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21 de maio de 2019

O PRIMEIRO CORDEL DE ZÉ SALDANHA




(O Preço do Algodão e o Orgulho do Povo – 1935)
Manuel de Azevedo
Poeta, Professor e Músico
Escrevo a pura verdade,
Do que vi pelos sertões,
Algodão de trezentos réis,
Passou pra cinco tostões,
Pegou um preço alterado,
Chegou até dois cruzados,
Aí, danou-se as confusões.

Decorrem setenta e três anos desses versos publicados. Registro poético da era do “ouro branco” – o algodão, na ótica de um sagaz rapaz, contando à época, dezessete anos, parido das entranhas da Serra de Santana, no Sítio Piató, Santana do Matos, lá onde o Seridó principia.
Noite de São João de 1925, ainda menino, seu pai, Francisco Saldanha da Silva (Chico do Piató), contrata para uma cantoria na casa grande da fazenda, o cantador José Oiticica. Saldanha, aos oito anos de idade, infante alerta aos versos, ouve atentamente o romance, Rosa e Lino – O mal em paga do bem, do Poeta José Melquíades. Tal concentração, desde o início até o fim, impressiona ao cantador, que, dirigindo-se ao seu pai, vaticina: “Esse menino é poeta!”
Crescendo na lida rural dos troncos das serras – comboio de gado, cavalo, cerca de pau e de pedra, artefato de couro, roçado, coivara... - Saldanha tem nos pais, o incentivo às letras. Trabalho ao dia, estudos à noite. Esboçam-se nesses autênticos e nítidos traços sertanejos, o retrato do Poeta matuto, Zé Saldanha.
Santana do Matos, 1935, o cenário é rico. Plantações de algodão, proliferando farturas por todos os rincões. A sanha que abarca o apanhador (homens, mulheres e meninos), o fazendeiro, e o usineiro, aumenta cada vez mais, quando o preço do alvo produto, salta degraus, galgando cumes rapidamente. O dinheiro estufando os bolsos sertanejos dinheiro pra encher pote/ tá, o tamanho do pacote!... Dedé (assim meu pai e os mais próximos o chamavam), empunhando o lápis, em versos, descreve com precisão e simplicidade seu povo, seu tempo e seu espaço.
Nasce o Poeta Cronista, José Saldanha Menezes Sobrinho. Pura literatura de informação. Moeda corrente (Tostão, Contos, Réis, Cruzado). Produtos variados: tecidos finos (seda ambataclã, voales, cambraia fina, cetim de ranã) e o chapéu de lã para as mulheres; o brim de linho para os homens; anéis, brincos e dentes de ouro, brilhantina Manarra, perfume em garrafa Flores de amores, vinho de uva, cachaça Sete Queda, lenços de todas as cores, fita, pente e marrafa.... A pobre camponesa, antes vestindo chita, agora esnoba na moda, vestido e combinação. Maria da velha Aninha/pra toda festa que ia/trocava cinco vestido/antes de amanhecer o dia/isso é dinheiro de algodão/vestido e combinação/tenho que perdi a quantia.
Dinheiro fluindo do velho ao menino, do camponês ao fazendeiro, proporciona poderes a todos: aí, danou-se as confusões...Brigas, tiros, casamentos feitos e desfeitos, poligamia, a soberba e a luxúria, campeando desde a Serra até a Rua, ameaçando até a Igreja Católica. O avô de Saldanha, intervém no cordel, em defesa do evangelho, evocando a profecia nas escrituras:
 Havia uma profecia/de uma tal de Besta Fera/ouvi meu avô dizer:/já está chegando a era/essa Besta sem reprovo/vem dando dinheiro ao povo/e tudo se desespera..
Isso é da escritura / ela dará um estoro / e vem soltando dinheiro / de um maldito tesoro /já vem de idéia pronta / trocando ruzaro de conta / por um ruzaro de ouro.  
Cordel revisado pela professora D. Rita Regina de Macedo Saldanha, sua estimada mãe, está estruturado em 26 setilhas, rimando ABCBDDB, versos de sete sílabas, alguns pés-quebrados. Traz marcas típicas do cordel: o humor (Toinha da véia Joana/magra que só tanajura), na oralidade, a liberdade das concordâncias: verbal (eu já cheguei em lugares/que pocos meninos vai), nominal (cachaça sete-queda), na grafia (ruzaro/rosário, toro/touro, boço/bolso, tesoro/tesouro, pocos/poucos), para atiçar os puristas, as rimas, (demais/paz; touro/namoro/oro...).  Dois pequenos lapsos ao rimar nas setilhas 13 (caseiros / tiros) e 20 (estrato / alto), erros de impressão, a partir da capa, O PEÇO DO ALGUDÃO, mas, por se tratar de uma obra popular, escrita por jovem, sertanejo, nordestino, são argumentos favoráveis ao Poeta - meu conterrâneo – que reforçam tão somente a absolvição ante qualquer pré-julgamento. Prevenindo-se disto, o próprio bardo santanense, trouxe sua pré-defesa nos seus últimos versos, setilhas 24, 25 e 26:
Esse preço do algodão/esquentou o povo demais/obrigou até a mim/escrever termos rivais/com os poucos anos meus/peço proteção a Deus/para viver a vida em paz.
Peço desculpa ao povo/desta minha narração/o primeiro versinho que fiz/sobre o preço do algodão/escrevi a realidade/do que vi desde a cidade/ao interior do sertão.
Peço para desculparem/o menino do papai/aos meus dezessete anos/essa lembrança não sai/sobre termos populares/eu já cheguei em lugares/que pocos meninos vai.
Coroando tal façanha, para rimar com Saldanha, segue este episódio: contou-me em sua casa, o próprio, a saga da edição financiada pelo pai. Às 2 horas da madrugada da quarta-feira, limiar de dezembro de 1935, cavalo esquipado corta o sertão. No matulão 25.000 réis. Meio dia na estrebaria de Santa Cruz do Inharé, agreste potiguar, o cavaleiro-poeta da terra de Oscar Macedo, paga dois Tões pelas custas dos cuidados eqüinos. Na Tipografia Santa Cruz, fecha a empreitada literária de 1.000 folhetos em 20.000 Réis, tendo a palavra de honra sertaneja, como selo, carimbo e assinatura desta transação e o compromisso de entrega, na quarta-feira seguinte, no escritório da Cooperativa de Escrita Comercial em Cerro Corá. Compromisso firmado, compromisso saldado, conforme combinado. Saldanha nem abre o pacote, monta cavalo e risca para o Piató. A alegria do Poeta confirma O Preço do algodão e o orgulho do povo
Santana do Matos, sábado, pátio da feira, Saldanha abre a maleta e recita para os Santanenses com orgulho, seu Primeiro Cordel. Cinco tostões é o preço do folheto. As vendas disparam, até a metade da maleta encerrar o dia. Disse-me ele: “Deu-me um trabalho danado, pra tomar um café”. “Era um bolo de morcego nos bolsos.”
Dia seguinte domingo, feira de Cerro Corá. Muitos folhetos, muitos morcegos nos bolsos. Antes do meio-dia, mais um quarto da tiragem se esvai.  Ainda sobra-lhe tempo e cerca de 200 exemplares para em Currais Novos nesse mesmo dia, vender o último folheto, rendendo-lhe na alma milhares de Réis de felicidade, encerrando a epopéia literária desse expoente da literatura popular brasileira, com mais de mil títulos editados, condecorado com tão justa, singela e honrada comenda de O Mais Velho Poeta Cordelista em Atividade. 

27 de outubro de 2017

RIBEIRA, MENINA-MULHER.


Cúmplice do passado-presente,
Observadora
...quando a noite chega.

Mulher expectadora
Calada
...vivida.

De vidas
Sorrisos, tristezas
... da cidade Natal

O Rio Potengi a beija
Na lama, no pôr do sol
... amantes em plena luz do dia

Realmente a quem tu te entregas?
Ao poetas?
Aos bêbados?

Teus caminhos impregnados
Nas idas e vindas do cais
És partida e chegada sem digitais .


Grita teu nome nos restos das paredes
Berra tua história
...como agonia dos peixes

Volte a ser menina dos anos dourados!
Acendendo a luz do presente
Embalando como brinquedo o passado.

(Yasmine Lemos)




20 de outubro de 2017

COCO GELÉ


 Agora vou embolar:
Quase dei uma biloura
Dançando com Rita Loura
Num galope à beira-mar!

Já andei de papa-fila,
De carrinho de cocão,
Tomei coca com montilla
Na bodega de Cãindão.

Brincava de patinete
Com roda de rolimã,
Dava arroto de grapette
Com bolo de carimã.

Apanhava jenipapo,
Enfurnava sapoti,
Escutava todo papo
De Liênio na Poti.

Tomei choque na usina,
Comia jambo da rua,
Espiava Janaína
No banho todinha nua.

Vi bomba pé-de-parede
Pipocar na Cruz da Bica,
Vi mijão furando rede,
Foguetão virar tabica.

Vi o boi da prefeitura
Na travessa Capió,
Espetava tanajura,
Arengava com Duó.

Vi Baracho, vi  Pé Seco,
"Penéra-o-pé" na esquina,
Roela descendo o Beco
Com Severo e Nicotina.

Vou terminar com Cambraia,
Com Maria Mula Manca,
Zé Minhoca lá na praia
Tocava e botava banca!


*******

Graco Legião

9 de outubro de 2017

PERCEPÇÕES


VOCÊ FIGURA EM UM CORPO
NA MINHA IMAGINAÇÃO
REGES A ORQUESTRA
DO MEU AR DE CIRCULAÇÃO
SITUANDO A BELEZA DO TEU OLHAR
VEJO AO TOQUE DE UMA CANÇÃO
NO DESPERTAR DOS ACORDES
DA MINHA IMAGINAÇÃO

CARLOS FREDERICO DE OLIVEIRA LUCAS DA CÂMARA


 PUBLICADO NO LIVRO "PERCEPÇÕES, IMAGENS E AÇÕES", 1987, edição do autor

FILME TRISTE

                  Bené Chaves

                  Na tarde/noite de um mês primaveril vi
                   aquele homem se despedir de ti sorrindo.
                   A moça alegre, solta, rebelde...
                   Mas, no nascer de novos dias, a vida o
                   intrigou com inquietantes ilusões.
                   Era a ebulição de épocas frias que  
                   inundavam seus frágeis sentimentos.
                   Ele suplicou pelo passado em vão, a presença
                   de mútuos e múltiplos aconchegos. O sublime!     
                   Queria rir às gargalhadas, mas terminou chorando
                   ruidosamente diante da insensatez.
                   O irreal bateu em seu peito e feriu sua alma já
                   trincada e sombria. Um bombardeio de mágoas.
                   Seriam os encontros e desencontros de um dia sem     
                   encantos. Algo desfloresceu para ele.
                   E o sofrimento não teve tréguas diante das regras
                   e réguas impostas. Sem respostas.
                   A vida vã... Ele dizia, existo... Sofro, não existo?
                   E o homem, então, indagou:
                   - Amo ainda o amor que não quis me amar!           

                 Saí do escurinho do cinema e vi com melancolia             
                   o amanhecer da velha e tenaz aurora.

22 de agosto de 2017

NOSSO HOMERO



Manoel Onofre Jr.


Pouca gente sabe que o Rio Grande do Norte é tema de todo um livro de poesia – “Tema Iluminado”, cujo autor, Home Homem, nascido em Canguaretama (1921), teve a sua formação em Natal, mas ainda jovem transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde viveu até o fim dos seus dias (1991).
Nosso Homero tornou-se credor da gratidão dos potiguares, mas talvez nem sequer seja nome de Rua em Natal.
Além de poeta, notabilizou-se como contista e novelista, voltado para o público infanto-juvenil. Seu romance “Cabra das Rocas” obteve sucesso de público em todo o país. Êxito ainda maior, o livro subseqüente, “Menino de Asas” já está na 22ª. Edição.
Vários outros trabalhos de sua autoria, no campo da ficção, despertam interesse, notadamente “O Goleador”, romance (primeiro volume de uma trilogia do futebol), e “O Moço da Camisa 10”, novela.
Pelo número de edições dos seus livros, constata-se que ele é o mais lido de todos os ficcionistas norte-rio-grandense. E outra constatação não menos importante: é um dos poucos traduzidos (“Gente delle Rocas”, tradução italiana de “Cabra das Rocas”).
Homero Homem tem, no entanto, maior importância italiana de “Cabra das Rocas”).
Homero Homem tem, no entanto, maior importância como poeta. Entre os expoentes da geração pós-45, ele se afigura um romântico desgarrado em pleno Século 20. Toda a sua obra poética está repassada de valores românticos: subjetivismo, comunhão com a natureza (o mar, especialmente), exaltação da mulher da mulher amada, crítica social e política, etc. Isto não quer dizer que ele seja um retardatário. De modo algum. Na verdade, o seu claro poema, de tanto rítimo, de tanta musicalidade, trouxe inegável contribuição para a poesia contemporânea, e dúvida não há quanto à sua modernidade.
Estreou em livro um poema em prosa, “A Cidade, Suíte de Amor e Secreta Esperança” (Rio, 1954). Surgiu depois “Calendário Marinheiro” (1958) e ao longo das décadas, vários outros livros reunidos, em 1981, num volume sob o título “O Agrimensor da Aurora”. Depois viveram: “O Luar Potiguar” (Rio, 1983), renovada homenagem à sua terra, e “Eu sem Ego” (Natal, 1990).
A poesia de HH tem sido estudada por alguns críticos de estatura nacional, como Wilson Martins, Gilberto Mendonça Teles e Leo Gilson Ribeiro. Destes últimos esta definição exata e concisa: “poeta de inquieta raiz social”. (...) lirismo entre a emotividade, a erudição, o tom popular irônico e a musicalidade rítimica.”
Com toda a relevância, que indiscutivelmente lhe cabe em nível nacional o poeta e escritor permanece quase desconhecido na terra que tanto exaltou. É preciso, com urgência, resgatá-lo desse injusto ostracismo.



5 de julho de 2017

Sebo, livros, Bosco Lopes: algumas reminiscências

                                                                                                                                  Bosco Lopes

Luciano Capistrano
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Africana/UFRN
Pós-graduando em Educação Ambiental / Instituto kennedy
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: SEMURB/Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte

            No início da década de 1980, na rua da Conceição, 617, Cidade Alta, papai, Benjamin Capistrano Filho, inaugurou o sebo Cata Livros. Papai, grande leitor,  se fazia - por forças das circunstâncias, pois lhe faltava aptidão - comerciante de livros usados. Naquele período de Cata Livros, minhas tardes passaram a ser na rua da Conceição e na Praça Padre João Maria. na Praça, ficava com alguns livros expostos a venda, em uma estante e um muro de uma canteiro que existia e servia como uma especie de balcão. Eu, meu cunhado Ronaldo, hoje sebista em Campina Grande, ao lado de tia Rosa, ficávamos a vender livros, revistas, vinis, e, claro, aprender com os "clientes". O sebo, amigo velho, é uma verdadeira escola literária e da vida.

Sebo

Empoeirados livros na estante
Gritam saberes
Numa enxurrada de letras
Vivas
Escritas
Solitários sopros de vidas.
Ecos propagando ondas ao longe
Lugares distantes
Desconhecidos
Perdidos no tempo
Olhares de poetas, cronistas, romancistas
Dizem de humanidade
Pulsar de vidas
Cai a sombra das inquietações
Mundos de tempos presentes
Passados sem fim
Em um entrelace
De ciências caóticas
Exóticas, enfim
Deliciosos encontros
Desencontros
De saberes
Organizados
Desorganizados
Em pleno universo
De empoeirados e
Saborosos saberes:
Sebo.
(Luciano Capistrano)

            A literatura me foi apresentada por papai, sempre, desde da época da Vila Mauricio, na avenida 12, onde vivi minha infância e início da adolescência, nossa casa tinha um lugar para os livros. Quando me vi no sebo, mesmo que do outro lado do balcão, menino bobo, ouvidos abertos a ouvir diálogos impertinentes/pertinentes, sobre o mundo das letras, bons tempos, apesar de ver fluir entre as mãos, tudo em nome da sobrevivência familiar, dos grandes nomes da literatura brasileira e universal.
            Claro, antes das vendas, folheava, lia, me deliciava com Machado de Assis, Carlos Drummond, José Lins do Rego, Gracilaino Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Fernandes, Zila Mamede, Fiódor Dostoiévski, Marguerite Yourcenar, enfim, a casa conjugada da Vila Mauricio e o antigo casarão da rua da Conceição, testemunharam minhas aventuras entre linhas e paragrafo.
            Um dos frequentadores do sebo era Bosco Lopes, figura magrinha, jeito de eterno boêmio. Faço uma referencia a Bosco, porque recentemente a remexer entre meus livros, encontrei uma coletânea de poetas potiguares e lá esteva entre eles o poeta do Corpo de Pedra. Um Dia, A Poesia, este é o título da coletânea organizada por Ayres Marques, para celebrar o dia 14 de março de 1996. Abro, aqui, um parentese, o 14 de março, trata-se de uma celebração a poesia, é o dia Nacional da Poesia, criado por poetas em Recife no ano de 1977, para além das polêmicas com relação ao qual é o dia oficial da poesia nacional -  a presidente Dilma Rousseff, instituiu a Lei 13.131/2015 que determina o dia do nascimento de Carlos Drummond de Andrade ( 31 de outubro)  como o Dia Nacional da Poesia no Brasil -, o fato é que temos duas datas a celebrar.
            Bem, volto ao poeta Bosco Lopes, para lembrar da importância de dizermos as novas gerações dos nossos poetas, poetisas, escritores, enfim, que fizeram das letras suas trincheiras de observação da vida.
            Bosco Lopes, nascido no dia 22 de novembro de 1949, foi funcionário da Fundação José Augusto, participou de diversos movimentos literários da provinciana Natal, em 1973 lançou o 'Projeto Zero" e em 1978 publicou "Corpo de Pedra", viveu a poesia, frequentador dos becos e bares da cidade, faleceu em 30 de junho de 1998. O poeta do RIOGRANDE, precisa sair das bibliotecas empoeiras e cair nas mãos dos natalenses/potiguares do centro á periferia.
            Finalizo, amigo velho, com um dos meus pecados poéticos em homenagem ao poeta Bosco Lopes:

 Poesia
(Poesia, para Bosco Lopes que conheci quando papai fundou o sebo Cata-livros e me deliciei no seu Corpo de Pedra)

Ando entre os livros
Folheio
Me encanto
Encontro
Bosco Lopes
E sua poesia
Encantos
Cortantes
Distante
A gritar no tempo
Corpo de Pedra
Como a dizer:
"Não me esqueças
na praia
no bar
no mar..."
Não esqueças
A poesia guardada
Nas esquinas
Dos becos e travessas
Da vida...
Ou... no sabor da meladinha do velho Nazi!

(Luciano Capistrano)

23 de janeiro de 2017

O direito à cidade: Uma reflexão.



Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Parque da Cidade

Um olhar sobre a cidade

Uns ventos do além-mar
Sopram vozes do poeta lusitano
“Navegar é preciso, viver não é preciso”.
E o rio de minha aldeia
Corre ao mar
Levando vidas e sonhos
Das comunidades ribeirinhas
Barquinhos a navegar
Passo da Pátria, Cais da Tavares de Lyra
Portos de uma cidade
A olhar o Alto da Torre
Testemunha ocular de uma expansão urbana
E seus conflitos
Em uma urbe viva
Onde não existe neutralidade
Entre o mar, dunas e o rio
Planos tradutores da cidade que temos
E da cidade que queremos
Desejos.
(Luciano Capistrano)

            A cidade de Natal em 1911 tinha aproximadamente 28.000 habitantes, provinciana ainda existia o habito dos “cantões”, conversa de fim de tarde, boquinha da noite, neste ano os natalenses conheceram o bonde movido à energia elétrica, e, as intervenções urbanas de “aformoseamentos”, ações com a finalidade de inserir a urbe nos novos tempos, tempos de “civiliza-se”. Uma ação modernizadora, nascida, se assim podemos dizer, com o Plano Polidrelli. Vejamos o que diz o professor Pedro de Lima:
O Plano Polidrelli poderia ser interpretado, portanto, como uma resposta da elite natalense, em termos urbanísticos, para as transformações sócio-políticas que ocorreram no país na virada do século[XX] (Abolição da Escravatura – 1888, Proclamação da República – 1889). Assim, a Cidade Nova, ainda quando não tenha sido concebida, explicitamente, enquanto espaços e cenários que expressassem a modernidade anunciada pelas novas relações sociais (do trabalho livre assalariado) e políticas (de um moderno Estado republicano liberal), pode ser identificada como o espaço do novo poder republicano. (LIMA, Pedro de. Natal século XX: do urbanismo ao planejamento urbano. EDUFRN, 2001, p. 36)

 Uma capital, banhada pelo Atlântico, Potengi, e, as dunas a compor um cenário de beleza, capaz de fazer Henrique Castriciano a defender a proibição de construção as margens esquerdas, de quem segue da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, da Cidade Alta para a Ribeira, dizia o criador da Escola Domestica, é preciso preservar a beleza do rio Potengi para os transeuntes. Lembra Castriciano:
[...] quando para aqui veio o presidente Pereira de Carvalho, em 1853, ainda encontrou, despovoada, entre a alfandega e o morro do Rosário, uma área de nove mil braças quadradas, dividida por extenso aterro que facilitava a ida e vinda dos moradores dos dois bairros. [...] teve a intuição do préstimo vindouro d’esta parte do solo natalense e pensou na construção de um Passeio onde, segundo escreveu em longa mensagem, “a par da distração que encontrariam os habitantes nesse ponto de reunião, poderiam gozar da encantadora vista de um belo rio, da suave brisa, à sombra de frondosas árvores e da vantagem de possuir um ótimo caes de desembarque que nada teria a invejar ás outras províncias...”(Henrique Castriciano: Seleta, textos e poesias. Organização: José Geraldo de Albuquerque, 1993, p. 224)

            O presidente Pereira de Carvalho, conseguiu a aprovação na Câmara Municipal, de uma Lei proibindo a construção de edificações neste trecho, correspondente entre a hoje Capitania das Artes e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, infelizmente, essa área “Non Aedificandi”, prevaleceu, apenas, até 19 de dezembro de 1859.
 Por sua vez, o mestre Câmara Cascudo, anos depois, escreveria uma crônica intitulada, “Olhos da Cidade”, onde alertava o Poder Municipal, da importância de ser garantido o direito das camadas mais humildes em vê as belezas naturais da cidade, assim, não deveria ser permitido construções que “escondessem” a paisagem natural. Dizia o mestre Cascudo em 1947:
A valorização dos terrenos ergue a vaidade humana pelas orelhas e a leva até perto das estrelas. Pelo gosto natural da burguesia não havia jardim público nem parque, nem alameda, nem miradouro. Tudo era terreno-para-construir. Interessa apenas o individual, o dependente da vontade personalíssima. Quem irá lembrar-se do direito de alguém ter diante dos olhos uma paisagem ridente ou um muro banal? [...]. Essa possibilidade está se firmando como um direito natural, uma das prerrogativas de qualquer criatura humana. [...]. Possa esse direito afirmar-se ao lado do patrimônio natural da cultura, como um fato visível e próprio da cidade moderna. (OLHOS da cidade, Luís da Câmara Cascudo, Diário de Natal, 05 de janeiro de 1947)

            Bom amigo velho, trago essa questão da democratização do “olhar” a cidade ou da garantia a olhar as belas paisagens naturais, preconizadas por Henrique Castriciano e Câmara Cascudo, para fazer uma reflexão sobre a cidade e o direito a preservação dos recursos naturais. Nossos mananciais rio Potengi, Riacho do Baldo, rio das Quintas, rio Doce, as lagoas, e, as ZPAs (Zonas de Proteção Ambiental). O rio Potengi, por exemplo, por ser uma referência na formação histórica da cidade de Natal, reveste-se de importante elemento, não apenas natural, mas de memória da urbe. Uma cidade “ingrata”, pois na sua expansão esqueceu do rio e “cresceu” de costas para seu leito.
            Me permita, amigo velho, a fazer uma citação do professor Raimundo Arrais, voltando no tempo e descrevendo o isolamento da capital decorrente de sua topografia no início do século XX:
O isolamento da capital era reconhecido pelo governador Alberto Maranhão, que se referia, em 1904, à necessidade de construir acesso aos mercados de Ceará-Mirim, Macaíba, Mossoró e Açu para retirar a capital do estado definhamento [...] O efeito administrativo dessa situação era evidente [...] O isolamento não apenas afetava o estado, privando-o de rendas, diminuindo as condições para que a capital estendesse a legitimidade do poder sobre a extensão do território do Rio Grande do Norte. (ARRAIS, Raimundo. Da natureza à técnica in FERREIRA, Angela Lúcia; DANTAS, George (organizadores). Surge et ambula: a construção de uma cidade moderna. EDUFRN, 2006, p. 121)

            A cidade nasceu com um grande desafio que era a sua própria topografia, cercada por dunas, tendo a companhia do mar e do rio, a comunicação com o interior da província teria de ser vencida. Neste processo de feitura do território a urbe, foi se desenhando em um processo de ocupação, em alguns momentos ordenados em outros conflituosos.
            Amigo velho, a ocupação urbana de Natal se insere na constante dicotomia ente o crescimento com qualidade de vida, respeitando o direito à cidade, e, os interesses do mercado de terras, este principalmente a partir da década de 1940, com o advento da Segunda Guerra Mundial. O “mercado de terras” avança;
[...] a partir da década de 1940 até o final dos anos 60, a cidade muda completamente sua configuração socioespacial, o que acontece principalmente em face das transformações ocorridas (no início dos anos 19400, com a instalação de bases militares (aérea e naval) em Parnamirim e em Natal devido à Segunda Guerra Mundial, e o consequente surto de crescimento e modernização verificado a partir de então, com o incremento de obras infra-estruturais. (DUARTE, Marise Costa de Souza. Espaços especiais urbanos: desafios à efetivação dos direitos ao meio ambiente e à moradia. Observatório das Metrópoles, 211, p.46)

            Este curto artigo, “O direito à cidade: uma reflexão”, tem um caráter de provocação, esse é meu objetivo, amigo velho. Façamos os caminhos trilhados por Pedro de Lima, Henrique Castriciano, Câmara Cascudo, Raimundo Arrais, Marise Costa, e, os muitos outros “interpretes” da construção da cidade de Natal, deste dialogo fraterno contribuiremos nos fóruns formuladores das políticas públicas para a cidade. Nestes tempos de discursões sobre a regulamentação das Zonas de Proteção Ambiental, faz necessário este dialogo.
           
           

           

            

18 de novembro de 2014

Pescador, inspiração de uma cultura


Katya Regina

Hoje é o dia dedicado ao pescador. Incrível, não? Muitos nem se lembram e a maioria talvez nem saiba que ele é uma das figuras mais representativas da nossa cultura e do nosso folclore. Este homem, as vicissitudes e sua vida em alto mar, a importância sócio-econômica da atividade que desenvolve já foi e ainda é cantada em prosa e verso pelos nossos poetas, e por diversas vezes serviu de motivo para pintura em telas de pintores da terra.
Há mais de 50 anos que somente na semana que antecede a data dedicada a São Pedro, padroeiro do pescador, é que a própria classe reúne-se para organizar a festa em sua homenagem. Como todas as comemorações festivas das populações mais humildes, consta da programação atos litúrgicos, como novenas e celebrações eucarísticas, além da tradicional procissão pelas águas do rio Potengi, com a imagem de São Pedro conduzida por um barco, previamente designado e provavelmente será o maior e mais bonito de toda Colônia. Esta é para eles uma maneira de demonstrar sua fé e gratidão ao santo que escolheram como padroeiro.

CORDEL
 O folclorista Luiz da Câmara Cascudo dedicou ao pescador uma de suas obras: “O Jangadeiro”. O l livro aborda diversos aspectos desse profissional dentre eles, seus problemas, seus anseios, suas alegrias e principalmente seu trabalho, cujo produto é de extrema importância econômica e também cultural para a região. Outros autores que mereceram destaque na história do Rio Grande do Norte com Luiz Patriota e Ferreira Itajubá escreveram sobre suas aventuras em “Livro D’Alma” e “Terra Natal”, respectivamente.
A literatura de cordel também já lançou diversas edições sobre o pescador, que tornou-se mais conhecido popularmente por serem os exemplares de preço mais baixo e consequentemente de mais fácil poder aquisitivo. O homem que tem como fonte de renda o pescado, ainda tem seu destaque na comida típica da região, como peixe frito com tapioca, peixe cozido com côco, dentre outros que proporciona tanto a população do Estado e da região, como aos turistas opções de escolha de pratos regionais.
Os pintores Newton Navarro e Dorian Gray retrataram através de telas e poemas a atividade artesanal e industrial da pesca. O pescador é o homem que na expressão popular, poderia se dizer que luta para sobreviver, no verdadeiro sentido da expressão. Nos meses de inverno, a situação torna-se mais difícil para ele, tendo em vista que os fortes ventos e as fortes correntes d’água impedem que consiga trazer do alto mar, uma boa, ou até mesmo razoável quantidade de pescado para comercializar, pois é dessa venda que consegue o dinheiro para manter-se miseravelmente.
Na época chuvosa, apesar de conseguirem, a custa de muito esforço e depois de enfrentar os mais sérios perigos, os pescadores conseguem chegar ao alto mar, que em sua linguagem simples diriam: “Só Deus sabe como...”. Aliás, eles não tentam atingir essa dimensão da água, eles têm mesmo é que chegar lá afinal este é seu meio de vida. Mas, em lá chegando, aluta contra a chuva e o frio, os fortes ventos e a correnteza parecem de nada ter adiantado, pois “as carreiras d’água impedem que os aviamentos (instrumentos que usam na pescaria de alto mar) fiquem embaixo da água por muito tempo e a partir daí conseguir capturara o pescado”.

PRODUÇÃO
Cerca de 300 quilos de peixe é o que o pescador consegue trazer para comercializar no verão, quando as condições marítimas lhe estão bem mais favoráveis, é a chamada “época da safra”, no inverno, porém, esse total decresce até para 10 quilos. O que é pior, é que muitas vezes voltam em seus barcos sem trazer nada, junto do nada a preocupação e o sofrimento de não ter como adquirir comida para abastecer a família que na maioria das vezes é numerosa.
A pescaria praticada no Estado é do tipo artesanal. O valor total da venda do produto conseguido pelo pescador é dividida entre ele o barco. Sim, porque 50% do apurado são destinados a despesa do barco e os 50% restante fica para manter a família até voltar ao mar. Grande parte dos cidadãos que dependem economicamente da pesca moram na área que compreende o Canto do Mangue e todo bairro das Rocas e Santos Reis. No Canto do Mangue, local que tão bem caracteriza a atividade pode-se saborear o tradicional peixe frito com tapioca, e os turistas levados pela curiosidade chegam até lá, não só para conhecer o paladar da comida típica, mas também pelos excelentes quadros e paisagens levados para seus países através de fotografia.

ATRAVESSADOR
Eles próprios confeccionam todo material e instrumentos que são utilizados na pescaria, como barco à vela, anzol, nylon, cordas, redes de pesca conhecidas em seu meio por “caçueira”, mas que são fabricadas também em outros tipos e tamanhos, que são denominadas de “tarrafa” e “espinhel”. Há também o covo, com o qual é feita a pesca da lagosta.
Quanto aos atravessadores, que tanto interferem no aproveitamento financeiro que os pescadores poderiam fazer da produção, o Presidente da Colônia dos Pescadores, Geraldo Silva Barbosa, assumiu um parecer bastante estranho aos interesses da classe, pois assegurou que “eles não nos prejudicam”. Justificou seu posicionamento dizendo que “nada favorece ao pescador. Eles não têm uma Cooperativa, as colônias não têm assistência, por isso não posso falar do atravessador. Para criticar e combater a atuação deles tem que nos estruturar primeiro”.
Para Geraldo o que poderia amenizar o sofrimento provocado pelas pecarias condições de vida do pescador, é que as autoridades se interessem em fornecer recursos e assistência as colônias, para que elas tenham condições de ajudar aos pescadores. Nesse dia que a eles é dedicado vão procurar esquecer todas as dificuldades, pois mesmo assim irão participar com entusiasmo e alegria das quadrilhas, côco de roda e demais danças folclóricas características da época.


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Transcrito do Jornal A REPÚBLICA (2º Caderno) 29.06.1980.

24 de outubro de 2014

NERUDA: “QUEM MORRE”?

Valério Mesquita*

Recebi da advogada conterrânea Euda Fernandes, com escritório no Rio de Janeiro, um belo texto de Pablo Neruda que me fez refletir, mais do que já faço, sobre a vida. Disse o grande poeta chileno que “morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música ou quem não encontra graça em si mesmo”.  E prossegue: “morre lentamente quem evita uma paixão, quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos ou quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos”. Neruda é sábio no aconselhamento. São famosas e universais  as suas cartas e as perguntas que um dia, aqui na província, outro poeta, Diógenes da Cunha Lima, ousou responder em livro com cem respostas às cem indagações do mestre de “Canto Geral” e “Odes Elementares”.

Poeta do social e revolucionário, Neruda sempre instigou quem o lê a interpretá-lo ou recriar as suas vibrações líricas e reflexões existenciais, sem jamais perder a atualidade sentimental de um mundo que se renova e se transforma. Daí poder dizer com o poeta, sem qualquer despautério à sua criação intelectual, que também morre lentamente quem deixa a vida pra depois ou ingressa em holocausto na carbonária política partidária do Rio Grande do Norte; morre lentamente quem acreditar que existe uma proposta cultural em favor do escritor ou artista potiguar; morre lentamente quem somente vive do salário mínimo ou depende do SUS ou da rede pública hospitalar para sobreviver; morre lentamente quem é correntista da rede bancária brasileira, submetido aos cartões de crédito e traumas das taxas e juros extorsivos dos empréstimos; morre lentamente quem adotou como profissão a atividade de produtor rural nesse país, sem crédito, sem segurança e sem nenhum incentivo oficial além das ameaças constantes do MST; morre lentamente quem se julga beneficiado pela enganosa qualidade do ensino universitário hoje praticada no Brasil; morre lentamente quem for na onda da eficiência da segurança pública, caso já não tenha sido ceifado de vez; morre lentamente quem for pensar que o Brasil não é um país de maiorias corruptas, praticante da lei da vantagem; morre lentamente quem crê na recuperação da moral do Congresso Nacional; morre lentamente quem apostar na conclusão do aeroporto de São Gonçalo do Amarante e na transposição das águas do Rio São Francisco; morre lentamente quem rezar na cartilha do uso honesto dos recursos do novo estádio de futebol para a copa do mundo de 2014, no Rio Grande do Norte; e, por fim, com o perdão do poeta Pablo Neruda, morrem lentamente, as candidaturas dos que fizeram muito barulho para nada, dos que sonharam ou se iludiram com a mais difícil e cada vez mais enganosa atividade pública: a política. Com a sua permissão poeta, eu concluo à romana: saúdo aqueles que vão despencar dia três, quando outubro chegar.

(*) Escritor.