21 de maio de 2019

O PRIMEIRO CORDEL DE ZÉ SALDANHA




(O Preço do Algodão e o Orgulho do Povo – 1935)
Manuel de Azevedo
Poeta, Professor e Músico
Escrevo a pura verdade,
Do que vi pelos sertões,
Algodão de trezentos réis,
Passou pra cinco tostões,
Pegou um preço alterado,
Chegou até dois cruzados,
Aí, danou-se as confusões.

Decorrem setenta e três anos desses versos publicados. Registro poético da era do “ouro branco” – o algodão, na ótica de um sagaz rapaz, contando à época, dezessete anos, parido das entranhas da Serra de Santana, no Sítio Piató, Santana do Matos, lá onde o Seridó principia.
Noite de São João de 1925, ainda menino, seu pai, Francisco Saldanha da Silva (Chico do Piató), contrata para uma cantoria na casa grande da fazenda, o cantador José Oiticica. Saldanha, aos oito anos de idade, infante alerta aos versos, ouve atentamente o romance, Rosa e Lino – O mal em paga do bem, do Poeta José Melquíades. Tal concentração, desde o início até o fim, impressiona ao cantador, que, dirigindo-se ao seu pai, vaticina: “Esse menino é poeta!”
Crescendo na lida rural dos troncos das serras – comboio de gado, cavalo, cerca de pau e de pedra, artefato de couro, roçado, coivara... - Saldanha tem nos pais, o incentivo às letras. Trabalho ao dia, estudos à noite. Esboçam-se nesses autênticos e nítidos traços sertanejos, o retrato do Poeta matuto, Zé Saldanha.
Santana do Matos, 1935, o cenário é rico. Plantações de algodão, proliferando farturas por todos os rincões. A sanha que abarca o apanhador (homens, mulheres e meninos), o fazendeiro, e o usineiro, aumenta cada vez mais, quando o preço do alvo produto, salta degraus, galgando cumes rapidamente. O dinheiro estufando os bolsos sertanejos dinheiro pra encher pote/ tá, o tamanho do pacote!... Dedé (assim meu pai e os mais próximos o chamavam), empunhando o lápis, em versos, descreve com precisão e simplicidade seu povo, seu tempo e seu espaço.
Nasce o Poeta Cronista, José Saldanha Menezes Sobrinho. Pura literatura de informação. Moeda corrente (Tostão, Contos, Réis, Cruzado). Produtos variados: tecidos finos (seda ambataclã, voales, cambraia fina, cetim de ranã) e o chapéu de lã para as mulheres; o brim de linho para os homens; anéis, brincos e dentes de ouro, brilhantina Manarra, perfume em garrafa Flores de amores, vinho de uva, cachaça Sete Queda, lenços de todas as cores, fita, pente e marrafa.... A pobre camponesa, antes vestindo chita, agora esnoba na moda, vestido e combinação. Maria da velha Aninha/pra toda festa que ia/trocava cinco vestido/antes de amanhecer o dia/isso é dinheiro de algodão/vestido e combinação/tenho que perdi a quantia.
Dinheiro fluindo do velho ao menino, do camponês ao fazendeiro, proporciona poderes a todos: aí, danou-se as confusões...Brigas, tiros, casamentos feitos e desfeitos, poligamia, a soberba e a luxúria, campeando desde a Serra até a Rua, ameaçando até a Igreja Católica. O avô de Saldanha, intervém no cordel, em defesa do evangelho, evocando a profecia nas escrituras:
 Havia uma profecia/de uma tal de Besta Fera/ouvi meu avô dizer:/já está chegando a era/essa Besta sem reprovo/vem dando dinheiro ao povo/e tudo se desespera..
Isso é da escritura / ela dará um estoro / e vem soltando dinheiro / de um maldito tesoro /já vem de idéia pronta / trocando ruzaro de conta / por um ruzaro de ouro.  
Cordel revisado pela professora D. Rita Regina de Macedo Saldanha, sua estimada mãe, está estruturado em 26 setilhas, rimando ABCBDDB, versos de sete sílabas, alguns pés-quebrados. Traz marcas típicas do cordel: o humor (Toinha da véia Joana/magra que só tanajura), na oralidade, a liberdade das concordâncias: verbal (eu já cheguei em lugares/que pocos meninos vai), nominal (cachaça sete-queda), na grafia (ruzaro/rosário, toro/touro, boço/bolso, tesoro/tesouro, pocos/poucos), para atiçar os puristas, as rimas, (demais/paz; touro/namoro/oro...).  Dois pequenos lapsos ao rimar nas setilhas 13 (caseiros / tiros) e 20 (estrato / alto), erros de impressão, a partir da capa, O PEÇO DO ALGUDÃO, mas, por se tratar de uma obra popular, escrita por jovem, sertanejo, nordestino, são argumentos favoráveis ao Poeta - meu conterrâneo – que reforçam tão somente a absolvição ante qualquer pré-julgamento. Prevenindo-se disto, o próprio bardo santanense, trouxe sua pré-defesa nos seus últimos versos, setilhas 24, 25 e 26:
Esse preço do algodão/esquentou o povo demais/obrigou até a mim/escrever termos rivais/com os poucos anos meus/peço proteção a Deus/para viver a vida em paz.
Peço desculpa ao povo/desta minha narração/o primeiro versinho que fiz/sobre o preço do algodão/escrevi a realidade/do que vi desde a cidade/ao interior do sertão.
Peço para desculparem/o menino do papai/aos meus dezessete anos/essa lembrança não sai/sobre termos populares/eu já cheguei em lugares/que pocos meninos vai.
Coroando tal façanha, para rimar com Saldanha, segue este episódio: contou-me em sua casa, o próprio, a saga da edição financiada pelo pai. Às 2 horas da madrugada da quarta-feira, limiar de dezembro de 1935, cavalo esquipado corta o sertão. No matulão 25.000 réis. Meio dia na estrebaria de Santa Cruz do Inharé, agreste potiguar, o cavaleiro-poeta da terra de Oscar Macedo, paga dois Tões pelas custas dos cuidados eqüinos. Na Tipografia Santa Cruz, fecha a empreitada literária de 1.000 folhetos em 20.000 Réis, tendo a palavra de honra sertaneja, como selo, carimbo e assinatura desta transação e o compromisso de entrega, na quarta-feira seguinte, no escritório da Cooperativa de Escrita Comercial em Cerro Corá. Compromisso firmado, compromisso saldado, conforme combinado. Saldanha nem abre o pacote, monta cavalo e risca para o Piató. A alegria do Poeta confirma O Preço do algodão e o orgulho do povo
Santana do Matos, sábado, pátio da feira, Saldanha abre a maleta e recita para os Santanenses com orgulho, seu Primeiro Cordel. Cinco tostões é o preço do folheto. As vendas disparam, até a metade da maleta encerrar o dia. Disse-me ele: “Deu-me um trabalho danado, pra tomar um café”. “Era um bolo de morcego nos bolsos.”
Dia seguinte domingo, feira de Cerro Corá. Muitos folhetos, muitos morcegos nos bolsos. Antes do meio-dia, mais um quarto da tiragem se esvai.  Ainda sobra-lhe tempo e cerca de 200 exemplares para em Currais Novos nesse mesmo dia, vender o último folheto, rendendo-lhe na alma milhares de Réis de felicidade, encerrando a epopéia literária desse expoente da literatura popular brasileira, com mais de mil títulos editados, condecorado com tão justa, singela e honrada comenda de O Mais Velho Poeta Cordelista em Atividade. 

6 de maio de 2019

EM TIBAU DO SUL: os cantos dos últimos suspiros


        Á aproximadamente  90 quilômetros de Natal, entre a Lagoa de Guaraíras e o Oceano Atlântico na Região do Litoral Agreste nasce uma povoação, habitada primitivamente por tribos indígenas com a denominação de Tibau, que significa região entre duas águas.
     Nessa importante e histórica comunidade de uma forte resistência cultural folclórica, ainda podemos ouvir emocionantes e penosos cantos de Inselênça. Um costume introduzido no Brasil pelos negros africanos, uma tradição remanescente do ‘Itambí Africano”, registra o pesquisador Gonçalves Fernandes em “O Folclore Mágico do Nordeste”.
     Inselênça é uma corruptela de Excelência, que pode também ser pronunciada inselência. Canto entoado  á cabeça dos moribundos ou de mortos em velórios que vara a madrugada “fazendo quarto”,  na sala onde está o defunto. Costumam se reunir beatas e cantadoras de benditos em súplica á Virgem Maria e são Benedito, santos de muito prestígio no sertão, para que recebam a alma do moribundo ou morto, dando-lhe um bom lugar no céu. Quando entoados “ante-mortis”, apelam ao moribundo para se arrepender em tempo dos pecados praticados.
      Há uma diferença entre Inselênça e Bendito. O primeiro é uma súplica ao morto, o segundo é um canto de louvor ao santo.
      A tradição popular entende ser uma coisa sagrada que respeita e cumpre todos os princípios do ritual, e , o não cumprimento destes é tido como agravo ou desrespeito ao santo a quem se dirige a súplica da Inselênça. Com a retirada do cadáver para o enterro, no momento em que estão cantando, as cantadeiras costumavam acompanhar o cortejo até o final. Acreditavam que se todo ritual não fosse cumprido, Nossa Senhora permaneceria de joelho, e o espírito, em função desse desrespeito não ganharia a salvação.
      Luiz da Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, diz-nos que eram praticadas com freqüência nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e até em outros Estados do Brasil, Augusto César Pires, em Estudos Etnográficos, Filológicos e Históricos, diz que ainda é possível identificar esse ritual nas regiões do Douro e Minho em Portugal.
     As Inselênças são cantadas sem acompanhamento instrumental e repetem de forma uníssona doze vezes cada canto, iniciados sempre com ‘Uma Inselênça”.... Há vários tipos de Inselências: para chuva, trovoada, tempestade, peste, vento, santos e anjos. Contudo, as mais difundidas no Rio Grande do Norte são para moribundos e mortos.
      Tenho viajado muito em pesquisas por várias regiões do RN, e,  esse tipo de manifestação cultural só foi encontrado em Tibau do Sul. Contudo, pode ainda existir nos grotões do Seridó e Alto Oeste, essa relíquia dos muitos fragmentos folclóricos  herdados do mundo colonizador, cantado nas afinadas vozes das senhoras Biga e Noêmia, uma descoberta do pesquisador Dácio Galvão nas competentes pesquisas realizadas no país de Hélio Galvão, Seu pai. A convite de Dácio fomos a Tibau testemunhar a descoberta desta preciosidade, que logo depois foi registrado em CDs, pelo projeto Toques & Cantares, com Direção Artística e Musical do próprio Dácio Galvão. Foram documentados seis cantos de inselênças para mortos, nas vozes destas importantíssimas artistas da memória popular que em muito engrandece o País de Tibau do Sul.
      Recentemente voltam a brilhar, desta vez um arranjo com três cantos, feito por Sergio Galo da Paraíba, uma releitura com o cantor e compositor Jangai, ilustrando a trilha sonora do filme As Pelejas de Ojuara.                                     
    Severino Vicente.


15 de abril de 2019

O BOLO


Uma história política e que faz parte do meu livro ‘Castelos de Areiamar’, que publiquei em 1984. Qualquer semelhança com a política brasileira não é mera coincidência.  Leiam...

BENÉ CHAVES
                                                                                 
                                   Subiram no palanque...
                                   Luzes distribuídas e olhares de sorrisos. O homem levantou o braço direito dando um soco no espaço nu. Vislumbrou uma multidão incalculável e começou a falar:
                                -Povo de minha terra: sou, a partir deste momento, candidato pela vontade soberana desta querida gente. Sinto que vocês não estão satisfeitos com a situação atual e venho, na hora justa, protestar contra esse estado de coisa. Teremos de derrubar o governo pseudodemocrático que comanda o país, e só podemos fazê-lo com o apoio de vocês. Talvez desta maneira ainda consigamos que o mesmo volte aos seus dias gloriosos. Tenho, portanto, o dever de anunciar-me como candidato nas próximas eleições.
                                   Um barulho de palmas surgiu na extensão da rua iluminada. E aquele homem a mostrar os dentes e fazer exercícios nos braços como se quisesse abraçar alguém. Irromperam, então, ruídos na grande avalanche humana.
                                   -Viva, viva, tá eleito, tá eleito... : algumas vozes eram ouvidas no enorme salão ao ar livre.
                                   Mas, um observador atento comentou para si: são todos iguais, querem o poder e depois... - começou a socar a mão direita (aberta) na esquerda (fechada).
                                   -Precisamos, unidos, lutar contra a opressão, o desemprego, o desestímulo à classe produtora. Confio no vosso voto e hei de cumprir tais promessas.
                                   Gritos e mais gritos saíam de bocas pedintes, estômagos famintos. O interlocutor tomava um copo d'água e distribuía afagos diante de si, a barriga já cheia de comida. Carros com alto-falantes jogavam papéis para a multidão entusiasmada, retratos vários pulavam no meio à massa humana.  Parecia tudo uma euforia dissimulada...
                                   Candidatos outros se seguiram na falação...
                                   Previa-se, contudo, que aquele povo estava sendo repartido, uma fatia devia caber pra cada um naquele novelo ilusório.
                                   Então o homem disse com uma voz seca: temos de dividi-lo certo, você pega o bolo e faz o corte em porções iguais, sem discriminação, nada de sabedorias, pois o gosto a gente sente no final.
                                   Na mesa, portanto, os pratos servidos, uma faca posta para o saboroso trabalho. No centro a atenção dirigida e conseqüentemente atingida.
                                   As comemorações feitas e os pedaços saindo de boca em boca, tragados com alegria e satisfação. Estavam gostosos.
                                   -E, além do mais, - continuou o homem - não estamos aqui pra iludir ninguém, temos um dever a cumprir e sabemos onde meter a mão. (Na certa, meteria no bolso escasso do povo).
                               Disse então: somos conscientes da tarefa que vocês nos entregarão e faremos de tudo para bem servi-los. Uma vida, portanto, com menos sofrimento, pois não possuímos o dom de querer enganar essa sofrida gente - e apontou o polegar na direção da mesma.
                                   Ouviram-se estrondos de um lado e de outro, como se um vulcão estivesse vomitando fogo, o palanque quase indo abaixo com gritos e foguetões.
                                   -Cuidado, vá devagar, não precisa exagerar tanto – rechaçou uma voz comedida.
                                    Na mesa, um vazio... Facas amoladas e o grande prato despido, procurando esconder-se ante uma possível vergonha.
                                   A parte era sua, ninguém colocaria as mãos, ninguém...
                                   Então saiu a tomar um pouco de ar e aproveitou para revê-la melhor, alisá-la e acariciá-la sem desdém.
                                   A distribuição feita: fulano fica na tal posição, sicrano substitui beltrano, este parte para nova investida, etc., etc., contanto que não fiquem insatisfeitos. As fatias não são iguais?
                                   De qualquer maneira se ouviam protestos, uns achando pedaços maiores, menores, outros observando gratificações extras. Houve de viva voz descontentamentos. E ele ali, no meio do salão, a repartir de acordo com sua consciência, embora recebendo críticas e repetindo sozinho: não são iguais? Porém, parece que a igualdade desse homem deixava lacunas...
                                   Abriu então os enormes dentes e abocanhou um pouquinho de ar, completando e gritando desta vez: portanto, meu querido povo, não me decepcione, pois não vos decepcionarei. Juntos, na urna, daremos a nossa resposta.
                                   Um clarim soou no meio da massa humana e todos começaram a dançar, enquanto o orador desviou o olhar e colocou a palma da mão para sussurrar algo aos correligionários.
                                   -Não sei, de uma hora pra outra essa gente pode enxergar melhor, disse o companheiro ao lado, pondo uma dúvida na sua euforia profetizada.
                                   -Que nada!... Vê só uma coisa... E começou a gritar bem forte o seu nome, fazendo eco no infinito. Um uníssono se ouvia.
-Não falei!... São todos assim.
O povo massificado, espoliado, sempre enganado.
                                    Parecia certo da vitória, conseguira ludibriar com um discurso forte e imaginativo, dizendo palavras desonestas, mentindo e fingindo estar ao lado daquela pobre gente inocente.
                                   Diante da situação que instalou na festa organizada para servi-lo e aos seus comparsas, não se tinha a menor dúvida que o citado candidato era um farsante, charlatão. E isso ficou mais que evidente, sobretudo depois das frases de cunho demagógico, pois o que se via eram somente promessas, promessas para iludir aquele povo presente àquela manifestação.
                                   Então, depois, colocou as fatias em cima da mesa e ficou olhando-as durante alguns minutos, o suficiente para lançar uma hipnose. Os outros tentaram comê-las, mas foram impedidos por uma voz firme e grossa que surgiu, deixando-os perplexos. Era o homem, agora desejando saboreá-las todas para si.               
                                   Engoliu apressado os outros pedaços e, sujando-se todo, virou as costas disparando carreira. Sumiu-se ante a suposta indignação dos  companheiros.
                                   Ajoelhou na tábua e começou a chorar, antes desviando o rosto e colocando pingos de colírio nos olhos. Ninguém notara tamanha habilidade, estavam pulando e gritando na proposital euforia.
                                   Recomeçou a falação:
                                   -Tudo que desejo é ser amado pela minha querida gente, não consigo viver sem ela - e com um lenço branco enxugou algumas gotas da face. Lágrimas de colírio.
                                   Desceu, então, o patamar e viu as formas variadas de fatias à sua frente, queria juntá-las sozinho, enquanto os de trás ficaram golpeando-as em partes iguais. Encolheu-se retraído e esperou qualquer resolução, o bolo a admirá-lo na esperteza. E ouviu intrigado uma voz insistir que a conscientização era a meta principal daquele enorme novelo.
                                   Houve certo abalo nas arestas ali sedimentadas e uma incerteza, a multidão já fatigada e explorada da forma mais bestial possível. Era notório que o homem a tinha logrado com suas constantes mudanças. 
                                    Do céu as estrelas faiscavam a grande praça aberta, enquanto cá embaixo um silêncio profundo. As pessoas ficaram abobalhadas olhando o palanque vazio e sentiram na carne o reconhecimento de terem sido enganadas. Aquilo tudo era um engodo, é ainda uma isca.
                                   Apartearam-se, portanto, e se dividiram em blocos disformes, deixando um labirinto de difícil acesso. Aí a situação se complicou e não mais serviriam de sustentáculo para ninguém. Sabia-se que a ambição daquele homem tinha ultrapassado o senso normal.
                              Então, naquele exato momento, as fatias recolheram-se caladas, não se enganariam de serem repartidas, engolidas. Estariam, portanto, firmes na intenção de não atenderem a qualquer chamamento, livres da sujeira programada. Libertas daquele (e de outros) político mal-intencionado.
                                  
                   


     

11 de abril de 2019

O ANTES E O DEPOIS


 Bené Chaves

            Bem que sua mãe dissera: um menino bonitão e querido. As mocinhas se inquietavam com sua presença. Desde cedo com as manias não sei de quem. Cresceu neste diapasão.
            Tartamudeou uma frase mal ouvida e apertou-a contra si. Não a frase e sim a jovem moça que segurou seu braço e evitou uma aproximação mais ousada. Ali, tido como um rapaz conquistador, de vez em vez aparecia e parecia se mostrar. Ajeitava-se sempre ao espelho e ficava quase uma hora alisando o cabelo ensebado na brilhantina. Um narcisista.
- Vamos, deixe de ser boba – puxando a alça frouxa ao ombro.
- Não, não, você tá doido?  - a moça enfiando os olhos no chão.
O tempo inteiro lutando, uma angustiada e desesperada batalha se travava entre eles, às vezes chegavam a rolar pelo encerado, vestes rasgadas, violência no aconchego. Ela um tanto difícil, não via muito esse lado, ele um sujeito tipo dom juan, amedrontava uma cidade inteira. As mulheres apavoradas, no bom sentido.
- Que é isso, você não me conhece?
- Conheço sim.
- Então!...
- Também você só pensa nessas coisas...
- História sua, não só penso nisso não.
- Tá bom, tá bom...      
Arrumou-se e saiu desconcertada, era muito tarde. Abriu a porta e disse ao pai, me atrasei hoje, um serviço extra apareceu, o velho a olhá-la com o rabo do olho. Subiu e trancou-se no banheiro a lavar-se com sofreguidão, depois deitando na cama a se emaranhar no travesseiro. 
O dia seguinte foi sem novidades, um bom-dia pros amigos e sempre o jeitão de rapaz conquistador. Sentou-se numa cadeira e começou a rodar um lápis com os dedos, imaginando-se senhor de atrações. As máquinas, contudo, metralhavam papéis: indignou-se e saiu.
 “Mulher é sexo”, dizia pra si enquanto caminhava a meter os olhos nos corpos femininos e sacudidos. Soltava uma piada e se fazia sisudo olhando sério pra frente. Um sujeito, claro, mulherengo e também gozador.
Seguidamente arranjava uma companheira, diziam ser um furor na cama, já agora com a idade de quarenta e tantos anos. No quarto, uma afeição, uma tapeação. Fora, outra cara, vivendo a tentar seduzir todas as mulheres bonitas do bairro. Quer dizer: era de mão cheia. Não deixava passar uma.
Mas, com o passar do tempo, o seu domjuanismo foi sumindo, perdia conquistas, não sustentava dias seguidos, três por semana. E olhe lá, nem tanto. Ficava enfurecido com tal situação. Saiu cedo de casa e sentou-se num banco do jardim público. Parecia chateado a bater com a mão na tábua. A idade lhe batendo no rosto.
- Oi, que que há, esperando alguém?
- Opa!, Você por aqui?
- Ia passando, coincidência, não? - e a mulher alisou o cabelo.
- Tá apressada? Senta... – disse ele amaciando o queixo.
- Você, o que anda fazendo? – sentou-se distante dele.
- Na mesma vidinha de sempre, uma aqui, outra ali...
- Uma aqui o quê?
- Mulher, ora! – e tentou aproximar-se.
- Bem, acho que já vou...
- Tão cedo assim?
- Mamãe me espera pra umas compras, até outra vez.
Ficou de olho grudado no traseiro da moça e no final viu uma pequena bola circulando seu globo ocular. Reconheceu-se um pouco velho, as mulheres enjeitando sua fisionomia meio enrugada, ele sozinho lembrando com tristeza a vida de outrora. Vidona boa, potente! Sem resguardos.
Resolveu ir pra casa, entrou e foi pro aposento. Quando menos esperou olhou-se no espelho e estava de cabelos brancos: assustou-se. Virou para o lado e se deixou cair na cama com lassidão.
            Vez ou outra, porém, não esmorecia, conquistava com a lábia atrevida alguma mulher que surgisse. Uma noite saiu com uma de fazer inveja aos jovens, inclusive a mim também. Estava ele a olhar uns rapazes nalguma manifestação quando notou alguém aproximar-se:
- Olá velhote, tudo bem?
- Ah!, oh!, quem é? Mais ou menos, mais ou menos.
Diante daquela bela jovem ao seu lado, levou-a para casa. Tinha feito no dia anterior oitenta anos bem vividos. E jurou consigo mesmo: homem que é homem morre de pau duro.
  Talvez a mulher quisesse fantasiar algo com ele, parecia disposta, o mesmo a deitar-se nu e suspirando de contentamento, o coração disparando. Deu um fungado rouco e longo, adormecendo em cima da jovem rapariga. Não suportou imensa emoção.
  Então, ela jogou-o de lado e tentou reanimá-lo. Gritou desesperada. Ele ali, estirado na cama, com o possuído ereto. E teria dito horas antes balbuciando para si: “Morro, mas morro satisfeito”.         
      No velório algumas pessoas riam diante de uma saliência dentre suas pernas.

9 de abril de 2019

OS JESUÍTAS


Claudionor Barroso Barbalho
Historiador (Prof. UFRN)
claudionorbarbalho1946@hotmail.com

Primeiro chegaram os padres Francisco Xavier, Pedro Fábio, Simão Dias e outros entusiastas da mesma idéia do fundador Inácio de Loyola em 1549, a Companhia de Jesus, Ordem Religiosa que se incorporava a Igreja, todos eles eram pessoas de espíritos forjados na rija têmpera do fundador da Ordem que chegou ao Brasil com o Governador Geral Tomé de Souza. Com a falência do Sistema de Capitanias Hereditárias criadas por D. João III  e que planejava colonizar as terras de Santa Cruz, “foi num 23 de março de 1549 que chegou ao Brasil no séqüito do primeiro Governador Geral, os padres Manoel da Nóbrega, Antonio Pires, Leonardo Nunes, João de Azpilcueta Navarro e outros... (1)
Aqui na Capitania do Rio Grande do Norte, doada a João de Barros, a quem se associaram Fernando Álvares de Andrade e Aires da Cunha, ficaram as terras por muitos anos entregues aos indos e piratas franceses. “O Rio Grande do Norte virou o quartel general dos franceses, que, souberam conquistar a amizade e a aliança com os potiguares”. (2)  E assim, ficava      em perigo o governo português, enquanto a Paraíba sentia-se ameaçada por tão terríveis vizinhos. Repetiam-se roubos e abordagens aos navios que iam e vinham da metrópole.
O governo embora mais tardiamente, tomou todas as suas providências através de Cartas Régias datadas de 9 de novembro de 1596, destinadas ao Governador Geral D. Francisco de Souza e aos capitães-mores da Província da Paraíba, Manoel de Mascarenhas Homem e Feliciano Correia, que por sua vez, apressaram as execuções das importantes medidas, incluindo-se as autorizações das despesas para realização das emanadas de Portugal.
Vieram por mar seis navios e cinco caravelas com o Capitão-Mor Francisco de Barros Rego e o Almirante Antonio Costa Valente e por terra, Manoel Mascarenhas Homem, tendo como Capitães de Companhias Jerônimo de Albuquerque Maranhão, Jorge, seu irmão, e Manoel Leitão.
Aqui na Capitania, Mascarenhas incorporou-se à esquadra, assumindo o posto de Comando, em seguida chegava à expedição vindo da Paraíba sob as ordens de Feliciano Coelho, que também ficara sob o comando de Mascarenhas Homem. Foi neste período turbulento em que as forças portuguesas reuniam-se, no intuito de expulsar os franceses da costa do Rio Grande do Norte, que os missionários jesuítas chegaram a Capitania. Entre eles, o padre Francisco de Lemos e Gaspar de Samperes, este engenheiro e arquiteto, que logo, viria a projetar e construir o Forte dos Reis Magos; dentre os padres, também vieram o Frei João de S. Miguel e o Padre Francisco Pinto. Satisfazendo as intenções da Coroa lusitana, os protagonistas, um a um, reformaram as suas origens, ciosos do dever cumprido, e mantendo a soberania aqui na Capitania.
As Missões - A primeira missão em regra, partiu do Colégio de Olinda, ao Rio Grande do Norte em 1605, e por mar; no ano seguinte repetiu-se a missão, por terra, com os Padres Diogo Nunes e André de Soveral”. (3)
Foram recebidos por todos os lugares da Capitania com grande alegria, tanto pelos portugueses, como pelos índios. Os portugueses porque se achavam carentes de consolo e deprimidos pela saudade da terra natal e agora, tinham com quem se aconselhar, conversar e se confessar. E os indígenas que se convenceram da esperança de liberdade, que eles certamente não pretendiam perder. E que agora vendo que os missionários eram defensores de suas liberdades, não havia motivos para fugirem para o interior, ou seja, a presença dos padres era a garantia e a certeza de suas pretensões.
 O Padre Serafim Leite descreve ainda que na sede da Vila (hoje Natal) eles permaneceram quatro dias, a pedido dos moradores, para administrar sacramentos. Depois partiram para as aldeias. “Chegaram a uma, que era governada por uma índia cristã, ‘que podia dar exemplo aos melhores governantes quer no respeito dos súditos, como na paz da República’.
Chamava-se Antônia. Foi tal o seu prazer que ao saber a ida dos Padres à sua Aldeia, não consentiu fossem pelo carreiro tortuoso do costume, senão que mandou abrir um caminho em linha reta, à força de braços e de ferro, e veio recebê-los a “15000” passos da Aldeia, com os seus presentes. Antônia
Potiguar, a índia “governadora” da Aldeia, regulou nesta visita o seu estado matrimonial, com o homem que tinha escolhido e com quem já vivia”. (4)
Antônia Potiguar ficou famosa E sua Aldeia, a Aldeia de Antonia, perto da Lagoa de Guaraíras, é uma das poucas referências topográficas, na fundação do Rio Grande do Norte.
É importante se observar que a Aldeia de Antonia Potiguar é o primeiro ponto de referência, com respeito à fundação de Arez. Foi a partir deste episódio ímpar, que a Companhia de Jesus enviou em 17 de junho de 1610, os padres: Diogo de Barros e Antônio Alcântara Lisboa (5), e o português Manoel Rodrigues de Souza Forte, acompanhado de sua esposa, dos filhos, e quatro escravos para ajudar no amanho da terra e na construção de uma capelinha que deveria servir para celebrar a missa e, de sala de aula para as crianças índias, assim como, sementes as mais variadas, no sentido de abastecer as necessidades daquele grupo que vinha para ficar e fazer a ereção das cruzes e catequizar os gentios. No ano seguinte vieram outras levas mais numerosas que a primeira. (6)
O historiador Nestor dos Santos Lima escreveu na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte -IHGRN, o artigo intitulado Arez - o Município, onde aquele ilustre pesquisador menciona que Arez tem suas raízes e origens no aldeamento de Guaraíras, tendo como chefe o índio Jacumaúma e que é a mesma antiga aldeia de Antônia Potiguar. (7)
Na data (86) aparece pela primeira vez o nome Jacumahuba a meia légua de terra do Rio Jacu.


1) Serafim Leite. S.J. –  História da Companhia de Jesus no Brasil, Vol. I, pág.19
2) Frei Vicente do Salvador - História do Brasil, pág. 359
3) - Serafim Leite - História da Companhia de Jesus no Brasil, Tomo V, livro I, pág.507
4) - Serafim Leite - História da Companhia de Jesus no Brasil, Tomo V, livro I, pág.507
5) - Cartas dos Jesuítas acerca de informação das terras no Brasil
6) - Carta do Superior da Aldeia de Guaraíras ao Superior de Portugal (arquivo de Évora,  Portugal)
7) - Arez Município, pág. 123