11 de julho de 2019

AS RAIZES MEDIEVAIS NO TEATRO NORDESTINO



                                           Racine Santos - Foto: divulgação

Racine Santos




No panorama do teatro brasileiro é fácil identificar momentos de dramaturgia que particularizam alguns aspectos da multifacetada cultura nacional. São peças que, se em alguns casos não chegam a formar um conjunto expressivo, uma tendência ou mesmo um estilo, são pelo menos, tidas com significativas referências para uma análise mais consequente da dramaturgia nacional. Limitando nosso campo de observação ao teatro brasileiro produzido nos últimos 50 anos, essas peças trazem as assinaturas de Nelson Rodrigues, Jorge Andrade, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos, Dias Gomes, Ariano Suassuna, Luiz Marinho, Paulo Pontes, Oduvaldo Viana Filho, Flávio Rangel, Millôr Fernandes, Augusto Boal e outros que fizeram da questão nacional temas de seus textos dramáticos.
Com esses autores o elo que ligava o palco brasileiro à vida nacional, e que havia se rompido depois de Martins Pena (1815-1848), França Jr. (1838-1890) e Artur Azevedo (1855-1908), é agora retomado. A maioria desses novos autores procurava aliar objetivos artísticos a uma consciência ideológica, pois achava não ser mais possível promover apenas o entretenimento de uma plateia que buscava no teatro a digestão agradável do jantar.
As expressões maiores dessa nova postura, em se tratando da renovação da linguagem do teatro nacional, foram, sem dúvida, Nelson Rodrigues e Ariano Suassuna. Esses dois autores, curiosamente nascidos no nordeste, em borá percorrendo caminhos distintos, conseguiram levar para o palco a fala, o gesto, a psicologia, enfim, a alma do povo brasileiro. As fontes onde esses dois autores foram buscar a matéria para sua obra, por mais antagônicas que fossem apontavam para uma mesma direção: um teatro com a fisionomia do nosso povo.
Enquanto Nelson Rodrigues mergulhava fundo no universo da classe média urbana, notadamente a do Rio de Janeiro, rompendo com o convencionalismo das situações domésticas comuns às peças das gerações anteriores, e se apresentando com uma linguagem renovadora, Ariano Suassuna vai beber na cultura popular do Nordeste, marcadamente rural. Morando no Recife Suassuna fazia parte de um grupo de artistas e intelectuais formado por Joel Ponte, Hermilo Borba Filho, Gastão de Holanda e Aloísio Magalhães, que havia voltado para o estudo e aproveitamento da riquíssima cultura popular da região. E é com sua peça AUTO DA COMPADECIDA, que estreou profissionalmente em 1957, em São Paulo, que surge, em conceito e forma, o chamado “teatro nordestino”.
Essa vertente do teatro brasileiro, com características muito próprias, com fala e gestos muito específicos, com uma ótica particular capaz de trabalhar a contemporaneidade cênica sem perder suas raízes, é um teatro que vem se afirmando como um dos mais autênticos/expressivos segmentos do teatro nacional. Esse teatro tem por trás de si o universos da poesia popular dos folhetos, as “brincadeiras” do Boi-de-Reis e dos Pastoris, e o teatro de bonecos conhecido aqui como João Redondo e em Pernambuco como Mamulengo. Esse caminho seguido por Ariano Suassuna, diametralmente oposto ao urbano de Nelson Rodrigues, carrega consigo elementos da cultura portuguesa do século XV e XVI que aqui aportaram com os colonizadores e que aqui permaneceram congelados por circunstâncias particulares.
Estudando a presença da cultura da Baixa Idade Média no Nordeste Brasileiro de hoje, a professora Lígia Vassallo, doutora da Universidade de São Paulo, afirma que essa região é depositária de um acervo cultural e social da Europa medieval, e que a existência desses traços medievais entre nós foi provocada pelo fato de ser o Nordeste a mais antiga zona de colonização que prosperou; pelo isolamento em que a região permaneceu; pelo encontro e cruzamento contínuo de raças e culturas; pela estabilidade e longa duração de uma organização social semi-feudal de latifúndios e patriarcalismo perpetuadora de tradições herdadas.
Outros sociólogos e historiadores, como Raymundo Faoro e Fernando Uricochea, afirmam que a configuração social do Nordeste brasileiro, de modo geral até a década de 30, quando se inicia a chamada era Vargas, se identificaria com a situação medieval portuguesa e mesmo da Europa.
Luis da Câmara Cascudo pesquisando o que era lido no Brasil entre os séculos XVI e XVII, conclui que os livros preferidos pelas camadas populares eram as novelas tradicionais da Península Ibérica: A Donzela Teodora, A Imperatriz Porcina, Roberto do Diabo, A Princesa Magalona e a História dos Doze Pares de França. Novelas trazidas para o Nordeste brasileiro pelos colonizadores portugueses e que na região se vestiram com uma roupagem nova, sendo muitas vezes reescritas em décimas e sextilhas pelos poetas populares.
Recolhendo material junto ao Boi-de-Reis de Manoel Marinheiro no bairro de Felipe Camarão, em Natal, quando pretendia escrever um auto de Natal, nos anos 70, gravei uma toada da brincadeira que continha versos que identifiquei origem nos autos vicentinos. O folclorista português J. leite de Vasconcelos (“Tradições Populares de Portugal”) registrou ainda no século passado o adágio: ”Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso”, que ouvi repetido muitas vezes na cidade de Cerro Corá, lá pras bandas do Seridó.
Sendo então a cultura popular a expressão maior dessa medievalidade que ainda sobrevive no Nordeste brasileiro, no momento em que ela serve de suporte para um teatro aqui produzido, serve também de condutor desses traços medievais que garimpamos na produção de textos para nossos palcos. Suporte do chamado TEATRO NORDESTINO a cultura popular é impregnada de um catolicismo arcaico e ameaçador de rabecas e sanfonas nas feiras, ciganos, bonecos de João_Redondo, vendedores de folhetos, novenas, histórias de animais misteriosos, comadres alcoviteiras e o diabo surgindo de mil formas, valentões, amarelinhos espertos e um mundo de tipos e personagens que parecem transportados do medievo para os sertões do Nordeste.
Na busca de uma linguagem que refletisse a cultura do povo, o teatro nordestino se aproximou do folclore. Não para reproduzi-lo, mas como matéria bruta a ser trabalhada. Ocorre aí o mesmo fenômeno que ocorreu na Idade Média, quando o drama medieval renuncia o texto em latim para falar a língua do povo, o vernáculo, conforme observação de Petr Bogatyrev. E nessa busca de um teatro que chegasse cada vez  mais próximo do povo, o elemento folclórico foi importante e tornou-se uma presença muito importante no drama medieval, tanto na forma como conteúdo, até nas peças religiosas, mas é nas cenas cômicas, especialmente, que se percebe com mais intensidade a presença do folclórico no drama medieval.
O mesmo fenômeno se dá com o teatro nordestino que vai buscar na cultura popular a essência de sua comicidade e a carnavalização que perpassa todo seu repertório. Uma carnavalização que desapareceu paulatinamente na Europa após intensa existência na Idade Média e no Renascimento, conforme afirma Baktin, mas que permanece viva na cultura popular do Nordeste. E não só a carnavalização, mas também o paródico alimenta a cultura popular da região. Nas brincadeiras de Boi-de-Reis e nos bonecos de João-Redondo as figuras do padre, do médico, do policial, do patrão ou do coronel (enfim, do Poder) são sempre mostradas com irreverência, com deboche, com ironia. Na cultura do povo se dá uma espécie de rebaixamento cômico do discurso religioso, jurídico e científico.

A VIDA DO CORDEL

Das manifestações da cultura popular do Nordeste brasileiro que alimentam o palco, a mais expressiva é a literatura de cordel. Os romances populares, os folhetos de feira com suas aventuras de cangaceiros e valentões, histórias de amarelinhos espertos, batalhas aventurosas, amores impossíveis e honras lavadas a sangues, presepadas e quengadas de personagens típicos da região, serviram de inspiração e foram matéria para peças de Ariano Suassuna e muitos outros autores da região. O universo do folheto de cordel serviu de base e alimenta a dramaturgia de autores como  Lurdes Ramalho, Jairo Lima, Vital Santos, Luiz Marinho, Osvaldo Barroso, Tácito Borralho, Aldomar Conrado, Altimar Pimentel.
Quando a cultura popular chega ao palco erudito via literatura de cordel, chega aí facilitada por uma característica dessa poesia dos folhetos: a oralidade. A poesia popular é feita para ser lida em voz alta, contada nas feiras ou nos alpendres ou terreiros das casas nordestinas. Seu compromisso maior não é com a literatura enquanto arte de escrever, mas com a arte do dizer. Que é também a arte do palco. E essa oralidade do cordel, construída em cima de uma linguagem coloquial, do dia-a-dia do leitor/ouvinte, está tão próxima da linguagem do palco nordestino que alguns encenadores não tiveram sequer o trabalho de adaptar a linguagem do folheto para a  cena, e montaram espetáculos encenando cordéis ipsis litteris.
A relação palco/folheto de cordel se dá, no entanto, de três maneiras distintas. A primeira é quando a encenação do folheto acontece conforme o texto escrito pelo poeta. A segunda é a recriação dramática do enredo do folheto. E por último a utilização do universo do cordel para a criação  de textos teatrais.
O primeiro caso acontece quando o encenador simplesmente transpõe para o palco os versos que o poeta escreveu, sem interferir na estrutura do poema, na composição da obra enquanto texto, personagens e ambiente.Os exemplos pelos palco brasileiro são vários. Um deles foi a encenação que J. Solha fez em João Pessoa, em 1986 do folheto A Batalha de Oliveiros e Ferrabras, de Leandro Gomes de Barros. Embora construindo um espetáculo moderno, com uma linguagem cênica contemporânea, o encenador teve o cuidado de ser fiel ao texto do folheto. Da mesma maneira procedeu Marcelo Costa que montou em 1972  em Fortaleza, um dos clássicos da literatura popular nordestina: O Romance do Pavão Misterioso, do poeta João Melquíades Ferreira, conhecido como“O Cantador da Borborema”. Esse mesmo folheto foi também encenado em natal por Marcos Bulhões e Clotilde Tavares, que igualmente transpuseram para o palco a história do famoso pavão seguindo fielmente os versos do poeta.
Em 1992, em Campina Grande, o encenador galego Moncho Rodriguez levou para o palco o folheto de Lourdes Ramalho “O Romance do Conquistador”. É essa talvez a mais feliz transposição do cordel para o palco. Sem alterar um só verso do folheto o encenador construiu um espetáculo de contundente resultado cênico.
A segunda maneira de lançar mão do folheto de cordel para criação de espetáculos teatrais acontece quando um dramaturgo recria em diálogos para o palco as cenas narradas pelos versos do poeta. Nesses casos há um trabalho de dramaturgia, que não havia antes, que interfere na estrutura do folheto. Há uma recriação, uma mudança de texto, de linguagem, embora em função da mesma história e a serviço dos mesmos personagens. Nesse caso não é um folheto que está sendo encenado, mas sim oferecendo material para o trabalho de um dramaturgo onde estão presentes folhetos como O Enterro do Cachorro, A História do Cavalo que defecava Dinheiro, O Castigo da Soberba e a Peleja da Alma. Sobre a utilização dos folhetos de cordel para a construção de sua peça, diz o próprio Suassuna: O Romanceiro é matéria bruta para a poética erudita.
De ciclo de peças que compõem o chamada TEATRO NORDESTINO, o Auto da Compadecida é a que deita raízes mais fundas na cultura popular nordestina/sertaneja/medieval. Tanto por suas matrizes textuais, como pela estrutura dramática utilizada pelo autor, que retoma a tradição católica didática dos fins da Idade Média, conforme observou o crítico Anatol Rosenfeld.

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Transcrito do Jornal “O Galo” – dezembro/96 – Racine Santos é teatrólogo. Escreveu, entre outras peças, “A Festa do Rei” e “À Luz da Lua os Punhais”.
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19 de junho de 2019

Os melhores filmes vistos nos anos 60 – II





                                          Cinema Rex - foto divulgação

Anchieta Fernandes

         O cinema Rex, situado no espaço, à Av. Rio Branco, onde hoje estão as lojas Insinuante e Express, teve uma bonita história na vida cultural de Natal. Idealizado e concretizado por Enéas Reis e Francisco Nogueira do Couto (Xixico, conhecido capitalista nos anos 30), ficou como mais um cinema da empresa Rex, administradora também dos cinemas Rival (na Ribeira), Royal Cinema (na Rua Ulisses Caldas) e  cinema São Pedro (no bairro do Alecrim).
      O Rex seria o primeiro cinema no Grande Ponto, ao lado do prédio da representação da Cruz Vermelha na cidade. Sua planta foi traçada pelo arquiteto Heitor Maia Filho e a construção do prédio esteve sob a direção do engenheiro Omar O`Grady, que já havia sido prefeito de Natal, criando o seu primeiro Plano Geral de Sistematização. O novo cinema foi inaugurado a 18 de julho de 1936 com o divertimento musical “Melodias da Broadway de 1936”, produção da Metro Goldwyn Mayer, enviada pela referida companhia, por via aérea, especialmente para a inauguração da nova casa de espetáculos cinematográficos de Natal.
         Na tela do Rex, depois, foram mostradas muitas obras-primas da Sétima Arte. Vejamos algumas, ou que pelo menos se aproximam desta categoria, e que marcaram a década 60 do espectador natalense no século passado com visuais e timbres qualitativos inesquecíveis, além do humanismo dos enredos. Lembre-se, por exemplo, Um Rosto na Noite, filme com o qual, em 1957, o diretor italiano Luchino Visconti antecipou-se a Antonioni e sua trilogia famosa (“A Aventura”, “A Noite” e “O Eclipse”), com o enfoque preciso de um fotógrafo sensível (como o Giuseppe Rotunno deste filme), na beleza estética de um preto-e-branco a comunicar o trágico sentimento de seres solitários. O filme estava em cartaz no Rex a 01 de maio de 1960.
          Um ano depois, precisamente a 11 de maio de 1961, o velho cinema trintenário dava de presente ao nosso espectador a magia do filme de marionetes Velhas Lendas Tchecas. Realizado em 1953 pelo mestre Jiri Trnka, consegue, com a linguagem de um verdadeiro cine-balé, iluminar de forma bem criativa a história e o folclore de um povo, os filhos da Tchecoslováquia.
              Seguiu-se, em 1962, a exibição da grande obra-prima da nouvelle vague, o filme que às vezes lidera listas dos melhores filmes de todos os tempos (como aconteceu na escolha da crítica cinematográfica, que em março/abril de 1980, pôs em primeiro lugar para o suplemento cultural “Contexto”, do jornal “A República”, o referido filme): Hiroshima, Meu Amor, realização de 1959 de Alain Resnais, e que estava em cartaz no Rex a 06 de maio de 1962, trazendo uma revolução de linguagem (planos-sequência, imagens trabalhadas em laboratório, junção de cenas em incríveis visualizações de flashes de ao mesmo tempo memória e esquecimento, documentários crus dos efeitos da bomba atômica sobre o cenário urbano e sobre as pessoas) para formar um novo tipo de espectador.
           Quando o Cine Clube Tirol criou as sessões do Cinema de Arte, escolheu o Rex para nele serem exibidos os filmes, começando com o ótimo Glória Feita de Sangue, do diretor Stanley Kubrick, de 1957 e em sessão de 16 de fevereiro de 1963. É uma forte denúncia do carreirismo dos oficiais superiores durante a Primeira Guerra Mundial, que não se pejam de contribuirem para o massacre dos seus soldados, contanto que a honra deles, oficiais, não seja atingida.
          Na seqüência, o cinema Rex mostrou outro ótimo filme, de autoria não de um norte-americano mas de um brasileiro, um dos criadores do movimento cinema novo. Trata-se de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1959, de Glauber Rocha, de teor revolucionário (em tema e linguagem), visto em sessão de 04 de outubro de 1964. E a 28 de abril de 1965, sendo exibido El Cid, bem realizado épico histórico, por Anthony Mann, em 1961.
        Vieram, em seguida, a ser apresentados no Rex, obras-primas inesquecíveis: Os Reis do Iê-Iê-Iê, de 1964, de Richard Lester, exibido a 26 de janeiro de 1966; Sempre aos Domingos, de 1962, de Serge Bourguignon, exibido a 18 de julho de 1967; O Eclipse, de 1962, de Michelangelo Antonioni, exibido a 03 de março de 1968; e O Fofoqueiro, de 1967, de Jerry Lewis, exibido a 18 de outubro de 1969.
         O cinema Rex fechou as portas após a sua última sessão, que foi na noite de 30 de julho de 1984, exibindo o filme A Morte em Minhas Mãos, feito em Hong Kong pela dupla de irmãos Rumne e Run-Run, da Show Brothers Company, sem um mínimo de qualidade, ao contrário do que se pode deslumbrar em outro filme de caratê, O Tigre e o Dragão, do consagrado diretor Ang Lee.

28 de maio de 2019

FILMES QUE NÃO ESQUECI


Bené Chaves

Os filmes que a gente nunca esquece – na maioria das vezes - eu acho que são justamente aqueles de valores artísticos indiscutíveis. Mas, existem também os de valores estimados e que marcaram nossas vidas por um fato ou outro. Mesmo que não sejam assinalados pela excepcionalidade.
É o caso aqui de, por exemplo, ‘Férias de Amor’, de Joshua Logan e que vi pela primeira vez - no dia 3 de dezembro de 1957 - no sempre saudoso cine Rex. E que, aliás, é um bom filme. Assisti ainda na pré-adolescência e deixou em mim um sinal de carinho na minha quase meninice. Eu tinha na época uns 13 anos e a atriz principal (Kim Novak) me encantou com sua beleza deslumbrante. E, daí por diante, não mais o esqueci, nem o filme e nem a atriz, claro.
E quem poderia esquecer-se de ‘Tempos Modernos’ do genial Charles Chaplin e que vi no cine Rex no finzinho de 1958?
Outros exemplos poderiam ser citados como ‘Amor na Tarde’, com a delicada Audrey Hepburn e a boa direção de Billy Wilder, filme que vi em 18 de abril de 1959 no, então, cine Nordeste; depois poderia citar ‘Por ternura também se mata’, do René Clair, exibido aqui em Natal em julho de 1959, no cinema Rex e que, na época, me deixou uma boa impressão; também citarei e não esquecerei ‘Um rosto na multidão’, do Elia Kazan, ‘Depois do vendaval’(um Ford delicioso), ‘Um corpo que cai’(novamente com a deslumbrante Kim Novak, aqui em papel duplo- loira e morena) e ‘O príncipe e a parisiense’, com a estonteante Brigitte Bardot e que inaugurou o cinema Nordeste em dezembro de 1958. E miss Bardot viria ‘arrepiar’ novamente em ‘...E Deus criou a mulher’, onde ela exibiu  o seu dom fascinante e excitou a nossa libido de jovem mancebo. 
 Foram filmes que não esqueci porquanto também iniciava na chamada ‘sétima-arte’ e estava na adolescência, idade-chave para alumbramentos e coisa e tal.
Mais tarde vi ‘A marca da maldade’, um Welles fabuloso, assim como ‘Rastros de ódio’, outra obra-prima de John Ford. Não poderei esquecer também de ‘Hiroshima meu amor’, o excepcional filme de Alain Resnais, assim como ‘A Doce Vida’, do mestre Federico Fellini. Nesse entremeio poderia citar ‘Quero viver’(1958), que vi em novembro de 1961 no cine Nordeste e também ‘Brinquedo proibido’, do René Clement, visto em abril de 1962 no mesmo cinema,     além de ‘O encouraçado Potemkin’(1925), marco maior do então cinema soviético.
Sem falar, claro, de como vi ‘O martírio do silêncio’(Mackendrik, 1952) no dia 13 de outubro de 1961 no cine São Pedro, o único filme que assisti naquela outrora casa de exibições. Como não lembrar o encantamento que o mesmo trouxe para mim? E poderia esquecer o belo final de ‘Os brutos também amam/Shane’ que assisti em 17 de abril de 1962 no Rio Grande?
E como deixar cair no esquecimento ‘Rocco e seus irmãos’, do Luchino Visconti, que o cine Nordeste exibiu em junho de 1963?E de como fomos assistir (juntamente com os saudosos Moacy Cirne e Berilo Wanderley) a ‘O Processo’, de Orson Welles, no Recife, quase no final do mesmo ano? E de também ‘Clamor do sexo’ no mesmo período? É claro que não poderei esquecer-me da atriz Jean Seberg andando e vendendo jornais nas ruas de Paris em ‘Acossado’, do polêmico Jean-Luc Godard. Assim como também da incrível panorâmica de carros enfileirados (em ‘Week-end à francesa’, do mesmo Godard) que se prolonga por uns sete minutos com a câmera lentamente mostrando seu desfecho trágico. Aqui a radicalidade atingindo o clímax.   
E do emblemático ‘No tempo das diligências’ no Cine Clube Tirol, em janeiro de 1964? E do otimismo de ‘A felicidade não se compra’, quem poderia esquecer? E do melhor Truffaut em ‘Jules e Jim’ com a fascinante Jeanne Moreau? Não poderei esquecer também de ‘A Aventura’, do Antonioni, assim como não esquecerei ‘Deus e o Diabo na terra do sol’, o melhor Glauber Rocha e de ‘Vidas Secas’, o melhor Nelson P. dos Santos. E do melhor Fritz Lang em ‘M, o vampiro de Dusseldorf’, quem poderia esquecer?
Como esquecer ‘Amor sublime amor’, que vi pela primeira vez no cine Panorama em março de 1967? E de ‘Cidadão Kane’, que vi no dia 9 de abril do mesmo ano? Não poderia esquecer nunca ‘Oito e meio’, o melhor trabalho de Fellini. E ‘O anjo exterminador’, de Buñuel, também sua obra máxima. E também não poderia esquecer ‘Persona’, a obra-prima de Ingmar Bergman, assim como ‘2001: uma odisséia no espaço’, do Stanley Kubrick. E o que dizer de ‘O ano passado em Marienbad’, que vi pela primeira vez (na Aliança Francesa) em setembro de 1967? Sempre me lembrarei, claro. 
E ‘Luzes de cidade’, do genial Chaplin, quem poderia esquecer? E ‘Meu Tio’, outra comédia excelente do Jacques Tati, você esqueceria?  Outra fita importante e que não esquecerei: ‘O último Tango em Paris’, que depois de proibida pela Censura formou uma gigantesca fila no cine Nordeste em janeiro de 1980. E ‘Cantando na chuva’, com o genial Gene Kelly, eu não poderia jamais esquecer.
Como não lembrar sempre de ‘Desencanto’, a obra-prima de David Lean?  E de ‘Terra Prometida’, de polonês Wajda, que vi no saudoso Rio Grande (hoje transformado, infelizmente, em um ‘palco do horror’) em outubro de 1982? E de ‘Mephisto’(que vi em janeiro de 1984 no Rio de Janeiro e revi aqui em Natal em DVD) e de ‘Despair – uma viagem para a luz’, do Fassbinder e com uma performance excepcional do Dirk Bogarde? Aliás, incluo também ‘O criado’, do Losey, em outra criação fantástica do Bogarde.
Enquanto vida tiver, obviamente, me lembrarei de ‘1900’, do Bertolucci e que retrata toda a história do fascismo no Itália, assim como de ‘O Baile’, mostrando (sem diálogos) quatro décadas da vida política e social na França. E de ‘Aurora / Sunrise’, como esquecer? Feito em 1927 o filme de Murnau revela, entre outros fatos, de como o amor e o ódio andam juntos dos seres que se dizem humanos.
Não posso me esquecer de ‘O Poderoso Chefão’(1972), uma aula de cinematografia dada pelo Francis Ford Coppola. E nem de ‘Morte em Veneza’, outro belo filme que o Visconti realizou em 1971. Também não esquecerei ‘A dupla vida de Veronique’, admirável fita do polonês Krzysztof Kieslowski. E também não posso deixar sair da memória as belas e fortes cenas de ‘O martírio de Joana D’Arc’, do Dreyer. E como ignorar ‘A regra do jogo’, do Renoir? Poderei esquecer ‘Crepúsculo dos Deuses’, o magnífico filme do Wilder? E de Eric Rohmer, cineasta que só vim a conhecer em DVD, como esquecer grande parte de seus filmes (entre eles ‘Conto de Verão’, ‘Amor à Tarde’ e ‘Minha noite com ela’) - especialmente os da série ‘os contos das quatro estações’ – com belos relatos de amor e desamor?   
E como esquecer o belo e apocalíptico ‘O Cavalo de Turim’, produção de 2011 do cineasta húngaro Béla Tarr e que vi bem recentemente? Na continuidade irei ver outros filmes deste diretor, acredito que sim.
É certo que faltaram algumas outras fitas inesquecíveis...


 
                
       

21 de maio de 2019

O PRIMEIRO CORDEL DE ZÉ SALDANHA




(O Preço do Algodão e o Orgulho do Povo – 1935)
Manuel de Azevedo
Poeta, Professor e Músico
Escrevo a pura verdade,
Do que vi pelos sertões,
Algodão de trezentos réis,
Passou pra cinco tostões,
Pegou um preço alterado,
Chegou até dois cruzados,
Aí, danou-se as confusões.

Decorrem setenta e três anos desses versos publicados. Registro poético da era do “ouro branco” – o algodão, na ótica de um sagaz rapaz, contando à época, dezessete anos, parido das entranhas da Serra de Santana, no Sítio Piató, Santana do Matos, lá onde o Seridó principia.
Noite de São João de 1925, ainda menino, seu pai, Francisco Saldanha da Silva (Chico do Piató), contrata para uma cantoria na casa grande da fazenda, o cantador José Oiticica. Saldanha, aos oito anos de idade, infante alerta aos versos, ouve atentamente o romance, Rosa e Lino – O mal em paga do bem, do Poeta José Melquíades. Tal concentração, desde o início até o fim, impressiona ao cantador, que, dirigindo-se ao seu pai, vaticina: “Esse menino é poeta!”
Crescendo na lida rural dos troncos das serras – comboio de gado, cavalo, cerca de pau e de pedra, artefato de couro, roçado, coivara... - Saldanha tem nos pais, o incentivo às letras. Trabalho ao dia, estudos à noite. Esboçam-se nesses autênticos e nítidos traços sertanejos, o retrato do Poeta matuto, Zé Saldanha.
Santana do Matos, 1935, o cenário é rico. Plantações de algodão, proliferando farturas por todos os rincões. A sanha que abarca o apanhador (homens, mulheres e meninos), o fazendeiro, e o usineiro, aumenta cada vez mais, quando o preço do alvo produto, salta degraus, galgando cumes rapidamente. O dinheiro estufando os bolsos sertanejos dinheiro pra encher pote/ tá, o tamanho do pacote!... Dedé (assim meu pai e os mais próximos o chamavam), empunhando o lápis, em versos, descreve com precisão e simplicidade seu povo, seu tempo e seu espaço.
Nasce o Poeta Cronista, José Saldanha Menezes Sobrinho. Pura literatura de informação. Moeda corrente (Tostão, Contos, Réis, Cruzado). Produtos variados: tecidos finos (seda ambataclã, voales, cambraia fina, cetim de ranã) e o chapéu de lã para as mulheres; o brim de linho para os homens; anéis, brincos e dentes de ouro, brilhantina Manarra, perfume em garrafa Flores de amores, vinho de uva, cachaça Sete Queda, lenços de todas as cores, fita, pente e marrafa.... A pobre camponesa, antes vestindo chita, agora esnoba na moda, vestido e combinação. Maria da velha Aninha/pra toda festa que ia/trocava cinco vestido/antes de amanhecer o dia/isso é dinheiro de algodão/vestido e combinação/tenho que perdi a quantia.
Dinheiro fluindo do velho ao menino, do camponês ao fazendeiro, proporciona poderes a todos: aí, danou-se as confusões...Brigas, tiros, casamentos feitos e desfeitos, poligamia, a soberba e a luxúria, campeando desde a Serra até a Rua, ameaçando até a Igreja Católica. O avô de Saldanha, intervém no cordel, em defesa do evangelho, evocando a profecia nas escrituras:
 Havia uma profecia/de uma tal de Besta Fera/ouvi meu avô dizer:/já está chegando a era/essa Besta sem reprovo/vem dando dinheiro ao povo/e tudo se desespera..
Isso é da escritura / ela dará um estoro / e vem soltando dinheiro / de um maldito tesoro /já vem de idéia pronta / trocando ruzaro de conta / por um ruzaro de ouro.  
Cordel revisado pela professora D. Rita Regina de Macedo Saldanha, sua estimada mãe, está estruturado em 26 setilhas, rimando ABCBDDB, versos de sete sílabas, alguns pés-quebrados. Traz marcas típicas do cordel: o humor (Toinha da véia Joana/magra que só tanajura), na oralidade, a liberdade das concordâncias: verbal (eu já cheguei em lugares/que pocos meninos vai), nominal (cachaça sete-queda), na grafia (ruzaro/rosário, toro/touro, boço/bolso, tesoro/tesouro, pocos/poucos), para atiçar os puristas, as rimas, (demais/paz; touro/namoro/oro...).  Dois pequenos lapsos ao rimar nas setilhas 13 (caseiros / tiros) e 20 (estrato / alto), erros de impressão, a partir da capa, O PEÇO DO ALGUDÃO, mas, por se tratar de uma obra popular, escrita por jovem, sertanejo, nordestino, são argumentos favoráveis ao Poeta - meu conterrâneo – que reforçam tão somente a absolvição ante qualquer pré-julgamento. Prevenindo-se disto, o próprio bardo santanense, trouxe sua pré-defesa nos seus últimos versos, setilhas 24, 25 e 26:
Esse preço do algodão/esquentou o povo demais/obrigou até a mim/escrever termos rivais/com os poucos anos meus/peço proteção a Deus/para viver a vida em paz.
Peço desculpa ao povo/desta minha narração/o primeiro versinho que fiz/sobre o preço do algodão/escrevi a realidade/do que vi desde a cidade/ao interior do sertão.
Peço para desculparem/o menino do papai/aos meus dezessete anos/essa lembrança não sai/sobre termos populares/eu já cheguei em lugares/que pocos meninos vai.
Coroando tal façanha, para rimar com Saldanha, segue este episódio: contou-me em sua casa, o próprio, a saga da edição financiada pelo pai. Às 2 horas da madrugada da quarta-feira, limiar de dezembro de 1935, cavalo esquipado corta o sertão. No matulão 25.000 réis. Meio dia na estrebaria de Santa Cruz do Inharé, agreste potiguar, o cavaleiro-poeta da terra de Oscar Macedo, paga dois Tões pelas custas dos cuidados eqüinos. Na Tipografia Santa Cruz, fecha a empreitada literária de 1.000 folhetos em 20.000 Réis, tendo a palavra de honra sertaneja, como selo, carimbo e assinatura desta transação e o compromisso de entrega, na quarta-feira seguinte, no escritório da Cooperativa de Escrita Comercial em Cerro Corá. Compromisso firmado, compromisso saldado, conforme combinado. Saldanha nem abre o pacote, monta cavalo e risca para o Piató. A alegria do Poeta confirma O Preço do algodão e o orgulho do povo
Santana do Matos, sábado, pátio da feira, Saldanha abre a maleta e recita para os Santanenses com orgulho, seu Primeiro Cordel. Cinco tostões é o preço do folheto. As vendas disparam, até a metade da maleta encerrar o dia. Disse-me ele: “Deu-me um trabalho danado, pra tomar um café”. “Era um bolo de morcego nos bolsos.”
Dia seguinte domingo, feira de Cerro Corá. Muitos folhetos, muitos morcegos nos bolsos. Antes do meio-dia, mais um quarto da tiragem se esvai.  Ainda sobra-lhe tempo e cerca de 200 exemplares para em Currais Novos nesse mesmo dia, vender o último folheto, rendendo-lhe na alma milhares de Réis de felicidade, encerrando a epopéia literária desse expoente da literatura popular brasileira, com mais de mil títulos editados, condecorado com tão justa, singela e honrada comenda de O Mais Velho Poeta Cordelista em Atividade. 

6 de maio de 2019

EM TIBAU DO SUL: os cantos dos últimos suspiros


        Á aproximadamente  90 quilômetros de Natal, entre a Lagoa de Guaraíras e o Oceano Atlântico na Região do Litoral Agreste nasce uma povoação, habitada primitivamente por tribos indígenas com a denominação de Tibau, que significa região entre duas águas.
     Nessa importante e histórica comunidade de uma forte resistência cultural folclórica, ainda podemos ouvir emocionantes e penosos cantos de Inselênça. Um costume introduzido no Brasil pelos negros africanos, uma tradição remanescente do ‘Itambí Africano”, registra o pesquisador Gonçalves Fernandes em “O Folclore Mágico do Nordeste”.
     Inselênça é uma corruptela de Excelência, que pode também ser pronunciada inselência. Canto entoado  á cabeça dos moribundos ou de mortos em velórios que vara a madrugada “fazendo quarto”,  na sala onde está o defunto. Costumam se reunir beatas e cantadoras de benditos em súplica á Virgem Maria e são Benedito, santos de muito prestígio no sertão, para que recebam a alma do moribundo ou morto, dando-lhe um bom lugar no céu. Quando entoados “ante-mortis”, apelam ao moribundo para se arrepender em tempo dos pecados praticados.
      Há uma diferença entre Inselênça e Bendito. O primeiro é uma súplica ao morto, o segundo é um canto de louvor ao santo.
      A tradição popular entende ser uma coisa sagrada que respeita e cumpre todos os princípios do ritual, e , o não cumprimento destes é tido como agravo ou desrespeito ao santo a quem se dirige a súplica da Inselênça. Com a retirada do cadáver para o enterro, no momento em que estão cantando, as cantadeiras costumavam acompanhar o cortejo até o final. Acreditavam que se todo ritual não fosse cumprido, Nossa Senhora permaneceria de joelho, e o espírito, em função desse desrespeito não ganharia a salvação.
      Luiz da Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, diz-nos que eram praticadas com freqüência nos Estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e até em outros Estados do Brasil, Augusto César Pires, em Estudos Etnográficos, Filológicos e Históricos, diz que ainda é possível identificar esse ritual nas regiões do Douro e Minho em Portugal.
     As Inselênças são cantadas sem acompanhamento instrumental e repetem de forma uníssona doze vezes cada canto, iniciados sempre com ‘Uma Inselênça”.... Há vários tipos de Inselências: para chuva, trovoada, tempestade, peste, vento, santos e anjos. Contudo, as mais difundidas no Rio Grande do Norte são para moribundos e mortos.
      Tenho viajado muito em pesquisas por várias regiões do RN, e,  esse tipo de manifestação cultural só foi encontrado em Tibau do Sul. Contudo, pode ainda existir nos grotões do Seridó e Alto Oeste, essa relíquia dos muitos fragmentos folclóricos  herdados do mundo colonizador, cantado nas afinadas vozes das senhoras Biga e Noêmia, uma descoberta do pesquisador Dácio Galvão nas competentes pesquisas realizadas no país de Hélio Galvão, Seu pai. A convite de Dácio fomos a Tibau testemunhar a descoberta desta preciosidade, que logo depois foi registrado em CDs, pelo projeto Toques & Cantares, com Direção Artística e Musical do próprio Dácio Galvão. Foram documentados seis cantos de inselênças para mortos, nas vozes destas importantíssimas artistas da memória popular que em muito engrandece o País de Tibau do Sul.
      Recentemente voltam a brilhar, desta vez um arranjo com três cantos, feito por Sergio Galo da Paraíba, uma releitura com o cantor e compositor Jangai, ilustrando a trilha sonora do filme As Pelejas de Ojuara.                                     
    Severino Vicente.