26 de junho de 2017

Associação de Danças Antigas e Semidesaparecidas Araruna


                               Mestre Cornélio Campina da Silva - Fotos Adrovando Claro

A Sociedade de Danças Antigas e Semidesaparecidas Araruna foi fundada em 24 de julho de 1956. Os primeiros passos foram dados por Cornélio Campina da Silva, natural do município de Portalegre (Rio Grande do Norte), com base em suas tradições familiares.
Em 1921, mestre Cornélio chegou a Natal com sua irmã, posteriormente seus pais também vieram. No ano de 1949, no período do São João, ele deu início a uma quadrilha (São João na Roça) que se tornou um marco cultural na época, pois em Natal o lazer girava em torno do cinema e do futebol, segundo o Sr. Cornélio.
A quadrilha era realizada na rua durante o período junino, despertando a curiosidade e o interesse das pessoas. O mestre Cornélio reuniu suas tradições familiares com passos de danças aristocráticas de salão do século XIX, e o grupo, que a princípio foi criado para a quadrilha, logo se tornou o Araruna. Em pouco tempo a fama se espalhou, chegando ao conhecimento do folclorista e historiador Luís da Câmara Cascudo.
Como folclorista e incentivador da cultura do Rio Grande do Norte, Câmara Cascudo procurou o Sr. Cornélio e passou a apoiar o grupo. Fazia três anos que o grupo dançava e não era registrado, e então Câmara Cascudo sugeriu batizá-lo de Araruna por ser a primeira dança da série de quinze que compunha o repertório do grupo. A sugestão foi acatada e o grupo passou a ser conhecido como Sociedade de Danças Antigas e Semi-desaparecidas Araruna, a partir do ano de 1956.
A Sociedade de Danças Antigas e Semi-desaparecidas Araruna, atualmente constitui-se em associação e, é reconhecida como entidade de utilidade pública, instituída pela lei nº 91 de 28 de agosto de 1935. Foi regulamentada pelo decreto nº 50.517 datado de 2 de maio de 1961. O grupo Araruna tem como objetivo a divulgação e conservação da cultura norte-riograndense, principalmente por ser genuinamente potiguar. Em nome desse amor a cultura potiguar, o Araruna vem vencendo as dificuldades e sobrevivendo ao longo das décadas de sua existência.
A Araruna é a única sociedade folclórica do Rio Grande do Norte com estatuto registrado em cartório e sede própria, localizada na Rua Miramar, no bairro das Rocas, cidade de Natal. A sede foi construída no terreno doado pelo então prefeito Djalma Maranhão e com a mão-de-obra dos próprios membros do grupo. A iniciativa de transformar essas manifestações folclóricas em sociedade partiu do vereador Manoel Oliveira Paula, tendo como inspiração o movimento para preservação e incentivo de manifestações folclóricas que ele conheceu em Recife.
Para as apresentações, os dançarinos se vestem de preto e branco, com roupas elegantes que se inspiram nas vestimentas da aristocracia do século XIX. Os homens de casaca e cartola, as mulheres com longos vestidos rodados e estola cobrindo os ombros. Organizados sempre em pares e enfileirados, o grupo possui quinze coreografias.
Danças apresentadas pelo Araruna: Araruna, Camaleão, Jara, Besouro, Caranguejo, Maria Rita, Sete Roda,Miudinho, Mazurca, Mulher Rendeira, Xote, Bode, Polca, Pau-Pereira e Valsa
As músicas são apenas dançadas e não cantadas, apesar de algumas delas possuírem letra. O grupo tem a preocupação em preservar as coreografias como foram idealizadas pelo Sr. Cornélio, sem nada modificar as danças, que vão passando de geração em geração da mesma forma.

Fonte: Wikipédia



NOITE DE SÃO JOÃO


Bené Chaves

                         Era noite de São João em Gupiara. Foguetões, traques, fogueiras incendiando, arraiás festivos. Houve até uma ‘quadrilha’ no pequeno salão meio improvisado nas imediações. Os festejos iniciaram. Tudo ao redor virou imensa festa.
                        Chamaram um tal de Zé Molenga que, apesar do nome, cantou e rodou feito um pião. Avaliem se ele não tivesse tal apelido... Teve casamento e tudo, o forró solto na saleta e na alegria dos participantes. Esse violonista lembrou Painhô, pois manejava as duas mãos com facilidade. Era também ambidestro, igualzinho a ele.
                        Mainhô, filho, não quis afoitar-se, ficou em casa mesmo com Tia Chica, aquela sua pança crescendo sempre e quase pertinho de parir. Seria uma temeridade, inclusive pra você, lógico, se ela fosse dançar a noite toda.
                        Evidente que São João não era uma festa alinhada, o povo dançava forró mesmo na rua, com hiato e tudo. E meu pai cansava de ver a animação pra riba. A fogueira queimando os pés e as labaredas esquentando o vento.
                           Ele disse? Disse sim senhor! Você será meu compadre? Oba!... oba! Quem mandou?
                          Painhô conseguiu uma parceira e foi o noivo daquela  festança que iniciara. Dançou a noite toda, acho, pois não me contou tudo direitinho. Claro que não iria contar. Apenas me disse que o chato do irmão da noiva ficou de olho nos dois.
                     Alguém, então, gritou do salão: homem de um lado, mulher do outro, juntar, cruzar, trocar, juntar de novo. Epa! A animação fez esquecer tudo, os instrumentos soltos no ar. Viva o noivo, viva a noiva! E os corpos das pessoas iam animando hora a hora, minuto a minuto.
                Então foguetões clarearam o céu, as crianças brincando com ‘peido-de-velha’, ‘cobrinhas’, ‘rojões’, ‘estrelinhas’e etc. A inocência nas suas caras. Rostos de brinquedos.

               Sei não, mas tenho ligeira impressão que deva existir alguma convivência, continuou meu pai. Hipotética versus real. E quando saí vi cinzas espalhadas na fogueira, últimas lembranças da noite de São João. São duas festas com resquícios iguais no nome. Fim de ano x meio de ano. Gupiara pensara assim.
              Ah, a madrugadinha apareceu e o santo confirmou: ligeireza dos homens se metendo nos matos com suas companheiras. Parece que não suportavam a ‘quentura’ do ambiente. Mas, aquilo tudo era uma estratégia. Uma bela estratégia!
              Ali na estrada, meu filho, falou ele, vi labaredas fervendo o tempo. Gupiara me pareceu bonita. Nos morros uma cor avermelhada subiu e fumaças juntavam-se às nuvens. Supunha-se um lusco-fusco fora de hora.
              No salão o baile acabara. E meu pai contou ainda que moças e rapazes juntaram seus rostos e talvez também seus corpos. Na simetria própria entre os dois sexos. A festa depois  caducou, vislumbrei somente fiapos afligindo o santo de temperatura elevada.
            Painhô, então, disse: no sertão, onde nasci e aqui em Gupiara, o povo acredita nos sentimentos humanos. Ou acreditava.



19 de junho de 2017

BOI CALEMBA


O folguedo se apresenta cantando cantigas do século XIX, saudações, louvações e benditos. O Boi  Calemba é composto por dezessete participantes, geralmente divididos em grupos, os Enfeitados e os Mascarados.
O folclorista Deífilo Gurgel informa no livro Manual do Boi Calemba a função de cada grupo: Compõem o primeiro grupo o Mestre da brincadeira, os Galantes e as Damas, responsáveis pelo lado sério do espetáculo. ... Os mascarados provêm a parte cômica do espetáculo. São três. Mateus, Birico e Catirina. Declamam loas, como os Galantes, entretanto, gaiatas; representam pantominas e parodiam os compenetrados Galantes, em suas antigas e atitudes.
O Boi Calemba, conforme diversos estudiosos das danças folclóricas, é a versão dos potiguares do bumba-meu-boi nordestino. Vivo na memória do natalense, este folguedo expressa riqueza da cultura norte-riograndense. Em Natal,Boi  Calemba é sinônimo de Manoel Marinheiro (Manoel Lopes Galvão), que construiu ao longo de sua vida um pólo de resistência da cultura popular. Hoje sem a presença do Mestre Manoel, a comunidade de Felipe Camarão, ainda, vinvencia as lições de amor aos folguedos ensinada por Marinheiro. Na Rua Silva, 262, transversal da Rua Rainha do Mar, encontramos um lugar de folclore, a antiga residência do Mestre Bio Calemba.
Finalmente, o Boi Calemba é um dos folguedos mais tradicionais de Natal. Há relatos desta “brincadeira” como parte de várias festas populares-religiosas, tendo como ponto alto os festejos natalinos do início do século XX.
Fonte: Cultura do RN

Fotos de Adrovando Claro



14 de junho de 2017

Negrinho do pastoreio


“Só para três viventes ele olhava nos olhos: era para o filho, menino cargoso como uma mosca, para um baio cobos-negros, que era o seu parelheiro de confiança, e para um escravo, pequeno ainda, muito bonitinho e preto como o carvão e a quem todos chamavam somente o Negrinho. A este não deram padrinhos nem nome; por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem, Senhora Nossa, que é a madrinha de quem não a tem.” (João Simões Lopes Neto)
Escravo, órfão, o menino pertencia a um fazendeiro rico, cruel e arrogante. Maltratado por todos, principalmente pelos filhos do senhor, sofreu inúmeros castigos e barbaridades. Ao perder a tropilha de cavalos de seu amo, foi surrado sem piedade. Seu corpo moribundo foi, então, jogado à boca de um enorme formigueiro, para que as formigas o devorassem. No dia seguinte, o fazendeiro, atormentado, correu ao local e não mais encontrou o supliciado. Em vez disso, viu Nossa Senhora e o Negrinho, seu afilhado, são e feliz, montado em um cavalo baio, pastoreando uma tropilha de cavalos invisíveis.
O Negrinho do Pastoreio é mito de origem gaúcha, com fundamentos católicos e europeus, divulgado com finalidades morais. A compensação e redenção divinas aos sofrimentos terrenos. A tradição popular concedeu-lhe poderes sobrenaturais, canonizando-o. Possui inúmeros devotos. Afilhado da Virgem, encontra objetos perdidos, bastando prometer-lhe um toco de vela que será dado à madrinha. Em algumas versões, oferece-se também, um naco de fumo para o menino.
Baseado no mito popular, Augusto Meyer criou a seguinte Oração ao negrinho do pastoreio:
Eu quero achar-me, Negrinho!
(Diz que você acha tudo)
Ando tão longe, perdido…
Eu quero achar-me, Negrinho:
A luz da vela me mostre
O caminho do meu amor
Negrinho, você que achou
Pela mão da sua madrinha
Os trinta tordilhos negros
E varou a noite toda
De vela acesa na mão
(Piava a coruja rouca
No arrepio da escuridão
Manhãzinha, a estrela d’alva
Na voz do galo cantava
Mas quando a vela pingava
Cada pingo era um clarão)
Negrinho, você que achou
Me leve à estrada batida
Que vai dar no coração
(Ah! os caminhos da vida
Ninguém sabe onde é que estão!)

Para saber mais sobre o negrinho do pastoreio:
• Azambuja, Darci. “Negrinho do pastoreio”. Província de São Pedro; revista de difusão literária e cultural. Porto Alegre, Livraria do Globo, setembro de 1945, p.107-109
• Callage, Roque. No fogão do gaúcho. Porto Alegre, Ed. Livraria Globo, 1929
• Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1954 | 9ª edição: Rio de Janeiro, Ediouro, sd | Geografia dos mitos brasileiros. 2ª ed. São Paulo, Global Editora, 2002, p.328-334
• Damasceno, Athos. “Negrinho do Pastoreio; transposição poética da lenda colhida por J. Simões Lopes Neto”. Província de São Pedro. Porto Alegre, Editora Globo, março de 1947, nº 8, p.53-56
• Lopes Neto, João Simões. Contos gauchescos e lendas do Sul
• Lopes Neto, João Simões. Simões Lopes Neto; contos e lendas. 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora Agir, 1960. Nossos Clássicos, 5
• A. O. “Coisas do folclore brasileiro: Negrinho do Pastoreio”. O Dia. Rio de Janeiro, 30-31 de dezembro de 1962, terceiro caderno, p.2
• “Negrinho do Pastoreio”. Revista Esso, novembro-dezembro de 1951
• “Oração ao Negrinho do Pastoreiro”. em Morais, Carlos Dante de. “Augusto Meyer e a infância”. Província de São Pedro. Porto Alegre, Editora Globo, dezembro de 1949, nº 14, p.76
• “Conversa pequenina”. O Jornal. Rio de Janeiro, 21 de julho de 1963, suplemento feminino
• “Negrinho do Pastoreio: o santo homem do campo”. Gazeta Comercial, 06 e 13 de novembro de 1966

Adrovando Claro

8 de junho de 2017

Congado


                                                                                                   Fotos: Adrovando Claro


Wilson de Lima Bastos

Os congados autênticos usam numerosos instrumentos musicais, mas todos de percussão. Pare até que sem tais instrumentos não haveria congado. Marcam o ritmo, controlando a melodia concentrada no canto, de que todos participam. O enredo é variável conforme a região e daí designações diferentes para o que se conhece sob o nome de congado.
Eis que assim fala Luís da Câmara Cascudo: “Quanto ao enredo, os cucumbis diferem dos congos. Para o Norte não há feiticeiro ressuscitando príncipe e, sim, este morrendo às mãos do embaixador da rainha Ginga, indo prisioneiro o velho rei. No registro de Melo Morais Filho, é um caboclo (indígena) o matador do príncipe que volta a viver e há uma guerra entre os dois partidos. O cucumbi se espalhou para o Sul. O congo recolhido por Pereira da Costa termina em festas e pazes entre o embaixador e o rei. Em São Paulo, informa-me de Atibaia, o senhor João Batista Conti, não há morte do príncipe e intervenção subsequente do feiticeiro e sim uma guerra entre o rei e um general invasor, que é derrotado e batizado, lembrando as cheganças. Em Goiás, o congado é uma embaixada da princesa Migúcia ao rei seu primo que recebe com armas o enviado e depois de breve escaramuça o proclama duque e mirante mor”.

O regionalismo desempenha, então, função muito importante, sobretudo num país de tão notáveis disparidades regionais como é o Brasil. O mesmo assunto folclórico apresenta variantes interessantes, de região a região. O ambiente físico e geológico muito contribuem para tal. Daí o necessário estudo das bases regionais da cultura para a formação de uma verdadeira consciência do folclore. Os próprios nomes são regionais, o que leva o pesquisador ao estudo comparativo dos usos, costumes e folguedos, para as distinções entre um caso e outro. Por exemplo: O que seria maracatu? É o mesmo Luís da Câmara Cascudo quem diz: “Os maracatus são desfiles pomposos de um soberano negro com sua corte, bichos, totens, a umbela muçulmana rodando sempre, ornamental e privativa dos reis, ostentação magnífica de movimento e cor, seguida de cantigas com ou sem ligação com os personagens”.
Terminemos esta série de artigos sobre congado com o próprio autor do Dicionário do folclore brasileiro: “As representações do rei de Congo, eram comuns em Portugal, e Teófilo Braga, citando João Pedro Ribeiro, refere à festa de Nossa Senhora do Rosário, no Porto: ‘ Acabou, porém, já no Porto outra mascarada, em que se representava a corte del Rei de Congo, com seu rei e rainha e imaginária corte, com que os pretos se persuadiam render culto à sua padroeira, a Senhora do Rosário, função muito apreciada dos rapazes e que durava três dias de julho’ (O povo português e seus costumes, crenças e tradições, v.1, Lisboa, 1855, p.313)”.
Wilson de Lima Bastos. “Congado”. Lux Jornal. 02 de outubro de 1966 (Transcrito de Jangada Brasil)