31 de julho de 2017

OS DEVANEIOS DE UM ALFABETO





 Bené Chaves

                 AFINAL, eu nasci. Demorei sim, mas surgi, talvez já tivesse incomodando Mainhô dentro de sua barriga. Se bem que depois, me parece, os embaraços vêm em maiores inquietações. Cheguei sob influências simples. Nada do sonho extravagante de Painhô. Nada de sangue azul. Nem o florir de belas flores. Era sangue vermelho mesmo, igual a todo mundo. Nasci muito a contragosto, mas tive de nascer. Claro que eu preferiria ter ficado no ventre de Mainhô. Como não tive opção, o jeito foi ser retirado pela alegre parteira. 
                 Achei que este mundo não serviria para mim, era um mundo de feridas. Feridas expostas e não cicatrizadas. Um mundo de falsidades e hipocrisias, falso-moralista. E também de incompreensões e decepções. Portanto, eis-me aqui para tentar enfrentar suas mazelas ou questionamentos ambíguos.

                  BEM que tinha dito: ainda moro numa fazenda, ou melhor, passo alguns dias naquele recanto agradável. O cheiro de vacaria me fazia sentir um cheiro de terra firme, molhada, terra de futuras colheitas. Mainhô é que sempre tapava o nariz quando subia no ar o odor de bosta mesmo, das vacas que sempre pastavam despejando entre as pernas o adubo de suas entranhas.
                  E o vaqueiro de Painhô sempre metido que estava a tirar leite enquanto a pobre vaca dava uma mijada daquelas. Arre, arre! Tirava leite até altas horas da noite, quase não ia dormir, meu pai ainda na varanda tocando violão e tudo. Vida boa aquela, ar puro, cristalino. Mundão aberto, cheiroso. Pena que a permanência durasse pouco tempo.

                COMO entrei num colégio de padres não sei bem, mas o certo é que estudei semi-interno. Época boa, sem muitos interesses. O ruim era durar o tempo inteiro trancado. Tornei-me, então, uma pessoa susceptível e sensível. Quando o almoço era servido eu destampava o protetor e estavam lá as moscas servindo de tempero pro feijão.
                Enjoava aquilo tudo e ficava mais um dia de fome. No recreio não me divertia com a barriga roncando, fingia que jogava bola e fugia pra cima das mangueiras a chupar mangas espada e rosa. E depois voltava palitando os dentes com a língua.
                À tarde, os deveres, os insuportáveis deveres. Enquanto a obrigação não saísse correta, eu ficava mofando ali na sala quente e olhando apenas paredes brancas e janelas sujas. Ufa!, como era chato aquilo. Dava vontade de abandonar e fugir para novos ares.

                DEI pra falar logo pequenininho, talvez uma precocidade advinda de meus ancestrais, sei lá. Já balbuciava algumas palavras incorretas, claro, mas com o sentido voltado para a sua significação. Acho que Painhô deve ter começado a dizer algo desde cedo, não duvido nada disso. Talvez até soletrado algumas cantorias e arquivadas no diminuto cérebro.
                As suas célebres emboladas já deviam há muito tempo estar em formação embrionária naquela pequena cachola. Nada se podia duvidar de Painhô. E era quase certo que herdara tudo, pois o que é de bom ou ruim vem sempre de nossas raízes.

               EM frente, quase perpendicular, onde Painhô e Mainhô moravam, existia uma pracinha, acanhada, com uma casa onde vendiam peixes, limitado lugar também de gostosas iguarias. Nem tanto como as comidas de Tia Chica, porém a freguesia se reunia no local. Mas, eu ainda pequeno, talvez com uns sete anos, presenciei, sem querer, claro, um crime nas imediações da mesma.
                    Foi horrível para a minha idade. E Gupiara começara, aos poucos, a mostrar outra face de sua existência.
Lembro vagamente: tardezinha, um cidadão, sem motivo aparente, pegou seu revólver e atirou, pum!, pum!, pum!
                   E, depois, com uma faca, ainda cortou metade da orelha do pobre homem, saindo com a dita na mão, o sangue misturado, o outro estendido na barafunda. Nunca souberam o paradeiro do criminoso e ele certamente desapareceu para sempre. Seria o início, talvez, de casos sem soluções e crimes que compensassem suas autorias.

              FUI logo sabendo que o pequeno comércio que Painhô instalou em Gupiara começava a dar bons lucros. Vez em vez ele mandava me chamar para ajudá-lo naquele Armazém varejista. E eu até gostava de ficar ali pesando quilos de arroz, feijão ou farinha, feito menino instruído, sabichão.
                     Meu pai da porta olhando pro próspero movimento, às vezes piscando para a bonita moça (não tomava jeito esse Painhô...) em frente, outras vezes me observando com atenção. Claro que ficava direitinho, necessitava muito da minha mesada, pois queria tanto ir a um cinema...

            GARANTO que cheguei logo a ler e escrever, claro, fui um menino educado, não dei trabalho a ninguém, Mainhô que o diga. Uma vezinha ou outra a gente perde um pouco os bons costumes, mas é coisa sem importância. O chato mesmo é a vida desassossegada, estudar, estudar, depois trabalhar, trabalhar...
                     A gente devia viver brincando, ora essa! O divertimento nos dá saúde, despreocupação. E as obrigações diárias cansam nossa mente, às vezes com tarefas supérfluas apenas como vaidades bestas, ambições, troços levados como supremacias.
                    A modesta inteligência ancestral (acho que em grande parte de Painhô) que herdei deve ter me facilitado sem precisar ficar com os olhos grudados em livros ou cadernos. Penso que a consciência fluiu espontaneamente e fui absorvendo quase tudo com melhor facilidade.

           HOUVE um tempo muito bom em minha vida: coleção de revistas de cinema com artistas na capa e tudo. Possuía um álbum com todas aquelas lindas mulheres à minha frente. E me deliciava num cansaço quase extremo vendo Kim Novak, Gina Lollobrigida, Ava Gardner, Cláudia Cardinale, Ingrid Bergman, Brigitte Bardot, Silvana Mangano e outras lindas atrizes mostrando as pernas em variadas poses.
                  Coxas? Raramente apareciam... Também naquela época... Só um tiquinho de nada, o que era uma pena enorme. Mas, que teria sido uma beleza perscrutar o corpo nu de uma miss Novak, por exemplo, claro que ninguém duvida disso.
                E as lindas mulheres passavam junto de mim o dia inteiro, principalmente quando ia tomar um salutar banho. Aí, então, flutuava na minha imaginação e o ralo do chuveiro era quem recebia toda a descarga. Atrizes em ruma, oh, fascinantes... E os citados periódicos se amontoavam para o meu bel prazer.
                 Tempo bom que não voltará jamais. Porém fico com aquela bela recordação de que gamei em todas, revistas e mulheres, seria evidente que sim. E o prazer que senti nos meus primeiros anos de uma pré-adolescência.

           IDEAL também dizer: gostava de jogar bola. A gente formava um time respeitado e eu, no meio dele, metido a bicho medonho, conhecedor (nem tanto) da arte de lidar com a pelota. Espaços compridos possibilitavam o aproveitamento da área larga. E naquele campo não-oficial dominava o redondo objeto de couro como se fosse um verdadeiro craque. Apenas como se fosse...
          Voltava à noitinha, cabisbaixo, recebendo carões. Mainhô parece que só queria me ver nos estudos, nada de distrações extras. E dizia: você, hein?, por acaso disse pra sair? Botava-me de castigo e lá ficava eu mofando e olhando para aquela horrível parede descolorida.
          Saía desconfiado e com os pés doídos. Esmurrando o muro, sem cor, teimava em largar tudo enquanto Mainhô se enfezava com minha atitude, para ela, um modo de proceder desrespeitoso.
Seria depois surpreendido a jogar botão de mesa...

         JOVEM ainda voltei para a fazenda. Cheguei, montei um dos cavalos bonitos e saí a trotear gostoso pelo espaço aberto do campo, aquele lugar desabitado onde predominava os cantos dos passarinhos e o cheiro do ar puro, a vastidão das matas florestais a nos trazer saúde. Vidinha mansa, como diria Painhô. Aliás, foi ele quem me ensinou a montar naquele alazão formoso, bom da peste, no modo de dizer, claro.
        E eu pulava em cima do animal e vez em vez levantava suas duas patas e segurando nas rédeas, chicoteava-o, ele abrindo as ventas e rinchando um grito talvez de dor. Saltava com ele, então, aqueles enormes cardeiros e xiquexiques que se punham à nossa frente. E o alazão elevava-se com vigor, feito menino, éramos então duas crianças a correr estrada afora como se estivéssemos num campo de hipismo.
        Depois tudo acabou: a criação da fazenda foi devassada e devastada, acho que meu cavalo morreu quando a máquina chegou. Feiíssimo e horrível... O progresso matara a ingenuidade e o ar escurecia. E a gente teve de correr às pressas. Homem e máquina: natureza perdida.

         KNOW HOW eu ainda não tinha nenhum, mas com certeza e o passar dos anos iria adquiri-lo sem pestanejar. Seria questão de paciência e tempo também. E principalmente estudo. Portanto, dali em diante teria de me esforçar para entender tudo. E Painhô certamente ensinaria o que ele já aprendera na vida.

        LUTEI desde criança para manter boa aparência. Com idade de quatro ou cinco anos todos gostavam de mim. Ao menos imaginava que sim. Um gênio ou um imbecil? Nem uma coisa e nem outra.  Disso sei: nasci com aquele belo porte que tanto a parteira avisara.
         Mas, depois, é que a gente, no crescimento, perde algo e fica frugal. Ou vice-versa. E parece que os cinco quilos e duzentos gramas se malograram e diluíram com a idade avançando e fui ficando magro, mas, ao mesmo tempo, esbelto, no que redundou depois um rapaz, modéstia à parte, de estatura modelar.
         Que o dissessem depois as mulheres... E que mulheres! Nem gosto de pensar, pois me dar uma saudade danada de um tempo que ficou perdido entre as sombras de uma ilusão.  E com ele, o tempo, tudo se dissipou e depois acabou. Restam, atualmente, lembranças de uma época onde a inocência e a felicidade não tinham data para cessar. E tudo que a gente fazia sentia um sabor agradável do desmedido.

         MEU colégio era obrigação ir pra missa. Confessionário, hóstia, um verdadeiro santo. Imaginem que até cantar em coral da igreja eu cantei. Fiz a chamada primeira comunhão bem comportado e as traquinices e indiferenças (ou descrenças) vieram com o tempo. Mas, na narração desta letra estava eu em estado de graça. Ou presumia que estivesse.
        Hora da celebração: era mais um pretexto de moças e padres carentes. E as paqueras aconteciam nos bastidores entre um olhar e outro. Os sacerdotes depois largavam tudo e fugiam com as meninas também ávidas para pegar o seu homem. Era um sacrilégio em nome de uma pseudovocação. O que valia mais seria o desejo em pleno palco de uma igreja que ficava desmoralizada ante o fastio de também falso-moralistas.
        E quando cresci entendi melhor a trama amorosa dos padres no horário dito religioso, mas com os olhos nas lindas (algumas nem tanto) donzelas ansiosas para casar. O fato é que pouco tempo depois não existiam quase presbíteros naquele educandário.
Muitos deles fugiram com as meninas-moças que, nas suas supostas inocências, viam naqueles domingos matinais uma oportunidade de um casamento talvez seguro em nome de um desejo inicial.   

       NÃO sei por que nasci uma pessoa tímida, muito tímida, nada puxando ao meu pai. Talvez as raízes ancestrais tenham vindo de Mainhô, sei não... E às vezes também era um pouco pensativo. Mais tarde soube através de minha mãe que teria puxado a ela no aspecto da timidez.
       Seria um predestinado e teria sido enviado para detonar e clarear mentes obtusas e que pudesse tomar impulsos extraordinários com o decorrer do tempo?   Sei que a vida tem lá seus mistérios, a origem de todas as coisas voa igual um passarinho além mares. Quando atravessa o tempo, não sabe de onde partiu.
       E somente tenho certeza que saí de um enorme buraco, porém não sabia a razão e nem para onde iria depois.
Achei, contudo, bacana ser um menino sensível, que tentava compreender tudo. Entretanto, um temor sempre surge na nossa frente e a gente fica a lamentar um medo da obscuridade. O diabo é que parece que ainda não consegui superar!
        O carnaval chegou e a gente formou um bloco: ‘A cobra que mordeu o Belo’, uma espécie de roteiro matinal destinado às brincadeiras do período. O título não soube bem o motivo, se existia ou não a citada cobra, embora soubesse que o tal significado indicasse alguém de especial atenção.
     E a razão da existência da turma de rapazes seria o assalto às casas conhecidas, uma talvez leve (ou pesada) maneira de tomarmos uma bebidinha a mais.
Uma velha camioneta servia de percurso e era uma pena que as mocinhas da época, ainda acanhadas ou pressionadas, não aparecessem como integrantes também do citado acompanhamento.
     Eram somente marmanjos, o que não deixava de ser triste. E seria ótimo se algumas delas estivessem perto de nós, então a alegria ia ser redobrada. Mas, a compensação nós tirávamos no divertimento, de vez em quando exagerado pelos mais afoitos.
     Porém eu não deixava de me lembrar que as supostas donzelas pudessem estar ali nos fazendo belas parcerias.
Sim, adivinhei o motivo do título do bloco: era um belo carnaval. É de lamentar apenas que o ofídio o tenha mordido.

     PAINHÔ às vezes ralhava comigo, implicava quando não o obedecia. Mas, tudo isso era coisa de criança mesmo. Bem que eu lutei pra ficar no ventre de Mainhô... Mas, infelizmente, não somos donos de nossos narizes. E ele gostava de um cocorote que doía pra valer. Minha cabeça voava e passava dias com o couro cabeludo doendo.
    Quem mandava ser medonho, hein?  Sei que o cérebro tem os seus emaranhados, ninguém imagina, é cheio de ondulações. Quando um tálitro é dado com força, aí esfacela, a moleira afunda. Evidente que não foi o meu caso, mas sofria um pouco com aquela indisposição.
     Os embaraços e situações incômodas eu não posso precisar ou alegar de que foram. São acontecimentos que aparecem ao acaso.
 Porém, nossas vidas são ambíguas. E o simples fato de eu existir acarreta súbitos interesses alheios. Perguntas são postas e daí surgem discussões que raramente têm respostas que satisfaçam o interlocutor.

     QUANDO meu pai me levava a passear, eu sempre pedia pra entrar numa daquelas salas de cinema. Ali ele subia comigo e conseguia através da amizade com o ‘dono da câmera’ me mostrar uma enorme máquina de rolos gigantescos a girar ininterrupta. Então discutia com o homenzinho sobre assuntos que eu nada entendia e metia o olho direito num daqueles buracos, enquanto gesticulava mandando que examinasse uma luminosidade retangular na minha frente.
      Parece-me que exibiam um seriado desses que obrigavam você a acompanhar toda semana. E eu me entusiasmava tanto que ficaria o dia todo na observação não fosse o próprio sujeito a me lembrar que teria de sair. Sabia que era gostoso o suspense de um filme para o seguinte, vendo-me depois na expectativa de nova espiada na aparelhagem cinematográfica.        Fui daí, então, me interessando pela continuação da fita e sempre fugia pra assistir os seriados com a ajuda do amigo de Painhô.

       REGISTREI, desde cedo, em meu diário, que não tinha quase esperanças com esse mundo que aí está. Talvez fosse preciso muitas transformações. De qualquer maneira apenas tento colocar e, se possível, corrigir fatos danosos que marcam irregularidades absurdas nesta nossa vivência. Então, a lamentação é freqüente à insensibilidade do ser dito humano.
        E dei, portanto, o veredicto simples, porém implacável: meus olhos viam, desde criança, uma humanidade bestificada.
Quando ficar adulto e sentir atrações externas e sentimentos próprios ao meu corpo jovem, farei o que for possível para tudo se transformar como uma flor desabrochada em plena madrugada.

       SÚBITO lembro-me de um episódio: ainda no ventre de Mainhô vi uma infinita escuridão acercar-se, pensando depois e batucando sobre a causa e efeito de tais ruídos estranhos. Pareciam ser labirintos inatingíveis e cores diversas em constantes combates.
       Fios corriam dispersos, atingiam meu cérebro, deslocavam-se em círculos e incomodavam o corpo inteiro. Mas, depois tudo passou e me vi livre de misteriosa e azucrinante coação. Foi um sufoco que deixou tonto um bom período o feto que ainda estava em estrutura de se desenvolver.

      TODOS viram (ou quase) naquele menino um ser talvez destemido e disposto a enfrentar situações que a vida iria impor. Marco de uma determinação? Pressenti o acontecido e fiquei boquiaberto ao saber da extravagância e fecundidade do problema. Mainhô e Painhô saíram a gritar de contentamento e felicidade, o oposto do que senti quando soube que iria nascer.
      Já tinha dito: não era o que desejava. Não queria assistir o que o mundo parecia programar ante meus (e talvez seus) frágeis olhos: o sofrimento da grande maioria das pessoas. E observei-o e ainda observo-o assombrado e temeroso.

     UMA vez tive um sonho estranho: estando sozinho neste mundo áspero e rude, não pude deixar de retalhá-lo, golpeando-o em partes iguais. Permanecia sedicioso em querer mudar aquele inferno. Olhava em frente e via o trajeto repartido em não sei quantas divisões. Cheguei a me assustar, juro.
     Atravessei enormes desfiladeiros e pegando um atalho parecia fugir, como em filmes de faroeste, de grande quantidade de índios. Intrincado e emaranhado, o solo ficou secarrão.
Claro que não estava acostumado com essas andanças, a bem dizer talvez fosse a primeira vez que saía de casa. Mundão matuto esse, tudo no desprimor.
      Então, tardinha, eu vinha vindo tardo para me achegar no lugarejo. O que não gosto nem de contar. Mas, houve uma espécie de explosão e gente muita havia morrido. Tudo tomado nas devidas apropriações, com queimação, saque... Haviam desmandado. E fiquei ardendo nas supostas chamas. Uma espécie de delírio...
     Quando minha mãe me acordou, estava lá eu no escuro a debater contra o próprio travesseiro, parecia mesmo evidenciar tais episódios. Passou, repassou e ficaram somente as distâncias. E até o presente momento não entendi a razão daquela seqüência de imagens. Talvez fenômenos psíquicos postos involuntariamente.

     VEZ ou outra Painhô lia no sofá um livro de historinhas que ele conservava na estante. Dizia: esse capítulo é ótimo, tem cada piada... Dobrei, então, a folha e ele começou a ler, parando na metade. Vi seus pêlos dos braços arrepiarem e os cabelos também, parecendo mais uma vassoura ao contrário.
      Na verdade, ele puxou o livro com força e não leu mais nada. Falou que os relatos eram meio obscenos e foi guardar o dito compêndio ou coisa parecida. Deve ter escondido entre as traças da velha estante. Mas, outro dia ainda irei testemunhar suas páginas. 
      Depois encontrei meu pai na rede nova relembrando os dias que passava na fazenda, quando dizia que remoçara dezenas de anos. E concluí que se ele morasse lá talvez nunca fosse envelhecer, mesmo com o reforço da palavra. Vê como era o vaqueiro de meu avô, moço, moço, disposição de bicho, carinha de menino. E ali mesmo ele dormiu uma soneca, era hábito a sesta de Painhô depois do almoço.

     XIXI eu ainda fazia no berço. Como não existiam fraldas descartáveis, sobrou mesmo pra Tia Chica que lavava uma a uma aquelas intermináveis de tecidos de algodão. E tinha, claro, que suprir minhas necessidades fisiológicas. Ficava ali sem fazer nada, a espera de uma mão bondosa que viesse trocar a velha urina escorrendo nas minhas robustas pernas.
    Que cuidassem de mim, pois! Afinal de contas, não tenho culpa dos acontecimentos. Se existem responsáveis no caso aí são os meus pais que resolveram fazer amor e então, depois de nove meses daqueles entreveros na cama, eu nasci. Isto é mais do que evidente e todos devem pensar assim, inclusive eu, que sou parte interessada.
      E digo mais: de certa maneira Painhô e Mainhô também não tiveram lá a culpa toda, pois já são frutos de outros amores. Partindo dessa premissa, todos têm sua parcela de uma forma ou outra. Não irei, tenho certeza, desabrochar uma vida quando estiver de colóquios amorosos com uma mulher? Nesse ponto, sou responsável também. Ou irresponsável?
                                 
     ZONZEIRA essa minha. Tinha o hábito de zanzar. Mas, voltei a interrogar entre paredes: a vida é uma loucura? Acho que Painhô acreditava que sim, embora Mainhô não ligasse pra essas coisas. Preferia ficar na sua cadeira de balanço a cerzir alguma roupa tirada do baú. E Tia Chica, o que falava? A preta velha envergonhada dizia que todas as pessoas são loucas, umas com mais intensidades e outras com menos. Mas, ela era assim mesmo, sempre exagerava quando ia dizer algo. Porque, de certa forma, toda regra teria sua exceção. Porém, logo se dirigia ao seu local de trabalho. Ou seja: a cozinha. Ali iria se entreter com suas iguarias inigualáveis. Os outros filhos, ainda pequenos, não alcançavam assunto tão pertinente.
      Sabia, eu, entretanto, que a grande maioria sofria de distúrbios ocasionados, acho, pela hereditariedade. Os fatores externos seriam meras conseqüências. Acreditava que o gene caracterizava a índole do ser humano.  A vida tem lá seus monstrinhos...  O seu ciclo é engraçado: desde tempos idos existem mutações, variações, atos e fatos. O ciclo-vicioso dos mundos e fundos.
      Abri a janela e fui tomar um pouco de ar, talvez um ar impuro. Divisei, do parapeito, pessoas tristes jogando-se num chão intervalado onde um longo rio de sangue afogava transeuntes que circulavam pelo local.
Mas aí já é outra estória, pois adormeci e comecei a sonhar...



                                        
                                  
                                            





                                           

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