13 de junho de 2018

GIBITECA POTIGUAR: UMA DÉCADA DE HISTÓRIAS!


          Alunos na Gibiteca

         Expo 50 anos do quadrinho potiguar

Por Roberto Flávio

A Gibiteca Potiguar foi inaugurada no dia 15 de abril de 2008 – data bastante significativa, pois nela se comemora o Dia Nacional do Desenhista –, no interior do Centro Cultural e Biblioteca Escolar Prof. Américo de Oliveira Costa, na Zona Norte de Natal.
Ela surgiu como fruto do sonho e do trabalho abnegado e incansável do professor Luiz Elson Dantas. Foi graças a sua persistência e poder de persuasão que ocorreram as duas primeiras e maiores doações de gibis e livros que possibilitaram o surgimento da Gibiteca – Walfredo Brasil e Paulo Iglesias foram os doadores do acervo inicial que permitiu a Elson, seguir em frente com o projeto.
Atualmente o acervo da Gibiteca já ultrapassa a marca de 5mil exemplares, possuindo obras em língua estrangeira, gibis nacionais e potiguares, livros teóricos, adaptações de Clássicos da Literatura Brasileira e Mundial, Westerns, Mangás, Comics, Humor, Infantis e muito mais.
Em 18 de abril, houve a celebração simbólica do primeiro decênio da Gibiteca, que contou com a participação do renomado artista cearense, Geraldo Borges, que há mais de 10 anos desenha para o mercado de quadrinhos norte-americano, nas poderosasMarvel Comics e DC Comics. Essa foi à segunda passagem de Geraldo pela Gibiteca, e após a realização de seu workshop, ele foi agraciado com um Diploma de Artista Benemérito da Gibiteca Potiguar.
Em maio, dando continuidade a programação de comemoração, houve o lançamento do logotipo comemorativo e do blog da Gibiteca. E até o final do ano estão sendo programados novos encontros com quadrinistas locais, além de lançamentos de publicações e de exposições de artes gráficas.
Além da sua atribuição natural, como espaço de estímulo a leitura, com o passar dos anos a Gibiteca acabou atuando em outras importantes áreas educativas e culturais.
A primeira foi como polo de produção artística e cultural, incentivando o surgimento de novos artistas do traço, por meio das oficinas de desenho, de pintura e de histórias em quadrinhos, oferecidas gratuitamente ao público interessado. E que nos últimos anos, também passou a ofertar oficinas de fotografia, de gravura e de cinema de animação.
Diretamente relacionado a este trabalho, surgiram às exposições anuais de desenho, como uma forma de divulgar a produção do atelier da Gibiteca. Com o passar dos anos, exposições temáticas passaram a ser produzidas com a participação de vários artistas locais e nacionais, tendo na figura de Luiz Elson, o papel de produtor cultural e catalisador de talentos. Várias dessas exposições ultrapassaram os limites espaciais da Gibiteca e da Biblioteca Prof. Américo de Oliveira Costa, passando a circular em outros pontos da capital e do interior do Estado – a Mostra Mônica no RN, por exemplo, chegou a ser exposta em João Pessoa, em 2004.
Isso também ressalta a importânciada Gibiteca como centro de difusão da produção quadrinísitca local, pois além das exposições, promove encontros entre os artistas e o público, além de democratizar o acesso às obras potiguares que são disponibilizadas em um espaço específico no interior da Gibiteca.
Outra relevante iniciativa desempenhada pela Gibiteca é o de oferecer cursos, oficinas e palestras de formação para educadores e regentes de bibliotecas, interessados em utilizar adequadamente as histórias em quadrinhos e outras artes gráficas em sua prática educativa. Nessa área, soma-se ao esforço do professor Luiz Elson, o trabalho do historiador e quadrinista, Beto Potyguara, que desde 2004 dedica-se ao estudo e pesquisa desse tema.
Também merece destaque o Projeto Quadrinhos na Escola, capitaneado por Luiz Elson, que consiste no lançamento artesanal de fanzines produzidos por seus alunos cursistas ou por autores amadores, interessados em ter seu material publicado em uma versão impressa.
Todo esse trabalho desenvolvido pela Gibiteca Potiguar já alcançou o reconhecimento externo e é uma referência no Nordeste Brasileiro. A prova disso foi à participação de Luiz Elson na terceira edição do Quadrinhos Entuados, em João Pessoa (2017), quando na oportunidade foi convidado a relatar as experiências exitosas locais em uma mesa redonda ao lado de representantes das gibitecas de João Pessoa (PB) e de Aracaju (SE).
Por tudo isso, a jovem Gibiteca Potiguar, tem muito a comemorar e a se orgulhar. Principalmente pelo fato de que todas essas conquistas relatadas foram frutos de ações pontuais e individuais de Luiz Elson e de outros artistas e parceiros anônimos, pois infelizmente, os Órgãos competentes ainda não abraçaram devidamente essa causa, nem reconhecem a sua relevância e o enorme potencial educativo, artístico e cultural.
São muitos os desafios existentes para que essa trajetória continue radiante e numa dinâmica crescente. Manter e ampliar o acervo, o atendimento e a oferta de cursos e eventos a comunidade, são apenas alguns destes. Mas se depender do esforço e do dinamismo de Luiz Elson e sua turma, essa foi apenas à primeira de muitas décadas que estão por vir para a Gibiteca Potiguar.

GIBITECA POTIGUAR
ENDEREÇO: CENTRO CULTURAL E BIBLIOTECA ESCOLAR PROF. AMÉRICO OLIVEIRA COSTA - AV. ITAPETINGA, 1430, CONJ. SANTARÉM, ZONA NORTE DE NATAL

HORÁRIO DE ATENDIMENTO: DE SEGUNDA A SEXTA DAS 7h30 ÀS 17h30
AGENDAMENTO PRÉVIO DE VISITAS PARA ESCOLAS: (84) 3232-7396

CONTATO: 


4 de junho de 2018

Câmara Cascudo explica a origem universal das festas juninas



                                                                                    Câmara Cascudo


“João, santo católico, primo de Jesus Cristo, nascido a 24 de junho, degolado no castelo de Macheros, Palestina, a 29 de agosto do ano de 31. Pregador de alta moral, áspero, intolerante, ascético, São João é festejado com as alegrias transbordantes de um deus amável e dionisíaco, com farta alimentação, músicas, danças, bebidas e uma marcada tendência sexual nas comemorações populares, adivinhações para casamento, banhos coletivos pela madrugada prognósticos de futuro, anúncio da morte no curso do ano próximo. O santo, segundo a tradição, adormece durante ao dia que lhe é dedicado tão ruidosamente pelo povo, através dos séculos e países. Se ele estiver acordado, vendo o clarão das fogueiras acesas em sua honra, não resistirá ao desejo de descer do céu, para acompanhar a oblação, e o mundo acabará pelo fogo.
“Se São João soubesse
Quando era o seu dia,
Descia do céu à terra
Com prazer e alegria.
Minha mãe quando é meu dia?
-Meu filho, já se passou!
- Numa festa tão bonita
Minha mãe não me acordou!
Acorda, João!
Acorda, João!
João está domingo,
Não acorda, não!””
     Coincide seu nascimento com o solstício de verão (de inverno para América Austral), quando as populações do campo festejavam a proximidade das colheitas e faziam os sacrifícios para afastar o demônio da esterilidade, pestes dos cereais, estiagens, etc. Toda a Europa conheceu essa tradição de acender fogueiras nos lugares altos e mesmo nas planícies, as danças ao redor do fogo, os saltos sobre as chamas, todas as alegrias do convívio e dos anúncios de meses abundantes. Os deuses que recebem essas homenagens são vários mas a época é a mesma para Ásia, África, Europa. O fogo, afugentador dos demônios da fome, do frio e da miséria, é deus fecundador, purificador e conservador, ligado e mesmo representante vivo dos cultos larários, penates, antepassados.
    Os cultos agrícolas foram na Europa e com informação universal, divulgados no domínio do folclore e da etnografia, por James George Frazer, que recenseou centos e centos de cerimônia das fogueiras votivas e festas propiciatórias em junho-julho (Le Rameau D’Or, III, 459, e segs.) ervas que podem ser colhidas nessa noite e possuem qualidade sobrenatural, mágica e terapêutica (518, Paris, 1911). Na Península Ibérica o culto a São João é um dos mais antigos e populares; Portugal possuiu no espírito de sua população todas as superstições, adivinhações, crendices e agouros amalgamados na noite de 23 de junho, convergência de vários cultos desaparecidos e de práticas inumeráveis, confundidos e mantidos sob a égide de um santo católico.
    Para o Brasil a devoção foi trazida pelos portugueses e espalhada com a satisfação de um hábito agradável. A maneira de comemorara o santo era a mais sugestiva e fácil para o proselitismo. Os indígenas ficaram seduzidos. Em 1583 o jesuíta Fernão Cardim, indicando as três festas religiosas celebradas pelos indígenas com maior alegria, aplauso e gosto inicial, escreveu: “A primeira é as fogueiras de S. João, porque suas aldeias ardem em fogos, e para saltarem as fogueiras não os estorva a roupa, ainda que algumas vezes chamusquem o couro’’. (Tratado da Terra e Gente do Brasil, 326; Rio de Janeiro, 1925). O Francisco Frei Vicente do Salvador, na segunda década do séc. XVII, informava que os indígenas “só acodem todos com muita vontade nas festas em que há alguma cerimônia, porque são mui amigos de novidades, como dia de S. João Batista por causa das fogueiras e capelas’’. (393, História do Brasil, São Paulo, 1918).”  (Dicionário do Folclore Brasileiro)


25 de maio de 2018

Cerro Corá - Clima frio e paisagens bonitas



Edson Benigno


          Cerro Corá é um município do RN , que se destaca por está entre o turismo do roteiro seridó. Entre os mais freqüentes roteiros oferecidos aos turistas são: escultural, de aventura, pedagógico, da melhor idade e o arqueológico. Sua beleza natural contribui para esta caminhada bela e atrativa e é por isso que o município é considerado uma opção de fazer turismo natural e atraente. Possui uma população de 11 mil habitantes e se constitui em zona de planejamento das serras centrais.
            Com um clima bastante frio e paisagens bonitas, serve de nascente para o rio mais importante do Estado, o rio Potengi. Todo mês de Maio, é realizado um grande "Festival de Inverno", com queijo e  vinho, evento que já está inserido no calendário turístico do Rio Grande do Norte. Este acontecimento  é onde reverencia o que a cidade tem de mais atraente: o frio da serra. Reúne todos os dias um grande número de pessoas oriundas de toda a parte do nordeste.
         Os monumentos naturais que fazem as pessoas que a visitam voltar ao passado e se encantar com o esplendor da natureza. Existe ainda o lago azul em Serra Verde, a nascente do rio potengi, tanques e convento, feitos de pedras. Salas e salões bem divididos que causa admiração aos mestres da arquitetura e da engenharia civil. Tudo arquitetado e construído pela própria natureza, além de pinturas rupestres, vegetação nativa e um magnífico pôr do sol.
            Muitos eventos importantes da cidade são realizados naquele local, atraindo uma multidão de pessoas. Entre estes acontecimentos estão a festa do padroeiro São João Batista, a famosa vaquejada serrana, Festa  de Nossa Senhora do Rosário, Semana da Cultura, e a Festa da  Emancipação Política da localidade,  que é realizada todo ano no dia 11 do mês  de dezembro.  
         Além das tradicionais festas de Natal e Réveillon, com muita queima de fogos existem ainda o Carnaval Serrano, que se  mantém há anos e reúne centenas de foliões no centro da cidade ao longo de todos os  três dias. Essas atrações atraem pessoas não só do município e adjacências, como da cidade  de Natal e outros Estados vizinho do RN. Já são marcos importantes da história de Cerro Corá.
            Na cidade existe o vale vulcânico adormecido há 25 bilhões de ano. Esse tipo de vulcão se caracteriza pela sua inatividade aparente que se concretizou quando houve o esfriamento da terra há bilhões de anos. Os pesquisadores deste tipo de fenômeno natural e que vistam a região, afirmam que a possibilidade deste vulcão entrar em atividade é remotíssima, por isso também é chamado de Pseudo-vulcão.
            A cratera do vulcão em sua parte mais baixa tem em torno de 700 metros de profundidade a céu aberto e é contornada por lavras endurecidas, dispersas ou alojada em blocos que tem aparência de toras de madeira preta empilhadas. A mesma é cortada em seu leito por um riacho formado em todo o seu presente em todo seu percurso por pedras de diversas cores.
            A paisagem nesta época do ano é extremamente seca e o clima quente durante o dia amenizado por um vento que não para de soprar. A noite a temperatura é mais amena com vento calmo e agradável. Cerro Corá está localizado na mesorregião central potiguar que abrange a microrregião do Seridó e adjacências. A altitude varia de  500 a 900 metros acima do nível do mar, o que favorece o clima frio nos meses de chuva.
Origem do município.
            A história que deu origem a cidade Cerro Corá começa com os índios Canindés e Janduís, que foram os primeiros habitantes da localidade. Eles começaram uma sublevação no final do século XVII, e uma expedição dirigiu-se à região com o objetivo de reprimir o levante. Mas os grupos de povoamento só chegaram à localidade com a fixação de colonizadores, apenas no século dedicado a agricultura e a pecuária.
            A primeira proprietária de terras na localidade foi Adriana de Holanda Vasconcelos, que no ano de 1764 recebeu duas datas de terras. Dona Adriana doou parte da serra que ficava em suas terras a Nossa Senhora Santana, surgindo o nome Serra de Santana. Nos idos de 1886, o Major Lula Gomes, paraibano de Picuí, proprietário da localidade chamada de Barro Vermelho, fundou o povoado de Caraúbas, nome dado em referência à existência de carnaubeiras nas redondezas.
            Com o incentivo inicial de Lula Gomes, o povoado se desenvolveu, contando ainda com o importante trabalho de Manoel Salustino Gomes de Macedo, João Soares de Maria, João Pinto, Manoel Osório de Barros e Tomaz Pereira de Araujo. A primeira residência foi de Gracindo Deitado, onde hoje existe uma loja de eletrodomésticos, na rua Sérvulo Pereira, centro.
            O primeiro nome do povoado foi Barro Vermelho, se assim dizia porque os vaqueiros que ali passavam ficavam com as roupas tingidas pelo barro daquela cor. Depois, o povoado se chamou Caraúbas, tendo passado a ser chamar Cerro Corá para não ser confundido com o município homônimo da região Oeste do Rio Grande do Norte.
             Em homenagem ao último momento histórico da Guerra do Paraguai, o Presidente da Intendência de Currais Novos, João Alfredo Galvão, o Joca Pires, no ano de 1922, mudou o nome do povoado para Cerro Corá, passando a distrito do município de Currais Novos em 1938, pelo Decreto n.º 603.
            No dia 11 de dezembro de 1953, através da Lei número 1.031, desmembrado de Currais Novos, o distrito de Cerro Corá passou à categoria de município do Rio Grande do Norte. O então deputado estadual Cortez Pereira foi o autor do projeto de lei de emancipação política do município, depois sancionada pelo então governador Sílvio Pedrosa.

17 de maio de 2018

Da morte do estudante Edson Luís ao famigerado AI5: Sangra-se as liberdades.


Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: Semurb/ Parque da Cidade Dom Nivaldo Monte

No dia 28 de março de 1968, um jovem estudante secundarista, Edson Luís de Lima Souto, foi morto em um conflito entre estudantes e a Polícia Militar. O cenário de “guerra” aconteceu no restaurante Calabouço, o uso de armas de fogo, por parte das forças de segurança pública, causou a morte de um jovem, em meio ao agitado ano de 1968. Nesta época, os “ventos” vindos de diversas partes da Europa, principalmente da França, incentiva, em todo Brasil uma reação de parte da sociedade contraria ao rompimento do processo democrático ocorrido com o golpe militar civil de 1964.
O ano de 1968 é um capítulo importante na mobilização contra o golpe, as praças são ocupadas, o grito por democracia ecoa em diversos lugares do país. A morte de Edson Luís, causa uma comoção em setores, antes silenciados, a classe média vai as ruas protestar contra as ações autoritárias implantadas com os generais presidentes. Conforme o Historiador Carlos Fico:
O impacto na opinião pública foi muito grande. A censura rigorosa da imprensa ainda não havia sido implantada, de modo que os jornais puderam noticiar o ocorrido, inclusive com fotos dramáticas do cadáver do jovem morto. […] Uma faixa exibia frase contundente para a classe média: “mataram um estudante: podia ser seu filho.” […] A morte de Edson Luís gerou protesto pelo Brasil afora […] O governo decidiu reprimi-las. No dia 4 de abril, a polícia montada atacou as pessoas que saíam da missa de sétimo dia de Edson Luís na igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro. (FICO, Carlos. São Paulo: Ed. Contexto, p. 63-64, 2015).

     A livre manifestação é reprimida, em uma demonstração de força autoritária, os militares impunham a “paz” das baionetas, muitos foram os casos de ataques, como o ocorrido durante a missa de sétimo dia, quando o as escadarias da igreja de Nossa Senhora da Candelária, na cidade maravilhosa, testemunhou a truculência, com salientou Carlos Fico.

A palavra
Silenciada
Não é Palavra
É calabouço.
(Luciano Capistrano)

A sociedade brasileira viveu dias de idas e vindas, nas veredas das liberdades, os movimentos sociais, espalharam por todas as regiões ações de mobilização contras as atitudes repressivas, abria-se uma “fresta” nas portas do arbítrio. O mês de junho é marcado por um dos mais fortes atos em defesa das garantias individuais, a “Marchas dos Cem Mil”. Sobre este momento, o Historiador Jacob Gorender, em Combate nas trevas, faz a seguinte observação:
O dia 26 de junho marcou o momento de auge com a Passeata dos Cem Mil, que se concentrou na Cinelândia carioca e percorreu a avenida Rio Branco, até a Praça Quinze. […] Presentes vedetes da música popular, da televisão e do teatro, escritores, jornalistas e políticos, professores e líderes sindicais. Tal a repercussão que o Presidente Costa e Silva se dispôs a receber em Brasília a comissão representativa dos organizadores da passeata. Nada resultou do diálogo, mas esta foi a única e última vez que um general-presidente concedeu a uma comissão popular. (GORENDER, Jacob. Combate nas trevas. São Paulo: Ed. Ática,p. 148, 1997)

O ano de 1968, com  março marcado com o sangue do jovem Edson Luís, e, junho com a grande marcha dos Cem Mil, não terminou bem para o restabelecimento da democracia. Em 13 de dezembro, o governo do general-presidente, decreta o Ato Institucional n. 5. Este famigerado AI-5, dotou o general-presidente de poderes ditatoriais. Fecha-se o Congresso Nacional, faz escuro a democracia.

1964… sangra-se liberdades!

Memórias das noites sombrias
Sob o manto do medo
Tortura-se
Prende-se
Exila-se
Silencia-se
Desaparecidos políticos.

Memórias das noites sombrias
Sob o manto do medo
Censura-se
O pensar
Mordaça-se
A fala
Democracia interrompida
1964… sangra-se liberdade!
(Luciano Capistrano)

Nestes tempos de democracia em risco, façamos o bom diálogo, lembrar para não repetir. Finalizo, com essa provocação: Da morte do estudante Edson Luís ao famigerado AI5: Sangra-se as liberdades.

7 de maio de 2018

ENTREVISTA: SÉRGIO FARIAS NO JORNAL ZONA SUL - OUTUBRO 2011


                                                                    Sérgio Gondim


Incluído em qualquer relação dos melhores músicos potiguares, o violonista e compositor Sérgio Gondim Miranda de Farias nasceu no Rio de Janeiro. Algumas semanas antes de embarcar para uma longa temporada na França, ele conversou comigo, com o jornalista Roberto Fontes e com o advogado Ronaldo Siqueira. O anfitrião, como não poderia deixar de ser quando as entrevistas são realizadas em Natal, foi o Veleiros Restaurante, de Ricardo Menezes. Durante pouco mais de uma hora, Sérgio Farias traçou um resumo de sua trajetória. Falou sobre os irmãos músicos, as precoces apresentações nos barzinhos de Natal, o retorno ao Rio para se aperfeiçoar no violão, o festival de música da Rede Globo e sua primeira ida à França. Vamos acompanhar o que Sérgio tem para contar. (robertohomem@gmail.com)

DE VOLTA AO VELHO CONTINENTE

ZONA SUL – Você não nasceu no Rio Grande do Norte...
SÉRGIO – Nasci no Rio de Janeiro. Meu pai, José Miranda de Farias, era militar da Marinha: vivia viajando. A vida de militar era itinerante. Minha família morou em Belém, Recife, Rio de Janeiro e em Natal. Mamãe era daqui de Natal. Somos sete irmãos. Fui o único que nasci fora. Todos os outros são de Natal. Passei só dois anos e pouco no Rio, não assimilei nada. De lá, meu pai fixou-se com a família em Natal. Só voltei ao Rio já velho.
ZONA SUL – Quer dizer que você não acompanhou a vida itinerante do seu pai.
SÉRGIO – Não. Peguei o final, quase a aposentadoria dele. Meu pai era militar da parte médica, era dentista. Sua participação nas Forças Armadas era mais leve. Nunca senti papai militar, até porque ele deixava essa faceta na Marinha. Fora alguns stress, ele não trazia para dentro de casa.
ZONA SUL – Sua mãe tinha alguma ocupação?
SÉRGIO – Mamãe, Guacyra Gondim Miranda de Farias, é uma heroína, como toda mãe. Além de ter criado os sete filhos, quando completei uns sete anos ela voltou à faculdade. Concluiu e passou a atuar como professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Foi engraçado porque eu acompanhava, como criança, essa participação científica dela. Os outros curtiram mais o lado dela de mãe. Na minha época ela passava o dia todo na universidade, pesquisando.
ZONA SUL – Ela pesquisava em qual área?
SÉRGIO – Bioquímica. Começou a pesquisar nessa área numa época em que não havia nem centro de pesquisa. Os equipamentos eram adaptados. Quando os pesquisadores de São Paulo vinham a Natal, achavam surpreendente a maneira como os pesquisadores daqui trabalhavam, sem aquele apoio tecnológico ao qual eles estavam habituados. Hoje - graças a esse desbravamento feito por ela e por uma geração de pesquisadores – a bioquímica de Natal é superequipada. Logicamente ainda não é comparada a São Paulo ou ao Rio de Janeiro, mas já atingiu um nível importante.
ZONA SUL – Seus pais tinham alguma ligação com a música?
SÉRGIO – Tanto a família da minha mãe como a do meu pai gostavam muito de música. Eu tinha menos contato com a família do meu pai, que é de Pernambuco. Às vezes a gente passava anos sem se ver, mas quando se reencontrava, parecia que tinha acabado de se deixar. O pernambucano têm um espírito muito vivo e alegre. Não é a toa que o frevo nasceu lá. Meu avô, Mário Henrique de Farias, gostava de cantar e de dançar. Contam que ele saía de casa para dançar. Mas não era em clubes, como hoje. Ele morava no interior, no distrito de Casinhas, em Surubim. Saía de noite para cantar e dançar ciranda com as crianças, na rua. Nem precisava de acompanhamento: era só o canto e as palmas. Quando a gente chegava em Pernambuco, sempre tinha uma ciranda da família nas nossas reuniões.
ZONA SUL – E na família da sua mãe?
SÉRGIO – Dois tios gostavam muito de música e de boemia: Carlos Gondim, o filho, e Tota, o Fernando Antônio. Dentro da minha casa também tinha música. Meu irmão mais velho, Mário Henrique (as pessoas o conhecem pelo trabalho que fez na Banda Anos 60), é um compositor fantástico. É impressionante a tranquilidade com a qual ele toca bossa nova. Ele tem uma facilidade enorme de acompanhar.
ZONA SUL – Mário Henrique foi a fonte através da qual você se inspirou para ingressar no caminho da música?
SÉRGIO – Não sei. De qualquer forma era uma facilidade muito grande ter, dentro de casa, uma referência ótima de violão. No começo eu queria tocar como ele. Mas não havia disputa, porque além de ele tocar muito mais do que eu, na verdade comecei estudando bandolim. Por tocarmos instrumentos diferentes, ele geralmente me acompanhava. Outro irmão, Carlos Gondim, também me acompanhou muito, tocando violão. 
ZONA SUL – Nas suas brincadeiras de criança a música entrava de alguma maneira?
SÉRGIO – Dividi muitas brincadeiras com meus primos. A família pra mim era uma coisa muito legal. Tive muitos primos praticamente da mesma idade. Às vezes juntávamos uns oito, todos na mesma sintonia. Naquela época a gente era mais solto, tudo era mais natural. Sem jogos eletrônicos, o negócio era a criatividade. Brincávamos de forte apache, de jogar bola ou outros jogos coletivos, como esconde-esconde, 31 alerta... Nunca esqueci certa ocasião quando, ao término das férias, comecei a pensar que a volta às aulas significaria uma diminuição no ritmo daqueles encontros. Eu tinha uns sete anos. Foi quando Elis Regina interpretou: “O bêbado e o equilibrista”. Um mês depois de aquelas férias acabarem, bastava eu escutar aquela música que eu caía no choro. A dose emocional era duplicada: o fato das férias terem acabado e própria música, que de tão bonita mexia lá no fundo. Quando a música acabava, eu repetia e chorava de novo. Apesar de naquela época eu já escutar muita música, foi essa a primeira pancada musical que recebi.
ZONA SUL – O que você ouvia?
SÉRGIO – Carlinhos, meu irmão, brincava dizendo: “Serginho, você gosta de escutar esse tipo de música para agradar papai”. Senti uma empatia muito grande com algumas músicas de compositores que saíram em uma coleção de música popular brasileira. Nela vinham discos encartados com seis músicas. Eram de um tamanho intermediário: nem compacto simples, nem longplay. Nessa coleção descobri João de Barro e Alberto Ribeiro, Ismael Silva, Ary Barroso. Gostava mais deles do que dos mais modernos, como Caetano Veloso. Uma das músicas que eu mais gostava era “Antonico”. Quando comecei a tocar violão, com oito ou nove anos de idade, eu já sabia essas músicas.
ZONA SUL – Como você começou a tocar?
SÉRGIO – Aprendi o básico e pouco a pouco passei a conhecer um acorde ou outro mais complexo com meu irmão Mário Henrique. Os sambas que eu gostava não eram tão difíceis como a bossa nova, que tem acordes demais. Não tinham harmonia nem melodia difíceis, nem enorme sofisticação. Mas a letra e a melodia eram bem feitas. Outra música ótima que recordo é “Seu Libório”, de Alberto Ribeiro e João de Barro. Ainda tenho vontade de criar um grupo chamado “Lado B”, pois sempre gostei dessas músicas que ficavam do lado menos interessante do disco. Antigamente o lado A do disco tinha as músicas mais populares. No segundo lado as gravadoras deviam dizer para o artista: “nesse aí você faz o que quiser”. O primeiro lado era para vender o produto. Eu sempre gostei do segundo lado.
ZONA SUL – Mas você estava contando como começou a tocar... Você participou de algum grupo musical na escola?
SÉRGIO – Minha participação na escola, sobretudo até o ginásio, não teve nada a ver com música. As pessoas só sabiam que eu tocava quando tinha, por exemplo, um encontro. Até porque estudei no Colégio Marista no finalzinho da ditadura. Ainda tinha um ranço danado. Não foi uma época boa.
ZONA SUL – Você foi bom aluno?
SÉRGIO – Nunca fui bom aluno. Engraçada essa coisa de ser bom aluno. Somente quando fui convidado pela UFRN para participar de uma banca, de um júri, e para falar sobre a minha experiência na França, foi que me dei conta que nunca tinha gostado de estudar. Apesar disso, fiz uma quantidade enorme de cursos musicais. Só pós-graduações, fiz umas três. Apesar de não ser tão dedicado, enquanto estudava, procurei sempre aprender e absorver alguma coisa. Sobretudo depois de mais velho. Até a universidade, eu estudava para me livrar daquela obrigação.
ZONA SUL – Você foi aluno da então Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte?
SÉRGIO – Sim, fiz mecânica na ETFRN. Se pagassem bem, naquela época, a um técnico de mecânica, eu teria seguido carreira. Adorava abrir um motor, regular um carburador. Depois fiz até o terceiro ano de engenharia mecânica. Vi que não queria aquilo quando fui fazer um estágio. Descobri que o engenheiro tinha que ficar em uma mesa, desenvolvendo projetos, sem se sujar com nada. Eu não queria ser o engomadinho da mecânica. Tive o bom senso de desistir na metade do curso. Depois fiz educação artística, com habilitação em música. Eu queria fazer música, mas não tinha.
ZONA SUL – O que veio primeiro: suas composições ou as apresentações?
SÉRGIO – Comecei acompanhando alguns artistas. Na época foi difícil, pois eu era bem novinho, tinha 16 anos. As primeiras apresentações fiz com Edimar Costa, da Caixa Econômica. Ele também era um cara novo e tinha a versatilidade de acompanhar vários estilos. Edimar gostava muito de Gonzaguinha. Antes de a gente se apresentar, ele teve que ir conversar com o meu pai, assegurar que eu não me envolveria com bebida...
ZONA SUL – Foi quase como um pedido de noivado...
SÉRGIO – Foi. Papai achava a música legal em casa. Mas ele tinha um medo danado da boemia, sobretudo de os filhos passarem a beber. Como eu era o mais novo, a preocupação crescia. Papai não tinha medo de a gente entrar no mundo da droga. Até porque a droga era um negócio escondido e distante da vida de todos nós. Não havia nem recomendação com relação a isso.
ZONA SUL – Onde foram suas primeiras apresentações?
SÉRGIO – Nos bares em Ponta Negra, como “Casa da Sogra”. Tocávamos eu, Edimar, Fábio Fernandez, no baixo, e Carlinhos, na bateria. Depois dessa fase, comecei a fazer uns cursos de harmonia. Não lembro se eu paguei integralmente esses cursos, mas sei que no começo papai não queria ajudar. Usei os cachês com essa finalidade. O professor era Manoca Barreto. Logo que ele voltou do Rio, colocou um cursinho. Devo ter bancado uns dois meses. A partir daí, vendo o meu interesse, papai e mamãe devem ter passado a ajudar. Não lembro exatamente, mas sei que na época foi difícil, houve resistência. Através de Manoca, em pouco tempo apareceram outros trabalhos. Éramos poucos os músicos de Natal que, naquela época, líamos cifra. Contavam-se nos dedos os guitarristas que liam cifras e que moravam em Natal. Apesar de eu ser muito novo, já era requisitado. Manoca foi super importante para Natal: ele ensinou vários músicos a ler cifra e muitas outras coisas. Eu, Erick (que passou mais de 15 anos tocando com Margareth Menezes) e Wallid fomos alguns dos que aprendemos com ele. Toda uma geração foi pegar essa informação que Manoca buscou lá fora. Alexandre Siqueira e Ricardo Menezes foram outros alunos dele. Manoca, quando não podia fazer alguns trabalhos, passava para mim. Foi assim que surgiu a oportunidade de trabalhar com Pedrinho Mendes. Fiz trabalhos com outros artistas que gostavam da praticidade que a banda da gente tinha de ler partituras e cifras, de fazer dois ou três ensaios e não esquecer no próximo encontro.
ZONA SUL – Você tocou com Pedrinho naquela fase do “Boteco”?
SÉRGIO – Não, já peguei Pedrinho na época de campanha, dos carnavais. Fizemos o primeiro Carnatal. Pedrinho era o máximo. Natal mal conhecia as bandas de Salvador. Poucas rádios tocavam uma ou outra música, mas, no geral, ninguém conhecia, com exceção de Luiz Caldas, Banda Mel e duas ou três outras. No primeiro Carnatal, a apoteose do evento foi Pedrinho Mendes e Moraes Moreira. A gente olhava para a Prudente de Moraes, da Praça Cívica, e via gente entupida até a Apodi. Foi uma grande novidade para Natal, aquele povo todo e os trios elétricos passando. Era enorme a quantidade de pessoas ali. As pessoas tinham uma idolatria por Pedrinho. Fiquei morto de nervoso quando fui ensaiar com ele. Pedrinho era um grande astro e talvez ainda seja para muita gente, ainda hoje. Tenho grande respeito pelo trabalho dele. O brasileiro, de uma maneira geral, não tem muito sentimento de patriotismo, de bairrismo. A gente sempre acha legal o que vem de fora.
ZONA SUL – Talvez seja uma característica do potiguar. Pernambucano, por exemplo, se adora. O paraense e o paraibano também curtem seus artistas. O Ceará, do mesmo jeito.
SÉRGIO – Não sei, mas acho que se Pedrinho tivesse nascido na Bahia, teria sido mais do que Gilberto Gil. No mínimo ele deveria ser para o potiguar como Gilberto Gil é para o baiano. Babal também é outra fera. Tem alguns outros. Era para o potiguar ver Pedrinho em um restaurante e pedir um autógrafo. O cara devia entrar em um bar, ver Pedrinho e sentir orgulho de ter um cara como aquele na nossa terra. Mas vejo o pessoal desrespeitar até Câmara Cascudo! Quantas vezes ouvi comentários de que Câmara Cascudo inventava, quando não sabia determinada história. Quantas vezes escutei essa imbecilidade. Câmara Cascudo é o maior expoente da cultura popular no mundo.
ZONA SUL – E ele construiu sua obra sem internet, com os meios de comunicação precários da época, recorrendo a cartas e bibliotecas.
SÉRGIO – Não existe um paralelo para ele. Não existe pesquisador americano ou francês que tenha feito o que ele fez. E ele recebia a todos na sua casa. Mas a gente não idolatra nem Câmara Cascudo. Tem gente que fica procurando defeitos.
ZONA SUL – Que outros artistas você acompanhou nessa época em que dava seus primeiros passos na música? Você já compunha?
SÉRGIO – Ainda não. Acompanhei vários artistas: Sueldo Soaress, Cleudo Freire, Tarcísio Flor, Valéria Oliveira, Galvão, Babal... Naquela época as pessoas gostavam do nosso núcleo de instrumentistas. Esse grupo variava alguns integrantes: Manoca (depois ele parou um pouco), eu na guitarra, no baixo Erick (tocava com 100% dos artistas), Eduardo Taufic nos teclados, e Sílvio, na bateria. Depois entraram Distéfano (bateria) e outros artistas. O grupo começou a aumentar até se dividir. Mas foi um núcleo de músicos que acompanhou muita gente, como Antônio Ronaldo, Manassés Campos e o pessoal do Trampo. 
ZONA SUL – Foi nessa época sua ida para o Rio?
SÉRGIO – Depois que trabalhei com Joca Costa resolvi fazer um curso de arranjo. Quando fui assumir a direção do Instituto Waldemar de Almeida, da Fundação José Augusto, tive oportunidade de dizer a Joca – que é professor de lá – que devo a ele parte da minha vontade de ser músico.  Minha trajetória mudou muito quando o conheci. Ele fazia arranjos belíssimos. Escrevia para cordas, para metais, para flauta... Construía a grade de partitura... Eu queria aprender aquilo. Assim, aos 20 anos, resolvi fazer um curso de arranjo no Rio de Janeiro. Quando concluí, com menos de um ano, surgiram as composições. Por causa do curso, tive que fazer arranjos e composições também. Comecei a compor uma música, duas, três... Quando voltei para Natal um ano e meio depois, estava com umas 14 músicas. Me deu aquela vontade louca de fazer um disco. Foi quando surgiu “Palmyra”, o primeiro CD.
ZONA SUL – O disco foi gravado em Natal?
SÉRGIO – Sim, mas a qualidade na época não era boa, a cidade só tinha um estúdio. No Rio fiz o curso de harmonia com o maestro Yan Gest, acho que ele é até húngaro. Ele representou para o Rio o que Manoca significou para Natal: trouxe um curso de arranjo para o Rio de Janeiro. Os compositores e arranjadores tinham que estudar com ele. Até hoje ele é referência. Por isso fui lá fazer com ele. Depois de gravar “Palmyra”, voltei com o disco debaixo do braço para o Rio. Visitei as gravadoras que trabalhavam com música instrumental. Gostavam do disco, mas por serem pequenas, não tinham condições de fazer nada. O cara da Perfil Musical disse que também tinha gostado, mas a gravadora havia acabado de investir em Romero Lubambo e na diva do jazz brasileiro, Leny Andrade. Levei também na Vison e voltei achando que não tinha conseguido nada. Mas no outro dia me ligaram dizendo que se eu gravasse de novo, eles lançavam. Avaliaram que as composições eram ótimas, mas que a qualidade de gravação não era nada boa. Fiz um projeto dentro do Profinc e regravei no Rio. Interagi com muitos músicos, conheci Rildo Hora, Sérgio Galvão (irmão do Lula Galvão). Gravei com a Companhia de Cordas do Rio de Janeiro. Conheci Iura Ranevisky, outra figura importante. Em estúdio você conhece muitas pessoas. Foi mais fácil depois voltar pro Rio e começar a trabalhar. Quem também deu muita força foi um amigo daqui, Murilo, que tinha tocado um tempo com o MPB-4. Ele facilitou esse contato. Depois do disco, pude começar a trabalhar no Rio, pouco a pouco.
ZONA SUL – O que você fez de mais importante nessa passagem pelo Rio?
SÉRGIO – Pra mim o mais importante Rio foi mudar minha maneira de tocar. Eu tocava muito  pra mim, solava demais. Era igual aquela pessoa que, numa conversa, fala muito e ouve pouco. Então, comecei a relaxar mais. Percebi que a minha participação tinha que ser menor em todas as músicas. Pra mim foi difícil. Você pode ser o artista principal, mas está tocando em um grupo. Esse comportamento você tem que guardar para o resto da vida. A música é um trabalho em equipe. A dúvida entre um ser humano e outro é grande, imagine entre vários músicos tocando uma peça. A música suscita esse descobrimento interior. A prática musical leva você a algumas reflexões e atitudes. Ao mesmo tempo, é como criar um filho. Estou criando um filho agora. Estou com um menino lá em casa. Você nunca sabe bem como vai proceder. Você tem que refletir o tempo todo. São sempre situações novas, nunca é a mesma situação. As músicas que aparecem para a gente tocar dão isso pra gente. Quanto mais experiência você tem para tratar com a música, melhor. A música é muito exigente, ela lhe obriga a ficar em forma, sobretudo intelectualmente. A música é como um diálogo. Se você está falando com uma pessoa e ela começa a olhar para o lado, ela perde o fio da meada um pouquinho, quando volta, não está mais por dentro daquele assunto. Se é em grupo, pior. Se tem várias pessoas interagindo dentro de uma peça sonora, aí é que é complicado mesmo. Tem gente que é muito desleixado tocando. Bota as notas dentro do compasso e nem escuta. A música é uma exigência profunda.
ZONA SUL – Você se apresentou com quem nessa primeira temporada no Rio?
SÉRGIO – Toquei com vários artistas. Tive um parceiro que foi muito legal pra mim, o Miltinho, do MPB-4. Ele é um excelente compositor, apesar de o Brasil pouco conhecer. E olhe que tem muitas músicas consagradas, como “Cicatrizes”, que Roberta Sá gravou agora. Ele tem um trabalho fantástico. E como integrante do MPB-4, nem precisa ser apresentado. A gente fez um trabalho instrumental e cantado muito íntimo. Eu tocava bandolim e violão com ele. Teve também a Dora Vergueiro, filha do Carlinhos Vergueiro. Também toquei com a Carol Saboya, filha do Antonio Adolfo. Teve uma temporada que integrei o Quarteto em Cy, quando a Celinha não pôde tocar. Tive um trabalho de parceria com a Simone Guimarães, com quem toquei um tempo. Eu era do Rio Grande do Norte e ela de Santa Rosa de Virtebo, interiorzão brabo de São Paulo. Ambos chegando ao Rio de Janeiro, àquela coisa grande. Também interagi com o Mauro Aguiar, que hoje é parceiro do Guinga. Foi o Guinga quem me apresentou a ele. Gravei um filme cujos arranjos foram de Maurício Maestro e, dessa forma, fiquei amigo dele. Quando houve aquela classificação minha no Festival da Rede Globo, em 2000, ele fez os arranjos. Uma coisa vai puxando outra.
ZONA SUL – Como foi a história desse festival?
SÉRGIO – Escolheram a minha música entre 24 mil e poucos candidatos inscritos.
ZONA SUL – Você tinha esperança de classificar alguma música para a fase final do festival?
SÉRGIO – Tive um pouco de esperança porque a Simone Guimarães, que tem uma belíssima voz, cantou na gravação. Tinha uma possibilidade, de repente. Mas não achei que tivesse uma forte chance.
ZONA SUL – Você estava morando no Rio ou em Natal?
SÉRGIO – Em Natal. Antes do festival começar, fizeram quatro ou cinco reuniões. Na primeira, um diretor da Globo chegou pra gente e disse: “quem acha que isso é um festival de música, está enganado. Isso é um festival de imagem, é um festival da Rede Globo”. Foi a primeira coisa que ele falou. O que valia era a imagem, as performances, os aspectos. Ali eu vi logo o que aquele festival seria. Mas, como eu dizia, passei uns quatro ou cinco anos morando no Rio, tocando com esse pessoal. Coloquei a cara entre os violonistas do Rio de Janeiro daquela época. Pensei que chegaria lá e seria apenas mais um violonista desapercebido. Mas notei que a música é uma coisa especial mesmo, sobretudo dentro de uma área específica. Na área da bossa nova, disponível para trabalhar, com gás para acompanhar um novo cantor e também com um cachê acessível, não tinha 500 violonistas. No final, mesmo longe de ser um violonista famoso no Rio, me tornei uma pessoa conhecida em todos os meios. Fui indicado para tocar com vários artistas, entre eles Ivan Lins.
ZONA SUL – Vamos falar na sua fase da França.
SÉRGIO – Voltei do Rio para Natal, e, depois que fiz meu curso superior, surgiu a oportunidade de uma bolsa da CAPES. Eu já estava praticamente noivo, minha esposa é cantora lírica. Nós dois fizemos projetos para uma bolsa de estudos da CAPES pra França, na mesma escola. Na época eu já era parceiro de Hermínio Belo de Carvalho, que fez uma carta de apresentação para mim. Acho que Miltinho também fez. Eu tinha várias cartas de recomendação de músicos da MPB, um belo currículo e dois discos publicados: “Palmyra” e “A nuvem acende”. Minha esposa fez também e o projeto dela foi aceito. Fomos para a França começar tudo do zero. Lá a linguagem musical é muito diferente. O francês tem uma paixão pelo som enorme. Se o músico tem uma grande virtude - que ele chama virtuose - no instrumento, tem uma velocidade muto grande, mas as notas não são muito bem explicadas, se o tempo não é precisamente controlado, se a emoção daquela pessoa não está na mão daquele artista, e se ele não dá o máximo de si e o som dele não é belíssimo, esse artista não terá muito futuro. Mas de todas as exigências, as maiores são o som e a afinação. Você tendo um belo som e uma bela afinação, eles perdoam um pouco o resto. No Brasil a gente é muito emotivo, gosta muito da cena, do palco, da performance da pessoa. O artista tem que dar um show, um espetáculo. Percebi morando na França que a grande referência do brasileiro são os Estados Unidos. ZONA SUL – Na França você tocou profissionalmente?
SÉRGIO – Lá fiz curso de composição para música de filme e também fiz várias apresentações. Uma semana depois que toquei pela primeira vez na França, meu telefone tocou. “Estou ligando porque um amigo músico viu você tocar e me recomendou, pois estou precisando de alguém que toque jazz, algumas coisas latinas e tal”. Depois desse segundo show, outro telefonema. No terceiro ano em que eu estava na França, meu telefone tocava três ou quatro vezes por semana. Eram pessoas diferentes procurando músico. No meu penúltimo ano na França fiz 67 concertos com artistas brasileiros, franceses e também apresentando meu trabalho. Aqui, pra fazer uma quantidade de show dessa tem que ser um artista de muito nome. Lógico que o fato de ser violonista é bom porque você se integra a vários grupos, mas pra um mercado musical, é fantástico.
ZONA SUL – Além disso, pelo que você mesmo falou, é fantástico pelo fato de o mercado ser superexigente. E de você ser um estrangeiro.
SÉRGIO – Por falar nisso, é um mito terrível que eles tenham alguma coisa contra contra brasileiro. Quando a gente vai para um lugar acaba entendendo algumas coisas, mesmo que não apoiando. Por exemplo: quando um estrangeiro vem ao Brasil e observa a violência e a miséria, ele não vai defender, mas vai entender o que são esses fenômenos. Vai saber que o brasileiro pode ir com certa tranquilidade a um restaurante à beira-mar sem sentir pavor de ser assaltado. Pelo menos a maioria das pessoas não sentem esse pânico. Para o estrangeiro a visão é mais ameaçadora. Já na visão do brasileiro, o estrangeiro é o cara que trás o dinheiro. Porém, de uns três anos para cá o brasileiro está percebendo que o estrangeiro também pode representar um problema. Ele pode estar aqui pelo turismo sexual, ou porque é trambiqueiro, ou até por estar usando dinheiro de maneira ilegal... Em suma, ele traz muita coisa positiva, mas também tem seus probleminhas. Na França é o contrário. O estrangeiro que se instala lá traz, na visão do francês, um problemão. Acima de tudo, ele vai usufruir de alguns direitos sociais concedidos no país. Independente de ser francês ou não, na França todo mundo tem. Então, na medida em que chega um a mais, vão ter que repartir a mais um bolo que continuará do mesmo tamanho. O francês também está perdendo poder aquisitivo.
ZONA SUL – Com todas essas oportunidades na França, porque você retornou para Natal?
SÉRGIO – Meus pais estavam doentes e eu estava cansado. Não morar no seu país é muito. Chega um momento em que a pessoa se estafa, fica estressada. É muito tempo você desconectado de tudo, até da maneira de falar. Eu falava português com a minha esposa, mas tinha todo um universo de amigos franceses. Consegui amigos fantásticos.
ZONA SUL – Como é hoje sua relação com a música?
SÉRGIO  O principal de uma música é a mensagem. Se eu vou dizer uma mensagem que você não é sensível a ela, é a mesma coisa de eu estar falando com uma parede. Se o povo hoje só abre o canal do seu coração pra se liberar, para dançar - que é bom também, faz parte – ele só vai receber aquilo. O processo de mudança ao qual me submeti no Rio de Janeiro e também na França me fez melhorar um bocado. Fiquei mais atento com o meu som, passei a me olhar mais. Não melhorei porque estou tocando melhor, mas por ter ficado mais crítico comigo mesmo. Estou cada vez mais exigente e vigilante comigo mesmo e sobretudo isso: eu acho cada vez mais importante o que eu faço. Engraçado, tem tanta gente com profissões tão importantes, mas as minhas notas musicais já me levaram para tanto canto... Já fui para Nova Caledônia (arquipélago da Oceania), para o Caribe, França, Portugal, Itália, Espanha, passando muitas vezes dois ou três meses em cada lugar. Passei dois meses e meio na Itália, conhecendo cada lugarejo. Passamos quase um mês na Espanha, degustando os vinhos, comendo jambon, o presunto.
ZONA SUL – Fale um pouco do trabalho da sua esposa, a cantora lírica Alzeny Nelo.
SÉRGIO – Ela foi uma coisa fantástica na minha vida porque sou músico popular. Não somente a música que ela gosta é erudita, como ela própria é erudita. Alzeny é uma personalidade assim: ela combina demais com a França, é impressionante.
ZONA SUL – Ela é de Natal?
SÉRGIO – Sim, ela é da Cidade da Esperança. Alzeny tem um temperamento bem adequado ao tipo de música que escolheu. Termina me complementando, pois sou bem alvoroçado. A música popular tem um lado rítmico muito forte: o bolero, o samba, o chorinho... Quando a gente fala em música popular, o ritmo vem logo junto. Na música erudita a percussão é um detalhe. Só “Bolero”, de Ravel, que tem aquela marcação contínua. No resto das músicas a percussão é um detalhe, um bolo na cereja. O cara fica um ano esperando um prato. A harmonia, o ritmo são as cordas. Você imagina 80 músicos tocando juntos. Aquele ritmo é muito flutuante. É preciso e não é. São vários músicos que vão dar o ritmo, e geralmente de natureza diferente. Às vezes é a flauta que dá o ritmo, noutras é o violoncelo, a corda grave. Esse bando de instrumentos tocando juntos é uma loucura. A noção de tempo de cada um é diferente. Já começa daí o grande aprendizado. E pra você tocar no tempo tem que ouvir aquele bando de instrumentos e jogar a nota naquele exato instante. Diferente do violão, que o cara toca a corda e o outro responde no baixo e o outro na bateria. Em um grupinho pequeno, a mensagem é rápida. A música erudita é delicada pela sua própria formação. Então, acabei assumindo esse mundo de Alzeny também. Compus uma sinfonia na época em que estudei na França. Fiz em homenagem a um músico de Natal que tinha falecido, Carlão, da Orquestra Sinfônica. A sinfonia chama-se “No tempo das árvores”. Foi apresentada uma vez. Estudei música erudita e análise musical durante quatro anos, na França.
ZONA SUL – Como surgiu a oportunidade de voltar a morar na França.
SÉRGIO – Agora vamos em outras circunstâncias. Já fiz um belo núcleo de amigos, que é o principal na vida. Já volto tocando em grupos musicais, e tenho até show marcado lá. Tenho coisa marcada até em novembro de 2012! Esse show será em uma casa de jazz, acompanhando uma cantora. É muito raro conseguir espaço lá. Eles dão oportunidade de você ensaiar cinco dias no lugar, antes do show. A cantora me disse que a agenda desse local está completa até 2015.
ZONA SUL – A França será a sua base, mas você deverá tocar na Europa toda.
SÉRGIO – É, com certeza. A base é a França. E é uma base fantástica e legal.
ZONA SUL – Você já domina o francês.
SÉRGIO – Falo fluentemente. Lógico que aqui e acolá posso cometer um erro. Mas isso é comum até no português. Para viver na França é diferente. O brasileiro é muito mais acolhedor, ele aceita que o estrangeiro passe a vida toda sem aprender o português. O espanhol ou o alemão vem para o Brasil e não domina a pronúncia de algumas palavras e não aparece um brasileiro para corrigi-lo, não liga muito para isso. Mas, para o francês, a linguagem é muito importante. A gente tem que respeitar essa diferença. Você deve aceitar o francês como ele é e não criar um gueto e se juntar com um bando de outros brasileiros. Ainda mais você como visitante.
ZONA SUL – Seria a mesma coisa de ir a uma festa e se juntar em um grupinho para falar mal do dono.
SÉRGIO – É, estou indo para a casa deles. Se a gente colocar dentro dessa maneira, eu estou indo para a casa de uma pessoa. Então tenho que respeitar o dono.
ZONA SUL – Você vai ficar em Paris?
SÉRGIO – Sim, em Paris.
ZONA SUL – Chegou a hora de partir para os finalmentes: você tem algum plano específico, pensa em gravar?
SÉRGIO – Desde 2005 estou compondo para o terceiro disco. Fiz vários experimentos em estúdio. Gravei três, quatro músicas e vi que não era aquilo que eu queria. Agora, depois desse tempo todo, é que estou voltando uma ideia que tive em 2005. Acho que naquela época eu não tinha habilidade para tocá-la. Eu não estava satisfeito. É uma coisa muito delicada você formar um grupo para gravar um disco. Na época eu gostaria de ter feito violão, baixo acústico e percussão. Eu queria menos ritmo no meu trabalho. Queria uma coisa bem silenciosa, para que a escuta do violão fosse bem presente. Quando o violão vai tocar com o piano na mesma hora, é muita frequência. Acusticamente já é difícil de equilibrar esses dois instrumentos. Quando você vai tocar com outro instrumentista, tem que ser muito planejado. Dois violões, um violão e uma guitarra... Tem que ser tudo muito combinadinho. Na medida em que você não tem esse outro instrumento harmônico e o solista, é só o violão, você tem muito espaço. Mas aí você tem que ser muito sintético também, porque se você tocar demais, acaba anulando os outros instrumentos que também tem que falar. Na época eu tentei e não consegui. Agora estou mais satisfeito. Já fiz umas gravações aqui...
ZONA SUL – A tecnologia em Natal já melhorou ao ponto de ser possível gravar um disco com qualidade?
SÉRGIO – Já, agora está tranquilo. Pode gravar aqui e lançar até na França, sem problema nenhum.
ZONA SUL – Como seus fãs aqui em Natal e no restante do país poderão acompanhar suas aventuras nessa nova temporada que você passará na Europa?
SÉRGIO – Acho que pelo Facebook. Agora, pela primeira vez, estou dando mais atenção à internet. Talvez porque a internet esteja mais interessante. No começo era um negócio aberto onde as pessoas escreviam o que queriam... Hoje está mais regulamentado e os sites estão mais interessantes. Por outro lado, em ferramentas como o Facebook a gente termina encontrando pessoas com afinidades parecidas e dizendo coisas interessantes também. No Facebook publico pouca coisa. Por exemplo, não publiquei nenhuma música minha. Vou começar a explorar o Youtube também. No Facebook as pessoas podem me encontrar pesquisando Sérgio Farias. Mas penso em fazer um site. Logo que ele esteja pronto, divulgarei pelo Facebook. Meu irmão Carlos Gondim é o grande incentivador.
ZONA SUL – Sua esposa também vai para a França?
SÉRGIO – Sim, e meu filho, Paulo Henrique, que tem três anos. Ele já toca bateria. Paulinho começou a tocar bateria com um ano e meio. Eu toco violão, o último instrumento que eu o estimularia a tocar seria a bateria. Mas ele acordava de madrugada e pegava várias bacias, com um ano e meio, e ficava tocando. E dizia: “bateria, bateria”.
ZONA SUL – Para o pai deve ser uma “maravilha” acordar de madrugada com o filho tocando bateria...
SÉRGIO – Já me acostumei. Dois meses depois de ver essa coisa natural dele, comprei uma bateria.
ZONA SUL – Deixe uma mensagem para o leitor do jornal.
SÉRGIO – Sinto, com os 39 anos que tenho hoje, que a vida é muito boa. A ideia original da vida, eu sinto isso, é perfeita. A gente tem um planeta belíssimo, eu sinto que a missão que temos no mundo é muito simples: é se relacionar. Essa é a coisa mais importante que temos que aprender: se relacionar bem com a natureza e com o ser humano. O que estou buscando é não atrapalhar o fluxo natural da vida. Ou seja, fazer as coisas que vão contribuir para o meu crescimento. Luto muito para procurar não me sentir especial. Especial de verdade, para mim, é ser mais um. É ser uma pessoa que, se não atrapalhar, já está bom. Essa mania de que a gente tem que ser grande atrapalha muito. A gente se envolve demais com os problemas cotidianos, fica fixado naquela vida pequena, voltado para nosso núcleo, nossa família, para meu filho, minha mulher, para o meu, o meu... E vai dando as migalhas para o próximo. O que sobra do estresse do dia a dia é o que a gente dedica ao próximo. Precisamos reverter esse quadro, a família é importante, mas a grande família é mais importante.