20 de abril de 2018

O poeta / profeta José Gonçalves de Medeiros




                                            José Gonçalves

Salete Pimenta Tavares

            Folheando o livro “400 nomes de Natal”, Coleção Natal 400 anos, coordenado editorialmente por Rejane Cardoso, e publicado em 2000 pela Prefeitura Municipal de Natal entre os inúmeros nomes ilustres de personalidades que fizeram o seu tempo na cidade do Natal, o de José Gonçalves de Medeiros, é um dos que contribuíram para enriquecer e ilustrar a edição do referido livro. José Gonçalves de Medeiros nasceu em Acari, uma das cidades do Estado do Rio Grande do Norte, no dia 18 de dezembro de 1919.
                É o filho mais velho de uma família de doze irmãos. Estudou no Colégio Ateneu, onde iniciou suas atividades literárias, escrevendo para o jornal da Academia de Letras da Instituição. Saiu de Natal para João Pessoa e depois para Recife, onde continuou seus estudos formando-se Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife. Teve uma vida intelectual bastante ativa como jornalista, escritor, ensaísta, contista, poeta, e ainda exerceu cargo político no governo do Estado, tendo participado da equipe administrativa do Governador Dix-Sept Rosado. Como ensaísta, contista e poeta publicou trabalhos literários na imprensa pernambucana, mais precisamente no Suplemento Literário do Diário de Pernambuco, tendo integrado o mais famoso grupo literário da cidade, na casa-grande de Gilberto Freire, em Apipucos.
                Em Natal publicou o ensaio “Castro Alves - Amor e Revolução” e deixou inédito um estudo sobre Joaquim Nabuco.
                  No dia 30 de março de 1951, o então governador do Estado do Rio Grande do Norte, Dix-Sept Rosado e alguns membros da sua equipe, viajavam de automóvel para a cidade do Recife, a fim de participarem das festividades de inauguração da Rádio Tamandaré dos Diários e Rádios Associados, quando, nas imediações da cidade paraibana de Taciúma, aconteceu um acidente envolvendo o carro que conduzia o governador Dix-Sept Rosado. Nesse acidente morreram: o Secretário Geral do Governo, Mário Negócio e o empresário Omar Medeiros. Ficaram feridos: José Gonçalves de Medeiros, na época exercendo o cargo de Diretor da Imprensa Oficial do Estado, o Coronel Flamínio, Comandante da RO, José Herôncio de Melo, funcionário da Delegacia Fiscal do Estado e o governador Dix-Sept Rosado.
                Três meses depois desse acidente, o avião das Linhas Aéreas Paulistas, que conduzia o governador Dix-Sept Rosado, numa viagem Oficial ao Rio de Janeiro, então capital do país, caiu no Rio do Sal, proximidades de Aracaju, matando o governador e seus passageiros. Entre eles estavam José Gonçalves de Medeiros e mais dois Secretários do governador. Esse acidente ocorreu no dia 12 de julho de 1951.
            José Gonçalves de Medeiros deixou um poema denominado “Despedida do Pássaro Morto”, datado do dia 27 de junho de 1945, portanto, seis anos antes do acidente fatal. Esse poema mais parece uma premonição do que viria a acontecer. Falando para o amigo Arnaldo Lopes, companheiro de faculdade, pediu para ele guardar esse poema, dizendo que era o seu testamento. O poema é o seguinte: “O vôo também é sensualidade/Estremeço e vibração de pássaro/que possui e penetra o espaço/e era como se possuísse e penetrasse a alma do tempo.//Se eu morrer como pássaro/deixo aos que me amaram, aos que me quiseram e me gostaram /como eu era, o meu sempre e displicente adeus./Estou compreendendo que se morrer num vôo antes de tocar a terra/do mundo, serei como a pena do pássaro ferido de morte./Serei um pássaro de fogo, que vem do céu/ para repousar no seu ninho de areia. // Chorem, bebam, dancem, riam, passeiem,/ pela alma do amigo que não foi pássaro,/ mas morreu como ele”.
           José Gonçalves de Medeiros é nome de rua em Natal e de uma Escola Estadual em Acarí. É necessário portanto que, nomes como o de José Gonçalves sejam lembrados, entre tantos outros que fizeram a história da nossa terra potiguar.

11 de abril de 2018

De cinemas e memórias: Divagações

 
                                                             
                 Cine Rio Grande - foto divulgação

Luciano Capistrano
Professor: Escola Estadual Myriam Coeli
Historiador: SEMURB/Parque da Cidade

Quando criança, além das brincadeiras de rua, o que me animava era a ida ao cinema, quanta alegria nos domingos, quando papai e mamãe levavam eu e meus irmãos para ver a sétima arte. O Rio Grande, o Rex, o Cine Nordeste e o Panorama, fazem parte de minha memória afetiva, tempos bons, filmes, brincadeiras, pipocas com guaraná “champanhe” e, nos dias de “esbanjamento”, tinha torrada com vitamina de abacate na Casa da Maçã, delicias.
Uma época de cidade pacifica, andávamos sem preocupação com a violência, assaltos era coisa rara de acontecer.
Nestes dias, de crises, ‘carne fraca”, “lava jato”, “golpe”, violência sem limite, dias de tantas interrogações, aproveitei para reler alguns livros, entre eles “Écran Natalense”, clássico sobre a história do cinema em Natal, obra de referência para quem deseja conhecer os caminhos da história cinematográfica potiguar. Anchieta Fernandes, pesquisador e participe da cena urbana de Natal, enveredou com outros amantes do cinema pelos caminhos dos Cine Clube Tirol, “movimento” importante na difusão entre parte da juventude dos anos de 1950/1960, da Sétima Arte, o pesquisador nos presenteia com uma excelente publicação, do Sebo Vermelho, sobre este universo da “telona” na cidade de Natal.
Publicado em 1992 “Écran Natalense” é leitura obrigatória para quem deseja conhecer o mundo do cinema em Natal. O Cine Nordeste, por exemplo, é apresentado por Anchieta Fernandes:

Quase ao final da década de 50, Natal teve inaugurado seu primeiro cinema com ar condicionado. O Cine Nordeste, da Cireda. A primeira sessão para o público foi a 20 de dezembro de 1958, exibindo o filma “O Príncipe e a Parisiense”, do diretor francês Michel Boisorond. [...] {lembranças} do tempo em que passava o Cinema de Arte no Nordeste, e todos íamos conversar nas mesas da Sorveteria Oásis, tomando algum sorvete ( a preferência era por sorvete de abacate) antes de começar a sessão. A sorveteria hoje não existe mais, e seu espaço agora é ocupado pela Farmácia Padre João Maria. (FERNANDES, Anchieta. Écran Natalense. Natal: Sebo Vermelho, 1992, p.119-123)

      Hoje, muito em decorrência da violência e da comodidade encontrada nos shoppings, não temos mais os “cinemas de rua”, as grandes salas de cinema, do bairro da Cidade Alta ao bairro do Alecrim, desapareceram. A geração atual, chega a ficar “espantada” , quado dizemos, “sim, o Alecrim tinha cinema”:

Se indagássemos aos jovens do século XXI sobre cinemas em Natal, muitos falariam das salas cinematográficas que existem nos shopping centers da capital. A maioria não se recorda das salas de cinema do Rex, Rio Grande, Nordeste, Panorama e Rio Verde, famosas nas décadas de 1970, 1980 e primórdios da década de 1990, nem daquelas localizadas na Cidade Alta, Rocas ou Petrópolis. Mas era no bairro do Alecrim onde se concentrava o maior número de salas de cinema da cidade entre as décadas de 1920 e 1950, frequentadas em sua juventude por avós, tios e pais.( ALVEAL, Carmen M. O. etal . Memória minha comunidade: Alecrim. Natal: SEMURB, 2011, p.114)

      De cinemas e memórias: divagações, como uma colcha de retalhos, feita por minha avó Paulina, vou caminhando na estrada de Clio, buscando compreender a urbe e suas resignificações ao longo do tempo. A cidade traz na sua essência a transformação da paisagem, os lugares ganham em tempos outros, funções diferentes e assim, entre o antigo e o novo, me encontro, neste tempo presente a olhar o passado.
Ao fazer este percurso sobre o “asfalto” do passado, sigo as palavras do Historiador Jacques Le Goff: “A memória, na qual cresce a história, que por sua vez a alimenta, procura salvar o passado para servir ao presente e ao futuro. Devemos trabalhar de forma que a memória coletiva sirva para a libertação e não para a servidão dos homens”. (GOFF, Jacques Le. História e memória. Campinas: Editora Unicamp, p.471)
Enfim a cidade cresceu - os cinemas de ruas, encontraram abrigos nos shopping centers, as conversas de calçadas, na “boca da noite”, são momentos raros, as ruas viraram espaços temerários -, as incertezas, neste caldeirão dos tempos presentes, é o que temos de mais promissor. Nos resta escrever e provocar o dialogo sobre os caminhos e descaminhos da urbe.

4 de abril de 2018

Natal já exportou mestre em mergulho





                                                                   Roberto Alves

Anchieta Fernandes

        A palavra “esporte”, segundo o “Almanaque Abril 2010”, “vem do inglês sport, simplificação de disport, absorvido do francês déport, que significa passatempo, recreação, prazer, lazer. Esporte é toda prática competitiva ou recreativa, baseada geralmente em atividade física, individual ou de equipe.” É dentro do sentido de recreação, de lazer, que incluímos aqui esta matéria sobre a prática do mergulho. Entendido não propriamente com um dos significados que o Aurélio lhe deu em 1993.
         Ou seja, mergulho não é somente “em natação, ação de lançar-se à água, de grande altura e em variadas posições” (v. o “Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa”, Editora Nova Fronteira, 1993); mergulho, pode ser ampliado do parâmetro da natação, e ser o “entrar na água a ponto de ficar coberto por ela” (v. o referido dicionário). É, a nosso ver, um esporte bem bonito e compensador, promovendo o encontro do ser humano com os maravilhosos animais das águas profundas (seja de mar ou de rio).
         Já teve um praticante natalense, mas atuando em outros países, já que no Brasil não se tem uma tradição maior de viagem aos ambientes revelados filmicamente por Jacques Cousteau. Segundo reportagem do suplemento “DN Hoje”, Roberto Alves, ex-jogador de basquete da seleção juvenil do Rio Grande do Norte, e ex-aluno do Marista e do Colégio Universitário, fez o curso de Mestre em Mergulho na South West Texas Unoversal, dos Estados Unidos (v. “DN Hoje”, 08/12/1979).
         Em janeiro de 1977, ao ir para os Estados Unidos fazer um curso de inglês, “descobriu o mar como um universo de trabalho fascinante, capaz de encantar os olhos e o espírito.” Em março de 1978, retornou aos USA para fazer um Curso Avançado de Mergulho, o que lhe permitiria conseguir o Master – o Mestrado em Mergulho. Segundo a reportagem do suplemento da época, do Diário de Natal, em média Roberto realizava 40 horas de mergulho por semana, em profundidades que variavam de 10 a 40 metros. Mergulhava no México, Honduras etc.
         Estava especializando-se em fotografia submarina, desde então muito requisitada pelas universidades para fins de pesquisas sobre a flora e a fauna marinhas. Num sentido de trabalho científico em prol da vida, pois – como explicou Roberto à reportagem do jornal na época – no Brasil como em várias partes do mundo o mergulho é usado para depredação da flora e da fauna marinhas, o que os americanos chamam “os assassinos do mar”.
          O objetivo de Roberto Alves, ao começar a praticar mergulho era outro. Era conhecer e salvar a fauna e a flora marinhas. Recuperar peças de navios afundados (como se faz há muitos anos em relação ao Titanic) ou de povos milenares que viveram às margens de rios; e ter o privilégio estético de contemplar o movimento das cores (“Embaixo dágua as cores vão desaparecendo de acordo com as profundidades. A partir de uma determinada profundidade tudo fica azul, porque é a única cor filtrada pelas águas”).
         A reportagem do “DN Hoje” encerra com este perfil do Roberto Alves da época: “Com 25 anos, barba espessa, alto e falando pausadamente, Roberto é o menino dos blocos de carnavais da Rodrigues Alves; do carrão incrementado; dos jogos de basquete e das brincadeiras na cidade. O menino que se prepara para ser mestre em mergulho e para ostentar o título, no futuro, de mergulhador dos sete mares.” Não sabemos se a profecia se cumpriu, mas o fato incontestável é que um natalense foi destaque em mergulho há anos atrás.

28 de março de 2018

Secas e cheias sob as lentes da imprensa




Anchieta Fernandes
                          
                          As secas e as cheias que, como uma espécie de fenômeno cíclico, ameaçam de terror e morte tantos sertanejos nordestinos, desde anos bem recuados no calendário da História do Brasil, passaram a ser vistas, sob os ângulos de notícia e de opiniões por jornais norte-riograndenses. Isso desde quando a nossa imprensa se afirmou como um dos meios de comunicação do nosso povo. Veja-se alguns dos flashes desse testemunho impresso ante os fenômenos climáticos que afetam os habitantes do Nordeste.
                             Inicialmente, nos primeiros meses de cada ano, alguns jornais, diante da ainda indefinida situação climática, apelavam para um tom agourento: de que o ano não prenunciava ser de bom inverno. Foi o que fez o jornal “O Povo”, de Caicó, que a 16 de março de 1889, publicou: “As notícias que temos do Ceará não são satisfatórias. Do Ipu a 15 de fevereiro, de Pedra Branca a 12, e do Icó a 15 temos notícias de chuvas poucas, em algumas partes só havendo rama. Entre nós o desânimo já vai grande.” A 23 de março, o jornal já retratava o pleno quadro da seca:
                             “De quinze dias a esta data têm passado nesta cidade muitas famílias de retirantes de Catolé e Imperatriz (quase todas), procurando os brejos e o litoral, para escaparem da horrorosa seca que nos anda a esmorecer.” Na mesma data, o jornal publicou um ofício, datado de 15 de março, de Olegário Gonçalves de Medeiros, fundador do jornal e então Presidente da Câmara Municipal da Vila do Príncipe (Caicó), expondo ao Presidente da Província, que era o Dr. José Marcelino Rosa e Silva, a situação, e sugerindo medidas para a solução do problema.
                              No século seguinte, a partir da primeira década, o jornal “O Mossoroense”, de Mossoró, se fez a testemunha fiel, noticiando a chegada da seca, descrevendo cenas dolorosas do que atingia a população faminta, fazendo apelos de medidas urgentes às autoridades. Através de editoriais de capa (“As vítimas da seca dos sertões”, a 24/04/1904; “Seca nos sertões do Rio Grande do Norte”, a 24/05/1904), de alguns artigos de título alarmista (“Leva de retirantes”, “Sobre a seca”) e de colunas (“Seca e socorros”, o jornal fundado por Jeremias da Rocha Nogueira foi História.
                              O jornal oficial, “A República”, sempre publicou matérias dedicadas a divulgar e a debater solução quanto aos problemas da seca. Inclusive, a partir de 26 de junho de 1915, através da coluna “Serviço do interior”, manteve o leitor informado quanto ao que o jornal denominava “auxílio aos flagelados”. Por essa época, já existindo um órgão federal de combate aos efeitos das secas, que inicialmente teve o nome de Inspetoria de Obras Contra as Secas, o jornal fundado por Pedro Velho divulgava a sua ação.
                             Em dezembro de 1945, a Inspetoria foi transformada em departamento (DNOCS – Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), que continuou o trabalho anterior, sempre procurando agir visando encontrar um meio de, se não acabar pelo menos minorar os efeitos das secas. Mas trabalhos assim, às vezes por falta de uma melhor estruturação, se apresentam com falhas. Em 08 de abril de 1953, o jornal “A Ordem” chegou a definir como “atitude criminosa” o DNOCS ter retardado o aproveitamento de flagelados.
                           Muitas soluções foram pensadas pelas comissões do DNOCS, para se resolver este problema das secas: construção de poços e açudes, aproveitamento do leito natural dos rios como canais, irrigação técnica etc. Inclusive, uma investida quase na ficção científica: já em 22 de setembro de 1900, uma matéria no jornal “A República” falava em “chuva artificial”; coisa que seria concretizada mais de 50 anos depois, como o jornal “A Ordem”, de 12 de junho de 1951, noticiou: “Chuvas artificiais no sertão; experiências dos cientistas, primeiros resultados”.
                           Mas, chover sobre a região nem sempre é a melhor solução. Os arquivos dos jornais estão aí para reviverem notícias de tragédias provocadas por chuvas excessivas, que se derramam inundando cidades e campos, trazendo então prejuízos ao bioma. O mesmo jornal “O Povo”, de Caicó, noticia, a 08 de junho de 1889, chuvas caídas na cidade “...em condições de fazer transbordar os rios, e encher alguns açudes”, sem trazer benefícios, “porque destruíram todas as vazantes, agravando ainda mais os sofrimentos da população”.
                        A isoieta das chuvas no Nordeste, por vezes assusta tanto quanto as tragédias do brilho inclemente do sol no Polígono das Secas. Como disse certa vez Manoel Rodrigues de Melo, a cheia é a sucessora do dilúvio, destruindo povoações como fez à povoação de Oficinas, na Várzea do Açu, em 1924, e à de Rosário, em 1947, também na Várzea do Açu, a 15 de abril. A 15 de abril de 1964, o “Diário de Natal” informava: “Na cidade de Ipanguaçu ruíram nada menos que 39 casas. O leito do Rio Açu faltou apenas vinte centímetros para atingir o nível da cheia de 1924, que foi a maior”.
                       Relendo-se (e também revendo-se, pois o material produzido pelos repórteres fotográficos, que acompanham os repórteres redatores, étão importante quanto os textos, do ponto de vista da informação noticiosa) as páginas de jornais do passado, pode-se constatar quanto alguns municípios sofreram o castigo climático. A 07 de abril de 1937, o jornal “A Ordem” reportava-se ainda às inundações de Ceará-Mirim, detalhando as “conseqüências danosas”. Precisamente 10 anos depois, a situação se repete. É o Rio Açu deixando um rastro de tristezas.
                      Segundo o jornal “A Ordem”, de 07 de abril de 1947, foi de quatro mil o número de vítimas da referida cheia do Rio Açu. Mossoró também não escapou deste fenômeno destrutivo das enchentes. Em 1950, sofreu o “flagelo das inundações”, com “danos consideráveis”, conforme a reportagem no jornal “O Mossoroense”, de 30 de abril de 1950. Por sua vez, o jornal “A República”, de 10 de julho de 1974, dizia que Macaíba havia sofrido a maior cheia de sua história. 1980 e 1981 também foram anos de enchentes, de grandes prejuízos.
                Em 1981, as cidades de Afonso Bezerra e Pedro Avelino ficaram ilhadas (v. “Tribuna do Norte”, de 28 de março de 1981). E as enchentes levaram pânico à cidade de São Gonçalo do Amarante (v. “Tribuna do Norte”, de 02 de abril de 1981). No século 21, os jornais registraram coisas como a prefeitura de Governador Dix-Sept Rosado providenciando canoas e coletes salva-vidas, para as pessoas poderem enfrentar a fúria das águas inundando as comunidades ribeirinhas do Rio Apodi/Mossoró (v. “Correio da Tarde”, de 29 de abril de 2009).
                     O que não deve faltar ao nordestino é a consciência de que o fenômeno climático da seca é uma constante regional, não se devendo confiar em que algumas chuvas caídas durante alguns dias signifiquem sucesso assegurado à lavoura e à sobrevivência econômica. As chuvas podem vir, se avolumarem em enchentes, e depois irem embora deixando destruição. Em uma série de artigos publicados no “Diário do Natal” a partir de 22 de agosto de 1907, Felipe Guerra fala sobre chuvas de enchente no Brejo do Apodi, em 1901; faltaram, porém, no tempo necessário para segurar as plantações.

26 de março de 2018

A CHEGADA DO RIO



 Salete Pimenta Tavares

            E o rio chegou! Dizendo assim, parece que o rio não existia naquele lugar, ou mesmo, não se encontrava ali, naquele momento; e então torna-se difícil entender a expressão: “ a chegada do rio”.
O certo é que, há a realidade das chegadas dos rios no sertão nordestino; e esta foi uma visão belíssima e impressionante, causada pelas chuvas de início de inverno, que eu tive a felicidade de presenciar.
Morando numa cidade do interior nordestino – Caraúbas -, eu estava acostumada a ver na época de inverno, chuvas fortes com relâmpagos (vindos de todos os lados) e trovões, cujos ruídos estalantes e depois estrondosos espalhavam medo e preocupação a toda população caraubense.  Vez ou outra caiam raios pela cidade, ignorando os famosos “apara-raios”, instalados e distribuídos em vários locais da cidade. Certa vez, um desses raios atingiu uma casa na cidade, atravessando a parede e derrubando, com o impacto, o cidadão morador daquela residência. Felizmente  ficou apenas o susto.Vários outros casos semelhantes aconteceram, sem maiores conseqüências.
                Mas, vamos à chegada do rio.
Tudo aconteceu numa época em que fui morar na fazenda de um tio, chamada “Quixaba”. “Quixaba” já foi o título de um artigo que escrevi, nesse jornal, publicado no mês de março de 2006.
Tinha começado o inverno; por sinal um bom inverno naquele ano. Mas os rios e os açudes ainda continuavam secos, ou quase secos, como sempre acontece no período de estiada no sertão. As árvores permaneciam com o seu tom verde, mas de um verde amarelado, embora tivéssemos a esperança de que logo, logo, voltaria a sua cor definitiva. O pasto para alimentação dos animais já não existia e os mesmos tinham que ser alimentados com ração comprada, o que prejudicava  bastante a situação financeira dos fazendeiros. A água, também escassa, não era suficiente para atender o bebedouro dos animais, sendo necessário preparar cacimbas (escavação feita em leitos secos de rio que se acumula alguma água), ou mesmo furar poços para atender a necessidade de gente e animais.
                E o rio chegou!
A tarde estava bonita, “bonita para chover”, expressão usada no interior, quando se aproxima a chuva. As nuvens já escurecidas ao nascente mostravam o tempo chuvoso que ia desabar. Mas a chuva não caia na fazenda. O fazendeiro e aquele povo humilde que compunha seus moradores, conhecedores das coisas do sertão, falavam: “a chuva é p’ras bandas das cabeceiras do rio e o mesmo irá encher de qualquer jeito e levará água para o açude”.  E o alvoroço! Todos queriam ver de perto aquele fenômeno, principalmente aqueles que, como eu, ainda não tinham presenciado a tal chegada do rio. E lá fomos nós para as margens do rio próximo à fazenda.
E eu pensava: como este rio vai encher se a chuva não tinha caído? Como pode ser isso possível?
De repente aquele barulho enorme; chiados, estrondos, estalos de galhos secos e a correria. Era ele sim; era o rio que vinha chegando trazendo consigo tudo o que encontrava no caminho: galhos, areias, pedras, cobras, matos, etc.; ele se aproximava e ia preenchendo  toda aquela extensão, parecendo uma cobra gigantesca, se arrastando de um lado para outro, como se estivesse à procura de um lugar apropriado para se esconder e fazer a sua morada.
Todos , ali presentes, iam acompanhando, em suas margens, o circuito do rio. Eu também, mas um pouco distante, pois tinha receio que, de repente, ele se estendesse pelas laterais e me carregasse junto com ele. A alegria era enorme e contagiava a todos. O rio corria em direção ao açude da fazenda e este, com certeza, estaria de braços abertos para recebê-lo.
Foi um quadro lindo, fantástico e emocionante. Senti a presença de Deus naquele momento; era uma das suas obras grandiosas acontecendo. Agradeci a Ele a felicidade de poder presenciar tão belo e perfeito  espetáculo da natureza.