20 de março de 2015

Uma onda sem fim






Paulo Jorge Dumaresq

         A história do surf natalense ganhará em breve as páginas de uma publicação. Arquivo vivo da matéria na cidade banhada pelo Oceano Atlântico, o surfista e promotor de eventos Henrique Oliveira, 49, pesquisou o assunto durante 10 anos. Foram muitas horas de conversas com amigos que fazem parte da história do esporte na capital. O livro “Surf - Uma onda sem fim” compreende o início do surf no mundo, depois no Brasil e, por fim, em Natal, da década de 1960 até os dias de hoje. “Faço parte da segunda geração do surf natalense e senti necessidade de contar a história desse esporte apaixonante”, ressalta.
         Remando a favor da maré, Henrique Oliveira planeja lançar o livro dentro do Festival Oceanos de Arte e Cultura Surf programado para ocorrer no primeiro semestre de 2013, no Teatro Riachuelo, ao que tudo indica no mês de maio. O evento aprovado na Lei de Incentivo à Cultura Câmara Cascudo será realizado em dois dias, abarcando cinema, música, palestras (medicina esportiva e marketing) e exposição de artes visuais, além de um acervo com mais de 80 pranchas de surf antigas e atuais. A rádio Oceanos ficará responsável pela trilha sonora do festival.
         O livro terá pouco mais de 200 páginas com farto acervo fotográfico. Henrique conta que o surf começou a ser praticado coletivamente na Cidade dos Reis Magos no final da década de 1960, quando um desdobramento de uma turma de motoqueiros trocou o asfalto pelo mar.
Conforme o autor, o surf em Natal deve muito aos irmãos cariocas Marquinhos e Rosset – filhos de militar -, que no crepúsculo dos anos 60 estudaram no Colégio Marista. A dupla difundiu o esporte nas praias  natalenses, emprestando as pranchas para os amigos. Inicialmente, o surf começou a ser praticado na praia de Areia Preta. Depois se expandiu para a praia de Miami, dos Artistas e Ponta Negra. “O livro se comunica com o que a gente viveu. São memórias de uma época mágica na qual o que mais queríamos era pegar onda sem maiores preocupações com o futuro”, discorre.
Com água e céu rivalizando em azul, Henrique Oliveira presenciou o primeiro festival de surf de Natal, na praia dos Artistas. O salva-vidas foi palanque para os jurados avaliarem o desempenho dos competidores. Naquela época a cidade começou a receber surfistas de outras capitais nordestinas, como Fortaleza, João Pessoa e Recife. É importante salientar que os festivais também serviam como ponto de encontro da juventude natalense, não necessariamente surfistas.
Ao som do rock latino de Carlos Santana, da banda britânica Led Zeppelin e do reggae dos jamaicanos Bob Marley e Peter Tosh, os surfistas deslizavam nas ondas despreocupadamente. O cantor havaiano Jack Johnson é outro artista cultuado nas ondas. No Brasil, Novos Baianos, Paralamas do Sucesso e Titãs embalaram toda uma geração de praticantes e simpatizantes. Hoje em dia, as bandas identificadas com o surf são as australianas Hoodoo Gurus e The Beautiful Girls, e as americanas Man or Astro-man?, The Phanton Surfers e Aqua Velvets.
Ainda de acordo com o autor, a sensação de fluir nas ondas nos anos 70 era de liberdade total, mesmo o país sob ditadura militar. Por causa do visual de cabelos longos, pele curtida, tatuagens e um linguajar próprio, os surfistas eram frequentemente associados à vagabundagem, o que não condizia com a verdade.
Feras
Os surfistas que marcaram época e os que estão em evidência terão direito a uma curta biografia na publicação. Sem meias palavras, Henrique Oliveira aponta Ronaldo Barreto, Felipe Dantas e Sérgio Testinha como os melhores surfistas de competição nos anos 70 em Natal. Com a virada da década, surgiu a geração de Aldemir Calunga, Emerson Marinho e Joca Junior. Nos dias de hoje, o surfista a ser batido é Jadson André, que se sagrou campeão da etapa brasileira do Circuito Mundial de Surf ao vencer o mito norte-americano Kelly Slater. O autor menciona, ainda, Caio Pereira e Flávio Freitas – o artista plástico – como competidores de ondas gigantes no Brasil e no mundo. Para não parecer machista, destaca a surfista Neide Bezerra, na qualidade de fera de saias.
Curiosidades não faltarão no livro. Talvez pouca gente saiba que os surfistas natalenses foram os pioneiros a praticar o surf nas praias do arquipélago de Fernando de Noronha. De acordo com o autor, Felipe Dantas é um estudioso de praias para o surf no país, inclusive descobriu a viabilidade de surfar sobre o fundo de pedra da Pipa e de Baia Formosa, enquanto que Luruca desbravou a praia do Amor.
Com uma ponta de orgulho, Oliveira afirma que o surf foi o responsável pela praia da Pipa ser o destino turístico mundial de hoje, a exemplo de Saquarema, no Rio de Janeiro, e a praia da Guarda, em Santa Catarina. Recorda que nos anos 70 ele e amigos ficavam hospedados nas varandas das casas. Os nativos olhavam para aqueles cabeludos com suas pranchas como os índios um dia contemplaram com perplexidade os portugueses que aportaram no Brasil. Frise-se que a energia elétrica só chegou à Pipa em 1981. “A gente abre arquivos na vida. O primeiro restaurante informal da Pipa foi o do seu Deda que preparava a nossa comida”, revela.
Negócios do surf
Como os humanos não têm o dom divino de caminhar sobre as águas, a prancha se torna o apetrecho fundamental do surf. Ainda na década de 70 surgiram as primeiras marcas nacionais fabricadas por surfistas. Gledson, K&K, Miçairi, Rico, Tito Rosemberg e Toni Torres são grifes que abriram caminho para a popularização do surf no Brasil.
A marca natalense Radical não fica atrás. Criada pelo surfista e shaper Ronaldo Barreto em 1978, a Radical se tornou referência na fabricação de pranchas na cidade, além de exportar seu produto para todo o país, a partir dos anos 80. Na época, o Sudeste era quase inatingível para os potiguares. Afora a Radical, havia também a fábrica e oficina de Dadi, em Potilândia, e a Terral, de Wendel, na avenida Hermes da Fonseca, outros pontos de encontro da rapeize.
Hoje em dia, as marcas mais festejadas são a brasileira Mormaii e as australianas Billabong, Rip Curl e Quicksilver, entre outras. É importante salientar que essas marcas não se restringiram à fabricação de pranchas. Hoje confeccionam acessórios como óculos, sandálias, bermudas, carteiras, camisetas, roupas de mergulho e relógios. “Mais de 80% dos consumidores de produtos de surfwear não são praticantes do esporte. De repente, o surf começou a vestir a juventude. É impressionante a amplitude e a diversificação do surf nos dias atuais”, observa.
Com o mar nos olhos, Henrique Oliveira iniciou sua trajetória no surf em 1974 e nunca mais parou. Competiu em vários estados pelo circuito amador nacional. Revela que começou a escrever o livro nos Estados Unidos, onde morou oito meses. Já pegou onda na Costa Rica, Peru e na França. De olhos bem abertos, presenciou manobras radicais do prefeito Carlos Eduardo e do vice-governador do estado, Robinson Faria. Ex-vice-presidente da Associação Norte-riograndense de Surf (ANS), atualmente se dedica a promover eventos musicais e a adquirir peças (pranchas, principalmente) para a criação do futuro museu do surf em Natal, na praia dos Artistas.

Origem do surf é disputada entre os povos polinésios e peruanos

Desde tempos imemoriais a curtição de deslizar sobre as ondas era prática dos povos polinésios, que povoaram grande parte das ilhas do Oceano Pacífico, além do litoral pacífico das Américas. Os primeiros relatos sobre o surf dizem que este foi introduzido no Havaí pelo rei polinésio Tahito. Outros relatos dão conta de que, muito antes dos havaianos, antigos povos peruanos já se utilizavam de uma espécie de canoa de junco. O primeiro registro escrito da observação de pessoas a praticarem surf foi feito pelo navegador inglês James Cook, que gostou do esporte por se tratar de uma forma de “relaxamento”.
Cumpre informar que as pranchas eram fabricadas pelos próprios usuários. Acreditava-se que, ao fabricar sua própria prancha, se transmitia todas as energias positivas para ela e, ao se praticar o "esporte", se libertava das "energias negativas". Os primeiros praticantes do surf criam que deslizar sobre as ondas seria um culto ao espírito do mar.
O reconhecimento mundial veio com o campeão olímpico de natação e pai do surf moderno, o havaiano Duke Paoa Kahanamoku. Ao vencer os jogos de 1912, em Estocolmo, o atleta disse ser um surfista e passou a ser o maior divulgador do esporte no mundo.
No início do século 20, ele promoveu o surf, iniciando demonstrações noutras regiões do planeta como a Califórnia, França, Austrália, América do Sul e África. Por volta da década de 1940, o esporte se popularizou na costa oeste dos Estados Unidos, tornando-se tendência entre os jovens, principalmente nas praias do sul da Califórnia. Com o início dos primeiros campeonatos em 1974, o esporte se tornou popular em todo o mundo.
A evolução do surf moderno foi marcada pela apresentação de novos modelos de pranchas como a twin fin, de Mark Richards, em 1980, e depois a prancha tri-fin, de Simon Anderson, em 1981. Estes australianos contribuíram para o país produzir o maior número de campeões mundiais. A organização do campeonato mundial é responsabilidade da Associação de Surfistas Profissionais. Pode-se afirmar que o maior surfista desde sempre é Kelly Slater, que soma 11 títulos mundiais.
Surf no Brasil
As primeiras pranchas, então chamadas de "tábuas havaianas", chegaram ao Brasil pelas mãos de turistas e funcionários de companhias aéreas. Sabe-se que o esporte foi desenvolvido em Santos, com os precursores Thomas Ernest Rittscher Júnior, Margot Rittscher, Osmar Gonçalves e João Roberto Suplicy Hafers. Thomas Ernest Rittscher, norte-americano, trouxe dos Estados Unidos, uma revista chamada Popular Mechanic. Um dos artigos ensinava como se fazer uma prancha. Foi o que Thomas fez e posteriormente ajudou os amigos a produzirem suas "tábuas havaianas". A prancha media 3,60 metros e pesava 80 quilos.
Em 1952, um grupo de cariocas liderado por Paulo Preguiça, Jorge Paulo Lehman e Irencyr Beltrão começou a descer as ondas em Copacabana, com pranchas de madeirite. O esporte começava a ganhar popularidade. As primeiras pranchas de fibra de vidro, importadas da Califórnia, só chegaram ao Brasil em 1964.
Em 15 de Julho de 1965, foi fundada a primeira entidade de surf do país, a Associação de Surf do Estado do Rio de Janeiro. Logo, a entidade organizou o primeiro campeonato em outubro daquele ano. No entanto, o surf só seria reconhecido como esporte pelo Conselho Nacional de Desportos, em 1988. No ano seguinte, o shaper carioca Henry Lelot e amigos fundaram a Federação de Surf do Estado do Rio de Janeiro - na época, a segunda federação de surf do Brasil. Atualmente, as entidades responsáveis pela organização do esporte no Brasil são a Confederação Brasileira de Surf (CBSurf) - filiada ao Comitê Olímpico Brasileiro e, há anos, presidida pelo paranaense Juca de Barros, e a Associação Brasileira dos Surfistas Profissionais, sendo que o campeonato nacional é denominado Circuito SuperSurf.
Muitos recursos são utilizados para saber como estão as ondas, principalmente a internet , onde o surfista pode conferir, ao vivo, por meio de sites especializados, as condições das ondas via câmeras nas praias. Pode-se, também, consultar mapas e gráficos de previsão de ondas para se programar uma viagem, garantindo, assim, que a trip seja proveitosa. Esse recurso só foi possível com o advento da internet, no final do século 20. Antes disso, os surfistas faziam as suas viagens para surfar sem saber como estavam as condições do mar, muitas vezes se deparando com condições adversas à prática do esporte.
Quase sempre, os surfistas permaneciam longos períodos nas praias de surf, para poder, assim, esperar condições favoráveis do mar. Desta forma, muitas vezes não podiam realizar outras atividades, como trabalhar ou estudar. Com o advento da previsão das ondas, abriu-se um novo horizonte, fazendo com que o surfista pudesse programar sua vida, tornando a viagem mais proveitosa, pois passou a realizar atividades úteis durante o período de espera das ondas.





          

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