13 de novembro de 2018

ADEN promove corrida no Bairro




Agência Para o Desenvolvimento de Natal - ADEN, que tem como Diretor Geral José Wili Faustino da Silva, promove no dia 17 de novembro deste ano a 2.ª Corrida do Bairro do Planalto, edição novembro azul, em prol das crianças com Microcefalia.  A concentração será na Feira do Bairro e o início da competição está marcado para as 15 horas.  O percurso é de 5 a 9 km, com premiações de troféus para o primeiro, segundo e terceiro colocados.  Estão sendo inscritos pessoas de ambos os sexo e o evento é dividido em quatro faixas etárias, 18 a 29 - 30 a 39- 40 a 49 – 50 a 60 anos acima.
          O projeto da ADEN busca uma maior participação dos moradores do bairro Planalto e teve seu início em 21 de junho 2013. O objetivo é promover a prática esportiva através das estruturas existentes, ajudando na construção da cidadania e a melhoria da qualidade de vida da comunidade.  Tem outros programas como: Escola de Futebol de Campo, categorias, Mirim e Infantil-Juvenil, com atletas de 09 a 16 anos, que atende 30 crianças/adolescentes.
Tem também como missão o desenvolvimento econômico e social do bairro Planalto e o combate à pobreza. Conta com programas desenvolvidos na área social, saúde, educação, esporte, formação profissional e segurança alimentar. Atua com assistência à maternidade, infância, adolescência, família, portadores de necessidades especiais e a terceira idade. É uma organização que  distribui projetos que colaboram para o desenvolvimento integral do indivíduo, os tornando agentes de transformação social.
ADEN foi fundada em 2013, no bairro Planalto. O primeiro projeto se deu com a Escolinha de Futebol: ”Desafiando Gigantes”, participando  60 crianças e adolescentes. Funcionando aos sábados das 7 às 9h, e 30 alunos, dividido em duas turmas. Uma formada com crianças de 7 a 10 anos, e outra de 11 a 14 anos. O projeto atende jovens do Lenigrado, localidade com maior índice de criminalidade do bairro. São feitos com estes adolescentes um trabalho muito saudável, com participação em campeonato promovido pela Secretária de Esporte do Estado do Rio Grande do Norte.
Todos estes programas contribuem socialmente com o desenvolvimento de vários públicos na localidade. Em 2015 iniciou-se um projeto em parceria, com a Igreja Evangélica Assembléia de Deus, que tinha por denominação: AMAR – Assembleianos Mirins em Ação de Resgate, voltado para o publico infantil. Permitia às crianças de 7 a 12 anos, práticas de ordem unida, valorização do patriotismo, exercício da cidadania, através do ensino da Bíblia Sagrada.
No mês de maio do ano de 2017 foi iniciado, o projeto de Zumba com as mulheres no bairro Planalto. No inicio eram 10 mulheres e no mês seguinte, o projeto já contava com a participação de 50. Com aulas de danças, que ocorrem duas vezes por semana, no período da noite. Inicialmente o projeto era realizado na quadra de uma escola. Atualmente funciona na sede da associação do bairro Planalto.
         A Pedalada pela PAZ foi iniciada pela primeira vez no dia 21 de março de 2016. O objetivo do evento, além de despertar a comunidade local pelo sossego, também busca florescer o sentimento pelo esporte nos moradores da comunidade. A interação entre pais e filhos, buscando a melhor qualidade de vida no bairro, desassistido pelo poder público.
No ano de 2017 foi realizado um curso de corte de cabelo em parceria com a Agência de Educação para o Desenvolvimento do Rio Grande do Norte – ADERN. O curso iniciou com cinqüenta participantes de ambos os sexos, os quais tiveram uma formação de 60h, em corte de cabelo e escova. Ao final do curso houve o recebimento de certificados de 41 alunos.
    Na primeira corrida no bairro Planalto, no ano passado, Agencia contou também com apresentações de Zumba; capoeira; bandas musicais; barraca de massagem, e um espaço kids, o qual contava com: pula-a-pula, distribuição de algodão doce, sucos, e kits fruta. Tudo distribuído gratuitamente e aberto ao público. Além disso, os 140 inscritos na corrida tinham direito a camisa e a premiações.
       Wile da ADEN diz que muitos outros projetos foram desenvolvidos ao longo desses cinco anos de atuação. “É válido acrescentar que todas as atividades foram desenvolvidas com muito esforço. E para podermos continuar ofertando trabalhos no bairro do Planalto é de grande valia o recebimento de apoio e patrocínio para esses eventos.” Conclui.


31 de outubro de 2018

Fotografia e história: algumas reflexões


                Do alto da torre da Igreja Matriz - Rua da Conceição - Fotos: cedidas
                Do alto da torre da Igreja Matriz - Rua Santo Antônio
                                                                                                 Foto: Luciano Capistrano                    

Luciano Capistrano
Professor e Historiador
“De todos os meios de expressão, a fotografia é o
único que fixa para sempre o instante preciso e transi-
tório. Nós, fotógrafos, lidamos com coisas que estão continuamente
desaparecendo e, uma vez desaparecidas, não há mecanismo no mundo
capaz de fazê-las voltar. Não podemos revelar ou copiar a memória.”
(Henri Cartier-Bresson)

            Em minhas idas e vindas aos sebos, me deparei no Sebo Vermelho com o livro de João Maurício Fernandes Miranda - arquiteto urbanista, professor da UFRN, ocupou diversos cargos públicos, em órgãos de planejamento urbano, na cidade do Natal/RN -, “Evolução urbana de Natal em 400 anos: 1599-1999”. Eu recém nomeado historiador da Secretaria do meio ambiente de Natal, “garimpava” tudo que se relacionava a história urbana, pulsava em mim, o desejo de saber dessa história da cidade, minha nova função exigia este conhecimento.
            Leitura agradável, com informações importantes para compreensão dos caminhos trilhados pela cidade de Câmara Cascudo. A partir dessa obra de João Maurício, me chamou a atenção outro livro de sua autoria, “380 anos de história fotográfica da cidade de Natal: 1599/1979”, passei, então, a catar nos diversos sebos da cidade o tão desejado livro.
            Em uma tarde despretensiosa, a bela surpresa, ao acessar o site da Estante Virtual, especializado em livros usados, me deparo com um exemplar, rapidamente realizo a compra virtual, enfim, tenho o livro em minhas mãos.
            Bom faço este relato com a finalidade de convidar meu caro leitor, minha cara leitora, para, neste curto artigo, fazer algumas reflexões sobre fotografia e história, motivado, por duas das minhas paixões: a fotografia e a história. Em seu livro, João Maurício, faz uma viagem sobre a Natal a partir da fotografia, nesses “380 anos  de história fotográfica”, as fotos são postas no livro, fazendo um contraponto entre “o ontem e o hoje”, são imagens da Natal do início do século XX e final da década de 1970, uma verdadeira narrativa visual da cidade. A fotografia faz parte do cotidiano presente:
O impacto cultural da fotografia sobre os últimos cento e cinquenta anos, tanto em si mesma, quanto na forma da imagem visual em movimento a que ela também deu origem, tem sido imenso, alterando completamente o ambiente visual e os meios de troca de informação de uma grande parte da população do globo. (GASKELL, Ivan. História da imagem In BURKE, Peter (Org.). A escrita da história, São Paulo, 1992, p. 241)
            No fazer histórico o uso da fotografia tem ao longo do tempo ganhado espaço na produção historiográfica. A evolução tecnológica e o impulso das mídias digitais possibilitaram o acesso a diversas fontes de pesquisa com a diversidade dos tipos de documentos, são um ganho dos tempos modernos. Vejamos:

A iconografia fotográfica diz respeito a partes ou ao conjunto da documentação pública ou privada que abrange um largo espectro temático, produzida em lugares e períodos determinados. As fontes que compõem são meios de conhecimento: registros visuais que gravam microaspectos dos cenários, personagens e fatos; daí sua força documental e expressiva, elementos de fixação da memória histórica individual e coletiva. Em função de tais características, constituem documentos decisivos para a reconstituição histórica. (KOSSOY, Boris. Os tempos da fotografia: O efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2007, p. 34-35)

            As fotografias são narrativas, sejam em “álbuns públicos ou privados, a serem interpretadas por historiadores/pesquisadores, assim, a obra de João Maurício, traz em suas páginas uma narrativa da cidade de Natal através de um rico acervo fotográfico. São imagens de uma cidade “localizada” em determinado tempo, e, podemos aferir a partir deste “380 anos  de história fotográfica”, elementos fazedores da urbe. Como, exemplo, reproduzo, abaixo, algumas fotos pinçadas do livro supra citado.
           

1 – foto  

            As imagens compõem narrativas silenciosas, estão a espera de intérpretes, daqueles que retiraram delas seus significados. Claro que este caminho não é uma tarefa fácil. Existe um percurso a ser vencido. O olhar do historiador, é o olhar do pesquisador, atento as partes determinantes do documento, e munido desses instrumentos, se faz o caminhar historiográfico. Recorremos, de novo, ao historiador Boris Kossoy, pioneiro nessa temática:

Contudo, a imagem fotográfica é fixa, congelada na sua condição documental. Não raro nos defrontamos com sua condição documental. Não raro nos defrontamos com imagens que a história oficial, a imprensa, ou grupos interessados se encarregaram de atribuir um determinado significado com o propósito de criarem realidades e verdades. Cabe aos historiadores e especialistas no estudo das imagens, a tarefa de desmontagem de construções ideológicas materializadas em testemunhos fotográficos. Decifrar a realidade interior das representações fotográficas, seus significados ocultos, suas tramas, realidades e ficções, as finalidades para as quais foram produzidas é a tarefa fundamental a ser empreendida. (KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica: O efêmero e o perpétuo. Cotia: Ateliê Editorial, 2012, p. 22-23)

2 – foto  

            Ao aproximar do fim, chamo a atenção para a importância de vê a fotografia como um documento histórico, neste sentido, temos de termos diante dessa importante fonte histórica a mesma postura assumida de antes de outros tipos de documentos, devemos ao explorar os caminhos inerentes a historiografia manter os cuidados particulares do pesquisador.  Pensar a fotografia, enquanto fonte, requer a compreensão da sua trajetória, pois:

Toda fotografia tem atrás de si uma história. Olhar para uma fotografia do passado e refletir sobre a trajetória por ela percorrida é situá-la em pelo menos três estágios bem definidos que marcaram sua existência. Em primeiro lugar houve uma intenção para que ela existisse; esta pode ter partido do próprio fotógrafo que se viu motivado a registrar determinado tema do real ou de um terceiro que o incumbiu para a tarefa. Em decorrência desta intenção teve lugar o segundo estágio: o ato do registro que deu origem à materialização da fotografia. Finalmente, o terceiro estágio: os caminhos percorridos por esta fotografia, as vicissitudes por que passou, as mãos que a dedicaram, o solhos que a viram, as emoções que despertou, os porta-retratos que a emolduraram, os álbuns que a guardaram, os porões e sótãos que a enterraram, as mãos que a salvaram. Neste caso seu conteúdo se manteve, nele o tempo parou. As expressões ainda são as mesmas. Apenas o artefato, no seu todo, envelheceu. (KOSSOY, Boris. Fotografia e história. São Paulo: Editora Ática, 1989, p. 29)

3 – foto  

Fotografia e história: algumas reflexões, antes de um artigo conclusivo, não tem essa pretensão, busca fazer uma reflexão sobre fotografia e história, em um contínuo pensar sobre as possibilidades dos “vestígios”  deixados em “álbuns” para a historiografia. Finalizo, então, com um pecado poético e uma fotografia, que seja um convite à reflexão.



4 – foto  


19 de outubro de 2018

Escravidão: Um convite à reflexão


                                                                           Darcy Ribeiro - foto: divulgação

Luciano Capistrano
Professor e Historiador

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...
(O Navio Negreiro - Castro Alves)

            A sociedade brasileira traz na sua formação a triste nódoa de ter seus pilares fundadores, erguidos em fundamentos escravocratas. O processo de construção da nação brasileira, carrega, assim, o peso de ser porto de chegada de negros, vítimas da diáspora não desejada. A engrenagem montada por “civilizados” lusitanos, nas palavras de Darcy Ribeiro, criaram, neste lado do Atlântico, uma “máquina de moer gente”.
            Existe uma frágil ideia, muito mais na tentativa de naturalizar ou amenizar o modelo de escravidão ibérico, de se fazer uma referência a escravidão realizada por africanos. Apesar das dificuldades em conceituar a escravidão africana, a historiografia caminhando de mãos dadas com outros campos do saber, aponta para as particularidades das diversas comunidades existentes, naquele continente, no período em que situa-se o “empreendimento colonial”. As diferenças entre o modelo escravocrata português e das comunidades africanas são bem claras:
Não é correto afirmar que “africanos” escravizavam “africanos” para vendê-los como escravos. A consciência coletiva de uma identidade continental entre os povos das nações africanas surgiu apenas no século XX, no momento de sua emancipação frente aos europeus. Até então, o sentimento de identidade não ia além da comunidade de aldeia, da linhagem, grupo tribal ou, no máximo, grupo linguístico.
[...]
Costuma-se designar o tipo de cativeiro praticado na África de “escravidão de linhagem”. Sua finalidade não era exploração econômica em larga escala, e também a perda de liberdade pessoal não era completa, pois os cativos permaneciam integrados ao grupo social dos vendedores. (MACEDO, José Rivair. História da África. São Paulo: Editora Contexto, p.101, 2013)

            O processo de colonização empreendido pela Coroa Portuguesa teve como característica a degradação humana, aqui nos trópicos, os verdes canaviais e as cores reluzentes das minas, expandiram as fronteiras da economia real, com o sangue do negro escravizado. Aqui se estabeleceu a escravidão, enquanto, sistema econômico. Toda uma cadeia de atividades socio-económica foi fruto do modelo de utilização da mão-de-obra escrava.
            A sociedade brasileira tem em todas as suas instituições uma pesada herança colonial, pois, os tempos da “escravidão legal”, criou no imaginário social a ideia do “trabalho como algo indigno”, ou  visto como uma desprezível condição de inferioridade social.
Na Bahia, no início do século XIX, os escravos que trabalhavam como carregadores ou em outras profissões, eram o único sustento de famílias inteiras, que nada faziam. O trabalho, na realidade era considerado, pelas pessoas livres, algo de desonroso e digno apenas de servos. [...] No Brasil, a escravatura era muito mais do que uma instituição econômica, já que a propriedade de escravos não só era lucrativa, como também elevava o status do proprietário aos olhos dos outros. (CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravidão no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, p.14-15, 1978)


            Ao trazer à baila essa temática, o faço, de forma provocadora, no sentido, da necessária reflexão sobre um tema tão caro para a compreensão do que seja o povo brasileiro, uma nação resultado do encontros de civilizações, distintas, a europeia, a dos povos indígenas e a africana. Nas palavras de Darcy Ribeiro:
Nenhum povo que passasse por isso como uma rotina de vida, sairia dela sem ficar marcado indelevelmente. Todos nós brasileiros somos carne da carne daqueles pretos e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. [...] A mais terrível de nossa herança é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista. Ela é que incandesce ainda hoje, em tantas autoridades brasileiras predisposta a torturar, seviciar e machucar os pobres que lhes caem ás mãos. Ela, porém, provocando crescentes indignação nos dará forças amanhã para conter os processos e criar aqui uma sociedade solidária. (RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, p 120, 1995)

            Finalizo, este curto artigo, com os versos do poeta Castro Alves, como um convite à reflexão sobre os caminhos e descaminhos da formação do Brasil.

Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…
Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
(O Navio Negreiro - Castro Alves)




9 de outubro de 2018

O cinema em Mossoró


                                                                                                 Cine Pax
           
           Embora Natal tenha uma intensa e bonita história da presença da arte cinematográfica na capital, Mossoró também não deixou de marcar sua presença pioneira (v. primeira eleitora no Brasil, libertação dos escravos antes da Lei Áurea da Princesa Isabel) no setor. Veja-se bem: o primeiro cinema a existir no Rio Grande do Norte foi em Mossoró. Muito cedo, aliás, quase na infância da 7ª Arte, em 1908, Francisco Ricarte de Freitas inaugurou naquela cidade seu Cine-Teatro Dr. Almeida Castro.
           Quando começavam a espocar foguetões na praça do Almeida Castro, era sinal de que a fita havia chegado de Aracati; à noite haveria sessão de cinema – relembrou Lauro da Escóssia no livro “Memórias de um Jornalista de Província.” O Cine Almeida Castro, aliás, foi o primeiro que exibiu filme falado na capital do Oeste, o que ocorreu a 22 de novembro de 1933, apresentando a película “Ama-me Esta Noite”, com o ator e cantor Maurice Chevalier e a atriz Jeanethe McDonald. Outros cinemas mossoroenses foram:
            Cine Ferreira Chaves, inaugurado por J.Soeiros à Rua do Comércio (hoje, Rua Vicente Sabóia). Este cinema passou a ser chamado Cine Politeama quando José Vasconcelos e Antônio Filgueira o adquiriram. Em 1925, Bonifácio Costa e Cornélio Mendes inauguraram à Rua João Pessoa o Cine Glória, cujos proprietários deixaram existir “uma segunda classe, ao relento, por trás de sua tela. O letreiro aparecia pelo avesso”, e então os espectadores (e eram muitos) resolveram contratar um professor para ler as legendas em voz alta.
           Depois do Glória, foi a vez do Cine-Teatro Pax, de propriedade da empresa Cine-Teatro Mossoró S/A (Jorge de Albuquerque Pinto), localizado à Praça Rodolfo Fernandes, e inaugurado a 23 de janeiro de 1943 com o filme “A Formosa Bandida”. O Pax foi inaugurado com 1.200 cadeiras. Em entrevista concedida ao suplemento “Domingo”, do Jornal de Fato, edição 225, de 5 de novembro de 2006, o então proprietário do Pax, Luiz Pinto, revelou que os filmes que mais lotaram o cinema foram “Os Dez Mandamentos”, “O Ébrio”, e “Dio Como Te Amo.”
           Na reportagem “Decadência do cinema em Mossoró”, publicada no jornal natalense O Poti (edição de domingo, 22 de outubro de 1995), Emery Costa faz o levantamento histórico de todos os cinemas que existiram em Mossoró. Pelo qual, fica-se sabendo que após o Pax, veio o Cine Déa, no ano de 1944, de propriedade de José de Oliveira Costa, e gerenciado por José Moreira. Emery registra: “Em 28 de maio de 1955, o Cine Caiçara, inaugurado por Renato Costa, que dotaria ainda a cidade de um cinema de bairro, o Jandaia, à Avenida Alberto Maranhão.”
         Houve ainda o Cine São José, no bairro Paredões, por iniciativa de “José Bedéo”. Segundo o levantamento histórico de Emery, houve ainda o Cinema Rivoli, à Avenida Rio Branco, de propriedade de Lenilton Moreira Maia, e inaugurado em 1962 com o filme “Pecados de Amor”. A 22 de julho de 1964, foi inaugurado o Cine Cid, de um grupo liderado pelo político e empresário Dix-Huit Rosado. O primeiro filme apresentado foi “O Candelabro Italiano”. O Cine Centenário e o Cine Imperial foram os últimos cinemas de rua em Mossoró. 

8 de outubro de 2018

Interface do espectador dos antigos cinemas natalenses


                                                                                            Teatro Alberto Maranhão

Anchieta Fernandes

            Embora o século passado  (século 20) tenha recebido impactos influenciadores de outros segmentos culturais, nenhum destes segmentos conseguiu superar a influência do cinema. A chamada Sétima Arte nos deu a chance maior de conscientização, ao passar por seu crivo as ações corajosas ou covardes dos homens, as problemáticas sociais, as belezas criadas pelos artistas, os movimentos instintivos dos animais, as explosões fenomênicas da Natureza. A primeira vez que a História do Cinema em Natal foi registrada pelo suplemento Nós do RN foi no nº 13, de dezembro de 2005.
             Uma segunda vez foi no nº 52, de agosto de 2009, onde foi contada exclusivamente a história do primeiro cinema a existir na cidade, o Cinema Natal, que não tinha prédio próprio, funcionando no interior do então Teatro Carlos Gomes (atual Teatro Alberto Maranhão). Portanto, a história dos chamados cinemas de rua natalenses já está um pouco fixada nas páginas destes números mencionados. O que desejo comunicar agora aos leitores do suplemento, são detalhes do relacionamento das pessoas com os cinemas e com os filmes vistos em velhos e novos cinemas da capital norte-riograndense.
           Primeiro, o susto e o deslumbramento mesmo ainda antes dos cinemas. Naquela noite de sábado, 16 de abril de 1898, Nicolau Maria Parente, que chegara à cidade com um estranho aparelho chamado cinematógrafo, fez com que, da projeção de luz do aparelho na parede de um depósito de açúcar, começassem a se animar fotografias. Alguns espectadores quiseram correr com medo, ao verem uma locomotiva vindo em toda disparada daquele foco de luz, em risco de “atropelar” perigosamente as pessoas (era o pequeno filme “A Chegada do Trem”, de Luis Lumière, um dos inventores do cinema.

Do Politeama ao São Pedro

          Algum tempo depois, foi a inauguração do primeiro cinema em prédio próprio. Era o tempo do governador Alberto Maranhão, um jovem administrador, que revolucionou a fisionomia urbana de Natal, inaugurando a luz elétrica da cidade a 02 de outubro de 1911. O Cinema Politeama, a primeira casa de espetáculos construída especificamente para mostrar filmes, em Natal, foi inaugurado a 08 de dezembro do mesmo ano. O nome fora escolhido através de concurso no jornal A República, por sugestão do leitor do jornal Orículo Silva, que como prêmio ganhou ingresso aos filmes durante um mês.
               O primeiro cinema do bairro Cidade Alta, o Royal Cinema, foi inaugurado entre as ruas Vigário Bartolomeu e Ulisses Caldas, na segunda-feira, dia 13 de outubro de 1913. Na época, a direção do novo cinema já se preocupava com a poluição ambiental, pois nas paredes tinha um aviso proibindo fumar no recinto do cinema. Mas alguns espectadores não ligavam ao aviso e continuavam tirando suas baforadas. Quando chegava o São João, a meninada, com algazarra, provocava mais fumaça queimando traques e bombas, além de cobrinhas que corriam às vezes para debaixo das saias das espectadoras.
              O Teatro Carlos Gomes, que já abrigara em seu interior o Cinema Natal, passou a ser mesmo cinema a partir de 13 de outubro de 1928, um sábado, com o título Cine-Teatro Carlos Gomes. As crianças natalenses tiveram um motivo para irem ao cine-teatro a 24 de abril de 1932. É que, neste dia, com a apresentação de um filme publicitário sobre o inseticida Flit (aquele do “soldadinho na lata amarela com a faixa preta”), as crianças que ali compareceram ganharam soldadinhos de brinquedo (os famosos “soldadinhos de chumbo” que fizeram a alegria de tantos meninos de outras épocas).
                Adultos também ganhavam brindes nos cinemas. Do cinema Rex, na Cidade Alta, inaugurado a 18 de julho de 1936, pode-se tirar exemplos desta distribuição de brindes. As mulheres que foram ao cinema a 04 de junho de 1941, receberam amostras do esmalte Fátima e das águas de colônia Serenata e Volúpia. Outro tipo de brinde, para homens, na época do carnaval, era caixas com vários tubos de lança-perfume, sem proibição policial ainda não existente, e aproveitando que os cinemas exibiam no referido período filmes carnavalescos, projetando na tela os cantores famosos vindos do rádio.
            E é claro que retrato era uma coisa muito valorizada pelo espectador da era de ouro do cinema. Em Natal, meninos se reuniam em frente aos cinemas Rex e São Pedro (este inaugurado no Alecrim, na Noite de Natal de 1930), para formarem a feirinha de troca, venda e compra de revistas de histórias em quadrinhos. Também apareciam nas mãos da criançada os famosos álbuns de figurinhas, as estampas Eucalol, e os álbuns com as fotos de astros e estrelas do céu do espetáculo hollywoodiano. Muitas vezes, se escrevia para os próprios artistas que, de volta, mandavam as fotos autografadas.

Novidades desde a Segunda Guerra

               Aliás, durante a Segunda Guerra Mundial, muitos atores e atrizes de Hollywood passaram por Natal, indo em direção ao front, eles para combaterem, elas para se apresentarem em shows no front. Dentre as atrizes que passaram por Natal, estava Kay Francis. Tendo oportunidade de vê-la ao vivo, o jornalista Venturelli Sobrinho publicou no jornal A República um artigo com entusiásticos elogios à beleza e ao talento dela. Alguém leu e traduziu o artigo para ela, que, sensibilizada, escreveu uma carta ao jornalista agradecendo os elogios. Outras atrizes inspiravam sonetos aos nossos poetas.
              Ao longo da história da Sétima Arte na cidade, espectadores viram muita violência representada na tela. E também praticaram ou sofreram violência nos cinemas. Em determinado dia, o Cine Alecrim exibiu poucos minutos do filme. Como não continuou, os espectadores depredaram, quebrando 10 cadeiras. A 11 de maio de 1964, um sargento da polícia tentou matar com um tiro um estudante que assistia um filme no cinema Rio Grande. Alguns outros espectadores se levantaram, apavorados, e o tiro foi atingir não o estudante mas uma espectadora que estava na linha do tiro (mas ela não morreu).
            Aliás, o cinema Rio Grande merece um destaque: caracterizou-se como lançador de novidades tecnológicas, algumas até modificando o jeito do espectador olhar as imagens. Exemplo: logo nos primeiros anos da década 50 lançou filmes em 3D, Terceira Dimensão, bastante antes do “Avatar” lançado nos cinemas dos shoppings recentemente, sendo então ou agora necessário o espectador botar no rosto sobre os olhos as lentes polaróides (óculos bicolores), que possibilitam ler o processo de construção da imagem em 3D. O cinema Rio Grande também lançou em Natal filmes cinemascope.
              A melhor interface seria o próprio espectador passar à prática, para se modificar na cena do cine-mundo, atendendo ao convite da fala fala final de Chaplin em “O Grande Ditador”: “Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela. De faze-la uma aventura maravilhosa. Vós, o povo, tendes o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Lutemos por um mundo novo, um mundo bom que a todos assegure o ensejo do trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.” Este filme eu vi, pela primeira vez, no cinema Rex, a 09 de setembro de 1961.

Quando e onde passaram em Natal alguns filmes-marcos (necessariamente, não é colocada aqui a primeira data em que o filme foi visto em Natal, mas também reprisis, quando não foi possível encontrar a data do lançamento na cidade):
A Chegada em Gôndola, pequeno filme-documentário de Promio, o cinegrafista dos irmãos Lumière, filme realizado em 1896 e que criou o travelling (movimento de câmera, deslisando ao longo de objetos e personagens , aproximando-se ou afastando-se deles); foi mostrado na primeira sessão de cinema apresentada em Natal, em um depósito de açúcar, na Ribeira, na noite de sábado, 16 de abril de 1898.
Cine-Jornal do Rio Grande do Norte, primeiro filme realizado no Rio Grande do Norte, dirigido por Anfilóquio Câmara em 1924, foi mostrado em première nos cinemas Politeama e Royal Cinema, a 18 de outubro de 1924.
Volga-Volga, o primeiro filme cantado e musicado, sincronizado o som às imagens via uma eletrola Victor, e dirigido por Tourganski, foi visto pela primeira vez em Natal no Cine-Teatro Carlos Gomes, a 08 de maio de 1930.
Branca de Neve e os Sete Anões, primeiro desenho animado em longa metragem, produção dos estúdios Disney, estreou em Natal no Cinema Rex, a 22 de junho de 1939.
Cidadão Kane, filme dirigido por Orson Welles, revolucionando a linguagem do cinema com a sua multiplicidade de planos, estreou em Natal no Cinema Rex, a 26 de fevereiro de 1943.
O Manto Sagrado, do diretor Henry Koster, estreando filmes em cinemascope em Natal, estava sendo exibido no Cinema Rio Grande a 25 de junho de 1955 (aliás, foi mesmo o primeiro filme realizado na dimensão cinemascope).
Glória Feita de Sangue, um dos melhores filmes anti-guerra, dirigido por Stanley Kubrick, iniciou a 16 de fevereiro de 1963, no Cinema Rex, as sessões de Cinema de Arte promovidas pelo Cine Clube Tirol.
Contos da Lua Vaga, do diretor japonês Kenji Mizoguchi, um dos mais belos trabalhos fotográficos no cinema, foi apresentado no Cinema Rex a 21 de novembro de 1964.
Oito e Meio, de Federico Fellini; as imagens cinematográficas traduzindo fielmente as imagens nos sonhos de um diretor de cinema, ou seja, metalinguagem neste filme mostrado no Cinema Rio Grande a 06 de agosto de 1967.
Woodstock, o melhor documentário sobre o famoso festival de música hippie acontecido numa fazenda do estado de Nova Iorque (EUA); dirigido por Michael Wadleigh, o filme se fragmenta dinamicamente em vários planos opcionais à visão do espectador, simultaneamente: foi visto no Cinema Rio Grande a 24 de outubro de 1980.
Deus e o Diabo na Terra do Sol, a revolução de linguagem efetuada por Glauber Rocha no cinema brasileiro, via Cinema Novo; estava em cartaz no Festival Glauber Rocha, no cinema Rio Grande, a 25 de setembro de 1981.
Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock; verdadeiro poema dramático que começa com puro poema gráfico, nos créditos de apresentação criados por Saul Bass; além de vezes anteriorea, foi mostrado no Cinema Rio Grande a 15 de agosto de 1986.