2 de julho de 2023

Natal, década de 40

                   

                                                                 


  
                                                                                     Maria Barros - conhecida como Maria Boa


(José Correia Torres Neto *)  

    A cidade fervilhava de militares americanos e brasileiros. Aviões, hidroaviões, Catalinas e Jeeps patrulhavam a vidados natalenses.Instalava-se na cidade a paraibana de Campina Grande, Maria de Oliveira Barros (24/06/1920 - 22/07/1997). Começava neste ínterim a história da mais conhecida casa de tolerância do Estado (do país ou do mundo?).Entre as movimentações na Ribeira, nas pedidas de Cuba Libre no saguão do Grande Hotel, nas notícias pelas Bocas de Ferro, na Marmita, em Getúlio e em Roosevelt e na nova geração de meio americanos e meio brasileiros, lá estava Maria Barros enaltecendo-se na Cidade do Natal como a proprietária do melhor (ou maior) cabaré.Tornou-se conhecida como Maria Boa. Mesmo com pouco estudo ela despertou o gosto por música, cinema e leitura.
   O seu”estabelecimento” era o refúgio dos homens da cidade, com residência fixa ou, simplesmente, por passagem por Natal, e servia de referência geográfica na cidade. Jovens, militares e figurões acolhiam-se envoltos nas carnes mornas das meninas de Maria Boa. Muitas mães de família tiveram que amargar,em silêncio, a presença de Maria Boa no imaginário de seus maridos em uma época de evidente repressão sexual.Vários fatos envolveram a personagem. Um episódio muito comentado foi a pintura realizada pelos militares em um avião B-25. Um dos mais famosos aviões da 2a Guerra Mundial, os B-25 eram identificados com cores características de cada Base Aérea. Os anéis de velocidade das máquinas voadoras da Base Aérea de Salvador eram pintados com a corverde.
Os aviões de Recife, com a cor vermelha, e os de Fortaleza, com a cor azul. Para a Base de Natal foi convencionada a cor amarela.
   Os responsáveis pela manutenção dos aviões em Natal imaginaram também que deviam ser pintados no nariz do avião, ao lado esquerdo da fuselagem,junto ao número de matricula, desenhos artísticos de mulheres em trajes de praia. Autorizada pelo Parque de Aeronáutica de São Paulo, a idéia foi colocada em prática. Pouco tempo depois, os B-25 de Natal surgiram na pista com caricaturas femininas e alguns até com nomes de mulheres. Alguns militares da Base escolheram o B-25 (5079), cujo desenho se aproximava mais da imagem de Maria Barros.
   Outras aeronaves também receberam nomes como “Amigo da Onça” e “Nega Maluca”.Quem custou a acreditar neste fato foi a própria Maria. Até que alguns tenentes decidiram levá-la até à linha de estacionamento dos B-25 logo após o jantar, para não despertar a atenção dos curiosos. Ela constatou o fato. As lágrimas verteram de seus olhos quando viu à sua frente, pintada ao lado do número 5079, a inscrição “Maria Boa”.O mito “Maria Boa” rendeu trabalhos acadêmicos: o de Maria de Fátima de Souza, intitulado: “A época áurea de Maria Boa (Natal-RN 1999)”. O trabalho aborda o “fenômeno da prostituição infanto/juvenil, suas conseqüências e causas no desenvolvimento físico e psicossocial de crianças e adolescentes (...). Com o aprofundamento dos estudos percebemos o importante papel dos bordéis na prostituição, bem como o fechamento dos mesmos (...). Chegamos então ao cabaré de Maria Boa, já fechado.
   Tivemos, assim, a oportunidade de conhecer um pouco da saga da Sra. Maria de Oliveira Barros, uma profissional do sexo, com grande importância na história da prostituição de adultos, ou ainda,tradicional; das histórias contadas a seu respeito chamou-nos atenção para sua representação social, seu “mito” e sua ligação com o imaginário masculino. Com isso, passamos a averiguar mais profundamente uma participação na sociedade da época e buscamos reconstruir parte de sua história enquanto meretriz, cafetina, e proprietária da mais famosa casa de prostituição que o RN já conheceu.”O Professor Márcio de Lima Dantas publicou em 2002 o texto “Retratos de silêncio de Maria Boa”. “(...) Para além da atitude ética de proteger sua família, o que faz parecer um jogo com a hipocrisia da sociedade, penso que, na atitude de se manter reservada, se inscreve outro aspecto digno de ser ressaltado.
  Falo do mito que entorna a personagem Maria Boa, de certa maneira, criada e ritualizada por ela mesma, dimensão de fantasia para além do empírico vivenciado. (...)Astuciosamente se fez conhecer por “Maria”, o antropônimo mais comum no universo feminino, genérico e pouco dado a divagações semióticas.Ironicamente é o nome da mãe de Jesus... Quem não tinha conhecimentono Estado de uma proprietária de um requintado lupanar, e que se chamava Maria, a Boa. O mito, da constituição do éter, era aspirado por todos, preenchendo necessidades, ocupando lugares no espírito,imprimindo fantasias nos adolescentes, despertando em jovens mulheres as aventuras da carne, engendrando adultérios imaginários.
   Integrava, assim, o patrimônio individual e coletivo. (...)”Eliade Pimentel, no artigo “E o carnaval ficou na memória” destaca a presença de Maria Barros nos carnavais de Natal: Lá pela década de 50,os desfiles passaram a acontecer na avenida Deodoro da Fonseca. Maria Boa desfilava com Antônio Farache em carros conversíveis. “Em 2003 o cantor Valdick Soriano, quando entrevistado por Everaldo Lopes, registrou que quando esteve em Natal, pela primeira vez, cantou até para as meninas de “Maria Boa”.Maria Barros é história. Mesmo sendo paraibana é a Primeira Dama (ou anti-Dama) de Natal. Impera nas lembranças dos seus contemporâneos e se faz presente nos prostíbulos que ainda resistem nas periferias da cidade ou travestidos de casas de “drinks” nos bairros mais nobres.Ela é citada no filme For All - O Trampolim da Vitória (vencedor do Festival de Gramado em 1997) de Luiz Carlos Lacerda e Buza Ferraz. O filme retrata a cidade do Natal em 1943 quando a base americana de Parnamirim Field, a maior fora dos Estados Unidos, recebe 15 mil soldados, que vão se juntar aos 40 mil habitantes da cidade.
   Para a população local a guerra possuiu vários significados. A chegada dos militares americanos alimentou fantasias de progresso material, romance e, também o fascínio pelo cinema de Hollywood. Em meio aos constantes blecautes do treinamento anti bombardeio, dos famosos bailes da base aos domingos, dos cigarros americanos, da Coca-Cola e do vestuário estavam os sonhos natalenses. Sem questionamentos, “Maria Boa” foi uma das principais atrizes no elenco desse belicoso teatro. A Primeira Dama Maria Boa... Para a dupla JL e Gê lembra dos tempos de gente pequena.
Quem não se lembra da famosa Maria Boa? Eu a conheci de uma forma muito interessante.
    Quando tinha uns 15 anos, a casa vizinha à nossa, na Cel. Glicério Cícero, no Barro Vermelho, foi alugada a uma senhora já idosa que tomava conta de dois netos, uma menina e um menino. Com o passar do tempo soubemos que a senhora era a mãe de Maria Boa e que as crianças eram seus filhos. O pessoal da rua se isolou daquela senhora. As crianças estudavam no Colégio das Neves, bem pertinho de onde morávamos. Um dia, a velha veio nos convidar para a primeira eucaristia de sua neta. Ninguém na rua compareceu, mas eu, sempre danada de curiosa fui lá contra a vontade de mamãe. Cheguei e encontrei uma grande festa com diversas senhoras, cada uma mais bem vestida do que a outra, com muitas jóias etc. Fui apresentada à mãe da menina, chiquérrima, elegantíssima e muito fina. Aí descobri porque era tão procurada...

1 de maio de 2023

Tico da Costa, um areiabranquense nos palcos do mundo

 


Entrevista publicada no Suplemento Cultural "Nós, do RN" com o músico Tico da Costa ( In memoriam ) dezembro de 2008
       
Edson Benigno

          Foi nos palcos da Europa e Estados Unidos que Tico da Costa intensificou e consolidou a sua carreira desde seus 19 anos. Ele compõe suas próprias músicas e é considerado um excelente violonista. Nasceu em Areia Branca, litoral do Rio Grande do Norte. Em Natal, Recife e Roma estudou música. São 16 CDs gravados entre o Brasil, Estados Unidos, Itália e Paraguai. No Brasil, gravou “América Latente”, “Anjo das Selvas” e “Ideal 1”. No ano de 2007 lançou “Choro Suíte” (instrumental) gravado em Nova Iorque e também o seu mais recente CD “Mar”, gravado e produzido na Itália. Fez uma tournée de lançamento na Europa e Estados Unidos, com seu grupo de cordas “Alla Italiana”.
Esse ano ele esteve se apresentando em Brasília, no projeto de 50 anos da Bossa Nova. Mas o seu trabalho é realizado e mais divulgado no exterior.  Em outra ocasião, juntamente com John Patitucci, Paquito D’Rivera, Artur Maia e Toninho Horta, abriu show para João Bosco no Town Hall em Nova Iorque.
Fez vários concertos dividindo palco com Pete Seeger (Guantanamera), e o compositor minimalista Philip Glass. Sua forte presença no palco induz espontaneamente a platéia a participar cantando suas canções. E isto ocorre em Berlim, Colônia, Roma, Paris, Natal, São Paulo, Buenos Aires, Nova Iorque - Blue Note,  Kniting Factory e nos festivais de renome como o New Port Festival, New York Jazz, Celebrate Brooklyn Festival.
NÓS DO RN - Como surgiu o apelido Tico da Costa e sua descoberta musical?
Tico da Costa - Meu nome é Francisco das Chagas da Costa. Nasci em Areia Branca e lá em casa todos me chamavam de Titico. E quando comecei a tocar e que tive a certeza que seguiria a carreira musical, tive várias dúvidas sobre o meu nome artístico, pensando em Francisco da Costa, Chico da Costa, mas só na Itália resolvi optar definitivamente por  Tico da Costa. A descoberta musical aconteceu quando uma irmã minha  ganhou um violão de presente. Ao todo tenho 15 irmãos. E a gente fazia literalmente uma fila pra tocar. Meus primeiros acordes aprendi com o meu pai Dijesu Paula e com Mirabô Dantas, que vivia pelas ruas de Areia Branca. Eu olhando, perguntando, enquanto Mirabô fazia aqueles acordes de dissonância.  Eu e meus irmãos só olhando já aprendíamos. Era a maior briga em nossa família, mas a gente trocava figurinha e ensinava um a outro. Desde que aprendi os primeiros acordes, comecei a compor. Eu tinha 13 anos de idade e já fazia letra e música .
NÓS DO RN – Depois de aprender a tocar violão você veio para Natal?
Tico da Costa – Sim. Quando saí de Areia Branca eu vim para Natal com 15 anos de idade.  A minha intenção era estudar, começando por me matricular na Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte-ETFRN. Comecei a participar de festivais e me envolver mais ainda com a música. Eu tinha até algumas canções com algum valor estético. Eu ouvia naquela época muito Edu Lobo, cantando nos festivais e eu tentava fazer parecido, mas muitas das letras que eu escrevia, nem eu mesmo entendia o significado. Também naquela época eu cantava música de Roberto Carlos, Jerry Adriani e muito iê-iê-iê. Eu chegava aos clubes e me oferecia pra cantar.  Além do repertório conhecido eu incluía uma ou duas das minhas músicas também. Lembro de uma ocasião em que me apresentei na Lagoa Manoel Felipe, em um programa de rádio, produzido por Jota Belmont, o qual era transmitido para todo o RN.
NÓS DO RN - Você passou quanto tempo em Natal?
Tico da Costa - Fiquei dos 15 aos 19 de idade. Neste período conheci a professora de artes da ETFRN Lourdes Guilherme. Depois que ela ouviu umas de minhas composições, se ofereceu para conseguir uma bolsa na Escola de Música. E conseguiu.  Como não tinha uma vaga para violão, passei a estudar contrabaixo. Depois consegui transferência para Recife e lá estudei violão clássico. Também em Recife fiz parte de um grupo ligado á igreja católica e fazíamos shows pelo Nordeste todo, tanto nas capitais como nos municípios do interior. O grupo chamava-se Gen Cântico Novo, pertencia ao chamado Movimento Focolares.
NÓS DO RN- Depois de Recife você foi para Itália; como foi este salto para Europa?
Tico da Costa - Certo dia um pintor italiano foi expor em Recife. A exposição tinha 21 quadros. Olhei todos eles e propus para nós dois fazermos uma mistura de show com exposição.  Falei que comporia uma música para cada quadro. Ele fotografaria cada uma das telas e projetaria na parede através de slides, enquanto eu cantava.  Sugeri a ele que assim seria mais fácil para vender as suas obras. Na mesma hora um amigo meu me disse que eu só sairia dali depois que compusesse todas as músicas. Consegui e poucos dias depois eu estava cantando na exposição. Foi um sucesso. O pintor disse que quando eu fosse à Itália o avisasse que fazia o mesmo em Milão, Gênova e Turim. E assim aconteceu. Fui a Roma com 21 anos de idade participar de um Congresso Internacional de Jovens. A idéia era passar um mês. Comecei a tocar e cantar e aí insistiram para que eu permanecesse mais tempo. Fiquei cinco meses e gravei três compactos. Isso foi em 1972.
NÓS DO RN - Como foi sua vida musical  na Itália?
Tico da Costa - Lá gravei esses compactos. Não de forma independente, foi através de uma editora chamada Cittá Nuova. Eles até publicaram uma revista que incluía uma reportagem de várias páginas comigo, com direito a foto na capa e tudo mais. O texto contava minha trajetória, desde o primeiro show em Grossos. Ainda nesta viagem fui ao encontro do pintor que tinha conhecido em Recife e fizemos vários concertos misturados com exposição. Outra coisa importante na Itália foi eu ter descoberto, sem querer, como é ser um showman.  Não é fácil chegar como cheguei diante de 700 pessoas, por exemplo, só com um violão e um microfone.  E as pessoas cantando minhas músicas em português.
NÓS DO RN - Fale da sua relação com contatos importantes que teve na Europa?
Tico da Costa - Um contato importante foi com a Lina Wertmuller. Ela é a felina feminina. É muito estimada nos Estados Unidos, chega a ser idolatrada. O fato de eu ter composto música com ela me rendeu muita credibilidade nos Estados Unidos.  Em determinada ocasião, surgiu a oportunidade de fazer na Itália a trilha sonora para um filme que ela dirigiria.Era o filme Tieta do Agreste, com Sophia Loren e grande elenco. Eu também estava escalado para fazer uma cena, como ator, tocando uma música. O problema é que quem estava financiando era Roberto Calvi, do Banco Ambrosiano. Só que antes dos contratos assinados ele apareceu enforcado e o filme foi para o espaço. Na mesma época Sara (hoje minha esposa, naquele período minha noiva) tinha decidido fazer faculdade no Rio de Janeiro. Com o fracasso do filme, antecipei minha volta ao Brasil. Com residência fixa no Rio, passei a viajar pela Europa para fazer meus shows.  Gravei um CD nos Estados Unidos, chamado Brasil Encanto. Nessa mesma época conheci uma pessoa que representou muito para minha carreira: Philip Glass, um músico que é considerado um pop star e autor de trilhas sonoras na história do cinema.
NÓS DO RN -  Você também se apresentou no programa Jô Soares?
Tico da Costa. Sim, quando ele ainda estava no SBT.  Fui eu quem apresentou Philip Glass ao diretor de teatro Gerard  Thomas, quando morava no Rio de Janeiro. Eles ficaram amigos. Gerard foi quem sugeriu meu nome a produção do programa do Jô. Nessa época eu morava no Paraguai. Pagaram passagens e tudo, foi muito bom.  Cantei quatro músicas no Jô e ele embasbacou de rir com as minhas canções. Isso foi em 1996.
NÓS DO RN – E sua discografia, o que ela inclui?
Tico da Costa – Minha discografia enriqueceu muito depois que gravei nos Estados Unidos o meu primeiro CD Brasil Encanto.  O salto foi maior ainda depois de setembro de 2005, quando lancei nos Estados Unidos e na Europa os discos Lagartixa e Choro Suíte. Fiz muitos shows pela Europa divulgando esses dois trabalhos.  Tenho 16 discos gravados, incluindo elepês, compactos e CDs. Mais relevante do que gravar é conseguir uma boa distribuição para seu trabalho.

15 de março de 2023

Natal, Amante

 




                                             
                                                                    Dorian Jorge Freire


Estou chegando a uma idade (ou já desembarquei?) na qual a evocação de antigas e perdidas amantes, matérias de memória ou de sonho, não incomoda sequer minha mulher. O mais que a recordação provoca é um muxoxo. De condescendência. Ou ceticismo.
Pois vá a confissão em boca de cena: Natal foi minha amante desde eu menino. Nem conhecia os calores femininos e ela já era meu segredo. Tudo que era, tudo que possuía, seus mistérios, e dengues, e faceirices, e simulações – eu conhecia no silêncio de minhas caladas tentações e posses. Natal era meu alumbramento. E não se diga que o menino de então não conhecia cidade maior do que a sua Mossoró. Não, não. Já vivera em Fortaleza. Natal era uma eleição, uma opção. Uma tendência.
E pela vida afora, daquela infância perdida a este velhice mais perdida ainda, ela tem sido minha obsessão constante, fiel. Livre ela aos ventos que vêm do mar e eu preso aos ciúmes, ternuras. Às coisas mais secretas e inefáveis do querer-bem.
Natal mudou, aleluia. Não mudou minha paixão pela cidade que se multiplica sem perder sua unidade. Cresce biblicamente em graça e em sabedoria: ela cresce e eu diminuo. O progresso não a avilta. Maior e quase cosmopolita, ela não é a “vaca colorida” ou “vício de pedra”, como das grandes cidades maldizia Nietzsche pela boca de fogo de Zaratustra.
Natal cresce sem perder a identidade, sem esfarelar seus miolos, sem soltar seu tutano, mantidos os escondidos que fazem a glória das autênticas cidades dos homens.
A minha primeira Natal foi a dos anos 40. Haviam rastros ainda de americanos que não conseguiram ordinarizá-la. Lá está a Ribeira, ali o Alecrim, Petrópolis, as Rocas proletárias, Tirol de Enéas Reis e Xixico Couto. Bondes, mangueiras, sombras e iluminações. Sobradões. Sítios. Solares dos últimos coronéis ainda não devastados pela cupidez da especulação capitalista, materialista. Foi a Natal de minha gente: Enéas Reis, Xixico Couto, Eutiquiano, tia Justa, tio Manuelzinho, o mulato Chagas, matinês do Rex, barracas na pracinha (cadê Ivone, meu bem?), Tirol terminando aos pés do Aero Clube, Redinha quase exclusivamente.Natal do “Jornal de Natal” Café, Sandoval, Calafange, Floriano, Dom Marcolino, Zé Varela. (Como eram gostosos os cigarros daqueles tempos, fumados às escondidas, comprados a retalho, Selma, Astória, Mistura Fina, Continental. Iguais, só as tentações não realizadas de ousar as noites longas nas ruelas proibidas de uma Ribeira que só despertava às desoras).
Natal dos anos 50. Cheguei, adolescente, trazido por Djalma Maranhão. Pensão Comercial da Rua Coronel Bonifácio, hoje Câmara Cascudo. Cuidados de dona Rosa, atenções de Morais. A aventura macha de morar sozinho. Trabalhava no “Diário de Natal” de Edilson Varela e admirava, de longe, respeito reverencial, justo respeito, Edgar Barbosa, Américo de Oliveira Costa, Danilo. Tempo de convivência diária com Leonardo Bezerra, Guaracy Queiroz de Oliveira, João Batista Pinto, William Cobbett, Araken Irerê Pinto, Aderbal Morelly, Ticiano Duarte, Luiz Maranhão Filho, Antônio Pinto de Medeiros, Ferdinando Couto.
Era a descoberta da inteligência, o orgulho de confraternizar com a melhor juventude da cidade, as noites ouvindo preleções de Leonardo, as madrugadas, sozinho, no quarto mínimo da pensão humilde, querendo descobrir, em velhos e ensebados manuais clandestinos, o que era mais-valia e se toda propriedade é um roubo.
Natal jovem, irreverente, carnavalesca, poética, política, subversiva, diurna e vespertina a preparar longas noites de vigílias. Bares. Sorveteria Cruzeiro. Taboleiro da Baiana. A cervejinha na Pensão Ideal. As putas que nos passavam gonorreia e humildade.
Tudo era deslumbramento. Newton Navarro, Dorian Gray, Meira Pires, Manuel Rodrigues de Melo, Esmeraldo, Luiz Maria Alves, a redescoberta de Jorge Fernandes, José Gonçalves de Medeiros. A pungência inata de Gilberto Avelino. Cascudo já era Cascudo. Monumento. Mito. Primeiro – por justiça justa justíssima. Primeiro Cascudo. Depois os outros.
Depois Natal nos anos ásperos de 60. A mesma humanidade. Escorrendo, quente, espumoso, o leite gordo da ternura humana. A solidariedade instantânea de Woden, radical até na generosidade. O encontro com Maria Emília-Berilo, que marcou tanto e tanto enriqueceu minha vida. Sanderson, Luiz Carlos, Rubens Lemos, Antônio Melo, o reencontro com a competência de João Neto, Luiz Maria Alves, Celso, Myriam Coeli (Maria do Céu), Zila. Amei tanto Natal dos anos 60 que lhe dei, de nascença, minha Raíssa. Natal – 60 prolongava a Natal de todas as décadas, de tal forma fascinante que adotei. Mossoró, Aracati, São Paulo, Ouro Preto, Salvador, São Luís.
A derradeira Natal foi recente. Eu já alcançado por um enfarte do miocárdio e uma isquemia cerebral. A cidade maior sem perder sua estatura. Fiel aos seus valores e desvalores, enriquecida por outras fortunas. Que Natal se renova sem cirurgia plástica e envelhece alegre com o segredo guardado da eterna juventude.
Os Alves – Aluízio, Agnelo, Gobat. Ednólia e Geraldo Melo, as noites estiradas na conversa amena. João Ururahy, Lalinha e Genibaldo, Zélia Freire, Teresa, Romeu Aranha, Nídia Mesquita, Marta e Milson, Roberto Varela, Serejo, Albimar, Paulo Tarcísio, Paulo Macedo, Odilon, Sarinho, Américo, Mário Moacir Porto, Veríssimo, o admirável Vivi, Elenir Fonseca, Haroldo e Selma, Nei Marinho, Nei Leandro, Tarcísio Gurgel, Leopoldo Nelson, Franklin Jorge, Eulício, Socorro Trindad, Gualberto, Marcos Aurélio, Rejane, Mariza. Próximo ou distante, presente, Nilo Pereira, o mestre, mais doce do que todo Ceará-Mirim.
Multidão. Diante da multidão, Jesus teve pena, Diante da humana gente de Natal, eu me ufano de meu país. Afonso Celso e eu. Porque se cada pessoa é ela e sua circunstância, as circunstâncias natalense têm grandezas. Paris seria melhor sem os parisienses? Natal carece de seu povo. Completa-se com ele. O mar, os morros, as dunas, o verde, os botecos, freges e forrós, os grande e os miúdos, becos e avenidas, calçadões e vielas, povo. Eis Natal humana. Que deve parar de crescer se não quiser desafiar o bom senso do meio termo.
Depois de deixar Natal pela última vez, fisgado pôr outra isquemia cerebral, aviso da delicadeza da Providência, passei a visita-la às pressas, às escondidas quase, o tempo necessário para beijar os netos e por a benção nos filhos. Com medo, quem sabe? Do visgo que Natal tem, o mesmo visgo de Mossoró e São Paulo, o perigo de não querer voltar, achar que pode se dar ao luxo da capital o interiorano matuto, mais certo no silêncio de seu caritó, entre livros, os olhos voltados para o pé de cajarana plantado por sua Mãe, faz oitenta anos.
Ela, minha mãe, Dolores Couto, quando falava de sua Escola Doméstica,com Jacira, Alda, Emília, Maria de Lourdes, Ilnah, Elza, Anatilde e Ricardina, dizia – “no tempo em quer eu era gente...” No tempo em que eu era gente, podia viver Natal. Hoje, não. Há muitas cruzes erguendo seus braços na procura da eternidade. Natal também passou a ser para mim um campo santo. Chão sagrado. Repouso de guerreiros. Os idos. Os idos.
Natal é isso. Só? Mais. Muito indefinível nos seus contrastes, pecados e santidade, risos e lágrimas, passado e futuro. A luz ardente dos refletores. A brisa fria de suas madrugada obscuras e insones.
Recife e São Luís lembrariam Veneza. Recife, para o Mestre Alceu, tem o cheiro de Florença. O que me lembrou Natal lá fora, nas Oropas agora dos impossíveis?
A luminosidade de Roma sua espontaneidade, sua abertura, até sua molecagem gostosa. Apimentada. Com pimenta malagueta.
Se eu não tivesse encontro marcado para daqui a pouquinho com meus pais e avós, juro que esperaria o fim do sonho em Natal. Tia Carmem, tio Enéas, Eider, Eutiquiano, Berilo, Myriam e Zila, Barca e Antônio Pinto, contariam histórias. Cascudinho as decifraria todas e lhes daria as origens.
Se não blasfemo – Deus me livre e guarde – que céu teria mais gosto de céu?

Dorian Jorge Freire (falecido), escritor e jornalista. Transcrito do jornal “O Galo” – dezembro/89.

10 de janeiro de 2023

Natal que Manoel Dantas não viu

  


 


                                    Baldo e Avenida Rio Branco no final da década de 50


A cidade do Natal, no ano de 1959, estava longe de ser a “metrópole do Oriente da América” que Manoel Dantas (1867-1924) previu na sua histórica conferência Natal daqui a cinqüenta anos, proferida no salão nobre do palácio do Governo do Estado, no dia 21 de março de 1909, e que segundo o poeta Jota Medeiros constitui o marco do Futurismo, antecedendo o manifesto de Marinetti.
Com uma população de aproximadamente 167.202 habitantes distribuídos em doze bairros – Santos Reis, Rocas, Ribeira, Cidade Alta, Petrópolis, Tirol, Alecrim, Lagoa Seca, Lagoa Nova, Dix-sept Rosado, Quintas e Mãe Luiza – Natal apresentava insuficiência urbanística caracterizada pela modéstia das edificações, precariedade da malha viária, transportes coletivos obsoletos e, sobretudo, ausência de indústrias.
A administração do município, que tinha 489 logradouros públicos (avenidas, ruas, travessas, praças e vilas), era coordenada por três secretarias (Finanças, Negócios Internos e Jurídicos, Viação e Obras) reunindo vinte e seis repartições. Tinha o suporte da Companhia Força e Luz Nordeste do Brasil, Serviço de Água e Esgoto de Natal, Serviço de Limpeza Pública e o Serviço de Transportes Coletivos que supervisionava as doze linhas de auto-ônibus (Rocas/Matadouro; Jaguarari; Petrópolis/Grande Ponto; Tirol/Grande Ponto; Circular; Lagoa Nova/Alecrim; Avenida 4; Avenida 10; Rocas/Igapó; Grande Ponto/Praça Augusto Leite; Circular via Alexandrino de Alencar; Natal/Parnamirim) e treze linhas de auto-lotação e micro-ônibus, considerados coletivos de primeira categoria, atendendo no horário das 5 às 22 horas com pequenas modificações no percurso realizado pelos auto-ônibus que funcionavam das 5 às 24 horas.
A educação era ministrada por oito estabelecimentos de ensino superior (Escola de Engenharia, Escola de Serviço Social, Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Atuarias, Faculdade de Direito, Faculdade de Farmácia e Odontologia, Faculdade de Filosofia, Faculdade de Medicina, Instituto Filosófico São João Bosco); quatorze cursos secundários (Colégio Imaculada Conceição, Colégio N. Senhora das Neves, Colégio Santo Antônio, Escola Doméstica, Escola Industrial, Escola Normal, Escola Técnica de Comércio Alberto Maranhão, Escola Técnica de Comércio de Natal, Escola Técnica Visconde de Cairu, Ginásio São Luiz, Ginásio 7 de Setembro, Instituto de Educação do Rio Grande do Norte, Seminário e Instituto Batista Bereiano, Seminário Menor de São Pedro); cento e sessenta escolas mantidos pelo Governo do Estado e noventa e oito “escolinhas” mantidas pela Prefeitura, além de vinte e um cursos particulares.
O sistema de saúde tinha o atendimento de trinta e seis estabelecimentos (hospitais, casas de saúde e ambulatórios) sendo o principal deles o Hospital Miguel Couto, atual Hospital Universitário Onofre Lopes.
O cemitério do Alecrim continuava a ser o nosso único Campo Santo, “onde o cipreste chora noite e dia a música dorida de saudades pungentes”.
A inexistência de supermercado forçava a população a fazer suas compras nos quatro mercados (Cidade Alta, Alecrim, Quintas e Ribeira) e nas mercearias e bodegas.
O lazer era feito nos vinte e cinco clubes recreativos existentes, no Teatro Alberto Maranhão, e nos cinemas, Rex, Rio Grande, Nordeste, São Luiz, São Pedro, São Sebastião, São João e Potengi, além do passeio de barco a motor e a vela até a praia da Redinha, com saída do porto flutuante do Canto do Mangue.
Os jornais “A República”, “Diário de Natal”, “Jornal de Natal”, “O Poti”, “Tribuna do Norte”,  e as estações de rádio, Cabugi, Nordeste, Poti e Emissora de Educação Rural, disputavam os leitores e a audiência da população que tinha poucos divertimentos.
Afora os equipamentos e serviços citados existiam em Natal, “no ano da Graça de 1959”, dez bancos, três bibliotecas, nove cartórios, seis consulados, doze cooperativas, dez agências de correios e telégrafos, treze hotéis, seis pensões, quarenta e sete templos católicos, vinte templos protestantes, dezessete centros espíritas, quatro lojas maçônicas, oito “praças” de automóveis de aluguel, trinta e um sindicatos, nove agências de transportes fluvial (Natal/Redinha), vinte e uma agências de transportes rodoviário e a Rede Ferroviária do Nordeste, que fazia o tráfego com municípios dos Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba, além da cidade do Recife.

João Gothardo Dantas Emerenciano

Fontes: Natal daqui a cinqüenta anos, de Manoel Dantas, Fundação José Augusto/Sebo Vermelho, Natal 1996; Guia da Cidade do Natal de J.A. Negromonte e Etelvino Vera Cruz.

12 de agosto de 2022

Imprensa feminina no Rio Grande do Norte

 


Constância Lima Duarte e Diva Cunha Pereira de Macêdo

Em 1993, quando revirávamos bibliotecas e arquivos em busca dos traços mais remotos da produção literária feminina do Estado, fomos surpreendidas com notícias da existência de inúmeros jornais e revistas dirigidas e compostas exclusivamente por mulheres. Essas publicações evidentemente pretendiam legitimar uma produção intelectual, na medida em que se colocavam enquanto um espaço legítimo de veiculação de trabalhos literários.
Assim, de uma pesquisa em andamento, uma outra nasceu. Buscávamos o corpus da literatura de autoria feminina no Rio Grande do Norte, e encontramos o meio utilizado pelas autoras para a divulgação de seus escritos. Aos poucos, juntando informações como quem junta um quebra-cabeça, reunimos títulos, datas e alguns nomes das que primeiro por aqui tentavam romper barreias sociais e ensaiavam investidas no espaço público.
Anteriormente tínhamos encontrado a notícia de um jornal chamado Primavera, que havia sido publicado por um certo senhor Custódio L. R. d”A em Açu, no ano de 1875, e que se dirigia “às caras e inestimáveis leitoras”. Os jornais e revistas dirigidos por (e para) mulheres apenas começam a surgir no início do século, como A Esperança, que circulou entre os anos de 1903 e 1908, em Ceará - Mirim, e que surpreende por ter sido todo ele manuscrito! O fato de não ter acesso às tipografias não impediu que Dolores Cavalcanti e Isaura Carrilho se investissem do papel de redatores registrassem, numa caligrafia caprichada, as veleidades literárias das jovens de seu tempo. Aquelas moças provavelmente estavam impelidas pela esperança de um dia também elas serem reconhecidas enquanto escritoras...
Anos depois, em 1913 em Macau, surgiu (devidamente impresso) a Folha Nova, dirigido inicialmente pro Alexandrina Chaves e depois por Maria Emília e Joana G. Sampaio. Eram suas colaboradoras Leonor Posada e Olda e Dulce Avelino, conhecidas poetisas de seu tempo. Em Açu, de 1917 a 1919, circulou O Alphabeto sob a direção de Maria Antônia de Morais, com a colaboração de Cecília Cândida Silva, Maria Leitão e América de Queiroz e Palmyra Wanderley. Em Macau encontramos também notícias do jornal A Salinésia, de 1926, criado por um grupo de jovens e que era apresentado oralmente (!) no Teatro Moderno. Em Caicó, neste mesmo ano de 1926 circulou pela primeira vez o Jornal das Moças, dirigido por Georgina Pires e Dolores Diniz. As colaboradoras assinavam seus textos sob os pseudônimos de Marinetti, Potiguara, Violeta, Flor de Liz, Helenita, Sertaneja, entre outros. E em Currais Novos existiu O Galvanópolis, de 1931 q 1932, sob a direção de Maria do Céu Pereira.
Em Natal, a primeira iniciativa parece ter sido Via-Láctea,  idealizada e dirigida por Palmyra e Carolina Wanderley, que circulou durante os anos de 1914 e 1915. Além dele encontramos ainda em Natal os jornais Sursum, de 1937, O Potiguar, de 1939, entre outros.
Vejamos esta publicação intitulada Via-Láctea. Após tê-la procurado nas principais bibliotecas públicas e particulares de Natal e do interior, sem sucesso, fomos encontrá-la na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em meio a outros periódicos de mesmo nome, de locais e épocas diferentes. Ali estava, em nossas mãos, a mesma Via-Láctae de Palmyra e Carolina Wanderley que numa estrelada noite de 1914 havia surgido nos céus potiguares. Eram apenas oito números – de outubro de 1914 a junho de 195 – mas o suficiente para testemunhar a iniciativa daquelas moças de também participar do espaço público.
Como no oitavo número uma das redatoras reclamava da pequena participação das colaboradas, julgamos que a publicação tivesse terminado aí. Mas pesquisas posteriores, principalmente em A República, revelaram que mais alguns números – pelo menos uns quatro ou cinco – foram publicados de Via-Lácea. Aliás, encontramos em A República referências a praticamente todos os números do jornal. Cada novo lançamento era noticiado, sendo que algumas vezes com veementes elogios à coragem de suas autoras e à qualidade o Material impresso.
Mas nem tudo eram flores para as jovens redatoras. No mês que comemoravam um ano da existência do jornal, por exemplo, encontra-se o comentário de um jornalista que nos permite perceber com nitidez a resistência que enfrentaram, as críticas e uma certa descrença no trabalho que realizavam. O autor da nota confessa abertamente sua surpresa pelo fato de a Via-Láctea ter conseguido sobreviver tanto tempo, nestes termos:
A Via-Láctea festejou ontem o seu primeiro aniversario. Não nos queriam mal as redatoras da simpática revista por lhes dizer que nunca acreditamos na realização deste milagre. Sempre pensamos que uma revista de moças, redigida exclusivamente por moças, terá em nossa terra a prematura existência das rosas Não havia nesse pressuposto sombra de desconfiança na inteligência e boa vontade as colegas que revelaram, dês da publicação do primeiro número da Via-Láctea, qualidades à altura da espinhosa iniciativa. O nosso receio provinha do ambiente intelectual indígena, dessa indiferença de natal para manifestações artísticas, tidas como desnecessárias à vida da cidade. (A República, 26/10/1915)
Esta confissão de pouca fé na sobrevivência da revista, devido principalmente ao fato de se tratar de uma publicação feita por mulheres, encontra-se também em outros artigos. Da mesma forma, a confusão entre as autoridades e o seu trabalho através do emprego sistemático de expressões concernentes às qualidades esperadas ou desejadas para s moças. Assim, para a maioria dos jornalistas, a Via-Láctea era sempre “mimosa” “encantadora” e “gentil”, numa flagrante feminização do periódico que lutava par se impor enquanto trabalho sério, e que se propunha lutar pelo aperfeiçoamento intelectual da mulher potiguar.
O primeiro grupo de colaboradoras foi constituído por oito moças da melhor sociedade  letrada de Natal, como Palmyra e Carolina Wanderley, Stella Gonçalves, Maria da Penha, Joanita Gurgel, anilda Vieira, Dulce Avelino e Cordélia Sílvia e Sinhazinha Wanderley. A forma como se dava a colaboração de Cada uma com certeza era diferenciada, pois é comum encontrar um número maior de textos assinados por algumas no mesmo periódico, enquanto outras aparecem apenas com um artigo ou poema. E logo no segundo número Palmyra e Carolina Wanderley assumem a coordenação geral dos trabalhos.
Um dos graves problemas que uma pesquisa como esta costuma enfrentar è justamente a identificação dos pseudônimos, que terminam por funcionar como verdadeiras máscaras que se multiplicavam sempre em touros e novos nomes. O uso do pseudônimo, aliás, foi um artifício muito utilizado pelas mulheres nos séculos passados, e mesmo nas primeiras décadas deste, como forma de se proteger e de preservar os familiares da exposição pública e da crítica. Adentrar pelo campo literário (ou o jornalístico) naqueles tempos era uma atitude decididamente audaciosa para qualquer mulher, por mais competente ou talentosa que fosse. E no Rio Grande do Norte não era diferente.
Assim, apesar de a Via-Láctea trazer na primeira página os nomes de suas autoras, os textos estão quase sempre assinados por outros nomes, como Fanette, Mércia, Marluce, Hilda, Nídia, Zanze, Myriam, Ida Silvestre, Ângela Marialva, Violante do Céu, Jandira, etc. etc, totalizando cerca de vinte e cinco pseudônimos. Quanto ao teor dos escritos o subtítulo “Religião, Arte, Ciências e Letras” aponta para seu conteúdo.  Predominam poemas, contos e crônicas, em meio a comentários obre arte, descobertas científicas e matérias sobre o papel da educação na formação das moças.
Encontra-se nas páginas da Via-Láctea, inclusive, uma polêmica entre duas colaboradoras Acerca da educação que devia ser ministrada à mulher, que bem deve revelar as opiniões conflitantes sobre o tema que circulavam na época. Uma defenda educação voltada para s funções domésticas; a outra por acreditar na emancipação feminina através da educação, exige uma educação mais consistente que permitisse à jovem competir com o rapaz no campo de trabalho. Aliás, esta discussão devia estar na ordem do dia pois, acabava de ser inaugurada na cidade, com muita pompa e circunstância, a Escola Doméstica, cujos diretores alardeavam que sua proposta educacional representava a Última palavra na Europa em educação de meninas...
Em matérias de jornais, um cronista que costumava assinar “Jacynto” (e que não era outro senão Eloy de Souza, irmão de Henrique Castriciano, o fundador da Escola Doméstica) refere-se de modo desabonador ao Via-Láctea  e defende a função social da mulher preconizada pela nova escola. Não deixa de ser bem significativo, comparar o nome do jornal que veiculava as idéias da Escola Doméstica. “O Lar”, com ao da revista “Via-Láctea”: enquanto um refletia nitidamente os limites domésticos de seu horizonte de atuação, outro adotava um título que bem pode ser considerado a prova contundente de que maiores e bem mais elevados era os seus ideais.
Estas questões, aqui aprestadas tão ligeiramente, refletem apenas nosso desejo de incentivar outros pesquisadores para o estudo da participação das mulheres potiguares na história intelectual do Estado. Se queremos realmente conhecer o difícil trajeto percorrido por nossas antepassadas na busca de seus direitos e na conquista de seus espaços, será preciso pesquisar em antigos jornais e revistas. Lá com certeza ainda encontram-se ainda hoje o eco de suas vozes.

Transcrito do Jornal Cultural “O Galo” de junho de 1997.