22 de agosto de 2017

NOSSO HOMERO



Manoel Onofre Jr.


Pouca gente sabe que o Rio Grande do Norte é tema de todo um livro de poesia – “Tema Iluminado”, cujo autor, Home Homem, nascido em Canguaretama (1921), teve a sua formação em Natal, mas ainda jovem transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde viveu até o fim dos seus dias (1991).
Nosso Homero tornou-se credor da gratidão dos potiguares, mas talvez nem sequer seja nome de Rua em Natal.
Além de poeta, notabilizou-se como contista e novelista, voltado para o público infanto-juvenil. Seu romance “Cabra das Rocas” obteve sucesso de público em todo o país. Êxito ainda maior, o livro subseqüente, “Menino de Asas” já está na 22ª. Edição.
Vários outros trabalhos de sua autoria, no campo da ficção, despertam interesse, notadamente “O Goleador”, romance (primeiro volume de uma trilogia do futebol), e “O Moço da Camisa 10”, novela.
Pelo número de edições dos seus livros, constata-se que ele é o mais lido de todos os ficcionistas norte-rio-grandense. E outra constatação não menos importante: é um dos poucos traduzidos (“Gente delle Rocas”, tradução italiana de “Cabra das Rocas”).
Homero Homem tem, no entanto, maior importância italiana de “Cabra das Rocas”).
Homero Homem tem, no entanto, maior importância como poeta. Entre os expoentes da geração pós-45, ele se afigura um romântico desgarrado em pleno Século 20. Toda a sua obra poética está repassada de valores românticos: subjetivismo, comunhão com a natureza (o mar, especialmente), exaltação da mulher da mulher amada, crítica social e política, etc. Isto não quer dizer que ele seja um retardatário. De modo algum. Na verdade, o seu claro poema, de tanto rítimo, de tanta musicalidade, trouxe inegável contribuição para a poesia contemporânea, e dúvida não há quanto à sua modernidade.
Estreou em livro um poema em prosa, “A Cidade, Suíte de Amor e Secreta Esperança” (Rio, 1954). Surgiu depois “Calendário Marinheiro” (1958) e ao longo das décadas, vários outros livros reunidos, em 1981, num volume sob o título “O Agrimensor da Aurora”. Depois viveram: “O Luar Potiguar” (Rio, 1983), renovada homenagem à sua terra, e “Eu sem Ego” (Natal, 1990).
A poesia de HH tem sido estudada por alguns críticos de estatura nacional, como Wilson Martins, Gilberto Mendonça Teles e Leo Gilson Ribeiro. Destes últimos esta definição exata e concisa: “poeta de inquieta raiz social”. (...) lirismo entre a emotividade, a erudição, o tom popular irônico e a musicalidade rítimica.”
Com toda a relevância, que indiscutivelmente lhe cabe em nível nacional o poeta e escritor permanece quase desconhecido na terra que tanto exaltou. É preciso, com urgência, resgatá-lo desse injusto ostracismo.



17 de agosto de 2017

MACAÍBA- ANTES DO DILÚVIO DE HOMICÍDIOS E ASSALTOS



Valério Mesquita*

01) Xanxo era um pedreiro macaibense, alto, magro e disponível 24 horas em favor da construção civil. Trabalhava muito e quase não sobrava tempo para a bebidinha preferida: “2 Tombos”, fabricada no engenho Califórnia, de Nilton Pessoa de Paulo, São Gonçalo. Certa vez, foi contratado pela prefeitura para construir um muro que o tempo, a história, a lenda e a legenda, passaram a congnominá-lo de “muro de Xanxo”, de geração a geração. Tido e havido como pedreiro competente, edificar um muro era tarefa tão simples que o próprio Xanxo resolveu precedê-la com alguns goles da famosa aguardente, na mercearia de seu Alfredo de Almeida, pelas oito da matina. Tentado pelos circunstantes a misturar a “caninha” com Cinzano e Run Merino, Xanxo não fugiu do desafio, como senhor e mestre da mistura de cimento, cal, areia e barro. Depois, partiu para o trabalho oficial de forma preocupante, pelo caminhar sinuoso, desenhando figuras geométricas. Xanxo foi rápido na construção, pois ainda queria pegar o expediente da prefeitura para receber o dinheiro. O prefeito Luís Curcio Marinho, diligente e exigente, ao observá-lo no guichê da tesouraria, convidou-o para juntos irem ver o muro. No caminho, ainda fedendo a cana, detalhou o serviço, a altura do muro (2 metros) e a sua extensão (15 metros). O prefeito, diplomaticamente, com um abano de cabeça, reprovou antecipadamente o tempo exíguo gasto pelo pedreiro. Ao chegarem a “obra”, já havia uma aglomeração de curiosos. “O que foi isso, Xanxo?”, pergunta surpreso o prefeito. “Sei não, seu Luís, mas alguma coisa me diz que foi gente adversária do senhor”.  Xanxo, que bem poderia ter trabalhado no muro de Berlim, até hoje é relembrado entre os antigos pelo coquetel de ingredientes da argamassa: aguardente, run cinzano, cimento, areia e barro.
02) Guilherme Paulino Siqueira foi motorista de praça, de caminhão e passou no vestibular de dirigir a caminhonete Chevrolet de Leonel Mesquita. Gostava de se apresentar aos desconhecidos como pessoa importante, pronunciando de forma pomposa e cabotina o seu nome: “Muito prazer, Guilherme Paulino Siqueira, às suas ordens”. Sempre pedia nos balcões das bodegas e bares da vida a bebida certa para as companhias incertas pagá-la. Invariavelmente, nas recusas, Guilherme ia curtir a enganosa diplomacia no xadrez da rua da Cruz. Em muitas dessas caminhadas, era comum se desvencilhar dos policiais para se refugiar na casa de seu Mesquita, em desabalada carreira, portão a dentro. “Seu Mesquita, me acuda, a polícia me persegue!!”. Lembro-me das vezes que cantava, sentado à janela gradeada da cadeia, as canções de Nelson Gonçalves e Linda Batista para os passantes que o compensavam com cigarros e comida. No volante do carro, Guilherme era exímio mas corria demais. De uma feita, estando em Macaíba, o meu pai interrompeu a minha viagem a Natal, ponderando forma enfática: “Com esse doido dirigindo, meu filho não vai. Pegue um ônibus ou vá na marinete (alternativo daquele tempo)”. Guilherme Paulino Siqueira saiu de Macaíba há mais de 30 anos e foi morar em Bom Jesus. Nunca mais o vi. Deve ter falecido.
01) Zé Deca era comerciante estabelecido na esquina da Francisco da Cruz com a Dinarte Mariz. Alcancei-o nos anos cinquenta perto dos setenta anos, sempre por trás do balcão de sua mercearia despachando goles de aguardente, com extrema paciência, aos “pinguços” do matadouro municipal. A sua sobrinha por afinidade era a professora Naide Tinoco, que me ensinava particular antes de prestar exame de admissão ao Colégio Marista, juntamente com D. Enedina Bezerra. Mas, o lado popular de Zé Deca residia exatamente na facilidade com que a meninada “passava” notas do cruzeiro velho de duas cabeças que a sua vista ruim não detectava. Só desconfiou quando os fregueses de verdade começaram a rejeitar seus trocos. “Seu Zé Deca, essa nota é duas cabeças!”. Ao cabo de algum tempo em cima da prateleira, Zé Deca já contabilizava um prejuízo enorme representado por um volumoso maço de cédulas frias amarradas num barbante. Daí pra frente, Zé Deca não trabalhava mais só, e todo garoto era um suspeito em potencial.

(*) Escritor.

14 de agosto de 2017

MUSEU DO RN RECEBE PRÊMIO DE TECNOLOGIA SOCIAL


Iniciativa do Museu Nísia Floresta foi certificada na categoria Educação

Fazer o levantamento de projetos sustentáveis que possam ser replicados nas comunidades é o objetivo do Prêmio Banco do Brasil de Tecnologia Social. O Museu Nísia Floresta, localizado a 35 km de Natal, foi uma das 173 iniciativas brasileiras que receberam certificação. Selecionado como único projeto do Rio Grande do Norte nessa edição do Prêmio, o museu foi inscrito na categoria Educação e funciona como um espaço de memória comunitária a partir da articulação de escolas públicas, grupos culturais e a população do município.

Semanalmente o museu Nísia Floreta recebe alunos, grupos culturais e comunitários, além de realizar atividades de capacitação e discussão de políticas públicas voltadas para a memória, cultura e educação. Com o tema ‘Museu Comunitário: Memória, Educação e Cidadania’ a iniciativa selecionada é desenvolvida dentro de uma perspectiva da articulação dos campos da educação e da cultura, de implementação da educação integral, da formação para a cidadania, respeito à diversidade e acesso ao processo de produção dos bens culturais.

A proposta do Museu como espaço vivo da memória contribui com a valorização do patrimônio cultural, a construção de uma sociedade democrática, baseada no respeito às diferenças, na igualdade de gênero; bem como com o fortalecimento da identidade e o desenvolvimento local e sustentável.

A Tecnologia  Social do  Museu Comunitário tem muito a contribuir em contextos em que é comum: a existência da baixa qualidade de ensino, onde o patrimônio cultural, a memória e a história não são valorizados e em locais que existem situações de vulnerabilidade social.

O Museu de Nísia Floresta é uma iniciativa do CECOP – Centro de Documentação e Comunicação Popular, uma Organização da Sociedade Civil sem Fins Lucrativos que funciona desde 2012. Na implantação o museu contou com os recursos de um Prêmio do Ministério da Cultura / IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e o IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus.

O Museu conta com a parceria da Secretaria Estadual de Educação e da Cultura do RN, da Paróquia Nossa Senhora do Ó, Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar de Nísia Floresta. Conta ainda com a parceria da Rede de Pontos de Memória e Museus Comunitários do RN, do Pontão de Cultura e Comunicação e da Rede Potiguar de Televisão Educativa e Cultural.

A CERTIFICAÇÃO

Foram inscritas nesse Prêmio 735 iniciativas e 173 foram consideradas aptas a receber a certificação no ano de 2017. Esta é a nona edição da premiação, que tem o objetivo de levantar projetos sustentáveis que possam ser reaplicados em diversas comunidades.

A triagem foi realizada por uma comissão composta pela equipe técnica da Fundação BB, que obedeceu aos critérios do regulamento para chegar às propostas selecionadas. Dentre os requisitos solicitados estavam: o tempo de atividade, as evidências de transformação social, a sistematização da tecnologia, a ponto de tornar possível sua reaplicação em outras comunidades, e o respeito aos valores de protagonismo social, respeito cultural, cuidado ambiental e solidariedade econômica.

As propostas inscritas foram classificadas em seis categorias nacionais, das quais foram validadas 15 tecnologias na categoria Agroecologia, 27 em Água e/ou Meio Ambiente, 11 em Cidades Sustentáveis e/ou Inovação Digital, 40 em Economia Solidária, 52 em Educação e 16 em Saúde e Bem Estar. Na categoria internacional foram classificadas 12 propostas. A tecnologia social Museu Comunitário: memória, educação e cidadania é uma iniciativa do CECOP, através do Museu Nísia Floresta.

Com a certificação, as tecnologias passam a compor o Banco de Tecnologia Social (BTS) da Fundação BB, que agora conta com 995 iniciativas aptas para reaplicação. O BTS é uma base de dados online, que reúne metodologias reconhecidas por promoverem a resolução de problemas comuns às diversas comunidades brasileiras. Neste banco, todas as tecnologias sociais podem ser consultadas por tema, entidade executora, público-alvo, região, UF, dentre outros parâmetros de pesquisa. Para consultar o banco basta acessar o endereço eletrônico: tecnologiasocial.fbb.org.br. Também é possível consultar este banco de dados por meio do aplicativo de celular "Banco de Tecnologias Sociais", disponível para aparelhos Android e IOS.

A próxima etapa do Prêmio está prevista para o dia 15 de agosto, com a divulgação dos projetos finalistas. Já as propostas vencedoras serão anunciadas na cerimônia de premiação, em novembro. Neste ano, a Fundação BB irá premiar com R$ 50 mil cada uma das seis iniciativas vencedoras nas categorias nacionais, além da entrega de um troféu e a produção de um vídeo retratando as iniciativas das 21 instituições finalistas nacionais e das três finalistas internacionais.

Esta edição tem a cooperação da Unesco no Brasil e o apoio do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), do Banco Mundial, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Contato:
Raimundo Melo – coordenador do Museu

(84) 99950-4984 / 98843-3745



7 de agosto de 2017

A GENIALIDADE DÊ NEWTON NAVARRO

                                                                                                                    Newton Navarro

Odúlio Botelho Medeiros-ex-presidente da OAB/RN

Tive o prazer e a felicidade de ter conhecido e convivido com o pintor e poeta Newton Navarro. Vivenciei, portanto, o seu lado boêmio e o seu valor cultural. Quando em estado de "graça", apesar de não lhe fugir à genialidade, tomava-se irônico e, de uma certa forma, polêmico. Todavia, esse comportamento diferenciado é próprio dos poetas, que são rebeldes por natureza. E esse conviver esporádico com o grande artista deveu-se à amizade que ele manteve com meu irmão Emanoel Botelho (Maneco, que se foi para o Estado do Pará e nunca mais voltou) e com ei Leandro de Castro, tudo nas décadas de 50/60, nos velhos tempos do Granada Bar, que funcionava na Avenida Rio Branco em Natal.
O Granada era, com toda certeza, o centro cultural da boêmia natalense. Nos seus corredoresenas suas mesas não era difícilàqueles da minha geração encontrar figuras como Câmara Cascudo, Luís Carlos Guimarães, Nei Leandro, JurandyrNavarro, Berilo Wanderley, Diógenes da Cunha Lima, Nilson Patriota, Sanderson Negreiros, Moacir Cirne.Veríssimo de Melo, o próprio Newton Navarro, talvez o seu mais assíduo freqüentador, Luis Rabelo, que fez escola na literatura norte-riograndense, na opinião dos críticos da época.
A minha geração, essa geração do pós-guerra, foi muito rica em valores intelectuais e boêmios famosos, como Roldão Botelho, Ls Tavares, Alexandre Garcia, Valter Canuto, Nei Marinho, Antônio Elias França, e seu filho Glicério, Gil Barbosa, Luís Cordeiro, Castilho, Raimundo do Cartório, Albimar Marinho, a figura mais pitoresca da cidade. Ao encontrar o advogado João Medeiros Filho, indagava-lhe cheio de prosopopéia: "e então, DT. João Medeiros, o direito continua líquido e certo?". Isso era ótimo! Peço venia aos outros que aqui não foram mencionados. Eram tantos e tantos que os seus nomes não comportariam nesse pequeno espaço. Natal era uma festa!
Na verdade, o que me inspira mesmo a escrever essas reminiscências é a grandiosidade de
Newton Navarro. Entendo que Natal esqueceu muito cedo o seu maior artista, ou melhor, possivelmente um dos mais completos intelectuais na modesta maneira de eu enxergar a cena urbana da cidade. Sendo um intelectual polivalente, Newton foi o mestre maior da pintura nordestina. Além disso, era excelente cronista, com as suas estórias curtas, ricas de beleza e criatividade. E que dizer de sua poesia? Lembro-me que foi ele quem desasnou o grande Nei Leandro para a vocação poética, ao dar-lhe régua e compasso para esse difícil campo das atividades humanas. Além das citadas qualidades, ainda escreveu peçasteatrais, literatura infantil, perfilando no campo da oratória, a meu ver o mais completo orador de sua geração, com atuação em todos os campos do discurso: sacro, popular, em recinto fechado, em palanques públicos, em grandes eventos sociais e, principalmente, nos bares da vida. Nesses é que os homens revelam os seus melhores sentimentos e os seus dotes humanitários.
Destacou-se, também, como novelista ... (De Como se Perdeu o Gajeiro Curió). Não se pode
esquecer o Newton folclorista, cultor dos fandangos, chegam as, bumba-meu-boi, lapinhas, pastoris, cocos de roda, maxixes, xotes, e tantas outras manifestações populares atualmente esquecidas e em desuso.
Tudo isso, Djalma Maranhão incentivava na condição de Prefeito de Natal. Foi, inegavelmente, o mais lírico e popular prefeito desta cidade de xarias e canguleiros. A obra deixada pelo genial escritor é significativa, por ser variada e múltipla; Poesias: Subúrbio do Silêncio; ABC do Cantador Clarimundo. Crônicas: 30 Crônicas Não Selecionadas. Contos: O Solirio Vento do Verão; Os Mortos são Estrangeiros (o seu livro preferido); Do Outro Lado do Rio, Entre os Morros. Novela: De Como se Perdeu o Gajeiro Curió (o escritor Nilo Pereira afirmou que esta novela deveria ter sido filmada). Teatro: Um Jardim Chamado Getsemani; O Caminho da Cruz - uma Via Sacra encenada ao ar livre, em Natal, pioneira nesse ramo teatral; Hoje tem Poesia, encenada no TAM; O Muro, encenada no TAM. Além dessas, existem muitas outras peças inéditas que sua mulher Salete Navarro esperava que fossem publicadas, por quem de direito. Salete lutava rdentemente pela criação de uma fundação para que a obra do grande escritor não viesse a perecer.Morreu sem poder realizar o seu sonho! Inesquecível Newton Navarro, falecido aos 63 anos de idade, receba esta crônica pelo menos comouma homenagem da minha geração. Ainda bem, que agora, o atual governo prestou-lhe merecidahomenagem ao denominar Ponte Newton Navarro, essa grande obra de integração urbana e social. Somente assim Newton, essa cidade continuará sempre sua.


4 de agosto de 2017

DA SUPERPOPULAÇÃO NASCE O CAOS



Valério Mesquita

O agravamento dos problemas de saúde, segurança e desemprego no mundo e, particularmente, no Brasil, tem a sua raiz na explosão populacional. Não precisa ser cientista social, sociólogo, socialista ou qualquer profissional especializado para chegar às conclusões. Há cinquenta anos as entidades de planejamento familiar no Brasil não foram bem recebidas pela igreja, partidos políticos, governos estaduais e sociedade civil. Velhos tabus se interpuseram e malograram os propósitos da diminuição da natalidade que poderia ter atenuado hoje o crescimento geométrico da população e da demanda de saúde, de alimento, de emprego, de violência e tantas outras mazelas. O homem continua predador do globo terrestre e da sua própria vida quando, a cada dia, gera competitividade a si mesmo.
Observem o continente africano, com uma gama imensa de pobreza e de carências de todo o tipo. Ali a raça humana se acha em processo de extermínio mesmo, pela fome e pela doença. E os países ainda promovem guerras brutais numa verdadeira e escandalosa carnificina. E qual o divertimento dessa superpopulação oprimida e atrasada: o sexo, a procriação, que substituem ilusoriamente a falta de sustento, de assistência, de remédio, todos subjugados ao talante político de golpistas e demagogos corruptos. Mas, as nações do Novo Mundo, de idiomas espanhol e português, enfrentam as mesmas sobrecargas, migrando para a Europa que já fechou, por sua vez, as porteiras alfandegárias e diplomáticas. Para africanos e asiáticos, idem. As razões defensórias são as mesmas: os estrangeiros solapam e rivalizam o acesso à saúde, ao emprego e ao alimento com os nacionais, além de promoverem tumultos pela conquista de direitos sociais iguais.
O Brasil já supera os duzentos milhões de habitantes. É uma população que já ultrapassa a grandeza da sua dimensão territorial. Isso, por conta dos bolsões de pobreza, de desemprego, criminalidade e saúde pública (federal e estadual) sucateadas. Outro ponto concorrente reside na migração do homem do campo para as áreas metropolitanas. Aí se instala a desordem social, onde tudo que é excesso se transforma em coisa demasiadamente ruim. Quer um exemplo: a quantidade de veículos motorizados, o número crescente de assaltos, rios poluídos, água potável contaminada, escassez de moradias, e por aí vai. Tudo por quê? Porque existe gente demais. O país ignorante e analfabeto não elegeu uma política educacional de controle da natalidade para um desenvolvimento sustentável.
E daí? Tome improvisação e choque de gestão! Medidas oficiais somente paliativas e projetos megalomaníacos. O brasileiro espera sempre pelo milagre da terra, sem prepará-la, contudo, adequadamente, para produzir alimentos. No Rio Grande do Norte, quem está no campo produzindo? Quem deseja mais manter propriedade rural para ser tomada por bandos organizados e oficializados? A economia mundial sofre a pior crise da sua história, face à concentração de riquezas dos que aplicam dinheiro no arriscado mercado de capitais, em detrimento de bilhões de indivíduos marginalizados. Com efeito, levam os governos ao “salvamento” de bancos e empresas gigantescas, tirando das populações empobrecidas o direito ao pão, à saúde e ao teto. O “crescei e multiplicai-vos” foi levado muito ao pé da letra. Como diria um padre amigo meu, “isso aí é uma alegoria...”. Sou a favor da vida, mas é preciso ensinar o povo que botar gente no mundo sem condições de criar, hoje, é burrice e dor.


(*) Escritor.