27 de abril de 2017

Teatro Rino Dantas: Lugar de resistência!!

                                                                                                 Teatro Rino Dantas

Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Semurb/Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte


Brincante

Imaginação crias, recrias
Encena
Outros, não “eus”
Encantamento
Leituras, releituras
Em palcos giratórios
Pulsar de vidas!
(Luciano Capistrano)

            A avenida Centenário da Abolição, em Cidade Praia, bairro de Lagoa Azul, encontra-se um teatro, o TEATRO RINO DANTAS. Um lugar de cultura que resiste igual ao sertanejo em tempos de seca, assim, é, este espaço dedicado as artes cenicas localizado na Zona Norte de Natal. Erguido pelo ator potiguar Rino Dantas, o local guarda as marcas das lutas hercules de quem vivendo da arte dos palcos sonha em ter seu teatro, e, escolhe um lugar improvavel para alguns, uma região "longe" do centro da cidade de Natal.
            Uma avenida ainda a esperar o asfalto, em areial abre-se as cortinas, o espetáculo não pode parar.
            Dia 15 de dezembro de 2016, as cortinas se abriram para a encenação de RIO MORTO, texto e direção de Jorge Borges. Uma narrativa sobre os ribeirinhos, homnes e mulheres sobrevivente dos rios. Sinopse: Duas lavadeiras e dois pescadores denunciam a morte dos rios, dos quais tiravam seus sustentos. Colocam ainda em questão, a omissão e o descaso dos poderes públicos, pela falta de políticas ambientais. Todo espetáculo acontece nas margens do rio, tendo como cenário a degradação e a visível situação de poluição pela qual o mesmo passa.
            Com O Rio Morto, Rino Dantas, além de reencontrar em cena com seu velho amigo de palco Jorge Borges, ainda diz em bom e alto tom: o Teatro Rino Dantas, ainda pulsa.
            Uma história do teatro potiguar tem que incluir sim, Rino Dantas, como o "fazedor" de sonhos.
            Em 1993, Rino Dantas inicia sua morada em Cidade Praia, com uma experiência de mais de 40 anos de teatro, já viveu o nucleo de artes da TVU, professor de artes cenicas, atuou na FEBEM/FUNDAC,e, em escolas particulares e publicas de Natal e interior. O teatro, então, é resultado de seu trabalho nos palcos, assim, adquiriu o terreno e construiu o espaço, nada fácil, além do material de construção, a mão de obra, ainda tinha as enchentes, constantes nessa região. Venceu, o sonho foi erguido!
            Amigo velho, ao me referir ao Teatro Rino Dantas, localizado em Cidade Praia, faço um convite a reflexão, pois acredito, ser a cultura um caminho importante na construção da cidadania, ter em uma area carente da cidade um lugar para as artes, deve ser algo de orgulho de toda a comunidade, assim, o Poder Publico, o Lesgislativo Municipal e o Executivo, deveriam criar as condições necessárias para que projetos como este pudessem ser abrigo para a juventude, antes, que o abrigo do tráfico acolham nossos jovens.
            Teatro Rino Dantas: Lugar de resistência!! Eis um exemplo a ser ecoado nas midias sociais, nos canais televisivos. Nas periferias não existe apenas "sangrias", existe gente do bem fazendo o bem!



                                                                             Encenação da Peça Rio Morto

24 de abril de 2017

BAR GATO PRETO E PENSÃO DA ESPERANÇA



Valério Mesquita*
Mesquita.valerio@gmail.com

01) Na chamada "Cinco Bocas", território humano e sentimental de Macaíba, não existe mais o bar "Gato Preto", que tem suas origens nos primórdios da "civilização". Foram mais de cem anos de história viva, de pastores da terra, das nuvens, das estrelas, queimando vigílias na província submersa. Chão sagrado de antepassados, povoado de rostos ocultos, de figuras pálidas por longas noites assombradas. Nele vislumbro os vultos inaugurais de Zé Solon, Alberto Silva, Chico Cajueiro, Lula Ramos, Jorge Chocalheiro, Zé Pelado, Manoel Sabino, Chico de Dulce, Banga, Sinval Duarte, Manoel Pixilinga, Jorge de Papo, Odilon Benício, entre tantos outros que desapareceram vítimas do tempo, esse astrólogo arbitrário. As “Cinco Bocas” ferinas, são cinco ruas que deságuam como um rio noturno na intimidade simples dos lençóis de minha terra. Rua do Cajueiro, rua do Benjamim, beco de seu Alfredo, beco do Mercado e rua da Cruz. Esse pedaço de chão no centro de Macaíba carrega a saga lírica, popular e mística de muitos obreiros que gastavam saliva diariamente no pórtico de suas entranhas, de suas calçadas. O "Gato Preto", sempre foi o antigo desterro de mim mesmo, da infância perdida mas petrificada no silêncio de suas paredes. Mas, o que importa é que por onde andei eu carreguei o seu andor. Mesmo deformado fisicamente, o seu espírito vive. Basta contemplá-lo e deixar-se envolver na sua atmosfera densa, no centro de Macaíba. Era um bar, com todos os seus habitantes. Figuras opacas, empíricas, etílicas. Todos reduzidos a humanidade comum. Todos crentes de que a verdade e a vida nunca estão num único sonho mas em muitos. Era o nosso “Grande Ponto” que tombou e morreu como o de Natal. Tanto ontem quanto hoje, caracterizou-se como um cenário profuso e difuso, tecido de conversas banais, de palavras soltas, malandras, boatos, chafurdos soprados pelo errante vento da esquina. Tudo coisas fugidias: prateleiras, garrafas solitárias e eternas, sinucas, bilhares. Todos os seus notívagos caminheiros são incertos, dispersos e derradeiros. Aí de nós se não fosse o mistério do nome, do 13, do “Gato Preto”. Por que “Gato Preto”? Não sei. As coisas misteriosas são fascinantes.
02) Na primavera política do início dos anos sessenta no Rio Grande do Norte, pontificava na província submersa de Macaíba, a imbatível Pensão da Esperança. Nasceu no fragor das lutas eleitorais e foi a nau catarineta do aluizismo. Nela singrava o mar encapelado da política macaibense, a capitã de longo curso e minha prima Graziela Mesquita. Bacurau de cinco estrelas, Grazi era uma das dissidências dos Mesquita. Situada à rua de Nossa Senhora da Conceição, a Pensão da Esperança, era também o Porto Seguro das caravanas, das manifestações aluizistas e quem fosse arara jamais seria hóspede. Graziela solteirona invicta, mas parecia uma matrona romana. Andava nas pontas dos pés, como se fosse desabar de frente. Pesava-lhe muito o imenso busto-arbusto. Elétrica, vibrante, frenética e fanática, era simpática com todos os seguidores da causa. Nesses tempos trepidantes tivemos uma relação política difícil mas respeitosa. Isso influiu, para que, mas tarde, tornássemos correligionários, até a sua morte. A Pensão da Esperança era o termômetro político da cidade mas também o alvo possível das manifestações hostis do dinartismo radical. De quando em vez, ocorriam "atentados à bomba" no recinto, obra de alguns ativistas sorrateiros para perturbar o sossego de Graziela e testar o seu prestígio. Mas, nem era preciso. Como um raio, riscava à porta o delegado de polícia para as necessárias averiguações e prisão dos culpados. Grazi era intocável, um patrimônio tombado e vivo da cruzada da esperança. Outro enfoque político digno de nota, era a sua fiel ala-moça, treinada para cantar as canções de Aluízio. "Cigano feiticeiro, teu feitiço, ai meu Deus, eu faço tudo, tudo pelo governo seu e o eleitor o que deve fazer? É virar cigano e votar com você". Isso sem falar na canção principal que dizia que "Aluízio Alves veio do sertão, lá do Cabugi...". Assim se passou uma página folclórica, melódica, ingenuamente dramática e humana da vida política de Macaíba, que teve na Pensão da Esperança o oxigênio natural desse mundo frágil e encantado. O seu antigo endereço desapareceu com a sua proprietária, só restando a memória visual e auditiva da reconstituição dos gestos, das verdes bandeiras pandas ao vento, do ruído da multidão, da silhueta de Graziela, tudo como uma saudade suspensa no ar, mas renovada todas as vezes que passo pela calçada.

(*) Escritor.

DIA 27 MACAÍBA 139 ANOS


Valério Mesquita*

O ponto alto das comemorações dos 139 anos da emancipação política e administrativa de Macaíba continua sendo o bicentenário de nascimento do seu fundador Fabrício Gomes Pedroza, cujas cinzas foram trasladadas do Rio de Janeiro para a igreja matriz de Nossa Senhora da Conceição. O vinte e sete de outubro de 1877, pela lei nº 801, Macaíba – que antes se chamava Coité – desmembrou-se de São Gonçalo. Aí amplia-se o período de esplendor comercial do porto de Guarapes que irradiou energia econômica a todos os quadrantes. Monopolizou o sal para o sertão, incentivou a indústria açucareira do vale do Ceará-Mirim, financiou a produção adquirindo as safras das fazendas de algodão, cereais, couros e peles. Fundou a “Casa dos Guarapes” e do alto da colina comandou o seu mundo de transbordamentos, onde tudo era rumor, vida, agitação, atividade.
É nesse vácuo de duzentos anos que reside a minha perplexidade. Um silêncio dominado pelo abandono e a indiferença. Ninguém coloca em cena a coragem de contemplar restituído o universo oculto de Fabrício que fez brilhar o nome de Macaíba dentro e fora do Rio Grande do Norte, na segunda metade do século dezenove. Não bastam, apenas, reprisá-lo com lendas e narrativas, como tivesse sido um mundo de ficção. Melhor que a dispersão da palavra solta é ouvir o eco de suas paredes reerguidas, das vozes trazidas pelo vento das vidas que não se pulverizaram mas renasceram pelas mãos das novas gerações. Esse universo semidesaparecido, clamo por ele, aqui e agora, afirmando que a melhor imagem de um homem, após a morte, não são as cinzas, mas a obra que legou à posteridade, revivida e restaurada como reconfortante e fiel fotografia de sua história e vida.
Como guerreiro solitário, luto há mais de quinze anos pela restauração dos escombros do empório dos Guarapes. Como membro, àquela época, do Conselho Estadual de Cultura do Estado, consegui o tombamento. De imediato, no desempenho do mandato parlamentar obtive do governo a desapropriação da área adjacente. Batalhei, em alto e bom som, junto aos gestores públicos a elaboração do projeto arquitetônico, que, até hoje, dormita em armário sonolento da burocracia. Foi uma agitação, apenas, que não se moveu nem comoveu. Saí dos movimentos da superfície oficial, para as janelas da imprensa e outras vozes, em coro uníssono, oraram comigo pelas ruínas da mais reluzente história da economia do Rio Grande do Norte: os Guarapes. Todo esse conjunto de verdades fixas foi ilusão imaginar que a lucidez jamais se disfarçaria em surdez. Como enfrentei e venci no passado, partindo de perspectivas débeis e precárias, óbices quase intransponíveis para a restauração das ruínas do Solar do Ferreiro Torto e da Capela de Cunhaú, sinto que não perdi os laços entre a fragmentação do sonho e a fé incondicional no meu pragmatismo, de que tudo, até aqui, nada foi em vão.
Reproduzir a realidade, tal que se imagina que fosse, o burburinho comercial e empresarial daquele tempo de Fabrício, faz-nos refletir e aprender para ensinar aos jovens de hoje através de exemplos, imagens e ritmos, a saga de que vultos como o dele iniciaram uma figuração, nova, nítida e luminosa, pouco tempo depois, numa Macaíba que começava a nascer com Auta de Souza, Henrique Castriciano, Tavares de Lyra, Augusto Severo, Alberto Maranhão, João Chaves, Octacílio Alecrim e outros que construíram em modelos de vidas o prestigio da terra natal – que não se evapora, nem se desmancha. Essa realidade para mim é tensa e inquieta, porque cabe hoje revivê-la em todos nós. É imperioso que os nossos governantes tracem esboços para uma saída, uma superação, criando-se fendas e passagens, para juntos, todos, respirarmos o oxigênio da convivência com os nossos antepassados. Se todos nós pensarmos assim, com cada palavra significando labareda, lampejo, no centésimo trigésimo nono aniversário, derrubem, pois, os obstáculos que impedem as luzes da memória dos Guarapes refletirem sobre a posteridade. Se assim não agirmos tudo será cinzas.
Até hoje, o que foi feito: a) Projeto técnico de restauração está numa UTI da Fundação José Augusto; b) O Ministério do Turismo destinou quase hum milhão de reais para a largada; c) É preciso que esse projeto chegue em Brasília dentro do prazo além da contrapartida do Estado; d) Que nos Guarapes se erga o Museu do Comércio do Rio Grande do Norte. Viva o 27 de outubro!

(*) Escritor.

O BOLO

Uma história política e que faz parte do meu livro ‘Castelos de Areiamar’, que publiquei em 1984. Qualquer semelhança com a política brasileira não é mera coincidência.  Leiam...

                                                        
                                                          
                                                                                BENÉ CHAVES
                                                                                 
                            Subiram no palanque...
                            Luzes distribuídas e olhares de sorrisos. O homem levantou o braço direito dando um soco no espaço nu. Vislumbrou uma multidão incalculável e começou a falar:
                            -Povo de minha terra: sou, a partir deste momento, candidato pela vontade soberana desta querida gente. Sinto que vocês não estão satisfeitos com a situação atual e venho, na hora justa, protestar contra esse estado de coisa. Teremos de derrubar o governo pseudodemocrático que comanda o país, e só podemos fazê-lo com o apoio de vocês. Talvez desta maneira ainda consigamos que o mesmo volte aos seus dias gloriosos. Tenho, portanto, o dever de anunciar-me como candidato nas próximas eleições.
                            Um barulho de palmas surgiu na extensão da rua iluminada. E aquele homem a mostrar os dentes e fazer exercícios nos braços como se quisesse abraçar alguém. Irromperam, então, ruídos na grande avalanche humana.
                            -Viva, viva, tá eleito, tá eleito... : algumas vozes eram ouvidas no enorme salão ao ar livre.
                            Mas, um observador atento comentou para si: são todos iguais, querem o poder e depois... - começou a socar a mão direita (aberta) na esquerda (fechada).
                            -Precisamos, unidos, lutar contra a opressão, o desemprego, o desestímulo à classe produtora. Confio no vosso voto e hei de cumprir tais promessas.
                            Gritos e mais gritos saíam de bocas pedintes, estômagos famintos. O interlocutor tomava um copo d'água e distribuía afagos diante de si, a barriga já cheia de comida. Carros com alto-falantes jogavam papéis para a multidão entusiasmada, retratos vários pulavam no meio à massa humana.  Parecia tudo uma euforia dissimulada...
                            Candidatos outros se seguiram na falação...
                            Previa-se, contudo, que aquele povo estava sendo repartido, uma fatia devia caber pra cada um naquele novelo ilusório.
                            Então o homem disse com uma voz seca: temos de dividi-lo certo, você pega o bolo e faz o corte em porções iguais, sem discriminação, nada de sabedorias, pois o gosto a gente sente no final.
                            Na mesa, portanto, os pratos servidos, uma faca posta para o saboroso trabalho. No centro a atenção dirigida e conseqüentemente atingida.
                            As comemorações feitas e os pedaços saindo de boca em boca, tragados com alegria e satisfação. Estavam gostosos.
                            -E, além do mais, - continuou o homem - não estamos aqui pra iludir ninguém, temos um dever a cumprir e sabemos onde meter a mão. (Na certa, meteria no bolso escasso do povo).
                               Disse então: somos conscientes da tarefa que vocês nos entregarão e faremos de tudo para bem servi-los. Uma vida, portanto, com menos sofrimento, pois não possuímos o dom de querer enganar essa sofrida gente - e apontou o polegar na direção da mesma.
                            Ouviram-se estrondos de um lado e de outro, como se um vulcão estivesse vomitando fogo, o palanque quase indo abaixo com gritos e foguetões.
                            -Cuidado, vá devagar, não precisa exagerar tanto – rechaçou uma voz comedida.
                             Na mesa, um vazio... Facas amoladas e o grande prato despido, procurando esconder-se ante uma possível vergonha.
                            A parte era sua, ninguém colocaria as mãos, ninguém...
                            Então saiu a tomar um pouco de ar e aproveitou para revê-la melhor, alisá-la e acariciá-la sem desdém.
                            A distribuição feita: fulano fica na tal posição, sicrano substitui beltrano, este parte para nova investida, etc., etc., contanto que não fiquem insatisfeitos. As fatias não são iguais?
                            De qualquer maneira se ouviam protestos, uns achando pedaços maiores, menores, outros observando gratificações extras. Houve de viva voz descontentamentos. E ele ali, no meio do salão, a repartir de acordo com sua consciência, embora recebendo críticas e repetindo sozinho: não são iguais? Porém, parece que a igualdade desse homem deixava lacunas...
                            Abriu então os enormes dentes e abocanhou um pouquinho de ar, completando e gritando desta vez: portanto, meu querido povo, não me decepcione, pois não vos decepcionarei. Juntos, na urna, daremos a nossa resposta.
                            Um clarim soou no meio da massa humana e todos começaram a dançar, enquanto o orador desviou o olhar e colocou a palma da mão para sussurrar algo aos correligionários.
                            -Não sei, de uma hora pra outra essa gente pode enxergar melhor, disse o companheiro ao lado, pondo uma dúvida na sua euforia profetizada.
                            -Que nada!... Vê só uma coisa... E começou a gritar bem forte o seu nome, fazendo eco no infinito. Um uníssono se ouvia.
-Não falei!... São todos assim.
O povo massificado, espoliado, sempre enganado.
                             Parecia certo da vitória, conseguira ludibriar com um discurso forte e imaginativo, dizendo palavras desonestas, mentindo e fingindo estar ao lado daquela pobre gente inocente.
                            Diante da situação que instalou na festa organizada para servi-lo e aos seus comparsas, não se tinha a menor dúvida que o citado candidato era um farsante, charlatão. E isso ficou mais que evidente, sobretudo depois das frases de cunho demagógico, pois o que se via eram somente promessas, promessas para iludir aquele povo presente àquela manifestação.
                            Então, depois, colocou as fatias em cima da mesa e ficou olhando-as durante alguns minutos, o suficiente para lançar uma hipnose. Os outros tentaram comê-las, mas foram impedidos por uma voz firme e grossa que surgiu, deixando-os perplexos. Era o homem, agora desejando saboreá-las todas para si.               
                            Engoliu apressado os outros pedaços e, sujando-se todo, virou as costas disparando carreira. Sumiu-se ante a suposta indignação dos  companheiros.
                            Ajoelhou na tábua e começou a chorar, antes desviando o rosto e colocando pingos de colírio nos olhos. Ninguém notara tamanha habilidade, estavam pulando e gritando na proposital euforia.
                            Recomeçou a falação:
                            -Tudo que desejo é ser amado pela minha querida gente, não consigo viver sem ela - e com um lenço branco enxugou algumas gotas da face. Lágrimas de colírio.
                            Desceu, então, o patamar e viu as formas variadas de fatias à sua frente, queria juntá-las sozinho, enquanto os de trás ficaram golpeando-as em partes iguais. Encolheu-se retraído e esperou qualquer resolução, o bolo a admirá-lo na esperteza. E ouviu intrigado uma voz insistir que a conscientização era a meta principal daquele enorme novelo.
                            Houve certo abalo nas arestas ali sedimentadas e uma incerteza, a multidão já fatigada e explorada da forma mais bestial possível. Era notório que o homem a tinha logrado com suas constantes mudanças. 
                            Do céu as estrelas faiscavam a grande praça aberta, enquanto cá embaixo um silêncio profundo. As pessoas ficaram abobalhadas olhando o palanque vazio e sentiram na carne o reconhecimento de terem sido enganadas. Aquilo tudo era um engodo, é ainda uma isca.
                            Apartearam-se, portanto, e se dividiram em blocos disformes, deixando um labirinto de difícil acesso. Aí a situação se complicou e não mais serviriam de sustentáculo para ninguém. Sabia-se que a ambição daquele homem tinha ultrapassado o senso normal.
                              Então, naquele exato momento, as fatias recolheram-se caladas, não se enganariam de serem repartidas, engolidas. Estariam, portanto, firmes na intenção de não atenderem a qualquer chamamento, livres da sujeira programada. Libertas daquele (e de outros) político mal-intencionado.
                           
                   



      

O ANTES E O DEPOIS

Bené Chaves

         Bem que sua mãe dissera: um menino bonitão e querido. As mocinhas se inquietavam com sua presença. Desde cedo com as manias não sei de quem. Cresceu neste diapasão.
         Tartamudeou uma frase mal ouvida e apertou-a contra si. Não a frase e sim a jovem moça que segurou seu braço e evitou uma aproximação mais ousada. Ali, tido como um rapaz conquistador, de vez em vez aparecia e parecia se mostrar. Ajeitava-se sempre ao espelho e ficava quase uma hora alisando o cabelo ensebado na brilhantina. Um narcisista.
- Vamos, deixe de ser boba – puxando a alça frouxa ao ombro.
- Não, não, você tá doido?  - a moça enfiando os olhos no chão.
O tempo inteiro lutando, uma angustiada e desesperada batalha se travava entre eles, às vezes chegavam a rolar pelo encerado, vestes rasgadas, violência no aconchego. Ela um tanto difícil, não via muito esse lado, ele um sujeito tipo dom juan, amedrontava uma cidade inteira. As mulheres apavoradas, no bom sentido.
- Que é isso, você não me conhece?
- Conheço sim.
- Então!...
- Também você só pensa nessas coisas...
- História sua, não só penso nisso não.
- Tá bom, tá bom...      
Arrumou-se e saiu desconcertada, era muito tarde. Abriu a porta e disse ao pai, me atrasei hoje, um serviço extra apareceu, o velho a olhá-la com o rabo do olho. Subiu e trancou-se no banheiro a lavar-se com sofreguidão, depois deitando na cama a se emaranhar no travesseiro. 
O dia seguinte foi sem novidades, um bom-dia pros amigos e sempre o jeitão de rapaz conquistador. Sentou-se numa cadeira e começou a rodar um lápis com os dedos, imaginando-se senhor de atrações. As máquinas, contudo, metralhavam papéis: indignou-se e saiu.
 “Mulher é sexo”, dizia pra si enquanto caminhava a meter os olhos nos corpos femininos e sacudidos. Soltava uma piada e se fazia sisudo olhando sério pra frente. Um sujeito, claro, mulherengo e também gozador.
Seguidamente arranjava uma companheira, diziam ser um furor na cama, já agora com a idade de quarenta e tantos anos. No quarto, uma afeição, uma tapeação. Fora, outra cara, vivendo a tentar seduzir todas as mulheres bonitas do bairro. Quer dizer: era de mão cheia. Não deixava passar uma.
Mas, com o passar do tempo, o seu domjuanismo foi sumindo, perdia conquistas, não sustentava dias seguidos, três por semana. E olhe lá, nem tanto. Ficava enfurecido com tal situação. Saiu cedo de casa e sentou-se num banco do jardim público. Parecia chateado a bater com a mão na tábua. A idade lhe batendo no rosto.
- Oi, que que há, esperando alguém?
- Opa!, Você por aqui?
- Ia passando, coincidência, não? - e a mulher alisou o cabelo.
- Tá apressada? Senta... – disse ele amaciando o queixo.
- Você, o que anda fazendo? – sentou-se distante dele.
- Na mesma vidinha de sempre, uma aqui, outra ali...
- Uma aqui o quê?
- Mulher, ora! – e tentou aproximar-se.
- Bem, acho que já vou...
- Tão cedo assim?
- Mamãe me espera pra umas compras, até outra vez.
Ficou de olho grudado no traseiro da moça e no final viu uma pequena bola circulando seu globo ocular. Reconheceu-se um pouco velho, as mulheres enjeitando sua fisionomia meio enrugada, ele sozinho lembrando com tristeza a vida de outrora. Vidona boa, potente! Sem resguardos.
Resolveu ir pra casa, entrou e foi pro aposento. Quando menos esperou olhou-se no espelho e estava de cabelos brancos: assustou-se. Virou para o lado e se deixou cair na cama com lassidão.
         Vez ou outra, porém, não esmorecia, conquistava com a lábia atrevida alguma mulher que surgisse. Uma noite saiu com uma de fazer inveja aos jovens, inclusive a mim também. Estava ele a olhar uns rapazes nalguma manifestação quando notou alguém aproximar-se:
- Olá velhote, tudo bem?
- Ah!, oh!, quem é? Mais ou menos, mais ou menos.
Diante daquela bela jovem ao seu lado, levou-a para casa. Tinha feito no dia anterior oitenta anos bem vividos. E jurou consigo mesmo: homem que é homem morre de pau duro.
  Talvez a mulher quisesse fantasiar algo com ele, parecia disposta, o mesmo a deitar-se nu e suspirando de contentamento, o coração disparando. Deu um fungado rouco e longo, adormecendo em cima da jovem rapariga. Não suportou imensa emoção.
  Então, ela jogou-o de lado e tentou reanimá-lo. Gritou desesperada. Ele ali, estirado na cama, com o possuído ereto. E teria dito horas antes balbuciando para si: “Morro, mas morro satisfeito”.         

      No velório algumas pessoas riam diante de uma saliência dentre suas pernas.