10 de setembro de 2019

Mini-história da imprensa infantil no RN



Anchieta Fernandes
           
         Se a leitura era uma fuga da realidade para as crianças clientes da psicanalista Melanie Klein, no entanto, para as crianças normais de hoje ler faz parte do aprendizado. A literatura infantil, por isso, é muito importante no processo de formação da pessoa. E o meio mais democrático de difusão desta literatura é uma mistura do padrão livro com o padrão dos periódicos, no contexto da imprensa infantil apresentada em jornais e revistas. Sem se esquecer que hoje sites existem onde a criança encontra também sua literatura preferida via online.
           Mas, como tem sido a história da imprensa infantil aqui no Rio Grande do Norte? Façamos uma retrospectiva: entremos na máquina do tempo. Ainda no século 19, em 1899, em Natal eram lançados os dois primeiros jornais infantis do estado: “O Rato” e “A Espora”. Em 1908, a Sociedade Infantil Filhos do Concerto, também em Natal, lançava ao público de pouca idade norte-riograndense outro jornal infantil: “Luz da Infância”, que tinha como lema a frase do Eclesiastes: “Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade”.
           Mas antes deste novo jornal infantil de Natal, Alfredo Dias já pensara nos pequenos como leitores de jornais, em Assu: em 1900, começou a publicar, em parceria com Otávio Amorim, o jornalzinho “O Pintassilgo”. No ano seguinte, Alfredo D e João Alfredo lançavam outro órgão jornalístico infantil em Assu, cujo título era o nome de outra ave: “O Cisne”. Em 1909, em Caicó, Tudinha Nóbrega redigia e lançava o jornal manuscrito “A Infância”. Em 1911 e 1912 circulou em Assu o jornal “O Infantil”, tendo saído seu primeiro número a 4 de junho de 1911.
            Passaram-se depois algumas décadas sem se ter notícias de outros jornais no gênero. A 24 de novembro de 1952, contudo, alunos e professores do Grupo Escolar Meira e Sá, de Santana do Matos lançavam “Ecos Infantis”, sob a direção do professor Celso Arruda, embora a supervisão estivesse a cargo do “Excelente educador” (como a ele se referiu Manoel Rodrigues de Melo, em seu livro “Dicionário da Imprensa no Rio Grande do Norte 1908 – 1987”, publicado em 1987) Osvágrio Rodrigues. Era uma publicação periódica, com tiragem até de 400 exemplares.
              Em 1967, a magia do pensamento infantil se somou a uma vertente espiritual, com o lançamento em Natal da revista “Criança Espírita”, que se dizia “revista de orientação espírita à infância”. Em Currais Novos, também se deu um empurrãozinho para se despertar crianças e jovens para a leitura de jornais. Na cidade do poeta José Bezerra Gomes, a 2 de abril de 1968 começava a circular “O Jornalzinho”. Era um órgão infantil mensal do Grêmio Domingos Sávio. Em setembro de 1983, foi lançado em Natal o “Jornal da Criança”.
               Era uma publicação totalmente dedicada aos interesses da gente miúda (em tamanho físico), publicando material jornalístico literário e artístico em geral sobre crianças, e alguma parte deste material produzida pelas próprias crianças. O jornal era uma publicação da EDITORA SACI – Projetos e Empreendimentos Jornalísticos Ltda. No primeiro número, tem uma matéria sobre iatismo e a sua prática pelas crianças de um curso (crianças na faixa etária de 9 a 14 anos)promovido pelo Iate Clube de Natal.
           Tem também o lançamento das colunas “Literatura Infantil” (comentando no primeiro número os livros “Os Bichos que Tive – Memórias Zoológicas”, de Sylvia Orthof, e “Sapo Curuminho da Beira do Rio”, com texto e ilustrações de Maria Magdalena Lana Gastelois) e “Dicas”, além das páginas “Galeria de Fotos”, “Ateliê” (literatura e desenhos produzidos por crianças) e “Quadrinhos, Jogos e Humor”. Na mesma década, em novembro de 1987, o jornalista Júnior Alves lançava em Natal o jornal “A Criança”, com distribuição gratuita.
           O slogan no cabeçalho era: “O jornal de quem quer saber mais”. Artigos, poesias (transcrito no primeiro número trecho de um poema do grande poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, acompanhado de uma foto dele quando menino), notícias, contos (no primeiro número, um conto escrito pelo garoto Rodrigo Fonseca Alves de Andrade, de 9 anos de idade), e muitas fotos de crianças e adolescentes norte-riograndenses. Algumas das colunas lançadas no primeiro número: “Trenzinho da Alegria”, “Curiosidades”, “Juventude em Destaque”.
           No 2º bimestre de 1998, foi lançado em Natal o jornalzinho “Lápis de Cor em Notícia”, ´´orgão do Jardim Escola Lápis de Cor, de Natal, com artigos pedagógicos. Também em 1998, no mês de julho, foi lançado em Natal o boletim informativo “Vida”, da Casa de Apoio á Criança com Câncer. Para a mesma entidade (isto é, Casa de Apoio à Criança com Câncer), a Oficina da Notícia produziu, a partir de setembro de 1999, o informativo “Jornal da Casa”. Em dezembro do mesmo ano, a mesma agência começou a produzir o “Jornal do Hospital Infantil Maria Alice Fernandes (Zona Norte de Natal).
              Em junho de 2000, foi lançado em Natal o boletim informativo (apenas uma folha, impressa de um lado) “Criança Cidadã”, do Projeto Criança Cidadã, da Associação de Amigos do Bairro de Felipe Camarão. O jornal foi fundado por Francisco Ranilson Nascimento, com distribuição gratuita. O “Jornal CEI”, do Centro de Educação Integrada, de Natal, foi lançado em agosto de 2000, para mostrar trabalhos e atividades desenvolvidas pelos alunos da Educação Infantil, Ensino Fundamental e também do Ensino Médio.
SUPLEMENTOS
              Além dos jornais totalmente dedicados às crianças, deve-se mencionar também os suplementos infantis de jornais noticiosos. No ano de 1959, por exemplo, o Diario de Natal começou a publicar, a partir do dia 9 de junho, a página-suplemento “Recreio”. Fixou-se a sua publicação semanal às terças-feiras. Apresentava contos infantis, passatempos, poesias, curiosidades e até uma “Enciclopédia Mirim”. A página era organizada por Serquiz Farkatt, com ilustrações pelo desenhista Poti (pseudônimo de José Potiguar Pinheiro).
         Aliás, foi em “Recreio” que Poti lançou a estória em quadrinhos “O Fogo Através dos Tempos”, de conotação hamliniana (v. “Brucutu”, ou “Alley Oop”, no original), e que marcou o quadrinho norte-riograndense (antes do Grupehq) como a primeira produção no gênero, de um artista da terra, publicada aqui mesmo, em jornal local. Na década setenta (anos 70), o Diario de Natal lançou o caderno “O Diarinho” (precisamente a 22 de agosto de 1977), com quadrinhos de Maurício de Sousa, uma página de Divertimentos (enigmas, cruzadismo) e fotos de crianças.
           É também da década 70 o suplemento “Tribuninha”, do jornal Tribuna do Norte, que publicou também os quadrinhos de Maurício de Sousa, jogos, adivinhações, poesias infantis. Seguindo o exemplo do fundador do jornal, Aluízio Alves (que, ainda menino, aos 11 anos, já lançava seu jornal “O Clarim”, todo datilografado, em Angicos), a “Tribuninha” valorizou e incentivou a criatividade artística das crianças natalenses, inclusive promovendo concursos para os mini-leitores produzirem versões quadrinizadas de famosos contos de fada universais.
            Também compreendendo que as crianlas devem ser levadas a sério no contexto jornalístico, e que a sua educação cultural deve ser cuidada inclusive na formação do hábito de ler jornais, o extinto jornal da Imprensa Oficial, A República, manteve de 17 de dezembro de 1978 a dezembro de 1983 o suplemento “A República Infantil”; para o qual se comprava, através de mala direta, o excelente material do desenhista baiano Luiz Cedraz (quadrinhos, lições de desenho e páginas para colorir). Além da prata da casa, como os contos infantis do funcionário Ivanaldo Xavier.
              Em 1988, houve o lançamento do suplemento “JN Infantil”, do Jornal de Natal, e produzido por Gruphq Produções. Também quase a mesma fórmula dos outros: quadrinhos, passatempos, desenhos para colorir, galeria de fotos de crianças (com legendas informando nome completo e data de nascimento). Um diferencial: publicou-se uma quadrinização dos fatos históricos da libertação dos escravos em Mossoró (“30 de setembro, quebram-se as algemas”), com texto de minha autoria e desenhos por Adrovan. Aliás, o suplemento também publicou mini-contos de minha autoria.                                     

29 de agosto de 2019

A RIBEIRA DOS ANOS 30 E 40



1.       
Celso Paiva Martins

Aqui cheguei em 1933, com 13 anos de idade. Cresci e envelheci naquele pedacinho da Rua Silva Jardim ao Beco da Quarentena, hoje apelidado de Largo da Rua Chile. Sempre ouvi dos meus ancestrais que a Ribeira foi o marco inicial do comércio de Natal. A Ribeira era privilegiada com o porto e dois terminais de passageiros que trafegavam de trem. Constantemente, aportavam navios de cargas ou de passageiros em trânsito para o Norte ou para o Sul, e isto concorria muito para aumentar a movimentação do bairro. Também era na velha Ribeira onde estavam instalados os escritórios das companhias de aviação, tais como a Air France, Condor e Panair, que ficavam nas intermediações da Rua Frei Miguelinho com a Rua Tavares de Lyra.
O bairro também abrigava os melhores hotéis da época. Hotel Internacional, Hotel dos Leões, Hotel avenida e outros de categoria mais inferior, que tinham muita procura pelos comerciantes do interior e isto se completava pela proliferação das casas noturnas. A Ribeira dos anos 1930 centralizava todos os segmentos do comércio, quer de modas quer de exportação. Era ponto também de embarque e desembarque de transportes ferroviários e fluviais.
O comércio era assim distribuído:
a) Rua Doutor Barata: - Intercessão com a Rua Quintino Bocaiúva e a Praça Augusto Severo. Neste trecho ficava todo o comércio de modas de Natal. Não existia a semana inglesa, o movimento maior se registrava sempre aos sábados, quando as senhoras da classe A desfilavam elegantemente na Ribeira, rua acima, rua abaixo, portando belos vestidos, luvas e chapéus. E para aperfeiçoar a beleza das elegantes da época, existia o armarinho Santa Terezinha, de propriedade de D. Letícia Cerqueira, sogra do Dr. Jessé Café. O comércio de ferragens estava praticamente centralizado numa só loja, a C. Galvão & Cia., pertencente à família Galvão, que após uma crise na administração, acompanhada do falecimento do Cel. Clemente Galvão, principal titular, se se deparou. 
      O conhecido Galvãozinho trouxe em sua companhia o Sr. Amaro Mesquita, que era um conceituado viajante da época, e juntos formaram a firma Galvão Mesquita, que é com certeza a única que permanece desde os anos 1932, porque Limarujo veio se instalar muito tempo depois. Existia também a firma Gurgel Luch, de propriedade alemã, constituída por agentes das companhias de navegação alemãs que por aqui aportavam para o recebimento de toneladas e mais toneladas de produtos regionais, tais como algodão, cera de carnaúba, couros, peles, farinha de mandioca e até mesmo o açúcar mascavo.
b) Na Rua do Comércio, hoje Rua Chile, intercessão com a Rua Aureliano Medeiros, estava centralizado todo o comércio exportador, além dos armazéns com vendas a grosso de cereais, açúcar e outros produtos correlatos, que aqui eram disputados semanalmente pelos comerciantes do interior, não somente de nosso Estado, como também dos estados vizinhos. Existia na época a chamada “Despensa natalense”, ou Casa Machado, que mantinha grande estoque de finos produtos nacionais e estrangeiros, envolvendo bebidas das mais requintadas da época e muito bem aparelhada para o atendimento a navios tanto de bandeira nacional quanto internacional, como também atendia as companhias de outras praças como Fortaleza e Recife. Ainda registro na memória a Wharton Pedrosa S.A, que era uma firma inglesa e que teve como sócio o pai do Dr. Sílvio Pedrosa, considerada a maior exportadora de algodão do nosso Estado; a Lafayete Lucena, que foi adquirida por Dinarte Mariz; a Fernandes & Cia., uma associada da firma mais antiga do Estado; a Tertuliano Fernandes (Mossoró) e também a M.F. do Monte, depois Monte Rebouças Ltda. 
Esta não exportava somente algodão, como também o caroço do algodão, cera de carnaúba, borracha de maniçoba, entre outros. Estava também localizada na Rua Chile as instalações da firma Martins, Irmão & Cia., que comprava produtos regionais desde o couro do sapo ao açúcar mascavo, existindo até hoje, embora com a espinhela caída, com razão social de Mercantil Martins Irmão S/A, modificação esta feita por força da transformação em S/A no ano de 1965. Afora os exportadores já citados que se instalaram neste trecho de Natal, existia também o comércio grossista de tecidos, de João Galvão Filho, David Cunha e Alves de Brito S/A; na parte de estivas recordo-me de L. Barbosa & Cia. Ltda. e Cunha, Maia & Cia. Entre as representações se destacava a Gurgel, Amaral & Cia., pois além de trabalhar com boas representações, mantinha por conta própria um grande estoque de material para o campo que variava desde o balde para leite a mais sofisticada campinadeira. Era formada por três irmãos: Salviano Gurgel , Manoel Gurgel e um terceiro, que a herdaram do pai. Outra firma que se destacava em representações era a Mesquita & Cia. Ltda., que por conta própria mantinha agenciamento à Cia. de Navegação Pereira Carneiro, atualmente Cia. Comércio e Navegação. Não alcancei funcionando, mas me lembro das instalações da firma dos Tinocos, inclusive o Sr. José Tinoco, sócio do Sr. Enico Monteiro, que na época comercializava peles e algodão.
c) Avenida Tavares de Lyra: – Conhecida como o centro das confabulações políticas da época, muito frequentada pelos políticos e empresários considerados de elite, que formavam o Partido Popular Brasileiro. Foi exatamente neste trecho de Natal, até 1935, que conheci o carnaval, depois passando para a Cidade Alta. Existiam também as firmas que vendiam automóveis e acessórios importados. Ainda gravo na memória a M. Martins & Cia., Severino Alves Bila, Santos & Cia. Ltda. (já nos anos 1940). A única agência de banco, com exceção do Banco de Natal (antigo Bandern), era a agência do Banco do Brasil localizada na esquina com a Quintino Bocaiúva e Tavares de Lyra.
d) Rua Frei Miguelinho: – Outrora totalmente residencial, aqui, acolá, via se uma bodeguinha, a qual existia em função das proximidades do Mercado da Tatajuba. A expansão do comércio nesta rua deve-se muito ao meu tio, o saudoso Vicente Martins, um desbravador desta rua. Onde hoje se localiza uma repartição da Prefeitura, que era de propriedade do Sr. Otacílio Maia, funcionava a Cia. de Navegação Conteira, que posteriormente foi alugada à firma João Câmara, que já possuía um depósito na Rua Chile (deixei de mencionar quando escrevi sobre a Rua Chile acima, porque este depósito era utilizado somente para o recebimento de mercadorias vindas das filiais do interior). Apesar de ter sido um grande empresário no setor das exportações, João Câmara somente veio a ser reconhecido após a guerra, falecendo poucos anos depois. Possuía boas fatias das exportações, porém era audacioso e um autêntico ditador, pois sempre teve como meta acabar com qualquer concorrente de médio porte. 
Onde ele descobria que tinha um cliente dele querendo se tornar independente, com a força política que possuía, mandava arrochar, e a única saída era o camarada vender o estabelecimento a ele ou encerrar as atividades antes que ficasse na pior. Eu não tenho lembrança que exista gente por aí se considerando rico ou mesmo Colégio Pedro II (onde o escriba deu os seus primeiros passos), a Escola Normal e a Escola Doméstica. Quem mais contribuiu para a desativação da velha Ribeira foi o fechamento da Estação Rodoviária, porque nela embarcavam e desembarcavam os pequenos comerciantes que vinham do interior para comprar ali mesmo na Ribeira.  Apesar desta velha Ribeira ter sido considerada o centro nevrálgico de toda a atividade comercial econômica, social cultural e política nos anos 1930, só veio melhorar um pouquinho de 1935 para cá, com a construção de edifícios, destacando-se o Grande Hotel (1935), Edifício do Bandern (1939), Edifício S. Bila (1940), Associação Comercial (1942), Ed. Fernando Costa Agricultura (1943), Edifício Mirmão (1959), Edifício Quinho Chaves (1954), Banco da Lavoura (1968) e o Banco do Brasil (1968). 
Meios de Comunicação – Era difícil a comunicação para fora do Estado e na capital só existia a Rádio Educadora, fundada por alguns empresários locais entusiastas destas coisas. Tivemos bons serviços de alto-falantes, de propriedade do Sr. Romão, estabelecido em uma casa de revistas e jornais e poucos livros. Ele tinha sido gazeteiro no Recife. Ainda podemos citar a inglesa Western Telegraf Co. (1942), a Rádio Internacional – Radional (1948) e o Serviço de Telefonia Automática, instalado pela Cia. Força do Nordeste, dos ingleses, em 1943. Remediado que tenha recebido ajuda de João Câmara, muito pelo contrário, pois se formos analisar direitinho ele não dava a menor chance, nem mesmo para aqueles que derramaram o suor pela empresa.
e) Avenida Sachet, (hoje Duque de Caxias): - Ali não existia comércio a não ser o posto de Antonio Farache, um cartório, o Hotel Avenida e a Recebedoria de Rendas. A avenida era praticamente tomada por residências de classe A, inclusive a mansão do Dr. Januário Cicco, Odilon Garcia, etc. Nos anos 1940, o Sr. Francisco Varela (Chico Varela) construiu o edifício Campielo, que foi ocupado pelo Banco do Brasil por um longo período. Onde hoje está localizado o Banco do Brasil era a residência do Sr. Anaximandro, um tradicional comerciante. Na Rua Ferreira Chaves existia uma parte para o comércio e outra parte para residências, além da delegacia e da chamada chefatura de polícia. O ramo de comércio ali existente se estendia por toda a Rua do Triunpho (hoje denominada 15 de Novembro), abrangendo a Rua Almino Afonso e as adjacências.
f) Praça Augusto Severo: - Como toda a cidade que tem o seu cartão postal, o de Natal era exatamente a Ribeira, com predominância para a praça Augusto Severo, que era conservada, arborizada e, à noite, recebia, vindas da Cidade Alta, as moças que ali faziam o Footinf. A Ribeira tinha o privilégio de possuir duas estações ferroviárias, uma conhecida como a Central, que explorava o transporte ferroviário no Rio Grande do Norte, e a outra era a Great Western, dos ingleses, entre Natal e Recife, conduzindo os mais sofisticados passageiros e escoando produtos de Pernambuco para o comércio local. Teve a Ribeira os melhores estabelecimentos de ensino da época, como o Colégio Pedro II (onde o escriba deu os seus primeiros passos), a Escola Normal e a Escola Doméstica. 
Quem mais contribuiu para a desativação da velha Ribeira foi o fechamento da Estação Rodoviária, porque nela embarcavam e desembarcavam os pequenos comerciantes que vinham do interior para comprar ali mesmo na Ribeira. Apesar desta velha Ribeira ter sido considerada o centro nevrálgico de toda a atividade comercial econômica, social cultural e política nos anos 1930, só veio melhorar um pouquinho de 1935 para cá, com a construção de edifícios, destacando-se o Grande Hotel (1935), Edifício do Bandern (1939), Edifício S. Bila (1940), Associação Comercial (1942), Ed. Fernando Costa Agricultura (1943), Edifício Mirmão (1959), Edifício Quinho Chaves (1954), Banco da Lavoura (1968) e o Banco do Brasil (1968). Meios de Comunicação – Era difícil a comunicação para fora do Estado e na capital só existia a Rádio Educadora, fundada por alguns empresários locais entusiastas destas coisas. 
Tivemos bons serviços de alto-falantes, de propriedade do Sr. Romão, estabelecido em uma casa de revistas e jornais e poucos livros. Ele tinha sido gazeteiro no Recife. Ainda podemos citar a inglesa Western Telegraf Co. (1942), a Rádio Internacional – Radional (1948) e o Serviço de Telefonia Automática, instalado pela Cia. Força do Nordeste, dos ingleses, em 1943.

19 de agosto de 2019

Escolha uma escolha para a sua vida


             

     
            Salete Pimenta Tavares

 “A vida é feita de escolhas”, é o título do livro de Dalcides Biscalquin, que trata das difíceis escolhas que teve que tomar em sua vida. Na orelha do livro, a jornalista Mariana Godoy, esposa do autor, diz que o livro vai fazer o leitor refletir sobre a vida e suas decisões e, principalmente, sobre os motivos que o levam a seguir este ou aquele caminho. “Refletir é transgredir a ordem do superficial”. Essa possibilidade que temos de escolher é um sinal de que estamos em movimento e em transformação.
Muitas vezes, a vida nos coloca em situações difíceis e o desespero nos impede de buscar novas saídas para o problema. Mas, quando se examina a fundo, toda e qualquer situação sempre oferece escolha. Não há nada bom ou ruim, não há coincidências na vida, não há destino. Tudo é uma questão de escolhas. Em todo tempo fazemos escolhas: escolhas felizes, escolhas possíveis, escolhas conscientes, escolhas do coração, escolhas amorosas, escolhas do que vamos comer, vestir, o que falar, o que fazer, etc.
 Até a felicidade é uma escolha, uma escolha que requer um certo esforço; mas, vale a pena lutar por ela. Então escolha sabiamente como reagir às situações, pois as escolhas que nós fazemos no nosso dia a dia é o que nos fazem crescer ou diminuir diante de nós mesmos.
A nossa vida é formada de pessoas, umas especiais, outras insignificantes. As especiais possuem energias positivas, benéficas e brilhantes que elevam você ao mais alto do pódio. Essas pessoas são capazes de nos indicar direção, despertar o que temos de melhor e ajudar a retirar os excessos que nos tornam pesados.
Ao contrário das insignificantes, cujas energias negativas poderão drená-lo ou destruí-lo, isto se você permitir. É você quem escolhe como as pessoas afetarão a sua vida. É sua a escolha de como viver bem e melhor, pois na vida tudo tem a cor que costumamos pintar. Quem dá brilho ao olhar é a vida que a gente optou por levar.
“Ter problemas na vida é inevitável; ser derrotado por eles é opcional” (Roger Crawford). Sabemos que nem tudo é fácil na vida, mas com certeza, nada é impossível. Não existe nenhum problema humano ao qual não se possa dar solução, já que a solução está em nós.
A cantora Joan Baez, falando de escolha, diz que você não pode escolher como vai morrer e quando. Você só pode decidir como viver, para que não tenha sido em vão. Portanto, entre sonhos, desejos, limites e dificuldades, procure realizar as mudanças necessárias na sua vida e no mundo a sua volta, acreditando nas escolhas feitas. Há muito, o que aproveitar da vida agora; é só fazer a escolha certa. O autor espanhol Alex Rovira Celma também enfatiza que “a nossa vida é o que fazemos dela, os princípios são simples, difícil é aplicá-los”. O importante é que coloquemos sempre a força positiva do nosso pensamento nas escolhas, realizando-as com amor e respeito pelos outros.
Há também um provérbio japonês que diz: “Existe uma porta pela qual pode entrar a boa sorte, mas só você tem a chave”. E essa chave é, com certeza, a sua escolha decisiva diante da vida. Precisamos acreditar, ter fé e lutar para que não apenas sonhemos, mas também tornar todos esses sonhos, todos esses desejos em realidade.
Talvez a escolha mais difícil que se tenha conhecimento foi a de uma polonesa, presa num campo de concentração durante a segunda guerra mundial, que é forçada, por um soldado nazista, a escolher entre seus dois filhos, um para ser morto. Se ela recusasse a escolher um, ambos seria mortos. No momento de desespero, entre a menina e o menino, que era mais velho, e, sem saber o que fazer, ela grita: leve o bebê, que era a menina.
 Essa história é o roteiro de um filme americano, de 1982, “A Escolha de Sofia”, com direção do cineasta Alan J. Pakula. A referida protagonista venceu na categoria de melhor atriz recebendo vários prêmios. O filme é triste e doloroso, mas muito bem feito e de uma interpretação espetacular da atriz Meryl Streep, a Sofia, mãe das crianças.
Enfim, “Se sou fruto de minhas escolhas, que elas sejam pautadas em graça, entendimento e, sobretudo, consciência” (v. email na internet sobre escolhas), não esquecendo que a FELICIDADE depende das escolhas que fizermos.
Artigo publicado no Jornal Zona Sul - Setembro 2012

7 de agosto de 2019

Município de Nísia Floresta


         

                                                                              Nísia Floresta - Foto: divulgação

Edson Benigno

       O município de Nísia Floresta enche de orgulho os seus moradores pela sua história e ao mesmo tempo pelo belíssimo resgate cultural que possui. Está localizado na Região Litoral Agreste do Estado, a 43 quilômetros da capital, onde residem cerca de 23 mil pessoas. Situado também no Pólo Costa das Dunas que ainda compõem as praias de Búzios, Pirangi do Sul, Barra de Tabatinga, Barreta e Camurupim e as Lagoas Boágua, Carnaúba, Carcará, Redonda, Bomfim e Ferreira, que fazem parte do cenário turístico do RN.
        A municipalidade e sua vizinhança possuem verdadeiros tesouros como a vegetação exuberante, numerosos lagos, população acolhedora e alimentação suculenta. Várias atrações como o “baobá”, uma árvore natural do continente africano e que virou um dos ícones de Nísia Floresta, mundialmente conhecido pelo livro “O Pequeno Príncipe”, do escritor francês Saint Exupéry. Ela possui 19 metros de altura, plantada em 1877 por Manuel de Moura Júnior e tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional, no ano de 1965.
        A gastronomia da cidade oferece o famoso camarão da região, prato predileto na culinária potiguar. No local, existem vários restaurantes especializados em servir Camarão, fruto da pesca, que sempre foi farta dentro das suas lagoas e nas terras de boa qualidade para o plantio de várias lavouras. Essa riqueza natural serviu de impulso para o progresso econômico do povoado, que até os dias atuais se mantém baseado na agricultura, na pecuária, na pesca e na força turística de seu litoral.
         O artesanato também faz parte da economia da região.  Na comunidade de Campo de Santana, localizada no município, há um grupo de mulheres que se dedica à técnica do labirinto, um mestiço entre o bordado e a renda, trazida pelos colonizadores portugueses e difundida pelo Nordeste brasileiro. São mercadorias que decoram toalhas de banquete, panos de bandeja, centros de mesa, palas de blusas e vestidos, entre outros usos.
            Em Alcaçuz, no mesmo município, é uma das únicas comunidades do Rio Grande do Norte que preservam a técnica da renda de bilros ou renda de almofada. Utilizada no vestuário e em peças de guarnição da casa, a qualidade e a beleza dos padrões da renda potiguar fizeram com que, nas décadas de 1970 e 1980, essa produção tivesse grande aceitação no mercado consumidor. Esses produtos são vendidos atualmente tanto nas feiras municipais como na própria localidade pelas mulheres rendeiras.
          Possui ainda o Mausoléu de Nísia, onde estão depositados os restos mortais da escritora Nísia Floresta. A cidade conta com uma bela estação de trem de estilo neoclássico, convertida em restaurante: "Estação Ferroviária de Papary". Ela foi construída pelos ingleses em 1881 e considerada Patrimônio histórico nacional em 1984.  O povoado começou com o nome de Vila de Papary, mas pelo Decreto-lei, em de 23 de dezembro de 1948, foi mudado para outra denominação em homenagem à sua mais ilustre filha, a escritora Nísia Floresta, que tinha como nome de batismo, Dionísia Gonçalves Pinto.
          A literatura do Rio Grande do Norte passou a ter maior destaque devido a ela, que nasceu em Papary, mais precisamente no Sítio Floresta em 1810. Filha de uma das mais importantes famílias da região, Dionísia Gonçalves Pinto, entrou para história como uma escritora que teve coragem de pensar e defender suas idéias, consideradas revolucionárias pela sociedade conservadora da época. Ela entrou para o mundo literário com um pseudônimo que se tornou internacionalmente conhecido, o de Nísia Floresta Brasileira Augusta.
         A escritora do pequeno vilarejo de Papary tornou-se famosa, sendo admirada por muitos e questionada por outros tantos. Era tida como extraordinária, notável, ao mesmo tempo em que era considerada mestiça e indecorosa. Ela após residir em diversos Estados brasileiros, como Pernambuco, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, mudou-se para a Europa onde passou o resto de sua vida. Morreu em 1885, em Rouen, no interior da França. No Rio de janeiro, quando morou lá,  a dirigia um colégio para moças e escrevia livros para defender os direitos das mulheres, dos índios e dos escravos.
            Nísia Floresta foi uma das primeiras mulheres no Brasil a romper os limites do espaço privado e a publicar textos em jornais da chamada grande imprensa, com questões polemicas da época. Alguns de seus livros estão sendo reeditados e suas idéias voltam para nos lembrar um pouco da sofrida história das mulheres pelo reconhecimento de seus direitos e de sua capacidade intelectual.  A esta mulher o povo brasileiro deve as primeiras e mais importantes páginas dessa luta, pela coragem revelada em seus escritos e  pelo ineditismo e ousadia de suas idéias.
           
História da cidade

            Os primeiros habitantes da região de Papary, conhecida desde 1607, foram os índios Tupis. O Nome Papary originou-se de uma lagoa de pesca abundante, existente no território, ao lado das lagoas Guaraíras e Papeba.
Com a fusão das línguas tupi e portuguesa, o nome do lugar  modificou para o Papary, com o qual foram denominadas a Lagoa e a Vila.
Só através de um Decreto-lei, em 1948, que se transformou no município de Nísia Floresta.
            Além das atividades agropecuárias tradicionais na região e do turismo, destaca-se na economia do município de Nísia Floresta o   crescimento da carcinocultura (cultivo de camarões), por tal motivo que ganhou o apelido de "a terra do camarão”. Na cidade se localiza, também,  Barra de Tabatinga, que ao entardecer é comum que a praia seja visitada por golfinhos nas proximidades do “Mirante dos Golfinhos”.

29 de julho de 2019

O CIRCO ESTÁ AQUI



 Texto de João Gualberto


Os animadores do Circo da Cultura, o veículo da Fundação Cultural do Rio Grande do Norte que está para ser armado na Praça Augusto Leite, bem que poderiam realizar um pequeno estágio com os domadores do Circo Garcia, desde ontem já armado na Rua Maxaranguape, esquina com a Prudente de Morais. Talvez eles, os malabaristas do Circo da Cultura não aprendessem muita coisa. Mas uma coisa é certa: para se fazer um Circo é preciso muita dedicação, muita cuca fresca, paz e amor. O resultado é que, no Circo Garcia, a garotada é quem faz o espetáculo, antes mesmo da estreia, hoje, no grandioso picadeiro instalado no Tirol.

O Circo da Cultura, criado pelo escritor Sanderson Negreiros, ainda não é uma atração para a gurizada.
Não tem, como no Circo Garcia, os curiosos tucanos de bico-da-cor-de- arco-íris, nem as araras multicoloridas, nem o cão negro e majestoso que late um latido rouco entre as grades de uma jaula, nem os leõezinhos dorminhocos que não acordam com as brincadeiras das crianças em festa com a novidade.
Tem, é claro, malabaristas, trapezistas, feras ainda não domesticadas, palhaços, bailarinos, domadores de poesia, atores de todas as classes, mas não chega aos pés das estacas que o Circo Garcia plantou no Tirol.
A realidade é que o circo chegou. O Circo Garcia, não o Circo da Cultura. A partir de hoje, o Circo Garcia abre uma série de espetáculos para o público de Natal, com pipocas para as crianças, milho verde para os adultos, tudo isso nas imediações circenses.
Dentro, debaixo da imensa lona psicodélica do Circo Garcia, é que os adultos vão ter a oportunidade de saber se já estão noutra ou se continuam as eternas crianças de sempre.
Sobre o espetáculo, como ele ainda não começou, nem é bom falar. Cada espectador é que, depois de comprar ingressos e ficar acomodado, vai julgar o que viu.
Nesses últimos três dias, o que se viu na Rua Maxaranguape foi assim uma espécie de ensaio do que podem fazer as crianças como espectadoras deste futuro.
Em grupo, mas sem tanta algazarra, as crianças botavam os dedos e os medos entre as grades dos três filhotes de leões que dormiam indiferentes. Os operários, para não fugir ao destino, trabalhavam noite e dia para armar a gigantesca lona do Circo Garcia. Os artistas, que são como os operários, pois não deixam de estar trabalhando um minuto descansavam de mais uma viagem.
E a Rua Maxarangaupe, no trecho entre a Prudente de Morais e a Mermoz, estava iluminada como nunca esteve. Era uma festa, antes mesmo do Circo Garcia anunciar o espetáculo que vai ter início hoje.
Antigamente, quando os circos chegavam às cidades, os poetas eram mais livres e corriam a dar pão aos elefantes. Hoje os poetas ainda não descobriram a importância de uma “Jaula Aberta”, título do próximo livro de versos de Dailor Varela.
A própria poesia, latente nos circo e em qualquer festa, está encoberta pelo cotidiano, se bem que uma ponta de surpresa possa ser descerrada a qualquer instante. Hoje, por exemplo, quando o Circo Garcia transformará os sonhos em realidade de picadeiro.
Se existe um remédio para combater a tristeza ou a desilusão, este remédio não será encontrado em farmácias ou em supermercados.
O remédio é o Circo. Nesse caso, tano faz: Circo da Cultura ou Circo Garcia.
Como o Circo da Cultura ainda vai ser armado, a solução imediata é pagar para ver o Circo Garcia. Por sinal, um circo que tem seus méritos culturais, na brilhante estrela que é o benemérito Antolim Garcia, brindado pelo Ministério da Educação e Cultura com uma placa solene em que se faz justiça ao seu trabalho de levar divertimento (cultura é divertimento) a todo o povo brasileiro.
Entre o Circo da Cultura e o Circo Garcia, portanto, há pelo menos uma diferença de anos e anos de realizações. A placa do veterano Antolim Garcia, por exemplo, é uma homenagem aos primeiros 50 anos de atividades artísticas.
Pode ser vista logo na entrada do circo. Já no Circo da Cultura existe também uma placa, oferecida ao ex-governador Cortez Pereira, em cujo período de governo inaugurou-se o picadeiro cultural. É diferente, bem diferente.
De qualquer forma, hoje em dia, tudo é cultura.
Até mesmo o ato de comprar ingresso para um espetáculo pode ser considerado um “ato cultural”.
O atual responsável pelo Circo da Cultura, o poeta Deífilo Gurgel, um verdadeiro domador de métricas e ritmos do Parnaso, vai gostar de ver o Circo Garcia armado ali, em plena rua, cercado pelas crianças das manhãs.
E, hoje, com o início dos espetáculos, certamente ele terá uma boa oportunidade para fazer uma projeção de como seria o Circo da Cultura se fosse um circo convencional. Não é: é um circo, só.
O fato é que, hoje o Circo Garcia abre as jaulas dos sonhos. Como sempre, as crianças terão prioridade – um diante dos artistas.
E os mais velhos encontrarão um belo motivo para recordar os tempos de anteontem, quando os palhaços eram mais alegres, os equilibristas se equilibravam com maior perfeição, os malabaristas eram os melhores do mundo e os animais falavam com os animais selvagens que moram no coração dos domadores.
Quer dizer, é tempo de circo em Natal. Deífilo Gurgel, que já estava ligado no Circo da Cultura, antes de Antolim Garcia armar os seus divertimentos na Rua Maxaranguape, agora tem uma frase para definir não somente o momento cultural da cidade, mas o próprio espírito da coisa: “Natal era a cidade das Academias.
Hoje pode ser considerada a cidade dos circos”.


Transcrito do “Caderno de Variedades” (jornal A República – 01/07/1979).