12 de novembro de 2019

OBRAS-PRIMAS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA



Manoel Onofre Jr.


              Ninguém desconhece que o Samba é a nossa música popular urbana mais identificada com o caráter nacional. Depois dele, a marchinha e o baião. Em terceiro plano|: frevo (frevo de rua e frevo-canção), choro, chorinho, maxixe, toada, etc.
Sinal de vitalidade e afirmação, o samba tem vários subgêneros:
- Samba-canção – Lento, sentimental, romântico. (Dentro deste o tipo “fossa” ou “deroedeira”, cujo precursor foi Lupicínio Rodrigues, sambista curiosamente gaúcho. Grande intérprete e, também, criadora: Dolores Duran).
Muitos vêem neste sub-gênero influências do bolero e do fox-blue.
Samba de partido alto – Tradicionalíssimo, parece-nos o de maior pureza, mais próximo às raízes. Clementina de Jesus, uma grande intérprete.
- Samba de carnaval – Feito em função mais da dança: muita percussão e alegria.
-Samba-choro – Uma miscigenação musical, como o nome está dizendo.
- Samba de breque – Resulta de um modo especial de cantar, com o qual notabilizou-se Moreira da Silva.
Não devemos esquecer o samba-exaltação, cujo exemplo mais famoso é “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso. (Não menos belo, “A Bahia Te Espera”, de Herivelto Martins e Chianca de Garcia). Este sub-gênero corresponde a determinada época histórica, de ufanismo verde-amarelo, artificialmente provocado. Tempos de Getúlio.
Contemporaneamente, o samba-exaltação se faz sentir, de certa forma, no samba-enredo das Escolas de Samba.
Outra modalidade digna de nota, o afro-samba de Baden Powell e Vinícius de Morais.
Para conhecer os caminhos deste fascinante mundo musical, a pessoa precisa de guia, a fim de que não se perca em veredas de abomináveis sambas comerciais, do tipo Benito di Paula.
Organizamos e apresentamos a seguir uma lista de obras-primas, com referência às respectivas gravações.
Em tempo: Para maiores estudos da Música Popular Brasileira deve-se ler Oneyda Alvarenga, Mário de Andrade, José Ramos Tinhorão, Edgar de Alencar, Ary de Vasconcelos, Sérgio Cabral, Vasco Mariz e outros cobras.
A seleção:
O Orvalho Vem Caindo
Parceria de Noel Rosa com Kid Pepe. Interpretação de Almirante (3.11.1933), na voz bonachona, característica.
Pelo Telefone
Tido e havido como o primeiro samba gravado. Autoria de Ernesto Santos (Donga) e Mauro de Almeida (Peru dos Pés Frios). Gravação inicial feita na Casa Édison, pela Banda Odeon, em 1917. Na coleção “Música Popular Brasileira”, da abril Cultural, reedita-se a gravação de Baiano, surgida naquele mesmo ano.
Se Você Jurar
De Ismael Silva, aparecendo como parceiros Francisco Alves e Nilton Bastos. Interpretação magistral de Mário Reis e Francisco Alves (1931) fazendo dupla.
Último Desejo
Noel Rosa. Interpretação de Araci de Almeida dos bons tempos (1.1.1937). A gravação mais recente (1967) da mesma Araci deixa a desejar. Outra boa interpretação, a de Nelson Gonçalves (1955). Aceitável. Isaura Garcia (1945).
Palpita Infeliz
Noel Rosa (Motivado pela polêmica com Wilson Batista). Interpretações de Araci de Almeida (1936) e Nelson Gonçalves (1955).
Se Acaso Você Chegasse
Lupicínio Rodrigues. Interpretação original de Ciro Monteiro (1938). Boa, mas a de Elza Soares (1959) é melhor.
Feitiço da Vila
Parceria Noel Rosa/Vadico. Cantam Nelson Gonçalves (1955) e Araci de Almeida (1967).
Aquarela do Brasil
Ary Barroso. Interpretação de Sìlvio Caldas (1942). Há dezenas e dezenas de outras.
Espécie de segundo hino nacional, esta música talvez seja, das nossas, a mais conhecida no exterior.
Maria
Música de Ary Barroso, versos de Luís Peixoto. Valoriza-a muito a interpretação de Sílvio Caldas (1939), verdadeiramente genial.
Ai, que Saudades da Amélia.
Parceria Ataulfo Alves/Mário Lago. Na voz do próprio Ataulfo. Destaque para a gravação de 1968.
No Rancho Fundo
Parceria Ary Barroso/Lamartine Babo. Outra interpretação marcante de Silvio Caldas (1939).
Jura
Sinhô. Com jeito amaxixado, pode não ser classificado samba. Culminância. Mário Reis é o intérprete clássico.
Vida de Minha Vida
Ataulfo Alves. Melhor exemplo do exarcebado romantismo (mulher-deusa, etc.) que tão bem define o compositor e intérprete. Gravação de 1968, com as famosas pastoras.
Fez Bobagem
Assis Valente. Intérpretes: Nara Leão e Araci de Almeida; aquela um tanto apagada, esta esplêndida, definitiva (1942).
Segredo
Herivelto Martins em parceria com Marino Pinto. Bela amostra da música passional do primeiro. Tem uma gravação com Nelson Gonçalves, mas a clássica é com Dalva de Oliveira (1947).
Favela
Roberto Martins/Waldemar Silva. Chico Alves revela a profunda melancolia da música, bem melhor do que Helena de Lima e Ataulfo Alves.
Tenha Pena de Mim
Cyro de Souza/Babahu. Araci de Almeida canta como ninguém, no tempo em que era a tal (1937).
Na Virada da Montanha
Lamartine Babo/Ari Barroso. Belíssima melodia. Chico Alves, intérprete (1953).
João Valentão
Dorival Caymmi. Gravação de 1953, com o próprio autor.
A Felicidade
Tom Jobim/Vinicius de Morais. Interpretações várias: Agostinho dos Santos, Maysa, etc. Nenhuma, porém, definitiva.
Desafinado
Tom Jobim em parceria com Newton Mendonça. Composição das mais representativas do movimento bossa-nova. Intérprete: João Gilberto, claro.
Olê, olá
Chico Buarque de Holanda. Admiravelmente bem casadas letra e música. Canta o próprio compositor (Seu 1º LP).
Pressentimento
Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho. Elza \Soares, com a sua voz quente e selvagem, salienta a beleza da composição.
Sei lá, Mangueira.
Paulinho da Viola/Hermínio Bello de Carvalho. Interpretação magistral de Elizeth Cardoso.
As melhores marchas
Continuando este roteiro da MPB, selecionamos as melhores marchinhas e marchas- rancho. Vamos a elas, animação de todos os carnavais:
O Teu Cabelo não Nega
Irmãos Valença/Lamartine Babo. Esta é o clássico por excelência. Gravação original em 21.12.1931, com Castro Barbosa e o Grupo da ‘Guarda Velha’. No LP “Os Carnavais de Lamartine Babo” (1968), o próprio autor a interpreta com sua voz fina e engraçada.
Taí (Pra Você Gostar de Mim)
Joubert de Carvalho. Gravação original em 21.01.1930, por Carmem Miranda, que começava, então, a sua carreira. Ela canta quase gritando, por conta das deficiências do sistema de gravação à época. Mas, ninguém a superou. No filme “Quando o Carnaval Chegar”, de Carlos Diegues, Nara Leão dá uma interpretação toda diferente, infelizmente não incluída no LP homônimo.
Cidade Maravilhosa
André Filho. Espécie de hino do Rio de Janeiro. Aurora Miranda a interpreta, numa empolgação ufanista, beirando o ridículo, em dueto com o autor. Foi um dos maiores sucessos do carnaval de 1935.
Grau Dez
Lamartine Babo/Ary Barroso. Interpretação de Chico Alves (10.10.1934), do próprio Lamartine (LP citado), além de outras.
Ala-lá-ô
Haroldo Lobo/Milton de Oliveira. Uns longes de orientalismo na música e na letra. Carlos Galhardo canta, definitivo (gravação de 21.11.1940).
Touradas em Madri
João de Barro/Alberto Ribeiro. Inscrita em concurso famoso de músicas carnavalescas, foi desclassificada, sob alegativa de ser mais um “paso doble” que uma marcha. Gravação original com Almirante em 28.11.1937.
Boas Festas
Assis Valente. Marcha natalina, verdadeiro clássico. Ao contrário da esfusiante alegria, que caracteriza músicas do gênero, esta marcha é repassada de amarga e suave ironia. Carlos Galhardo é intérprete insuperável.
Sonhos de Papel
Marcha junina de Alberto Ribeiro. Outro clássico. Gravação original de Carmem Miranda (10.05.1935).
Rasguei a Minha Fantasia
Lamartine babo. Boas interpretações: do Quarteto em Cy e do próprio “rei da marchinha” (1963)
Pastorinhas
Noel Rosa/João de Barro, Sílvio Caldas é quem canta melhor (Gravação de 13.12.1937).
Anda Luzia
João de Barro. Em seu primeiro LP, Maria Bethânia valoriza a composição.
Marcha da Quarta Feira de Cinzas
Carlos Lira/Vinicius de Morais. Interpretação famosa: Nara Leão. Um hino ao espírito otimista.
Porta Estandarte
Geraldo Vandré/Fernando Lona. Canta Vandré (gravação de novembro de 1966). Outra mensagem de esperança.
Noite dos Mascarados
Chico Buarque de Holanda. Feita para ser cantada em dueto. Melhor gravação: Chico e Odete Lara, com participação do MPB-4 (05.12.1966).
Não devemos encerrar estas notas sem falar no baião e no frevo.
Mestre no primeiro é Luiz Gonzaga, realmente um compositor da maior importância. Ele, sozinho ou em parceria com Humberto Teixeira e, depois, com Zé Dantas, além de outros, criou pequenas obras-primas, inspiradas no sertão do Nordeste. Destacamos “Asa Branca”, “Juazeiro”, “Baião”, “Que Nem Jiló”, “Algodão”, “A Volta da Asa Branca”, todas interpretadas pelo próprio Gonzaga, sanfoneiro e cantor.
De primeiro subestimadas, apesar de grande sucesso popular, essa música vem sendo, hoje, muito bem recebida em círculos intelectualizados e sofisticados. Sensível a sua influência sobre Gilberto Gil, que a fundiu com o rock, Outros músicos e compositores, como os integrantes do Quinteto Violado, limitam-se a repeti-la em novos arranjos.
O frevo – essencialmente uma dança – é cultivado no Recife (em cujos carnavais nasceu), por –entre outros – dois compositores ainda não suficientemente louvados: Capiba e Nelson Ferreira.
Há duas modalidades principais: o frevo de rua – orquestrado, num esbanjamento de metais, e o frevo-canção, de que é exemplo notável o “Evocação nº. 1”.
Música regional, não vingou bem no Rio de Janeiro – principal ponto de irradiação cultural do país, já dominado pelo samba e pela marchinha -, porque o frevo, talvez a mais engenhosa manifestação musical brasileira, ficou meio enjeitado.
 Transcrito do Jornal “A REPÚBLICA” de 29/06/1979

17 de outubro de 2019

Natal, Amante





                                             
                                                                    Dorian Jorge Freire


Estou chegando a uma idade (ou já desembarquei?) na qual a evocação de antigas e perdidas amantes, matérias de memória ou de sonho, não incomoda sequer minha mulher. O mais que a recordação provoca é um muxoxo. De condescendência. Ou ceticismo.
Pois vá a confissão em boca de cena: Natal foi minha amante desde eu menino. Nem conhecia os calores femininos e ela já era meu segredo. Tudo que era, tudo que possuía, seus mistérios, e dengues, e faceirices, e simulações – eu conhecia no silêncio de minhas caladas tentações e posses. Natal era meu alumbramento. E não se diga que o menino de então não conhecia cidade maior do que a sua Mossoró. Não, não. Já vivera em Fortaleza. Natal era uma eleição, uma opção. Uma tendência.
E pela vida afora, daquela infância perdida a este velhice mais perdida ainda, ela tem sido minha obsessão constante, fiel. Livre ela aos ventos que vêm do mar e eu preso aos ciúmes, ternuras. Às coisas mais secretas e inefáveis do querer-bem.
Natal mudou, aleluia. Não mudou minha paixão pela cidade que se multiplica sem perder sua unidade. Cresce biblicamente em graça e em sabedoria: ela cresce e eu diminuo. O progresso não a avilta. Maior e quase cosmopolita, ela não é a “vaca colorida” ou “vício de pedra”, como das grandes cidades maldizia Nietzsche pela boca de fogo de Zaratustra.
Natal cresce sem perder a identidade, sem esfarelar seus miolos, sem soltar seu tutano, mantidos os escondidos que fazem a glória das autênticas cidades dos homens.
A minha primeira Natal foi a dos anos 40. Haviam rastros ainda de americanos que não conseguiram ordinarizá-la. Lá está a Ribeira, ali o Alecrim, Petrópolis, as Rocas proletárias, Tirol de Enéas Reis e Xixico Couto. Bondes, mangueiras, sombras e iluminações. Sobradões. Sítios. Solares dos últimos coronéis ainda não devastados pela cupidez da especulação capitalista, materialista. Foi a Natal de minha gente: Enéas Reis, Xixico Couto, Eutiquiano, tia Justa, tio Manuelzinho, o mulato Chagas, matinês do Rex, barracas na pracinha (cadê Ivone, meu bem?), Tirol terminando aos pés do Aero Clube, Redinha quase exclusivamente.Natal do “Jornal de Natal” Café, Sandoval, Calafange, Floriano, Dom Marcolino, Zé Varela. (Como eram gostosos os cigarros daqueles tempos, fumados às escondidas, comprados a retalho, Selma, Astória, Mistura Fina, Continental. Iguais, só as tentações não realizadas de ousar as noites longas nas ruelas proibidas de uma Ribeira que só despertava às desoras).
Natal dos anos 50. Cheguei, adolescente, trazido por Djalma Maranhão. Pensão Comercial da Rua Coronel Bonifácio, hoje Câmara Cascudo. Cuidados de dona Rosa, atenções de Morais. A aventura macha de morar sozinho. Trabalhava no “Diário de Natal” de Edilson Varela e admirava, de longe, respeito reverencial, justo respeito, Edgar Barbosa, Américo de Oliveira Costa, Danilo. Tempo de convivência diária com Leonardo Bezerra, Guaracy Queiroz de Oliveira, João Batista Pinto, William Cobbett, Araken Irerê Pinto, Aderbal Morelly, Ticiano Duarte, Luiz Maranhão Filho, Antônio Pinto de Medeiros, Ferdinando Couto.
Era a descoberta da inteligência, o orgulho de confraternizar com a melhor juventude da cidade, as noites ouvindo preleções de Leonardo, as madrugadas, sozinho, no quarto mínimo da pensão humilde, querendo descobrir, em velhos e ensebados manuais clandestinos, o que era mais-valia e se toda propriedade é um roubo.
Natal jovem, irreverente, carnavalesca, poética, política, subversiva, diurna e vespertina a preparar longas noites de vigílias. Bares. Sorveteria Cruzeiro. Taboleiro da Baiana. A cervejinha na Pensão Ideal. As putas que nos passavam gonorreia e humildade.
Tudo era deslumbramento. Newton Navarro, Dorian Gray, Meira Pires, Manuel Rodrigues de Melo, Esmeraldo, Luiz Maria Alves, a redescoberta de Jorge Fernandes, José Gonçalves de Medeiros. A pungência inata de Gilberto Avelino. Cascudo já era Cascudo. Monumento. Mito. Primeiro – por justiça justa justíssima. Primeiro Cascudo. Depois os outros.
Depois Natal nos anos ásperos de 60. A mesma humanidade. Escorrendo, quente, espumoso, o leite gordo da ternura humana. A solidariedade instantânea de Woden, radical até na generosidade. O encontro com Maria Emília-Berilo, que marcou tanto e tanto enriqueceu minha vida. Sanderson, Luiz Carlos, Rubens Lemos, Antônio Melo, o reencontro com a competência de João Neto, Luiz Maria Alves, Celso, Myriam Coeli (Maria do Céu), Zila. Amei tanto Natal dos anos 60 que lhe dei, de nascença, minha Raíssa. Natal – 60 prolongava a Natal de todas as décadas, de tal forma fascinante que adotei. Mossoró, Aracati, São Paulo, Ouro Preto, Salvador, São Luís.
A derradeira Natal foi recente. Eu já alcançado por um enfarte do miocárdio e uma isquemia cerebral. A cidade maior sem perder sua estatura. Fiel aos seus valores e desvalores, enriquecida por outras fortunas. Que Natal se renova sem cirurgia plástica e envelhece alegre com o segredo guardado da eterna juventude.
Os Alves – Aluízio, Agnelo, Gobat. Ednólia e Geraldo Melo, as noites estiradas na conversa amena. João Ururahy, Lalinha e Genibaldo, Zélia Freire, Teresa, Romeu Aranha, Nídia Mesquita, Marta e Milson, Roberto Varela, Serejo, Albimar, Paulo Tarcísio, Paulo Macedo, Odilon, Sarinho, Américo, Mário Moacir Porto, Veríssimo, o admirável Vivi, Elenir Fonseca, Haroldo e Selma, Nei Marinho, Nei Leandro, Tarcísio Gurgel, Leopoldo Nelson, Franklin Jorge, Eulício, Socorro Trindad, Gualberto, Marcos Aurélio, Rejane, Mariza. Próximo ou distante, presente, Nilo Pereira, o mestre, mais doce do que todo Ceará-Mirim.
Multidão. Diante da multidão, Jesus teve pena, Diante da humana gente de Natal, eu me ufano de meu país. Afonso Celso e eu. Porque se cada pessoa é ela e sua circunstância, as circunstâncias natalense têm grandezas. Paris seria melhor sem os parisienses? Natal carece de seu povo. Completa-se com ele. O mar, os morros, as dunas, o verde, os botecos, freges e forrós, os grande e os miúdos, becos e avenidas, calçadões e vielas, povo. Eis Natal humana. Que deve parar de crescer se não quiser desafiar o bom senso do meio termo.
Depois de deixar Natal pela última vez, fisgado pôr outra isquemia cerebral, aviso da delicadeza da Providência, passei a visita-la às pressas, às escondidas quase, o tempo necessário para beijar os netos e por a benção nos filhos. Com medo, quem sabe? Do visgo que Natal tem, o mesmo visgo de Mossoró e São Paulo, o perigo de não querer voltar, achar que pode se dar ao luxo da capital o interiorano matuto, mais certo no silêncio de seu caritó, entre livros, os olhos voltados para o pé de cajarana plantado por sua Mãe, faz oitenta anos.
Ela, minha mãe, Dolores Couto, quando falava de sua Escola Doméstica,com Jacira, Alda, Emília, Maria de Lourdes, Ilnah, Elza, Anatilde e Ricardina, dizia – “no tempo em quer eu era gente...” No tempo em que eu era gente, podia viver Natal. Hoje, não. Há muitas cruzes erguendo seus braços na procura da eternidade. Natal também passou a ser para mim um campo santo. Chão sagrado. Repouso de guerreiros. Os idos. Os idos.
Natal é isso. Só? Mais. Muito indefinível nos seus contrastes, pecados e santidade, risos e lágrimas, passado e futuro. A luz ardente dos refletores. A brisa fria de suas madrugada obscuras e insones.
Recife e São Luís lembrariam Veneza. Recife, para o Mestre Alceu, tem o cheiro de Florença. O que me lembrou Natal lá fora, nas Oropas agora dos impossíveis?
A luminosidade de Roma sua espontaneidade, sua abertura, até sua molecagem gostosa. Apimentada. Com pimenta malagueta.
Se eu não tivesse encontro marcado para daqui a pouquinho com meus pais e avós, juro que esperaria o fim do sonho em Natal. Tia Carmem, tio Enéas, Eider, Eutiquiano, Berilo, Myriam e Zila, Barca e Antônio Pinto, contariam histórias. Cascudinho as decifraria todas e lhes daria as origens.
Se não blasfemo – Deus me livre e guarde – que céu teria mais gosto de céu?

Dorian Jorge Freire (falecido), escritor e jornalista. Transcrito do jornal “O Galo” – dezembro/89.

27 de setembro de 2019

A GRANDEZA DE UM PEQUENO ESTADO




O Rio Grande do Norte é um pequeno Estado, mas possuidor de uma grandeza extraordinária. Vejamos alguns inusitados exemplos, na formação dos privilégios ditos sagrados e profanos ou aquilo que a história nos registra com seriedade e absoluta autenticidade. Para fortaleza da fé, temos três dioceses e para glória das letras, 4 academias bem conceituadas: a de Letras, a de Trovas, a de Medicina e a de Odontologia.
Seguimos a literatura com unhas, nervos e dentes. Somos uma terra abençoada por Deus e agraciada pelos deuses. Em todos os países católicos e ditos apostólicos, romanos, espalhados pelo globo terrestre, a beatificação ou canonização que permite o santo subir aos altares só acontece com um agraciado. A Segunda Santíssima Trindade, composta com a presença do Filho – Jesus, Maria e José – deve-se à divina missão, aqui na terra, confiada pelo Pai para remissão dos nossos pecados. Nessa sagrada sequencia, aparecem os Três Reis Magos, feitos santos pela piedade popular, independente de qualquer dogma de fé. Os Reis Magos desembarcaram em Natal e habitaram o nosso Forte, em forma de retábulo, em 1598, isto é, 98 anos após a celebração da primeira missa, em terra brasílica. Das Onze Mil Virgens lideradas pela britânica Santa Úrsula faz-se muita restrição à peregrinação virginal devido ao caráter lendário que envolve aquelas vestais. Não se sabe se o martírio dessa multidão de santos foi praticado pelos hunos de Atila ou pela perversidade dos romanos de Maximiano, o que resulta mais de um século entre o vândalo e o bárbaro.
Cosme Damião, árabes, irmãos e médicos, amigos dos pobres e inimigos do dinheiro, afirma os hagiólogos que foram decapitados no governo de Diocleciano por ordem do desalmado procônsul Lísia, isso lá pelo ano 287. O papa São Felix IV, no ano 530, erigiu-lhes uma igreja em Roma e assim eles subiram aos altares. Por sua dedicação aos pobres e nunca lhes terem cobrado uma consulta, foram apelidados, em grego, de anargyroi (sem prata), os únicos médicos do mundo inimigos de dinheiro, um belo exemplo de pobreza que deve ser um repúdio à classe argentária da qual eles são legítimos patronos. Já tivemos, aqui, recentemente, uma dupla de policiais vigilantes e andarilhos crismados pelo Comando como Cosme e Damião. Ignoravam os xarás médicos da Arábia e, em vez de bisturi, usavam revólveres e cacetetes. Não eram inimigos do dinheiro, mas ganhavam pouco e nada lhes sobrava para esmolas ou ajuda aos amigos. São escorços raros, mas não são lendários. Quanto à canonização, o modelo predominante é a beatificação de apenas um escolhido recomendado aos céus através de meticuloso exame e, ainda por cima de tudo, obedecendo a processo acompanhado do advogado do diabo. Esse acusador diabólico já vem de longe. Para depurar a paciência de Jó, consentiu o Senhor a intervenção de Satanás e entregou Jó ao seu poder – ecce in manu tua est (Jó 2,6), e Jó ficou à disposição de Satanás cujo objetivo era esgotar-lhe a humildade. Aqui na terrinha do índio Poti, em breve por cuidadoso processo teremos 30 santos e mártires beatificados de uma só vez, o que muito fortalece a nossa fé.
Em todas as Academias literárias do mundo, a disputa por uma vaga é bastante renhida. Costumeiramente, dois conspícuos competidores lutam pela sorte da imortalidade olímpica. O vitorioso prevalece-se do critério de justiça; o derrotado sente-se injustiçado. Surgem dissabores e inconformações.
Algumas Academias são exageradamente muito exigentes. Schopenhauer, por exemplo, certa vez, concorreu ao concurso da Academia de Copenhague com seu livro Fundamento da Moral.
O livro estava cheio de insultos a Hegel. Foi candidato único e deixou de ser premiado. Passou a amar o seu cão sobre todas as coisas por ser o mais próximo amigo do homem.
Aqui entre nós outros, ad lucem versus, elegem-se 3 deles de uma só vez, no mais compreensivo processo de igualdade e imortalidade, porque cada um é único, livre e de bons costumes. Por serem únicos, não incorrem no risco da injustiça. Três posses lhes são asseguradas. No mesmo vagão, embarcam 3 sócios honorários ad majorem Academiae gloriam. Nesse belíssimo exemplo de tolerância universal, os três eleitos e os outros três escolhidos passam a gozar do mesmo encanto dos três deuses principais do Olimpo ou das três Graças da mitologia romana e brilham como as três estrelas da constelação de Orion, conhecidas como as Três Marias.
Nossa Academia segue fielmente o conselho de Tobias a seu filho: quod ab alio oderis fieri tibi, vide ne aliquando alteri facias – nunca faças aos outros o que não quere que os outros te façam. É essa a filosofia adotada pela nossa Academia de Letras, na grandeza de suas intenções e na presteza de suas adoções.
Na política, temos o clã, aquilo que no inglês medieval chamava-se clann e se restringia às tribos irlandesas e escocesas.
Nos tempos bíblicos, o clã era o mesmo que tribo e significava bastão, em hebraico shebet, emblema da tribo, símbolo de autoridade e comando. O cetro do rei ou o básculo do bispo. Os integralistas usavam, na lapela, a letra grega sigma, no sentido matemático de soma integral do produto; e o integralismo foi forte e valoroso, em nosso Estado. De tribos só tivemos as dos índios. Uma delas valorizou heroicamente o bastão de comando do guerreiro Poti. Nas festas de Momo, ainda hoje desfilam os índios do Alecrim, que servem de atração ao nosso carnaval.
Entre nós habitantes do pequenino Estado, dispomos da grei familiar, o que os romanos chamavam grex, no sentido de rebanho de gado miúdo. Nosso rebanho familiar é graúdo e congrega politicamente avós, pais e netos. Os latinos faziam grande diferença entre sobriuns e patruelis, o que nós englobamos como sobrinhos. Sobriuns era o filho da irmã e patruelis o do irmão. Nota-se que entre os romanos havia um pouco de preconceito na relação de parentesco. Nepos, nepotis era o neto. Cícero, no seu De lege agraria, chamou a esse nepos de perdulário. No Evangelho, tem igual conceito o filho pródigo – filius vivendo luxuriose.
Quanto ao nepotismo (o vínculo com o neto) três infalíveis papas o transformaram em favoritismo excessivo dispensado ao seus sobrinhos, porque nepote passou a ser sobrinho do Santo Padre. No livrinho chamado Arte de Furtar, esse nepote é reconhecido como confidente do Soberano Pontífice. A Arte de Furtar, se não é lido, é pelo menos muito apreciado em nosso país, porque aqui se furta com arte. E o nepotismo, em nosso Estado, aperfeiçoou-se com mais graça do que aquela concedida pelos papas e traduz os seus invejáveis privilégios.
Entre outras maravilhas, Natal ainda goza da reputação de possuir o melhor clima do mundo. Possui também a fama de ser o Estado onde mais se rouba bancos, o que permite ao assaltantes o privilégio pela facilidade da rapina. O que antes era violência, hoje se registra como simples ocorrência. A Segunda Grande Guerra abalou o mundo. As batalhas ocorreram muito distante do nosso Cabugi ou dos estrondos de Baixa Verde. Duas mil léguas longe daqui aconteceu o Dia D houve a pacificação pela invenção do armistício e, finalmente, a assinatura da rendição do Japão, lá pela baia de Tóquio.
Antes disso, o Presidente americano se dignou conferenciar pacificamente com o nosso Presidente brasileiro, aqui no estuário do Potengi amado. No auge da guerra, desfilaram, pelas ruas e Natal, personalidade ilustres oriundas de outros países: generais, príncipes e estrelas da constelação de Hollywood. Terminada a guerra, coube a Natal a glória inusitada de ter sido o Trampolim da Vitória, o teatro de hostilidades mais pacifico do universo, no qual jamais se viu um exército em marcha belicosa ou se ouviu um tiro de canhão, a não ser a festiva salva de tiro reservada ao general, o que se chama tiro de festim e só serve para assustar crianças e abalar os nervos dos velhos.
Festim é uma palavra tão miúda que até lembra chumbo de espingarda na caça de arribaçã, o que também é um privilégio reservado à nossa macambira e seria bem mais proveitoso se não houvesse a intervenção do IBAMA. Do nosso Trampolim da Vitória fez-se um filme “for all” – para todos. Nenhum relacionamento com forró. A invasão holandesa concorreu para fertilizar o viveiro de mártires e de santos. Durante aqueles longos anos de ocupação, nosso estado assemelhou-se à Roma de Vespasiano e a nossa capital chamou-se garbosamente Nova Amsterdam. É pena que os invasores não tivessem imposto o idioma batavo para maior engrandecimento de nossa cultura linguística e de nossa hagiografia no rastro dos bolandistas ocupados com a Acta Sanctorum.
O nosso índio Poti, herói de raça, nascido ali em Aldeia Velha, recebeu a graça do batismo com o santo nome de Antônio e o título de Dom, uma distinção de tratamento só concedido a reis e bispos entre Espanha, Portugal e Brasil, Por pouco não foi santificado para honra e glória da aldeia.
Num Estado castigado pelas estiagens, dispomos da maior barragem do mundo, o que deixou a Assuã arrasada. Em 1991, tivemos a divina graça de recebermos cristamente o legítimo representante de São Pedro, que veio direto do Vaticano encerrar, aqui em Natal, o XII Congresso Eucarístico Nacional. E por último, ainda usufruirmos do Carnatal, no que somos genuinamente criadores, competindo momescamente com o outro de Sapucaí. Isso nos permite a feliz oportunidade de ensaiarmos a batalha de confeti e brincarmos irresponsavelmente 2 vezes por ano durante 2 semanas consecutivas, o que nos cabe 15dias de festas intermitentes. Como a folia foi criação nossa e já se espalhou por outros Estados e municípios, já nos obrigamos cobrar direitos autorais.
Em matéria de botânica, possuímos o maior cajueiro do mundo. Nas arrojadas navegações e descobrimentos de terras longínquas, recebemos a visita de Américo Vespúcio que em junho de 1499 velejou pelo delta do Açu em cujas margens fundou feitorias. Isso pelo menos é o que nos dizem alguns historiadores inventivos.
 Já agora somos responsáveis pelo descobrimento do Brasil. A carta de Pero Vaz foi erroneamente data na ilha de Vera Cruz, porque Porto Seguro é o Cabo de São Roque, onde Cabral desembarcou em 1500. A primeira missa celebrada em terra firme foi diante dos primitivos potiguares e Jorge Dosoiro foi transferido de Sam Thomé para Touros. O Cabugi de Aluizio Alves - é o monte Pascoal avistado por Cabral. Não é maravilhoso?!
Recentemente, um respeitável médium, com experiência “na vida passada”, o que ele chama de “pretérito espiritual”, em entrevista ao suplemento Podium (07.09.98), disse que, na Praia de Natal, existiu uma “Base dos Atlantas” chamada Atlan, anagrama de Natal, Isso há 1.500 anos, presumivelmente A.C. quando o mar aqui era gelado.
Não vamos discutir o trânse mediúnico ou o karma kardecista envolvendo o perispírito. O importante, segundo o médium, é que atualmente “encontra-se reincarnado aqui em Natal a maioria dos discípulos que seguiram Jesus, no seu ministério”. Par engrandecimento da cidade isso nos basta.
Essa visão mediúnica não é só privilégio seu, é também nosso privilégio ter essas santas criaturas vivendo entre nós outros tão distanciados da pregação de Jesus. Ora, Jesus, depois da ressurreição, na aldeia de Emaús, apareceu a 2 discípulos incrédulos. Aqui em Natal temos uma outra Emaús, onde fica A Morada da Paz. Nessa morada silenciosa, em breve, depois de sepultada, reflorescerá uma nova imortalidade acadêmica, em forma de quiliasmo. Aquilo que estava previsto para o ano 1000, em Jerusalém, com a vinda de Jesus, poderá acontecer em 2001, em Natal, na aldeia de Emaús, em Parnamirim, que será o segundo Trampolim da Vitória. Em breve teremos lá inaugurada a Academia dos Renascidos.
Por outro lado, no setor cultural, Natal é a cidade que lança mais livros no mundo, em todos os gêneros literários, às vezes até dois livros por mês o ano inteiro. Quem sabe se o autor do Paraíso Perdido também não está reencarnado entre nossos bons intelectuais reorganizado seu segundo pandemonium, o que será um achado.
Com estas mudanças no curso da história favorecendo e engrandecendo nosso pequenino Rio Grande, fica também provado que o barão de Munchausen nasceu em Natal e não em Hanover e privou da amizade do barão da Redinha, ad majorem terrae gloriam.
Se Jesus um dia voltar à terra, estou certo de que virá para Natal. Aqui jamais será crucificado e viverá em paz entre os ladrões. Os poucos judeus que migraram para cá ainda não tiveram tempo de erigir um sinédrio (em Pretório nem se fala) por conseguinte estaremos sempre livres de Anás, Caifás e Herodes; e que Pilatos permaneça lá no Credo onde o colocou Santo Atanásio para ser relembrado nas missas dominicais. Esqueçamos Judas. Presumivelmente, segundo as tradições do século IV, foi a Fortaleza Antônia, em  Jerusalém, que serviu de Pretório ou Tribunal onde Jesus foi julgado. Aqui em Natal temos a Fortaleza dos Reis Magos, que também tem a forma de estrela (Pentágono dos Magos) e para lá, na tradição da estrela de Belém, Dom José, rei de Portugal, nos mandou, em 1755, as três imagens dos Reis Magos, outro privilégio da cidade presépio. Que queres mais?
Deixemo-nos embalar nesse doce enlevo de vida alegre e gozemos dos privilégios que Deus se dignou reservar para taba de Poti. Hoje já podemos repetir imperativamente sem nenhum exagero de plágio:
-Criança!... não verás Estado nenhum como este; e não fiques aí a ouvir estrelas. Nosso céu é limpo e estrela não é sino que se ouça. Quando Bilac inventou de ouvi-las estava surrupiando uma frase de Arsêne Houssaye, que as ouviu antes dele, segundo nos revela Agrippino Grieco; Rafael Cansinos Asséns, citado por Jorge Luis Borges, gabava-se de estudar as estrelas em 14 idiomas. Muito antes dele, o capitão inglês Francis Burton, tradutor de As Mil e Uma Noites, deixando seu povo familiarizado com os 40 ladrões das Noites Arábicas, arrogantemente, dizia que sonhava com as estrelas em 17 idiomas. Ambos eram astrólogos sonhadores. Nossos poetas de cá, por mais inspirados, não chegaram a tanto. Olham as estrelas sem ouvi-las nem contá-las; e em plácido silêncio perdem-se no mundo da lua, o que é outro encanto da terrinha querida.
-Criança!... não verás Estado nenhum como este.... ora você veja só!...

(Transcrito do Jornal “O GALO” maio/junho 1999 – José Melquíades de Macedo (falecido), foi professor da UFRN, escritor e romancista).

19 de setembro de 2019

CRÉSIO TÔRRES “Em qualquer circunstância da vida eu vou fazer teatro”



Paulo Jorge Dumaresq
            
             Difícil é não acompanhar com atenção seu raciocínio rápido que esparge orações como se fossem poemas. Não é à toa que difunde o canto livre e alegre do Ceará-Mirim, sua cidade berço, sua Ítaca prometida, sua mágica Macondo. Inquieto e preocupado com as injustiças sociais e o crescimento do seu semelhante, ele logo cedo descobriu na arte um instrumento capaz de humanizar o homem e tornar o mundo mais aprazível para si e para o próximo. O ator, compositor e poeta Crésio Tôrres foi buscar também no cristianismo os valores para uma vida mais tranquila e equilibrada no perdão e na caridade. Com tudo isso ao mesmo tempo agora, acredita-se marxista cristão. “Não creio num artista que não seja generoso”, afirma.
            Nascido a 9 de abril no emblemático 1968, Crésio declara ao “Nós, do RN...” que ainda vivenciou um Ceará-Mirim rico culturalmente, com um folclore ativo e pujante. Cresceu assistindo aos caboclinhos, congos de guerra, bambelôs e tribos de índios. Seu olhar aguçado e perscrutador  presenciou as atividades teatrais da Juventude Franciscana (Jufra) na Igreja Matriz, após a missa dominical vespertina. Por meio da Jufra, encantou-se com o teatro infantil e chorou lágrimas cristãs ao testemunhar A Paixão de Cristo e pequenos Autos de Natal dramatizados pela agremiação vinculada à igreja católica. Aliás, já possuído pela Arte Maior, no limiar da carreira o aspirante a ator participou de autos religiosos e de esquetes teatrais pela Fundação SESP.
             O artista, que se emociona ao falar do passado, lamenta a ausência nos dias de hoje dos cinemas Paroquial e Jerusalém, que tanto abrandaram sua alma inquieta e o influenciaram na arte da representação. Ao assistir fitas de Bruce Lee, Shaolin, Buffalo Bill, Django e Sartana, a criança Crésio Tôrres tentava imitar seus heróis em casa. O circo também fez parte da sua infância, época em que não perdia os dramas, shows musicais e números de palhaços. “Também brincávamos de circo na rua. Eu tinha uma fé cênica que os outros meninos não tinham”, ressalta o ator.
            Ainda na puerícia, deu os primeiros passos na arte dramática, participando de jograis e esquetes na escola. A sorte de ter nascido numa família intelectualizada, e num rico berço cultural, fez toda a diferença na sua educação artística. Por causa disso, o acesso ao bom entretenimento, como cinema, circo, gincanas culturais, desfiles cívicos e carnavalescos,  alimentou a alma da criança. “A minha infância na rua Rodolfo Garcia (rua Nova) foi muito criativa. Inventávamos os próprios brinquedos e as brincadeiras. Íamos muito para granjas onde tomávamos banho de rio e ouvíamos muitas histórias dos mais velhos.  Papai era um brincante. Ele contava historinhas e causos. Talvez isso tenha contribuído para o meu despertar para o teatro. Só hoje eu me dou conta de como foi enriquecedor para mim”, lembra, com uma ponta de saudosismo.
            Na escola, o primeiro contato com o universo da literatura infantil foi na quinta série ao ler “Memórias de um cabo de vassoura”, obra de Orígenes Lessa. A família Moreira, por parte de mãe, conforme Crésio Tôrres, tinha intimidade com o mundo das letras. A criança também não dispensava a leitura de gibis, hóspedes na sua ilha da fantasia.  
Projeto
A descoberta do Crésio Tôrres ator foi na escola, já cursando o ginasial, no início da década de 1980, por intermédio do projeto “Vamos fazer teatro nas escolas”, da Subcoordenadoria de Atividades Culturais da Secretária de Estado da Educação e da Cultura (SEEC), que implantou oficinas em Ceará-Mirim e municípios outros do RN. Entre os oficineiros, destaca Carlos Nereu (sonoplastia), Cláudio Cavalcante (interpretação), João Marcelino (maquiagem) e Joiran Medeiros, além de Ivonete Albano (interpretação). A ingratidão - esta pantera - não conseguiu colocar suas garras no artista. Do alto dos seus 44 anos rasga elogios ao plantel de oficineiros que fomentaram sua aspiração de ser ator.
O projeto visava à formação de atores, diretores e a consequente criação de grupos de teatro no interior. E cumpriu bem seu papel. A semente plantada fez brotar o grupo Inovart, onde Crésio atuou durante 10 anos em vários espetáculos dirigidos pelo encenador Washington Pereira Santos. No Inovart, o ator sobressaiu-se nos espetáculos Quem Casa Quer Casa (Martins Pena), Negrinha (Monteiro Lobato), A Eleição (Lourdes Ramalho) e A Árvore dos Mamulengos (Vital Santos), entre outros. “Quem me despertou intelectualmente foi a dramaturgia. Por intermédio dos oficineiros do projeto adquiri a trilogia de Constantin Stanislavski”, revela.
Crésio enaltece o movimento teatral natalense na década de 1980. Afirma que assistiu a grandes espetáculos dos grupos Alegria, Alegria e Estandarte, mesmo com toda a precariedade da época, sem leis de incentivo e editais públicos: “Na época eu via muita coragem nos artistas e uma consciência política incrível. Era o orgulho de ser ético. Existia um ativismo cultural e político”. Sem citar um número preciso, acredita que representou até o momento em mais de 30 espetáculos. Pelo Circo da Luz, projeto patrocinado pela Cosern, viajou quase todo o estado na condição de apresentador e de ator no espetáculo As Aventuras de Pedro Malazarte, de Racine Santos.
Profissões
            O primeiro emprego do ariano Crésio Tôrres foi como monitor de recreação infantil no Centro Social Urbano de Ceará-Mirim, em 1986. Na sequência, aventurou-se como vendedor de eletrodomésticos, desenvolvendo a atividade por seis meses. Em seguida, pediu a um amigo emprego na Secretaria Municipal de Educação para ser recreador infantil e trabalhar com cultura, esporte e lazer nas escolas municipais. “Eu era o cara mais feliz do mundo. Paralelamente, eu atuava no Inovart. Hoje eu sinto uma saudade gosto...”, interrompe o depoimento, emocionado.
Em 1990, Tôrres trocou os figurinos do teatro pela farda verde-oliva do Exército Brasileiro, onde chegou ao posto de Sargento. Conta que viveu grandes experiências de teatro no Exército, a ponto de comprometer a instrução conhecida como Pista de Progressão Noturna por causa do realismo que imprimiu à cena. Pela fé cênica inabalável, recebeu o diploma de Praça Mais Distinta, depois Ordenança do Comandante e no início de 1991foi indicado para o curso de Sargento. No Exército Brasileiro, permaneceu até 1994. A próxima empreitada foi o HiperBompreço, onde exerceu a função de fiscal da segurança por seis meses.  
Com mulher e dois filhos para criar, o artista cedeu às pressões  familiares e meteu a cara nos livros para tentar concursos públicos. Passou em todos e optou pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Ingressou nos Correios em 1996 na qualidade de carteiro. Na empresa, conseguiu trabalhar com teatro institucional no interior. Por outro lado, a dureza do ofício de carteiro fragilizou o artista ao longo dos anos. Resumo da récita: licenças médicas e reabilitação para atendente comercial.
No ano do seu ingresso nos Correios, Crésio Tôrres tomou parte nas filmagens de For All (1997), rodado em Natal, Parnamirim e Rio de Janeiro. Aprovado no teste pelos diretores Buza Ferraz e Luiz Carlos Lacerda, voltou chorando para o Ceará-Mirim. Naquela oportunidade retomava sua carreira de ator. “O cinema me devolveu ao teatro. Quando terminou o filme não parei mais de atuar”, comenta.
Inoculado pelo vírus do teatro, o ator representou em Natal nos espetáculos A Festa do Rei, de Racine Santos, com direção de Hilton Lopo; A Ópera do Malazarte, A Farsa do Poder e Auto do Menino Deus, texto e direção de Racine Santos, afora Elvira do Ypiranga, com direção de Marcio Otavio. Interpretou papel, ainda, em Eles Não Usam Black-Tie, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de Wilson Palá; Dom Casmurro, de Machado de Assis e direção de Clenor Junior, e na leitura dramática Os Patrões, de Paulo Jorge Dumaresq e direção de Marcio Otavio. No momento, Crésio está ensaiando A Festa do Rei (Grupo Teart), dirigido por Abraão Lincoln, com estreia prevista para o mês de novembro. “Em qualquer circunstância da vida eu vou fazer teatro. Porque se eu parar de representar paro de respirar. Se soubesse que fosse morrer hoje diria que tentei ser um vaga-lume na obscuridade cultural do planeta”, filosofa.  
Fazendo um contraponto entre os anos 1980 e a década atual, Crésio enfatiza hoje as leis de incentivo, os editais públicos e os pontos de cultura como avanços. De retrocessos, cita a falta de mostras, de festivais e de projetos como o necessário “Vamos fazer teatro nas escolas”. As brilhantes participações no Auto Jesus de Natal (2005) e no Auto de Natal (2009), não o deixaram deslumbrado. Tôrres considera que o investimento nos megaespetáculos a céu aberto podia ser revisto pelos gestores públicos, a fim de distribuir mais e melhor os recursos tendo em vista montagens de espetáculos de teatro de grupo e de dança, gravação de CDs, realização de curtas-metragens e publicação de livros.
Na condição de nordestino e de cabra marcado para viver no tablado, o pai de Mariana, 18; Pedro, 16; e Letícia, 10, não foge a perguntas embaraçosas. Inquirido sobre os melhores do teatro potiguar nas suas categorias, declara sua admiração pelo trabalho de Racine Santos e Paulo Dumaresq na dramaturgia. No tablado, bate palmas para Pedro Queiroga, sua grande referência como ator, e para João Antonio Vale. Em relação às damas, derrete-se ao citar Ana Francisca, Bárbara Cristina, Fátima Fialho e Titina Medeiros. Aplaude, ainda, a atriz paraibana Madalena Aciolly.
Voltando à Sétima Arte, Crésio conta que fez figuração no cabaré de Dona Belinha – porque perdeu o workshop para seleção de atores – no filme O Homem Que Desafiou o Diabo (2007), dirigido por Moacyr de Góes. Outras facetas do artista são a de cantor, compositor e poeta. Ele tem pronto O Canto da Boca da Mata, musical que apresenta parcialmente, visto que não conseguiu viabilizá-lo por falta de recursos. O menestrel dos verdes campos do Vale do Ceará-Mirim computa 50 canções de sua lavra “prontas e acabadas”. Defendeu canções em cinco edições do Festival de Música dos Correios, conquistando em duas oportunidades o primeiro lugar. Os feitos proporcionaram viagens a São Luiz e Aracaju.
Em 2005, o samba Ceará-Mirim – Seara Nobre do Folclore (Samba do Boi) recebeu nota 10 no desfile da GRES Império do Vale (Grupo A) no carnaval natalense. As composições de Crésio encontraram eco no CD do parceiro Iran Barreto que está gravando um disco com cinco canções do menestrel. “Uso a poesia como instrumento político e social”, pontifica.

Texto publicado no Suplemento Cultural “Nós do RN” novembro de 2012
           
           
                 
   


10 de setembro de 2019

Mini-história da imprensa infantil no RN



Anchieta Fernandes
           
         Se a leitura era uma fuga da realidade para as crianças clientes da psicanalista Melanie Klein, no entanto, para as crianças normais de hoje ler faz parte do aprendizado. A literatura infantil, por isso, é muito importante no processo de formação da pessoa. E o meio mais democrático de difusão desta literatura é uma mistura do padrão livro com o padrão dos periódicos, no contexto da imprensa infantil apresentada em jornais e revistas. Sem se esquecer que hoje sites existem onde a criança encontra também sua literatura preferida via online.
           Mas, como tem sido a história da imprensa infantil aqui no Rio Grande do Norte? Façamos uma retrospectiva: entremos na máquina do tempo. Ainda no século 19, em 1899, em Natal eram lançados os dois primeiros jornais infantis do estado: “O Rato” e “A Espora”. Em 1908, a Sociedade Infantil Filhos do Concerto, também em Natal, lançava ao público de pouca idade norte-riograndense outro jornal infantil: “Luz da Infância”, que tinha como lema a frase do Eclesiastes: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade”.
           Mas antes deste novo jornal infantil de Natal, Alfredo Dias já pensara nos pequenos como leitores de jornais, em Assu: em 1900, começou a publicar, em parceria com Otávio Amorim, o jornalzinho “O Pintassilgo”. No ano seguinte, Alfredo D e João Alfredo lançavam outro órgão jornalístico infantil em Assu, cujo título era o nome de outra ave: “O Cisne”. Em 1909, em Caicó, Tudinha Nóbrega redigia e lançava o jornal manuscrito “A Infância”. Em 1911 e 1912 circulou em Assu o jornal “O Infantil”, tendo saído seu primeiro número a 4 de junho de 1911.
            Passaram-se depois algumas décadas sem se ter notícias de outros jornais no gênero. A 24 de novembro de 1952, contudo, alunos e professores do Grupo Escolar Meira e Sá, de Santana do Matos lançavam “Ecos Infantis”, sob a direção do professor Celso Arruda, embora a supervisão estivesse a cargo do “Excelente educador” (como a ele se referiu Manoel Rodrigues de Melo, em seu livro “Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte 1908 – 1987”, publicado em 1987) Osvágrio Rodrigues. Era uma publicação periódica, com tiragem até de 400 exemplares.
              Em 1967, a magia do pensamento infantil se somou a uma vertente espiritual, com o lançamento em Natal da revista “Criança Espírita”, que se dizia “revista de orientação espírita à infância”. Em Currais Novos, também se deu um empurrãozinho para se despertar crianças e jovens para a leitura de jornais. Na cidade do poeta José Bezerra Gomes, a 2 de abril de 1968 começava a circular “O Jornalzinho”. Era um órgão infantil mensal do Grêmio Domingos Sávio. Em setembro de 1983, foi lançado em Natal o “Jornal da Criança”.
               Era uma publicação totalmente dedicada aos interesses da gente miúda (em tamanho físico), publicando material jornalístico literário e artístico em geral sobre crianças, e alguma parte deste material produzida pelas próprias crianças. O jornal era uma publicação da EDITORA SACI – Projetos e Empreendimentos Jornalísticos Ltda. No primeiro número, tem uma matéria sobre iatismo e a sua prática pelas crianças de um curso (crianças na faixa etária de 9 a 14 anos)promovido pelo Iate Clube de Natal.
           Tem também o lançamento das colunas “Literatura Infantil” (comentando no primeiro número os livros “Os Bichos que Tive – Memórias Zoológicas”, de Sylvia Orthof, e “Sapo Curuminho da Beira do Rio”, com texto e ilustrações de Maria Magdalena Lana Gastelois) e “Dicas”, além das páginas “Galeria de Fotos”, “Ateliê” (literatura e desenhos produzidos por crianças) e “Quadrinhos, Jogos e Humor”. Na mesma década, em novembro de 1987, o jornalista Júnior Alves lançava em Natal o jornal “A Criança”, com distribuição gratuita.
           O slogan no cabeçalho era: “O jornal de quem quer saber mais”. Artigos, poesias (transcrito no primeiro número trecho de um poema do grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, acompanhado de uma foto dele quando menino), notícias, contos (no primeiro número, um conto escrito pelo garoto Rodrigo Fonseca Alves de Andrade, de 9 anos de idade), e muitas fotos de crianças e adolescentes norte-riograndenses. Algumas das colunas lançadas no primeiro número: “Trenzinho da Alegria”, “Curiosidades”, “Juventude em Destaque”.
           No 2º bimestre de 1998, foi lançado em Natal o jornalzinho “Lápis de Cor em Notícia”, ´´orgão do Jardim Escola Lápis de Cor, de Natal, com artigos pedagógicos. Também em 1998, no mês de julho, foi lançado em Natal o boletim informativo “Vida”, da Casa de Apoio á Criança com Câncer. Para a mesma entidade (isto é, Casa de Apoio à Criança com Câncer), a Oficina da Notícia produziu, a partir de setembro de 1999, o informativo “Jornal da Casa”. Em dezembro do mesmo ano, a mesma agência começou a produzir o “Jornal do Hospital Infantil Maria Alice Fernandes (Zona Norte de Natal).
              Em junho de 2000, foi lançado em Natal o boletim informativo (apenas uma folha, impressa de um lado) “Criança Cidadã”, do Projeto Criança Cidadã, da Associação de Amigos do Bairro de Felipe Camarão. O jornal foi fundado por Francisco Ranilson Nascimento, com distribuição gratuita. O “Jornal CEI”, do Centro de Educação Integrada, de Natal, foi lançado em agosto de 2000, para mostrar trabalhos e atividades desenvolvidas pelos alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental e também do Ensino Médio.
SUPLEMENTOS
              Além dos jornais totalmente dedicados às crianças, deve-se mencionar também os suplementos infantis de jornais noticiosos. No ano de 1959, por exemplo, o Diario de Natal começou a publicar, a partir do dia 9 de junho, a página-suplemento “Recreio”. Fixou-se a sua publicação semanal às terças-feiras. Apresentava contos infantis, passatempos, poesias, curiosidades e até uma “Enciclopédia Mirim”. A página era organizada por Serquiz Farkatt, com ilustrações pelo desenhista Poti (pseudônimo de José Potiguar Pinheiro).
         Aliás, foi em “Recreio” que Poti lançou a estória em quadrinhos “O Fogo Através dos Tempos”, de conotação hamliniana (v. “Brucutu”, ou “Alley Oop”, no original), e que marcou o quadrinho norte-riograndense (antes do Grupehq) como a primeira produção no gênero, de um artista da terra, publicada aqui mesmo, em jornal local. Na década setenta (anos 70), o Diario de Natal lançou o caderno “O Diarinho” (precisamente a 22 de agosto de 1977), com quadrinhos de Maurício de Sousa, uma página de Divertimentos (enigmas, cruzadismo) e fotos de crianças.
           É também da década 70 o suplemento “Tribuninha”, do jornal Tribuna do Norte, que publicou também os quadrinhos de Maurício de Sousa, jogos, adivinhações, poesias infantis. Seguindo o exemplo do fundador do jornal, Aluízio Alves (que, ainda menino, aos 11 anos, já lançava seu jornal “O Clarim”, todo datilografado, em Angicos), a “Tribuninha” valorizou e incentivou a criatividade artística das crianças natalenses, inclusive promovendo concursos para os mini-leitores produzirem versões quadrinizadas de famosos contos de fada universais.
            Também compreendendo que as crianlas devem ser levadas a sério no contexto jornalístico, e que a sua educação cultural deve ser cuidada inclusive na formação do hábito de ler jornais, o extinto jornal da Imprensa Oficial, A República, manteve de 17 de dezembro de 1978 a dezembro de 1983 o suplemento “A República Infantil”; para o qual se comprava, através de mala direta, o excelente material do desenhista baiano Luiz Cedraz (quadrinhos, lições de desenho e páginas para colorir). Além da prata da casa, como os contos infantis do funcionário Ivanaldo Xavier.
              Em 1988, houve o lançamento do suplemento “JN Infantil”, do Jornal de Natal, e produzido por Gruphq Produções. Também quase a mesma fórmula dos outros: quadrinhos, passatempos, desenhos para colorir, galeria de fotos de crianças (com legendas informando nome completo e data de nascimento). Um diferencial: publicou-se uma quadrinização dos fatos históricos da libertação dos escravos em Mossoró (“30 de setembro, quebram-se as algemas”), com texto de minha autoria e desenhos por Adrovan. Aliás, o suplemento também publicou mini-contos de minha autoria.