17 de janeiro de 2018

Um bairro marcante na história de Natal


Anchieta Fernandes
     
     O bairro da Ribeira é um dos mais importantes na história da cidade do Natal. Mas não há uma data que indique com precisão em que ano começou a existir. Os historiadores falam com referências indiretas. Em sua “História da Cidade do Natal” (1), Luis da Câmara Cascudo afirma que “desde inícios da colonização citava-se a região com suas características topográficas. Em 1603, ‘junto à lagoa da campina’, Jorge de Araújo possuía uma olaria. Sabe-se, assim, que antes de ali se construir razoável número de moradias o bastante para fixar um agrupamento urbano, a indústria de fabricação de tijolos e telhas já começara.
    Esta expressão “lagoa da campina” define bem o que era o lugar. Cascudo explica: “E porque a Ribeira? Ribeira porque a praça Augusto Severo era uma campina alagada pelas marés do Potengi. As águas lavavam os pés dos morros. Onde está o teatro Carlos Gomes tomava-se banho salgado em fins do século XIX. O português julgava estar vendo uma ribeira, como pensou enxergar um rio no Rio de Janeiro.” (2).
    A Ribeira não era propriamente um bairro de Natal. No século XVIII ainda “era zona de sítios para plantações morando apenas os guardas dos armazéns que vigiavam as mercadorias exportadas para Pernambuco.” (3)Nos próprios documentos se constataria a condição ambiental da região separada de Natal. O vigário da paróquia situada na cidade fundada em 1599, Padre Dr. Simão Rodrigues de Sá, pede terras devolutas defronte do cruzeiro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, “indo pela estrada que vai desta Cidade para Ribeira.” (3)
    Devido à relativa distância entre a Cidade Alta e a Ribeira, temia-se ir para esta última a altas horas da noite. Diz Cascudo: “Durante a noite nenhum cidadão da Cidade Alta afrontaria os descampados da Ladeira, temendo, temendo o lobisomem que corria nas trevas da sexta-feira, para ir bisbilhotar pela Ribeira, sombria e triste.” (4) E mais: “em fevereiro de 1834 a Câmara Municipal pedia ao Presidente da Província, Basílio        Quaresma Torreão, a criação de uma Escola para Meninos na Ribeira, argumentando que ‘seria para facilitar a concorrência destas que a deixam de fazer pelo grande intervalo que há despovoado entre uma e outra povoação mormente pela decência do sexo que tem de transitar por caminhos inabitados.” (5)
     Em sua “Nova História de Natal” (6), o historiador Itamar de Souza escreveu: “...a Ribeira que conhecemos atualmente começou a delinear a sua fisionomia entre o fim do século XVIII e o início do século XIX.” (7) Na verdade, pelo menos como intenção de equipar com melhoramentos urbanos o bairro, a coisa começou propriamente em meados do século XVIII. Pois, como Cascudo registrou, em documento de 1633 já se mencionava a pontezinha para se atravessar o lameiro da futura praça Augusto Severo até à Rua da Cruz (depois, Avenida Junqueira Aires, hoje Avenida Câmara Cascudo) sobre o riacho embaixo. Inicialmente, era apenas, “um tronco de árvore, transposto em equilíbrio instável.” (8)Depois, se construiu de tijolos uma ponte mais segura.
     Atravessar a pequena ponte era algo até romântico, pois, como se diz em texto do jornal A República (9), a ponte seria um “delicioso passatempo, idílio da juventude sentimental, ponto de recordações agradáveis.” Mas não se pode ficar sempre na lentidão do romantismo. Salte-se do passar do tempo dos namoros na pontezinha setecentista. Salte-se para os finais do século XIX, descortinando o panorama da evolução da cidade do Natal a partir da efervescência comercial da Ribeira.
      No seu livro, Itamar de Souza escreveu: “”A Ribeira, conhecida também por Cidade Baixa, nasceu banhada pelas águas do rio Potengi e o seu desenvolvimento urbano foi impulsionado pela construção do porto, cujas obras foram iniciadas no final do século XIX.” (10) Além de cargas de importação e de exportação, os navios que atracavam no porto  também traziam passageiros do exterior, e levavam passageiros que iam para outros estados ou para fora do país. Dentro do estado, os passageiros se serviam principalmente do trem da Imperial Braziliam Natal and Nova Cruz Railway Company, cujo prédio da estação inicial, à praça Augusto Severo, foi inaugurado a 28 de setembro de 1881.
      Dentro da cidade de Natal, quem prestou muitos serviços nos transportes dos passageiros urbanos foram os velhos bondes, primeiro os bondes puxados a burro, tráfego inaugurado a 7 de setembro de 1908, indo da rua Dr. Barata à praça Padre João Maria. Os bondes elétricos foram inaugurados no mesmo dia da inauguração da luz elétrica na cidade, a 2 de outubro de 1911, tornando cada vez mais alegre e progressista a fisionomia da cidade, e principalmente da Ribeira, centro de comércio e de vida social.
      A Câmara Municipal de Natal publicou, em 1888, uma resolução dando novas denominações às ruas da Ribeira. Pode-se constatar, através da relação estatística dos nomes das ruas, que o bairro possuía mais de vinte ruas redenominadas.Saltando-se à frente no tempo, constata-se que em 1897 o bairro possuía 696 casas e 2.800 habitantes, dentre eles, além dos profissionais comuns (criados, pescadores, costureiras), os profissionais especializados em atividades mais técnicas (médicos, engenheiros, tanoeiros).
     Quando estava findando o século XIX, em 1898, o natalense da Ribeira levava uma vida romântica, mas numa cidade cujo movimentado comércio (existia até, na Ribeira, uma loja com grande sortimento de fazendas, calçados, chapéus – tudo importado da Europa, que tinha as pretensões dos donos justificadas pelo nome – O Progresso), e alguns empreendimentos culturais não deixavam cair na rotina. Sob a proteção do governador Ferreira Chaves (seu vice era o Dr. Francisco de Sales Meira e Sá), que comandava do velho palácio da Ribeira – na Rua do Comércio, e que depois se transformaria no cabaré Wonder Bar -, o meio intelectual ativava o ano de 1898 com algumas iniciativas. Inclusive, foi neste ano de 1898 que se começou a construção do Teatro Carlos Gomes (hoje, Teatro Alberto Maranhão).
Eventos e Locais na Ribeira
    Foi, pois, a partir do final do século XIX, que o bairro da Ribeira passou a ser a região mais significativa da cidade de Natal.Para caracterizar os ícones desta significação, apontarei agora o que foi importante quanto a outras datas de eventos e inauguração de locais, detalhando o que se refira a estes eventos e locais.
    No ano de 1898, pela primeira vez se viu cinema em Natal. A projeção das primeiras fitas foi na Ribeira, é claro, mais precisamente, na Rua do Comércio (que depois se chamaria Rua Chile), num depósito de açúcar, onde também eram apresentados os espetáculos do Teatrinho da Fênix Dramática Natalense. Quem trouxe os primeiros filmes a Natal foi Nicolau Maria Parente, inaugurando as exibições na noite de sábado, 16 de abril de 1898.
      Os primeiros filmes vistos foram documentários do noticiário histórico internacional (principalmente de cenas filmadas na Europa; como “O Jubileu da Rainha Vitória”, “O Casamento do Príncipe de Nápoles”, “Banhos da Alvorada”, “A Chegada em Gôndola”, “A Comida aos Pombos na Praça de São Marcos”, “A Catedral de Milão”, “O Panorama de Veneza”, “A Chegada do Trem”).
      No mesmo ano de 1898, era fundado o Grêmio Polimático, cujos fundadores foram os escritores Antônio de Souza, Alberto Maranhão, Manoel Dantas, Pedro Avelino e Tomaz Gomes. Era uma associação de estudos literários, cuja redação era na Rua Dr. Barata, na Ribeira.A sua fundação teve imediato resultado concreto, com o lançamento, no mesmo ano de 1898, de sua revista, a “Revista do Rio Grande do Norte”, na qual colaboraram nomes reconhecidos das letras potiguares, como Auta de Souza, Homem de Siqueira, Henrique Castriciano, dentre outros. No livro “A Imprensa Periódica no Rio Grande do Norte”(11), de Luiz Fernandes, está este elogio sobre “A Revista do Rio Grande do Norte”: “A Revista do Rio Grande do Norte veio ocupar lugar de honra nas letras potiguares e manteve-se em posição digna e elevada durante todo o período de sua existência.”
     Vale chamar a atenção para o fato de que esta pioneira instituição cultural ribeirense, o Grêmio Polimático, não apenas publicou a revista, mas estruturou-se como editora também , programando a publicação de vários livros, saindo do prelo o poemeto “Mãe”, de Henrique Castriciano, a  da
novela “Sertaneja”, de Policarpo Feitosa (pseudônimo de Antônio de Souza), dentre outros.
      Em outra área das artes, a música, é bom registrar aqui que, por decreto do então governador Alberto Maranhão (Decreto nº 176, de 31 de março de 1908), foi criada uma primeira Escola de Música de Natal. O decreto foi publicado no jornal A República, de quarta-feira, de 22 de abril de 1908, e determinava que a escola funcionaria no prédio do Grupo Escolar Augusto Severo, na Praça Augusto Severo.
      Quando a Rua do Comércio (um dos locais mais frequentados por clientes de lojas, bancos, farmácias etc.) foi calçada em 1908, a Ribeira já tinha atradição de centralizar o comércio da cidade de Natal. O calçamento significavacontribuição para o progresso do bairro. Embora que, ilusoriamente, proprietários de lojas se davam ao luxo de dar às suas casas comerciais nomes europeizantes, como a Paris em Natal , ao lado do cinema Politeama. Outra loja, também na Ribeira, tinha o nome bem característico do estado de espírito modernizante; era O Progresso, com grande sortimento de novidades.
      Mas sem se preocupar muito com este modernismo, outros estabelecimentos comerciais da Ribeira tinham a sua rotina simples e convencional, mas por isto mesmo muito populares eles eram. Por exemplo, o folclórico café Cova da Onça, na Avenida Tavares de Lira, que às vezes se enchia de intelectuais e artistas (era o Café São Luiz da época), que iam lá só para conversar, sem beberem nenhum cafezinho. Quando o café fechou suas portas, surgiu a frase, repetida muitas vezes até hoje: “conversa é o que fechou o Cova da Onça”.
      Um bairro quase cidade independente, a Ribeira supria as necessidades de mantimentos dos seus habitantes. Comprava-se pães ou bolachas de várias marcas e tamanhos (grandes, miúdas, “regalias”, brotes, “natalenses”, “primazias”) na padaria “Pão de Ouro”, de Lobato & Cia. (também proprietários de uma alfaiataria), ou na “Padaria Central”, da viúva Teixeira & Filhos. Livros eram comprados na Livraria Cosmopolita, de Fortunato Aranha, à Rua 13 de maio, e que pelo São João vendia livros de sorte (“A Maniçoba”, “O Pachola”, “O Bilontra”, “O Janota”, “O Oráculo de Canudos”).
        Barba era tirada a $300 – trezentos réis – na luxuosa barbearia “Quincó”, também na Rua 13 de maio, e que vendia artigos para o carnaval (confetes, máscaras, “borboletas” para fantasias de moças e bisnagas de lança-perfume). Aliás, por falar em lança-perfume, o interessante é saber que até finais da década sessenta do século passado, o lança-perfume, ou “cloretil” (como se dizia popularmente) era totalmente permitido, e nos jornais saía a publicidade da loja Vianna & Cia., da Rua Dr. Barata, anunciava vender "com“os melhores preços” da praça os lança-perfumes “Rodovlan” e “Rigoletto” e o de luxo “Rodometálico”. Na imagem do “anúncio”, um bebê carrega com ele um vidro de lança-perfume.
        A 3 de outubro de 1917, o Decreto Federal nº 3349 reconhecia de utilidade pública a Associação Comercial do Rio Grande do Norte, cuja sede era na Avenida Duque de Caxias. O Presidente da Federação do Comércio do RN, Militão Chaves foi, com seu irmão Raimundo Chaves proprietários do famoso Armazém Natal, precursor dos shoppings, com matriz na Cidade Alta e filiais na Ribeira e Alecrim.
     Como já mostrei linhas atrás, em fevereiro de 1834, a Câmara Municipal pediu ao Presidente da Província, Basílio Quaresma Torreão, a criação de uma escola para meninos na Ribeira. E já registrei aqui também a criação de uma pioneira Escola de Música, a funcionar no prédio do Grupo Escolar Augusto Severo, na Ribeira. Pois bem: é isso mesmo. A Ribeira se destacou também por sediar importantes estabelecimentos de ensino.
     Pode-se mencionar principalmente os que funcionaram na Praça Augusto Severo. Numa das esquinas da praça, está hoje o prédio do Centro Clínico. Nele, funcionou, a partir de 1º de setembro de 1914, a Escola Doméstica de Natal, rducandário pioneiro no Nordeste, idealizado por Henrique Castriciano, estruturando um modelo primoroso de ensino das jovens potiguares.
       Outro prédio histórico na mesma praça, é o que fica situado entre o Centro Clínico e o Teatro Alberto Maranhão. É o prédio onde funcionou o primeiro grupo escolar do Rio Grande do Norte, o já mencionado Grupo Escolar Augusto Severo, inaugurado a 12 de junho de 1908. Depois, este prédio ainda teve mais outros usos, quase sempre dentro da área educacional. Foi sede da Escola Normal e da Escola Isolada Noturna da Ribeira. Também funcionando ali, em 1914. De 1952 a 1954, o prédio abrigou o Atheneu Norte-riograndense; e de 1956 a 1974, o prédio sediou a Faculdade de Direito. Com a transferência da Faculdade de Direito para o Campus Universitário, a Secretaria de Segurança Pública passou a ter a sua sede no antigo prédio do Grupo Escolar Augusto Severo.
      Além da área educacional, a Ribeira tem também, na sua história, a memória da religião. Na segunda metade do século XVIII, já existia a capela do Senhor Bom Jesus das Dores, que depois se transformou em igreja. A 9 de janeiro de 1932, o bispo da Diocese de Natal, Dom Marcolino Dantas, criou a Freguesia (paróquia)do Senhor Bom Jesus das Dores.
     Para muita gente, principalmente as pessoas mais idosas, falar em Ribeira é falar em momentos agradáveis. Cinema e teatro no Teatro Carlos Gomes (atualmente, Teatro Alberto Maranhão), inaugurado na noite de 24 de março de 1904. A Tavares de Lira, onde, ao final ficava o pequeno cais, de onde se partia de barcaça para a Redinha, era o ponto chic, uma verdadeira festa para os habitantes e para os visitantes. Ali, aconteciam os corsos carnavalescos, desfiles de carros de capota arriada transportando os foliões mascarados e fantasiados que ativavam as “batalhas”, costume de se jogar confete e serpentina de carro a carro, além de jatos de lança-perfume nos vestidos e pernas das moças.
      Registrando a importância da Avenida Tavares de Lira (12), o historiador Itamar de Souza afirma, após mencionar melhoramentos efetuados na referida avenida em 1919 (principalmente o calçamento a paralelepípedo e desapropriações de imóveis para o alinhamento): “...a avenida Tavares de Lira tornou-se a mais importante artéria do bairro da Ribeira, e talvez de Natal, até o término da II Guerra Mundial. Escritórios, bares, cafés, restaurantes, hotéis, praça de automóvel, tudo se aglomerava naquele pedaço privilegiado da velha Ribeira, dando-lhe graça e movimento.”
       Sem conseguir o nome do autor, Itamar transcreve trechos de um artigo publicado no jornal A República, onde a avenida é definida como a alma da Ribeira: “É uma avenida que exprime a alma tumultuada do bairro: a Ribeira. Há de tudo nessa avenida. Deságua no Potengi, de cujo cais se admiram os poentes. Tem a moderna gracilidade do ‘ficus-benjamim’, contrastando com as velhas linhas coloniais de seus edifícios. Enfileiram-se, num contínuo aspecto de mais de cem automóveis, em disparidade com as carroças e veículos inferiores que também por ali transitam. Avenida de festa e de trabalho.. Cortam-na ainda os bondes promíscuos, isto é, sem distinção de classes. Desfilam jornalistas e jornaleiros. Senhorinhas gentis fazem o seu costumado passeio pedestre, rápido, fugitivo, enquanto penetram a casa de modas ou verificam, de relance, o movimento do ancoradouro. E, enquanto enchem de graça as calçadas da avenida, aiasde toda feição também fazem o seu ‘footing’. A avenida Tavares de Lira é bem a avenida democrática.”
Referências bibliográficas:
1.       Cascudo, Luis da Câmara. História da Cidade do Natal, 2ª edição, Civilização Brasileira, 1980, p.131.
2.      Souza, Itamar. Nova História de Natal, 2ª edição, Departamento Estadual de Imprensa, 2008, p.234.
3.      Souza, p.236.
4.      .Souza, pp.293/294.

5.      “Psicologia da Avenida Tavares de Lira”, A República, 24/01/26.

26 de dezembro de 2017

Marcelus Bob em alta voltagem (mas não dá choque)


Foto: divulgação

Paulo Jorge Dumaresq

“Eu sou rockeiro, cara!”, foi o mantra repetido quase que exaustivamente pelo artista plástico, grafiteiro, rockeiro e possibilista, Marcelus Bob, em sua casa-atelier, tatuada com o número 757, na rua Gonçalves Ledo, Cidade Alta, no decorrer da nossa conversa. Atrasado 25 minutos, cinco a mais do que o repórter, ao “adentrar o recinto” dá boas-vindas e pergunta se vai tudo bem. À minha chegada, a primeira-dama Nilza, preocupada com a demora do marido, informara que ele saíra antes do almoço e até 15h20 de uma quinta-feira de calor africano, ainda não dera notícia. Liga para o Sebo Vermelho, de José Abimael Silva, e nada de Marcelus Bob. Até que, enfim, ei-lo.
Nas preliminares da entrevista, a primeira experiência sonora é o álbum Hot Rats, de Frank Zappa. Claro ficou que eu não estava na frente de uma pessoa formal. Nem normal. Uma entidade, talvez.  “Coloque que a entrevista foi paga”, sugere. De repente, cantarola a música Salve a Mulatada Brasileira, de Martinho da Vila, mas ressalva que só recebe repórteres ouvindo rock and roll. A entrevista começa “oficialmente” ao som do álbum Cheap Thrills, da banda norte-americana Big Brother & The Holding Company, apresentando Janis Joplin nos vocais.
Pergunto ao artista de 50 anos se Marcelus Bob existe mesmo ou é uma possibilidade prática. “Que é fictício, é, lógico. No entanto, é holográfico e possibilista, senão nas esquinas ninguém encontraria”, manda ver. Apuro como tudo começou e Bob se esquiva de comentar sobre a gênese de sua trajetória artística. “Eu não sei como nada começou, porque se alguém souber como escolhe a profissão me avise. Não sei nem pra onde vão essas coisas. Só sei que existe muita coisa, até porque Let’s Spend The Night Together”, cita o velho hit da banda inglesa Rolling Stones.
Para homenagear o quinteto inglês de rhythim and blues, fazendo justiça à sua condição de rockeiro, captura o violão folk e executa Time Is On My Side, outro standard stoniano. “A coisa que eu mais curto é rock and roll. Não tem pra onde correr”, reforça. Tento desvirtuar Bob de seu transe rockeiro, pedindo para ele contar como foi a sua passagem pelo atelier da antiga Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (Etfrn), hoje Cefet, e a influência de Thomé Filgueira na sua arte.
Parece que consigo tirá-lo temporariamente do mundo dos acordes dissonantes e ele responde, pelos mil alto-falantes, que por lá passaram grandes artistas plásticos de renome em Natal, mencionando Carlos Sérgio Borges, César Revoredo e João Natal. “Isto foi pela possibilidade do profeta Thomé Filgueira dar liberdade às pessoas que no momento tinham artes plásticas no sangue”, anota.
Na sua visão, Filgueira não influenciou ninguém. Ele apenas falava a verdade e outras tantas coisas a respeito de liberdade. Tento arrancar do artista quem ele admira no mundo pictórico: “não admiro ninguém. Eu nem me auto-admiro”, dispara. Diz que quem o influencia é o ser humano. Quando acorda glorifica Jesus, Maria Santíssima, Deus e Paramahansa Yogananda. Ao cabo da resposta, Janis Joplin canta Piece Of My Heart. Indago como ele se define enquanto artista plástico. “Rapaz, no dia em que eu me autodefinir como artista plástico é porque foi nesse dia que eu abandonei o planeta. Obrigado. Peace and love. Eu sou assim meio espiritual e místico. Porque eu rezo para a Igreja Católica, para os crentes e para os hare krishna”, concilia o ecumênico artista.
Não soube dizer quantas exposições individuais e coletivas realizou. Só lembra que a primeira foi em 1980, no Sesc Centro, dividindo o espaço e as atenções com Kézia Souza Chagas. Desde então já desenvolveu 25 temáticas distintas, divididas em séries. No total, são mais de cinco mil obras. “É muita produção”, gaba-se.

Música

Agora tento desbravar o lado musicista de Marcelus Bob. Afirma que não é músico. É rockeiro. E pede ao repórter para citá-lo como tal. Na alta voltagem da entrevista, canta em alto e bom som a capela de Perfect Strangers, clássico da banda britânica Deep Purple. Pegando carona no surto, inquiro em que momento a música surge na vida dele. “A minha mãe cantora de coral soprano cantava para me ninar embaixo da Pedra do Rosário, às margens do rio Potengi, cara. Eu gostaria de ser um músico, mas o meu pai me dizia que homem que vivia para cima e para baixo com um violão debaixo do braço vira cachaceiro. Aquilo me deixou debilitado psicológica e musicalmente”, confessa, para, em seguida, dizer que as suas cores são as da música.
Conforme o artista, toda vez que vai iniciar um trabalho pictórico, a primeira providência é escolher uma obra musical para ouvir, de acordo com o tema a ser desenvolvido. “Artes plásticas é muito musical. A diferença que tem da música é que é pictórico, é imagem. No entanto, é tudo música. No dia em que as cores deixarem de ser música, vai se acabar a música ou as artes plásticas. Vai ser bem louco. Muita gente vai sofrer. Já pensou o mundo sem música ou artes plásticas? O que seria da humanidade? O que seria das plantas?”, indaga.     
O Grupo Escolar ensina o quê? A resposta vem na ponta da língua: “quando você se matricular ficará sabendo”. Aproveitando o momento musical, questiono se rock é rock mesmo ou uma farsa bem montada. Bob, mais uma vez, desconcerta o repórter: “no dia em que você tirar as dúvidas venha aqui e me avise, por sua gentileza. Aí, falaremos a respeito disso”.
Da vida pessoal e da família não quis falar muito. Mas deixou escapar que se chama Marcelino. E só. Insisto e Marcelus Bob reage dizendo que família é assunto “impugnado”. Mesmo assim, arranco dele que tem três casais de filhos e um casal de netos. Investigo quantos casamentos: “nenhum casamento. Só amores”.
A herança que o pai deixou foi o legado das cores. Nascido no Assú, o progenitor, que tem o apelido de “zepelim”, pintava aviões, além de fazer repentes. De olho no ofício do pai, iniciou carreira experimentando o esmalte sintético. “Filho de uma cantora de coral e de um pai repentista, nascido nas margens do rio Potengi e criado no morro de Mãe Luíza, o currículo é enorme”, desaba no riso, aproveitando para cantar My Generation, do The Who, com seu inglês macarrônico.
Indagado sobre os salões de artes plásticas em Natal, Marcelus Bob ironiza, soltando a percuciente língua: “E existem salões de artes em Natal, atualmente? Não estou sabendo de nenhum”. Insisto e ele diz que os salões natalenses são paliativos de péssima qualidade. Ainda pergunto ao artista como tem observado o papel das fundações culturais no apoio e fomento à cultura no RN. Marcelus sai-se com essa: “Você está sendo muito benevolente. Ainda existe papel? Papel Gomes?” Depois da troça, volta a interpretar furiosamente My Generation.
Continuo a entrevista, inquirindo o artista se ele é um homem realizado. A resposta não mais me abala: “no dia em que eu me auto-realizar avisarei pra vocês, dentro de um caixão”. Agora é a vez de interpretar no violão Vicky e Homesick Again, do álbum Close Enough For Rock’n Roll, da banda escocesa Nazareth. Mais adiante, executa a canção The Rain Song, do Led Zeppelin, justificando a sua fama de rockeiro.

Grafites

Os grafites nos muros de Natal também estavam na ordem da entrevista. São humanóides, urbanóides e paranóides, que tatuam as paredes da cidade em intervenções urbanas. “Deixe eu mostrar o álbum pra você”, vomita gentileza. Para Bob, em todas as “concepções analíticas e sociais do ser humano” é cabível o sufixo “óide”. Na medida do possível tem registrado os trabalhos nas artérias de Natal, porque, segundo ele, no Rio Grande do Norte  artista paga para trabalhar. Tento perguntar sobre reconhecimento e ele corta cantarolando I Can’t Get No (Satisfaction), dos Rolling Stones.
Recuperado da intempestividade marceliniana, quase exijo do artista fazer uma avaliação da trajetória dele nas artes plásticas norte-rio-grandenses. No início, até que responde com alguma lucidez: “eu pessoalmente não faria nenhuma avaliação. Prefiro que a opinião pública faça. Agora, quem é bonito é bonito. Quem é feio, Zidane; ou então, faça gols”, cita o seu jargão mais célebre. Quase concluindo a entrevista faço uma pergunta clichê a Marcelus Bob. Tudo valeu a pena? “Claro que valeu. Tá valendo, porra, não tá vendo, não?”.
Não satisfeito com as respostas a respeito do Grupo Escolar, volto à carga e descubro que a banda existe desde 1982, com longos períodos de hibernação. Marcelus Bob ressalva que não adianta falar sobre o Grupo Escolar porque o sucesso é tanto que está sufocando-o. Emenda dizendo que quando a banda anuncia apresentação a audiência vai ao show sabendo que algo diferente vai acontecer. Atualmente, o Grupo Escolar apresenta o próprio Marcelus Bob, nos vocais e guitarra; Leão, no baixo, e Glauco Rocha, na bateria. Em sua análise, esta é a melhor formação da banda em todas as épocas. Para saudar o trio, engata uma marcha de velocidade e executa a música Táxi.
Na concepção do artista, não houve evolução na sua técnica dos tempos do esmalte sintético para a tinta óleo. Em verdade, o que houve foi uma troca de materiais. Também disse que não nasceu pronto. Nasceu, sim, apto a receber mensagens cósmicas com o escopo de transmitir para a raça humana as tais mensagens, por meio de imagens. Em relação à cidade onde nasceu e vive, pensa que Natal não é uma cidade careta. Pelo contrário. Entende a “noiva do sol” tão cosmopolita que chega a não possuir identidade própria. Nem nas artes. Cita a frase de Tadeu Sales: “Natal é um quartel-general mal-iluminado”.
Nos estertores da entrevista, solicito a Bob citar artistas e intelectuais que são imprescindíveis para Natal. Depois de tergiversar, nomeia-se e menciona ainda os também artistas plásticos Marcelo Fernandes e Josef Helmut Cândido, o videasta Augusto Luís, o editor José Abimael Silva, o poeta e performer Plínio Sanderson, o promoter Julio César e o punk letrado Sopa d’Osso. Isso posto, canta o poema Rosa de Hiroshima, de Vinícius de Morais, imortalizado pela banda Secos & Molhados. É o fim.

 Texto publicado no Suplemento Cultural "Nós, do RN" dezembro de 2008

18 de dezembro de 2017

O exílio voluntário do artista nas dunas de Santa Rita






Moura Neto


As dunas das praias de Santa Rita e Genipabu, em Extremoz, a 20 quilômetros do centro de Natal, não revelam apenas uma vasta beleza natural do litoral Norte do Rio Grande do Norte, visitadas por turistas de todas as partes do Brasil e do mundo. Lá de cima é possível descortinar um verdadeiro oásis: lagoa e mar que se confundem com o céu azul, entrecortados de coqueiros que se alvoroçam ao sabor da brisa, compondo um cenário que se insurge como um dos mais belos cartões-postais das terras de Poti. É lá que reside e trabalha um artista talentoso, que deixou o alvoroço da cidade grande para viver no anonimato.
Percival Rorato, paulista, 60 anos, tapeceiro, artista plástico, diretor de arte e cenógrafo, trocou São Paulo por Natal depois que a mãe morreu. Queria fugir das turbulências da metrópole e seguiu os passos de uma de suas irmãs, que aqui chegou. Escolheu Santa Rita como refúgio, construindo sua casa nas dunas, em 1998, onde também instalou ateliê e bar. Em volta de muitas pinturas e gravuras, num ambiente mobiliado com peças antigas e rústicas, verdadeiras obras de arte, ele fala sem saudades, mas com certo entusiasmo, de uma fase da vida em que esteve no palco de alguns dos principais eventos culturais do país. Perci, como é mais conhecido em Santa Rita, trabalhou nos primórdios da televisão, no teatro e no cinema, onde atuou, em 1977, como cenógrafo, figurinista e maquiador no premiado filme Sargento Getúlio, de Hermano Penna, baseado na obra de João Ubaldo Ribeiro.
Arredio e tímido, nunca procurou expor seus trabalhos em Natal. Descoberto pelo escultor Guaraci Gabriel, no entanto, acabou participando em 1999 de uma mostra coletiva organizada pelo amigo, na praia onde mora, intitulada Portas para o céu. “Me despojei e me desfiz de um passado quando vim para estas dunas”, diz o artista, que, apesar da reclusão voluntária, ainda recebe encomendas pelas referências que deixou em São Paulo - suas tapeçarias e pinturas também já foram expostas na Itália e Alemanha. Fez incursões por várias escolas, como o cubismo e impressionismo, tendo recebido influências de Picasso e Van Gogh, mas seu espírito rebelde, inquieto e contestador o leva a experimentar e inovar sempre. “Sou plenamente identificado com o momento, por isso classifico minha arte como onírica”, avalia.
O artista que chocou o público numa exposição coletiva realizada em 1973 num estacionamento da Alameda Santos, nas proximidades da Avenida Paulista, em São Paulo, quando tocou fogo em várias peças suas por duvidar da qualidade, numa época em que as performances no meio artístico ainda eram incipientes e geralmente mal compreendidas, afirma que continua usando a arte para “combater os preconceitos e quebrar tabus”. Suas armas, nesta guerra, são agora telas nas quais dispara rajadas de óleo, cera, aguarela, lápis de cor e, sobretudo, acrílico. “Pinto como se estivesse construindo um cenário; o quadro precisa ter alegria, expressão e ser musical”, revela.
Perci saiu de São Paulo por se achar incapaz de participar das grandes transformações que a cidade experimentava, como a exacerbação da violência e da poluição, e pela dificuldade de conviver com a estrutura radical do capitalismo, apesar de ter família influente. Ele é irmão da governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, ex-ministra do Planejamento do governo Itamar Franco, e concunhado de Boni, o José Bonifácio Sobrinho, ex-todo-poderoso diretor da Rede Globo, com quem já trabalhou mas garante nunca ter tirado vantagens. “Sempre vivi da arte, fui muito considerado pelo que fiz mas nunca compactuei com o sistema”, frisa.
Exilado no oásis que edificou no deserto de Santa Rita, recebe com freqüência os artistas da redondeza e da cidade, com quem compartilha uma visão privilegiada da Natal dos Reis Magos. “A beleza das dunas é a amplidão que ela reflete”, filosofa, retirando deste cenário os elementos oníricos que retrata em suas telas.

 Texto publicado no Suplemento Cultural "Nós, do RN"  agosto de 2008

13 de dezembro de 2017

As invenções de Caicó




   
Anchieta Fernandes

       O escritor Moacy Cirne publicou, em 2004, o livro “A invenção de Caicó” (Sebo Vermelho Edições), precioso hino de amor a uma cidade que não é a do seu nascimento (nasceu em Jardim do Seridó) mas onde se criou e onde adubou os primeiros alumbramentos culturais. Mas o título do livro de Moacy é pouco, para o lugar que, antes sendo sítio Cuó, depois Povoado Seridó, adquiriu o status de município pelo Decreto de 28 de Abril de 1788, instalando-se com a denominação Vila Nova do Príncipe (homenageando-se com este nome Dom João VI) a 31 de Julho de 1788. Está comemorando, portanto, 220 anos. Aqui homenageio a terra das famosas bordadeiras com uma espécie de texto calidoscópico, e não uma máquina do tempo sequenciadamente cronológica, mostrando um pouco das muitas “invenções” caicoenses, sua história, datas importantes e coisas pioneiras ou que se marcaram apenas como curiosas.
           Caicó tem, por exemplo, um Observatório Sismológico, que em 1984 participou de um teste para detectar explosões nucleares em todo o mundo. É o único município do Rio Grande do Norte que possui uma Aldeia SOS, que faz parte de um sistema de aldeias infantis fundado em 1949, na Áustria, por Hermann Gneiner, e onde crianças órfãs são recolhidas em casas-lares, cuidadas por mães sociais, recebendo educação regular e cursos profissionalizantes, só saindo da aldeia quando atingem a maioridade. Os diversos Arcos do Triunfo que existem em outros países, lembram vitórias materiais, ações de guerra. Em Caicó, à entrada da Praça da Matriz de Santana, está um Arco do Triunfo diferente: inaugurado a 15 de Agosto de 1958, lembra a passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima pela cidade, a 22 de Novembro de 1953. Lembra o triunfo espiritual da fé na mãe de Jesus Cristo.
            Em Dezembro de 1980, a Sudene implantou em Caicó, na fazenda Belém, um modelo de irrigação de plantações de abacaxi denominado “Xique-Xique”, experiência pioneira no sertão, já que o abacaxi é cultura peculiar ao litoral. Visitando Caicó em 1922, o Marechal Rondom, sertanista/indianista, chegou tarde da noite, encontrando a cidade quase totalmente na escuridão. Com exceção da Biblioteca Olegário Vale (inaugurada a 14 de Setembro de 1919), na Praça da Liberdade, onde um grupo de rapazes estava estudando, à luz de lampiões de gás. O primeiro jornal seridoense, “O Povo”, circulou em Caicó desde o dia 09 de Março de 1889, sob a direção/redação de Diógenes da Nóbrega, Olegário Vale e Manoel Dantas. A impressão do jornal era na tipografia de José Renaud, à Praça do Mercado (atualmente, denominada Praça Dinarte Mariz). A tiragem era semanal.

REPUBLICANISMO, PROGRESSOS ETC.

          O primeiro núcleo de propaganda republicana no Rio Grande do Norte foi, segundo o historiador Muirakytan Kennedy de Macedo (v. seu livro “A Penúltima Versão do Seridó – Uma História do Regionalismo Seridoense”, Edição Sebo Vermelho, Natal, 2005), em Caicó, fundado a 25 de Julho de 1886, sob a presidência do octogenário Manoel Sabino da Costa. Quando foi criado em 1788, o município de Caicó (ou, então, Vila Nova do Príncipe) abrangia quase todo o Seridó no Estado, pertencendo-lhe então os futuros municípios Acari (desmembrado em 1833), Jardim do Seridó (desmembrado em 1858), Serra Negra do Norte (desmembrado em 1874), Jucurutu (desmembrado em 1948), Jardim do Piranhas (desmembrado em 1948), São Fernando (desmembrado em 1958) e Timbaúba dos Batistas (desmembrado em 1962). Mas um grande e importante município seridoense, Currais Novos, não lhe pertenceu.
        A 19 de Janeiro de 1955, foi instalado em Caicó o Primeiro Batalhão de Engenharia e Construção. A 1º de Maio de 1963, foi inaugurada em Caicó a Emissora de Educação Rural, a primeira no Seridó com o objetivo de transmitir aulas à distância. O primeiro automóvel que chegou a Caicó foi a 27 de Março de 1919, e pertencia a Manoel Coriolano de Medeiros. Segundo o livro “Sertões do Seridó”, de Oswaldo Lamartine (1980, Centro Gráfico do Senado Federal, Brasília, DF), quem primeiro requereu terras no Rio Grande do Norte para construção de açudes foi o padre Manoel de Jesus Borges. Isso foi no ano de 1706. Não se tem certeza se os açudes do padre Borges se concretizaram. O que se pode afirmar com certeza é que o açude Mabanga, construído no ano 1842 nas terras que seriam depois o município Caicó, foi um dos primeiros no Estado.
          A luz elétrica de Caicó foi inaugurada a 21 de Abril de 1925, superando definitivamente a fase dos lampiões a querosene e a gás. A 01 de Agosto de 1928, o primeiro avião sobrevoou e pousou em Caicó, pilotado por Depecker, trazendo como passageiros o governador do Estado, Juvenal Lamartine, e George Piron. A finalidade era inaugurar o primeiro campo de aviação da cidade, o que foi concretizado na então chamada “Baixa do Arroz”. Em Setembro de 1963, começou a funcionar em Caicó a Usina de Beneficiamento do Algodão da Firma Algodoeira Seridó Comércio e Indústria S.A. A 05 de Maio de 1929, foi fundado e instalado o Banco Rural de Caicó, tendo Eduardo Gurgel de Araújo como seu primeiro Diretor-Presidente. Em Maio de 1968, foi criado em Caicó o Museu do Seridó.
              Além dos grandes nomes da política (José Augusto Bezerra de Medeiros), do jornalismo (Manoel Gomes de Medeiros Dantas), do judiciário (Amaro Cavalcanti), das artes (o pintor Eladio L’eraistre Monteiro, o cineasta Augusto Ribeiro Júnior) – nasceu também em Caicó um estranho poeta; batizado Francisco, teve como sobrenome Manoel de Souza, ao que teria acrescentado Forte, homenageando um dos fundadores de Caicó, Manoel de Souza Forte. Tendo sido descoberto por Nei Leandro de Castro, em um bar da Cinelândia, no Rio de Janeiro, em 1990, sua poesia erótica e debochada foi divulgada depois por Nei e Moacy Cirne com a assinatura que o poeta assumia, Chico Doido de Caicó. Alunos da Universidade Federal Fluminense, de Petrópolis, escolheram-no como patrono (póstumo) na formatura da turma de 1993. Foi feita uma adaptação teatral de sua poesia.
            Importância de Caicó para a música e o cinema brasileiro: o coco paraibano “Oh, mana, deixa eu ir” (folclore), que já fora recolhido por Villa-Lobos, e depois cantado por Milton Nascimento, foi incluído no filme “Aruanda” (1960, dirigido por Linduarte Noronha), cantado por Othamar Ribeiro, neste que é um dos mais importantes documentários brasileiros, iniciador da linguagem do Cinema Novo. Pois bem: a quadrinha, na letra termina homenageando a terra do poeta, romancista e ensaísta Nei Leandro de Castro (cujo romance “As Pelejas de Ojuara” foi recentemente adaptado para cinema por Moaci Góes, alcançando bom público em nível nacional), dizendo: “Oh, mana, deixa eu ir/ Oh, mana, eu vou só/Oh, mana, deixa eu ir/Para o sertão de Caicó”.
             Em 1910, durante a Festa de Sant’Ana, foram exibidos os primeiros filmes em Caicó. Em 1926, Caicó recebia o presidente Washington Luiz, o primeiro presidente a visitar a cidade. Em Janeiro de 1929, o poeta, contista, romancista e ensaísta brasileiro Mário de Andrade, um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, visitou Caicó. Em 09 de Março de 1974, foi inaugurado o 1°  Núcleo Avançado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para a população seridoense. As atividades culturais caicoenses se espalham sempre para outras regiões, outros municípios. A 03 de Julho de 1973, o Diário Oficial do Estado publicou o Estatuto do Grêmio Cultural Caicoense, funcionando em Natal.
Texto publicado no Suplemento Cultural "Nós, do RN" agosto de 2008 


4 de dezembro de 2017

Tico da Costa, um areiabranquense nos palcos do mundo


Entrevista publicada no Suplemento Cultural "Nós, do RN" com o músico Tico da Costa ( In memoriam ) dezembro de 2008
       
Edson Benigno

          Foi nos palcos da Europa e Estados Unidos que Tico da Costa intensificou e consolidou a sua carreira desde seus 19 anos. Ele compõe suas próprias músicas e é considerado um excelente violonista. Nasceu em Areia Branca, litoral do Rio Grande do Norte. Em Natal, Recife e Roma estudou música. São 16 CDs gravados entre o Brasil, Estados Unidos, Itália e Paraguai. No Brasil, gravou “América Latente”, “Anjo das Selvas” e “Ideal 1”. No ano de 2007 lançou “Choro Suíte” (instrumental) gravado em Nova Iorque e também o seu mais recente CD “Mar”, gravado e produzido na Itália. Fez uma tournée de lançamento na Europa e Estados Unidos, com seu grupo de cordas “Alla Italiana”.
Esse ano ele esteve se apresentando em Brasília, no projeto de 50 anos da Bossa Nova. Mas o seu trabalho é realizado e mais divulgado no exterior.  Em outra ocasião, juntamente com John Patitucci, Paquito D’Rivera, Artur Maia e Toninho Horta, abriu show para João Bosco no Town Hall em Nova Iorque.
Fez vários concertos dividindo palco com Pete Seeger (Guantanamera), e o compositor minimalista Philip Glass. Sua forte presença no palco induz espontaneamente a platéia a participar cantando suas canções. E isto ocorre em Berlim, Colônia, Roma, Paris, Natal, São Paulo, Buenos Aires, Nova Iorque - Blue Note,  Kniting Factory e nos festivais de renome como o New Port Festival, New York Jazz, Celebrate Brooklyn Festival.
NÓS DO RN - Como surgiu o apelido Tico da Costa e sua descoberta musical?
Tico da Costa - Meu nome é Francisco das Chagas da Costa. Nasci em Areia Branca e lá em casa todos me chamavam de Titico. E quando comecei a tocar e que tive a certeza que seguiria a carreira musical, tive várias dúvidas sobre o meu nome artístico, pensando em Francisco da Costa, Chico da Costa, mas só na Itália resolvi optar definitivamente por  Tico da Costa. A descoberta musical aconteceu quando uma irmã minha  ganhou um violão de presente. Ao todo tenho 15 irmãos. E a gente fazia literalmente uma fila pra tocar. Meus primeiros acordes aprendi com o meu pai Dijesu Paula e com Mirabô Dantas, que vivia pelas ruas de Areia Branca. Eu olhando, perguntando, enquanto Mirabô fazia aqueles acordes de dissonância.  Eu e meus irmãos só olhando já aprendíamos. Era a maior briga em nossa família, mas a gente trocava figurinha e ensinava um a outro. Desde que aprendi os primeiros acordes, comecei a compor. Eu tinha 13 anos de idade e já fazia letra e música .
NÓS DO RN – Depois de aprender a tocar violão você veio para Natal?
Tico da Costa – Sim. Quando saí de Areia Branca eu vim para Natal com 15 anos de idade.  A minha intenção era estudar, começando por me matricular na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte-ETFRN. Comecei a participar de festivais e me envolver mais ainda com a música. Eu tinha até algumas canções com algum valor estético. Eu ouvia naquela época muito Edu Lobo, cantando nos festivais e eu tentava fazer parecido, mas muitas das letras que eu escrevia, nem eu mesmo entendia o significado. Também naquela época eu cantava música de Roberto Carlos, Jerry Adriani e muito iê-iê-iê. Eu chegava aos clubes e me oferecia pra cantar.  Além do repertório conhecido eu incluía uma ou duas das minhas músicas também. Lembro de uma ocasião em que me apresentei na Lagoa Manoel Felipe, em um programa de rádio, produzido por Jota Belmont, o qual era transmitido para todo o RN.
NÓS DO RN - Você passou quanto tempo em Natal?
Tico da Costa - Fiquei dos 15 aos 19 de idade. Neste período conheci a professora de artes da ETFRN Lourdes Guilherme. Depois que ela ouviu umas de minhas composições, se ofereceu para conseguir uma bolsa na Escola de Música. E conseguiu.  Como não tinha uma vaga para violão, passei a estudar contrabaixo. Depois consegui transferência para Recife e lá estudei violão clássico. Também em Recife fiz parte de um grupo ligado á igreja católica e fazíamos shows pelo Nordeste todo, tanto nas capitais como nos municípios do interior. O grupo chamava-se Gen Cântico Novo, pertencia ao chamado Movimento Focolares.
NÓS DO RN- Depois de Recife você foi para Itália; como foi este salto para Europa?
Tico da Costa - Certo dia um pintor italiano foi expor em Recife. A exposição tinha 21 quadros. Olhei todos eles e propus para nós dois fazermos uma mistura de show com exposição.  Falei que comporia uma música para cada quadro. Ele fotografaria cada uma das telas e projetaria na parede através de slides, enquanto eu cantava.  Sugeri a ele que assim seria mais fácil para vender as suas obras. Na mesma hora um amigo meu me disse que eu só sairia dali depois que compusesse todas as músicas. Consegui e poucos dias depois eu estava cantando na exposição. Foi um sucesso. O pintor disse que quando eu fosse à Itália o avisasse que fazia o mesmo em Milão, Gênova e Turim. E assim aconteceu. Fui a Roma com 21 anos de idade participar de um Congresso Internacional de Jovens. A idéia era passar um mês. Comecei a tocar e cantar e aí insistiram para que eu permanecesse mais tempo. Fiquei cinco meses e gravei três compactos. Isso foi em 1972.
NÓS DO RN - Como foi sua vida musical  na Itália?
Tico da Costa - Lá gravei esses compactos. Não de forma independente, foi através de uma editora chamada Cittá Nuova. Eles até publicaram uma revista que incluía uma reportagem de várias páginas comigo, com direito a foto na capa e tudo mais. O texto contava minha trajetória, desde o primeiro show em Grossos. Ainda nesta viagem fui ao encontro do pintor que tinha conhecido em Recife e fizemos vários concertos misturados com exposição. Outra coisa importante na Itália foi eu ter descoberto, sem querer, como é ser um showman.  Não é fácil chegar como cheguei diante de 700 pessoas, por exemplo, só com um violão e um microfone.  E as pessoas cantando minhas músicas em português.
NÓS DO RN - Fale da sua relação com contatos importantes que teve na Europa?
Tico da Costa - Um contato importante foi com a Lina Wertmuller. Ela é a felina feminina. É muito estimada nos Estados Unidos, chega a ser idolatrada. O fato de eu ter composto música com ela me rendeu muita credibilidade nos Estados Unidos.  Em determinada ocasião, surgiu a oportunidade de fazer na Itália a trilha sonora para um filme que ela dirigiria.Era o filme Tieta do Agreste, com Sophia Loren e grande elenco. Eu também estava escalado para fazer uma cena, como ator, tocando uma música. O problema é que quem estava financiando era Roberto Calvi, do Banco Ambrosiano. Só que antes dos contratos assinados ele apareceu enforcado e o filme foi para o espaço. Na mesma época Sara (hoje minha esposa, naquele período minha noiva) tinha decidido fazer faculdade no Rio de Janeiro. Com o fracasso do filme, antecipei minha volta ao Brasil. Com residência fixa no Rio, passei a viajar pela Europa para fazer meus shows.  Gravei um CD nos Estados Unidos, chamado Brasil Encanto. Nessa mesma época conheci uma pessoa que representou muito para minha carreira: Philip Glass, um músico que é considerado um pop star e autor de trilhas sonoras na história do cinema.
NÓS DO RN -  Você também se apresentou no programa Jô Soares?
Tico da Costa. Sim, quando ele ainda estava no SBT.  Fui eu quem apresentou Philip Glass ao diretor de teatro Gerard  Thomas, quando morava no Rio de Janeiro. Eles ficaram amigos. Gerard foi quem sugeriu meu nome a produção do programa do Jô. Nessa época eu morava no Paraguai. Pagaram passagens e tudo, foi muito bom.  Cantei quatro músicas no Jô e ele embasbacou de rir com as minhas canções. Isso foi em 1996.
NÓS DO RN – E sua discografia, o que ela inclui?
Tico da Costa – Minha discografia enriqueceu muito depois que gravei nos Estados Unidos o meu primeiro CD Brasil Encanto.  O salto foi maior ainda depois de setembro de 2005, quando lancei nos Estados Unidos e na Europa os discos Lagartixa e Choro Suíte. Fiz muitos shows pela Europa divulgando esses dois trabalhos.  Tenho 16 discos gravados, incluindo elepês, compactos e CDs. Mais relevante do que gravar é conseguir uma boa distribuição para seu trabalho.