇÃO E APLICAÇÃO EM SALA DE AULA, começará no dia 02 de abril, ocorrendo sempre nas quintas-feiras.
    O Curso é indicado à educadores e à estudantes universitários de cursos das Áreas de Educação e das Ciências Humanas, mas demais interessados pelo tema também podem se candidatar. As inscrições podem ser solicitadas pelo e-mail da Gibiteca (gibitecapotiguar@gmail.com) e serão validadas após a devolutiva do Questionário de Sondagem encaminhado ao candidato(a). O prazo de inscrições se encerrará no próximo dia 31 de março para ambos os cursos.
SERVIÇO:
O QUE: CURSO QUADRINHOS E EDUCAÇÃO: POSSIBILIDADES DE APLICAÇÃO
ONDE: Centro de Estudos e Biblioteca Escolar Prof. Américo de Oliveira Costa, Av. Itapetinga 1430, Conj. Santarém, Potengi – Natal/RN – Fone: (84) 3232-7396 – E-mail: cebezn@gmail.com.
COMO SE INSCREVER: Preferencialmente pelo E-mail gibitecapotiguar@gmail.com
QUANDO:
Módulo 1: 06/04 das 8h às 11h.
Módulo 2: 02/04 das 8h às 11h.


19 de setembro de 2019

CRÉSIO TÔRRES “Em qualquer circunstância da vida eu vou fazer teatro”



Paulo Jorge Dumaresq
            
             Difícil é não acompanhar com atenção seu raciocínio rápido que esparge orações como se fossem poemas. Não é à toa que difunde o canto livre e alegre do Ceará-Mirim, sua cidade berço, sua Ítaca prometida, sua mágica Macondo. Inquieto e preocupado com as injustiças sociais e o crescimento do seu semelhante, ele logo cedo descobriu na arte um instrumento capaz de humanizar o homem e tornar o mundo mais aprazível para si e para o próximo. O ator, compositor e poeta Crésio Tôrres foi buscar também no cristianismo os valores para uma vida mais tranquila e equilibrada no perdão e na caridade. Com tudo isso ao mesmo tempo agora, acredita-se marxista cristão. “Não creio num artista que não seja generoso”, afirma.
            Nascido a 9 de abril no emblemático 1968, Crésio declara ao “Nós, do RN...” que ainda vivenciou um Ceará-Mirim rico culturalmente, com um folclore ativo e pujante. Cresceu assistindo aos caboclinhos, congos de guerra, bambelôs e tribos de índios. Seu olhar aguçado e perscrutador  presenciou as atividades teatrais da Juventude Franciscana (Jufra) na Igreja Matriz, após a missa dominical vespertina. Por meio da Jufra, encantou-se com o teatro infantil e chorou lágrimas cristãs ao testemunhar A Paixão de Cristo e pequenos Autos de Natal dramatizados pela agremiação vinculada à igreja católica. Aliás, já possuído pela Arte Maior, no limiar da carreira o aspirante a ator participou de autos religiosos e de esquetes teatrais pela Fundação SESP.
             O artista, que se emociona ao falar do passado, lamenta a ausência nos dias de hoje dos cinemas Paroquial e Jerusalém, que tanto abrandaram sua alma inquieta e o influenciaram na arte da representação. Ao assistir fitas de Bruce Lee, Shaolin, Buffalo Bill, Django e Sartana, a criança Crésio Tôrres tentava imitar seus heróis em casa. O circo também fez parte da sua infância, época em que não perdia os dramas, shows musicais e números de palhaços. “Também brincávamos de circo na rua. Eu tinha uma fé cênica que os outros meninos não tinham”, ressalta o ator.
            Ainda na puerícia, deu os primeiros passos na arte dramática, participando de jograis e esquetes na escola. A sorte de ter nascido numa família intelectualizada, e num rico berço cultural, fez toda a diferença na sua educação artística. Por causa disso, o acesso ao bom entretenimento, como cinema, circo, gincanas culturais, desfiles cívicos e carnavalescos,  alimentou a alma da criança. “A minha infância na rua Rodolfo Garcia (rua Nova) foi muito criativa. Inventávamos os próprios brinquedos e as brincadeiras. Íamos muito para granjas onde tomávamos banho de rio e ouvíamos muitas histórias dos mais velhos.  Papai era um brincante. Ele contava historinhas e causos. Talvez isso tenha contribuído para o meu despertar para o teatro. Só hoje eu me dou conta de como foi enriquecedor para mim”, lembra, com uma ponta de saudosismo.
            Na escola, o primeiro contato com o universo da literatura infantil foi na quinta série ao ler “Memórias de um cabo de vassoura”, obra de Orígenes Lessa. A família Moreira, por parte de mãe, conforme Crésio Tôrres, tinha intimidade com o mundo das letras. A criança também não dispensava a leitura de gibis, hóspedes na sua ilha da fantasia.  
Projeto
A descoberta do Crésio Tôrres ator foi na escola, já cursando o ginasial, no início da década de 1980, por intermédio do projeto “Vamos fazer teatro nas escolas”, da Subcoordenadoria de Atividades Culturais da Secretária de Estado da Educação e da Cultura (SEEC), que implantou oficinas em Ceará-Mirim e municípios outros do RN. Entre os oficineiros, destaca Carlos Nereu (sonoplastia), Cláudio Cavalcante (interpretação), João Marcelino (maquiagem) e Joiran Medeiros, além de Ivonete Albano (interpretação). A ingratidão - esta pantera - não conseguiu colocar suas garras no artista. Do alto dos seus 44 anos rasga elogios ao plantel de oficineiros que fomentaram sua aspiração de ser ator.
O projeto visava à formação de atores, diretores e a consequente criação de grupos de teatro no interior. E cumpriu bem seu papel. A semente plantada fez brotar o grupo Inovart, onde Crésio atuou durante 10 anos em vários espetáculos dirigidos pelo encenador Washington Pereira Santos. No Inovart, o ator sobressaiu-se nos espetáculos Quem Casa Quer Casa (Martins Pena), Negrinha (Monteiro Lobato), A Eleição (Lourdes Ramalho) e A Árvore dos Mamulengos (Vital Santos), entre outros. “Quem me despertou intelectualmente foi a dramaturgia. Por intermédio dos oficineiros do projeto adquiri a trilogia de Constantin Stanislavski”, revela.
Crésio enaltece o movimento teatral natalense na década de 1980. Afirma que assistiu a grandes espetáculos dos grupos Alegria, Alegria e Estandarte, mesmo com toda a precariedade da época, sem leis de incentivo e editais públicos: “Na época eu via muita coragem nos artistas e uma consciência política incrível. Era o orgulho de ser ético. Existia um ativismo cultural e político”. Sem citar um número preciso, acredita que representou até o momento em mais de 30 espetáculos. Pelo Circo da Luz, projeto patrocinado pela Cosern, viajou quase todo o estado na condição de apresentador e de ator no espetáculo As Aventuras de Pedro Malazarte, de Racine Santos.
Profissões
            O primeiro emprego do ariano Crésio Tôrres foi como monitor de recreação infantil no Centro Social Urbano de Ceará-Mirim, em 1986. Na sequência, aventurou-se como vendedor de eletrodomésticos, desenvolvendo a atividade por seis meses. Em seguida, pediu a um amigo emprego na Secretaria Municipal de Educação para ser recreador infantil e trabalhar com cultura, esporte e lazer nas escolas municipais. “Eu era o cara mais feliz do mundo. Paralelamente, eu atuava no Inovart. Hoje eu sinto uma saudade gosto...”, interrompe o depoimento, emocionado.
Em 1990, Tôrres trocou os figurinos do teatro pela farda verde-oliva do Exército Brasileiro, onde chegou ao posto de Sargento. Conta que viveu grandes experiências de teatro no Exército, a ponto de comprometer a instrução conhecida como Pista de Progressão Noturna por causa do realismo que imprimiu à cena. Pela fé cênica inabalável, recebeu o diploma de Praça Mais Distinta, depois Ordenança do Comandante e no início de 1991foi indicado para o curso de Sargento. No Exército Brasileiro, permaneceu até 1994. A próxima empreitada foi o HiperBompreço, onde exerceu a função de fiscal da segurança por seis meses.  
Com mulher e dois filhos para criar, o artista cedeu às pressões  familiares e meteu a cara nos livros para tentar concursos públicos. Passou em todos e optou pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Ingressou nos Correios em 1996 na qualidade de carteiro. Na empresa, conseguiu trabalhar com teatro institucional no interior. Por outro lado, a dureza do ofício de carteiro fragilizou o artista ao longo dos anos. Resumo da récita: licenças médicas e reabilitação para atendente comercial.
No ano do seu ingresso nos Correios, Crésio Tôrres tomou parte nas filmagens de For All (1997), rodado em Natal, Parnamirim e Rio de Janeiro. Aprovado no teste pelos diretores Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda, voltou chorando para o Ceará-Mirim. Naquela oportunidade retomava sua carreira de ator. “O cinema me devolveu ao teatro. Quando terminou o filme não parei mais de atuar”, comenta.
Inoculado pelo vírus do teatro, o ator representou em Natal nos espetáculos A Festa do Rei, de Racine Santos, com direção de Hilton Lopo; A Ópera do Malazarte, A Farsa do Poder e Auto do Menino Deus, texto e direção de Racine Santos, afora Elvira do Ypiranga, com direção de Marcio Otavio. Interpretou papel, ainda, em Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Wilson Palá; Dom Casmurro, de Machado de Assis e direção de Clenor Junior, e na leitura dramática Os Patrões, de Paulo Jorge Dumaresq e direção de Marcio Otavio. No momento, Crésio está ensaiando A Festa do Rei (Grupo Teart), dirigido por Abraão Lincoln, com estreia prevista para o mês de novembro. “Em qualquer circunstância da vida eu vou fazer teatro. Porque se eu parar de representar paro de respirar. Se soubesse que fosse morrer hoje diria que tentei ser um vaga-lume na obscuridade cultural do planeta”, filosofa.  
Fazendo um contraponto entre os anos 1980 e a década atual, Crésio enfatiza hoje as leis de incentivo, os editais públicos e os pontos de cultura como avanços. De retrocessos, cita a falta de mostras, de festivais e de projetos como o necessário “Vamos fazer teatro nas escolas”. As brilhantes participações no Auto Jesus de Natal (2005) e no Auto de Natal (2009), não o deixaram deslumbrado. Tôrres considera que o investimento nos megaespetáculos a céu aberto podia ser revisto pelos gestores públicos, a fim de distribuir mais e melhor os recursos tendo em vista montagens de espetáculos de teatro de grupo e de dança, gravação de CDs, realização de curtas-metragens e publicação de livros.
Na condição de nordestino e de cabra marcado para viver no tablado, o pai de Mariana, 18; Pedro, 16; e Letícia, 10, não foge a perguntas embaraçosas. Inquirido sobre os melhores do teatro potiguar nas suas categorias, declara sua admiração pelo trabalho de Racine Santos e Paulo Dumaresq na dramaturgia. No tablado, bate palmas para Pedro Queiroga, sua grande referência como ator, e para João Antonio Vale. Em relação às damas, derrete-se ao citar Ana Francisca, Bárbara Cristina, Fátima Fialho e Titina Medeiros. Aplaude, ainda, a atriz paraibana Madalena Aciolly.
Voltando à Sétima Arte, Crésio conta que fez figuração no cabaré de Dona Belinha – porque perdeu o workshop para seleção de atores – no filme O Homem Que Desafiou o Diabo (2007), dirigido por Moacyr de Góes. Outras facetas do artista são a de cantor, compositor e poeta. Ele tem pronto O Canto da Boca da Mata, musical que apresenta parcialmente, visto que não conseguiu viabilizá-lo por falta de recursos. O menestrel dos verdes campos do Vale do Ceará-Mirim computa 50 canções de sua lavra “prontas e acabadas”. Defendeu canções em cinco edições do Festival de Música dos Correios, conquistando em duas oportunidades o primeiro lugar. Os feitos proporcionaram viagens a São Luiz e Aracaju.
Em 2005, o samba Ceará-Mirim – Seara Nobre do Folclore (Samba do Boi) recebeu nota 10 no desfile da GRES Império do Vale (Grupo A) no carnaval natalense. As composições de Crésio encontraram eco no CD do parceiro Iran Barreto que está gravando um disco com cinco canções do menestrel. “Uso a poesia como instrumento político e social”, pontifica.

Texto publicado no Suplemento Cultural “Nós do RN” novembro de 2012
           
           
                 
   


3 de abril de 2019

I FEIRA DE QUADRINHOS POTIGUARES DO BECO DA LAMA


                   Emanoel Amaral ao lado de Anchieta Fernandes

Neste sabado, 06 de abril, acontece a 1ª Feira de Quadrinhos do Beco da Lama no centro de Natal, das 9 às 17 h. O evento vai acontecer com venda de revistas em quadrinhos, desenhos, ilustrações e caricaturas.
Nessa edição,  fará uma homenagem especial ao desenhista, chagista e quadrinista Emanoel Amaral. Toda a venda dos produtos será revertida ao homenageado. As artes estarão expostas e poderão ser adquiridas pelos fãs diretamente com os ilustradores.
 O evento é um espaço dedicado aos amantes de quadrinhos, aproveitando o novo ambiente do Beco da Lama, reunindo artistas do nanquim, autores de quadrinhos feitos no RN e itens colecionáveis.


19 de março de 2019

Iolanda Bezerra de Oliveira

                                                             Iolanda


   Quando menina interna do colégio Santa Terezinha em Caicó, aos 17 anos, o sonho de Iolanda era vir estudar na Escola Doméstica a fim de aperfeiçoar seus dons em trabalhos manuais, o que já desenvolvia com bastante perfeição, a exemplo das prendadas mulheres seridoenses. O sonho de se matricular na ED não aconteceu, mas casou com o jornalista Francisco das Chagas de Oliveira (in-memorian) com quem teve seus seis filhos e onze netos, as coisas aconteceram como ela tanto desejou. E com o incentivo do marido sempre lhe sobrou tempo para os afazeres do lar para dedicar-se à arte.
E já se vão 25 anos de pintura em óleo sobre tela, porcelana, tecido, azulejos, prata boliviana e outras variedades de artesanato para presentes.

28 de dezembro de 2018

PATHÉ CINEMA


Anchieta Fernandes

O ano de 1913 foi muito feliz (não deu azar a terminação em 13) para a Sétima Arte em Natal, pois foi o ano em que se inauguraram dois cinemas em nossa cidade: o Pathé Cinema, de propriedade de Antônio Serrano (o nome todo de Antônio Serrano era Antônio Serrano Filho), situado à Avenida Tavares de Lira e inaugurado numa quarta-feira, dia 19 de fevereiro de 1913; e o sempre lembrado Royal Cinema, de propriedade da firma Paiva & Irmão, situado na Cidade Alta (aliás, foi o primeiro cinema a se inaugurar no bairro) e inaugurado numa segunda-feira, dia 13 de outubro de 1913.
O que é que significava o nome Pathé de tão importante para denominar o novo cinema de Natal, depois do Cinema Natal e do Politeama? Era uma homenagem a um dos pioneiros da Sétima Arte, o francês Charles Pathé. Nascido em Chevry-Cossigny, a 25 de dezembro de 1863 (há 150 anos), ele comprou um fonógrafo de Thomas Edison e o expôs em uma festa em 1894. Depois, passou a vender mais fonógrafos, e logo descobriu também outra novidade tecnológica da Belle-Époque projetores de filmes, que eram então produzidos isoladamente, enão industrialmente.
Ele pensou pioneiramente e foi a mola propulsora do início do cinema no contexto da revolução industrial comunicacional, aindaantes de Hollywood se afirmar, convocando seus irmãos Emile, Jacques e Théophile criou em Vincennes, em 1896, a empresa Pathé Frères, inicialmente apenas dedicadaa à venda de projetores de filmes. Mas Charles Pathé era um homem dinâmico não somente do ponto de vista industrial, mas também intelectual. Expressou certa vez um pensamento: “o cinema será o teatro, o jornal e a escola de amanhã”. Quem falava assim, não era apenas um comerciante.
Logo, os Pathé Freres começaram a produzir seus próprios filmes (dois dos primeiros foram “A Quadrilha” e “Moulin Rouge”,este realizado em 1897”. Foi criado o símbolo da companhia, por sinal coincidentemente tendo a ver algo com Natal, pois o símbolo era um galo que surgia na tela, batia as asas e abria o bico (como se estivesse cantando, embora não se ouvisse nada, pois ainda era a época do cinema mudo) e o galo é um dos símbolosde Natal, fixado na nossa memória pela imponência singela do galo metálico na torre da Igreja de Santo Antônio, e pelos galos de louça da artesã Loma Nenem.
Em 1901, Charles deixou sue irmão Emile como administrador de venda de projetores, e partiu para concretizar seus sonhos mais altos. Construiu seu estúdio de produção de filmes, laboratórios e contratou outro inventivo sonhador: o ator Ferdinand Zecca, vindo do chamado café-concerto parisiense. Enquanto Zecca se afirmava como autor dos argumentos, ator e diretor dos filmes produzidos pela empresa, Charles pesquisava a melhoria dos aparelhos projetores, criando o filme de 9,5 milímetros com perfurações centrais, facilitando o uso da câmera por cineastas amadores.
Zecca realizou em 1902 o filme “História de um crime” que é considerado o primeiro filme policial da história do cinema. Depois da primeira guerra mundial, os Pathé Freres criaram o Pathé Color, produzindo e distribuindo filmes para todo o mundo, e construindo e monopolizando salas exibidoras em vários países. A essas alturas, o Pathé Journal já fora lançado, iniciando a modalidade que seria normal no cinema e depois na televisão, do noticiário cinematográfico contínuo, registrando filmicamente o que se passava dia a dia nas ruas e ambientes interiores do mundo.
Numa das apresentações do Pathé Journal bastante emocional para os espectadores foi noticiada “A travessia do Canal da Mancha por Bleriot”, visto nos anúncios do Cinema Natal, em 1909, como o feito mais importante da aviação. É que o engenheiro e aviador francês Louis Bleriot batera o recorde, a 25 de jullho de 1909, sobrevoando o Canal da Mancha em trinta e dois minutos, em um aparelho de sua invenção. Pelo imediatismo do seu feito foi premiado, recebendo mil libras, oferecidas pelo jornal inglês Daily Mail, que circulava em Londres.
Em 1908, a quantidade de filmes começados com o galo batendo asas e cantando silenciosamente e vendidos nos Estados Unidos era maior que a dos filmes produzidos pela terra do òscar. Um homem de cinema alemão chegou a dizer de Charles Pathé: “ganhou no nosso país muito mais do que os cinco milhões pagos pela França após 1871” (ele estava falando de indenização paga pela França à Prússia – como se chamava a Alemanha - após perder na guerra entre ambos os países nos anos de 1870/1871; a proposta de paz da Prússia provocou a insurreição popular de sentido marxista, conhecida como Comuna de Paris).
Afinal, não se deve esquecer que os Pathé Freres produziram desde que Ferdinand Zecca entrou para a equipe, uma série de filmes que fizeram sucesso, como as comédias “A Sopeira”, “A Megera Recalcitrante”, “As Lentes da Vovó”, “Como Fabiano vem a ser Arquiteto”, “A Batalha dos Travesseiros”, ou, no outro lado do interesse da emoção humana, os dramas sociais, como “Um Drama na Mina”, “A Vida Perigosa”, “A Honra de um Pai”, “A Escola da Infelicidade”, “Vítima do Alcoolismo”; Zecca também realizou um filme endereçado as pessoas de fé cristã, uma “Vida de Jesus”, e alguns filmes infantis.
Além dos seus filmes vistos na América do Sul, e dos vários cinemas com o nome Pathé em cidades de vários países da América do Sul, este nome, Pathé, influenciou, parece, um fato cinematográfico pioneiro aqui no Rio Grandedo Norte; foi a primeira filmagem de terras norte-rio-grandenses. A 21 de dezembro de 1922, uma quarta-feira, descendo do hidroavião Sampaio Correia II (primeiro avião a cruzar os céus do Brasil vindo dos Estados Unidos, e também o primeiro a sobrevoar e pousar no Rio Potengi), o cinegrafista John Thomas Baltzel, da Companhia Pathé News, fez estas filmagens.
A diferença entre os irmãos Pathé e antecessores como Lumiére e Meliès e’que, enquanto estes últimos mandavam seus câmeras-mens irem filmar pelo mundo, para voltarem a Paris e apresentarem na capital francesa o material filmado, os Pathé começaram a instalar sucursais próprias nos diversos países, tanto da Europa (Bélgica, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Rússia), como da América (Estados Unidos) e, inclusive, da Ásia (Índia e Singapura). Assim, filmes feitos nestes países eram primeiro vistos localmente, e depois mostrados aos parisienses. Com isso, se criavam novos tipos de espectadores.
E se enriqueceram as situações temáticas, já que países diferentes tem costumes e tradições diferentes, e os cinegrafistas procuravam focalizar as peculiaridades antropológicas testemunhadas. Foram se definindo o filme histórico, o filme de mágicas e circenses, filmes políticos, filmes esportivos, filmes religiosos. Além das variações dos dramas cotidianos (às vezes mesclados de humor). Como pioneiros, os estúdios Pathé criaram até histórias que depois cineastas famosos reutilizaram. Como o filme “Le Voleurs de Bicyclette”, de 1905, e que Vitorio De Sica refilmaria em 1948, apenas pluralizando o título.
Mas nas décadas vinte e trinta, o sonhador e inventor começou a ser cercado pelas empresas endinheiradas, cujos diretores já haviam notado o quanto o cinema e outras invenções vindas do século dezenove seriam fonte de lucro. Em 1928, os Pathé Freres, que haviam feito aperfeiçoamentos revolucionários na tecnologia de gravação do som, substituindo o cilindro de gravação pelo disco de gravação vertical e depois lateral, não resistiram à oferta e venderam sua indústria de fonógrafosà English Columbia Company. Enquanto isso, a poderosa RKO Radio Pictures Filme começou a voltar as vistas para a empresa Pathé Freres.
Não deu outra: em 1931, a RKO comprou o que restava dos setores de produção e distribuição de filmes do império dos Pathé Freres, que já se estendia até a Austrália e Japão.... e Brasil, é claro. Charles recolheu-se à Mônaco, vindo a falecer em Monte Carlo a 26 de dezembro de 1957. Pelo que fez pela arte cinematográfica, tanto em termos de invenções para melhorias técnicas, quanto em termos de criação de um mercado consumidor para os filmes produzidos merece ser sempre homenageado ainda hoje; donos de cinema em todo o mundo não fazem mais do que justiça pondo o nomePathé nas fachadas dos prédios.
Bibliografia:
“DBU – Dicionário Biográfico Universal Três” – Tonso, Lívia De Caroli e Minillo, Marcia Maria, 2ª edição, Três Livros e Fascículos Ltda., 1984.
“Dicionário dos Cineastas”; Sadoul, Georges, Livros Horizonte, 1979.
“Le Cinéma”; Charensol, Georges, Libraírie Larousse, 1966.
“1000 Que Fizeram 100 Anos de cinema”; Pereira, Arley e Castellon, Lena, ISTO É, The Times, Editora Três Ltda., sem data.

“Romance do Gato Preto”; Ortiz, Carlos, Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, sem data