2 de setembro de 2014

O Cinema no Alecrim

                 
     

O bairro do Alecrim tem um pioneirismo que pouca gente conhece (ou se lembra): foi nele que pela primeira vez foi mostrado cinema falado em Natal. A 08 de abril de 1931, uma quarta-feira, o primeiro filme falado em Natal foi visto no Cine-Teatro São Pedro. A velha casa de espetáculos da Aven. 10, n° 674 (ou Presidente José Leite) era considerada na época o maior e mais confortável cinema do Rio Grande do Norte. Fora inaugurado na Noite de Natal de 1930 com o filme “Vivendo e Aprendendo”, da Fox. Tinha 700 poltronas. Era propriedade da Empresa Medeiros & Cia., de Lauro Medeiros.
                           O filme que mostrou, naquela sessão inaugural de cinema falado, aos natalenses – dentro de um novo contexto de objetivos que prosseguiria nos dias, meses e anos seguintes, tirando de vez a era do cinema mudo em nossa capital, e despertando a concorrência da Empresa Cavalcanti & Cia., proprietária dos cinemas Politeama e Royal, e que pela mesma época anunciava a próxima inauguração de filmes falados nos referidos cinemas – foi “General Crack”, da Warner Brothers, um musical colorido, apresentando legendas em português e o trabalho de intérprete de John Barrymore.
                              O sistema Vitafone, reproduzindo o som de uma orquestra de 60 professores, veio acabar em Natal com a era das orquestras ao vivo, tocando por trás da tela. E serviu para que o poeta Jaime Wanderley, em artigo publicado no jornal “A República” de 12 de abril de 1931 (“As Cintas Sonoras””) já defendesse filmes falados em português, que “agradarão melhor, mesmo porque, são para o gosto e senso estético e artístico de nossa sociedade.”
                                 O que é inegável é que as sessões normais (7.30 da noite), as “soirées elegantes” (08 da noite) e as vesperais (05.30 da tarde) do Cine São Pedro, em filmes falados/musicados, vieram animar muito o setor de divertimentos do Alecrim. Anos e anos a velha casa de espetáculos foi ponto de encontro de gerações, e quando passou a exibir matinês, em sessões matutinas aos domingos, a criançada decidiu também formar em sua calçada o mercado sui-gêneris de troca, compra e venda de revistas de estórias em quadrinhos, precursor dos sebos natalenses.
                                    Mas o São Pedro não foi o único cinema no bairro. Antes, a 07 de outubro de 1923, no Alecrim já fora inaugurado o Cine José Augusto. Anos depois, mais outro cinema alecrinense foi inaugurado: o Cinema São Luiz, que foi chamado “Palácio Encantado do Alecrim”, inaugurado no sábado, 26 de outubro de 1946, com o filme “Amar Foi Minha Ruína” (do diretor John M.Stahl). Depois de anos e anos divertindo e educando o povo, em meados dos anos 60 o seu proprietário, Senador Luiz de Barros, vendeu o prédio ao Banco do Brasil (ao preço de 500 cruzeiros), e o palácio encantado desencantou-se, encerrando suas atividades a 07 de março de 1974 (uma quinta-feira), com a apresentação do filme “A Morte em Minhas Mãos” (dublado em inglês com o título “The Chinese Boxer”), filme feito em Hong-Kong, produzido pela Companhia Show Brothers Company, dos irmãos Rumne e Run Run.
                                           O Cine Alecrim, por sua vez, é do ano seguinte. Este cinema, de propriedade de Cristóvão Bezerra, e instalado à Praça Gentil Ferreira, com 400 plotronas, foi inaugurado no sábado, 13 de setembro de 1947, com o filme “Perseguidos”, onde se destacavam os astros Errol Flyn e Helmut Dantine. A sessão inaugural começando às 3.20 da tarde, com o público pagando Cr$ 2.40 pelo ingresso (mas com a possibilidade de algumas pessoas ganharem “valioso brinde”). Neste início do Cine Alecrim foram apresentados em seus salões, além de filmes, shows com cantores, mágicos e um deles com um recital de Zé Praxedes – o “poeta vaqueiro”.
                                              Outros cinemas tradicionais se conta na história do bairro que Palmira Wanderley chamou poeticamente “bairro do samba, da folia/Das advinhações e da magia/...bairro da feira domingueira,/Numa algazarra louca.” Um cinema tradicional: o São Sebastião, existindo na Rua dos Paianazes. Outro: o Paroquial, ao lado da Igreja de São Pedro, inicialmente pertencendo à paróquia, como o próprio nome diz. Deste, derivou o Cinema Olde, que foi inaugurado no sábado, 17 de janeiro de 1970, inicialmente passando filmes de 16mm.
                                                 A 17 de outubro de 1991, à Avenida Coronel Estêvam, foi inaugurado o Cine Espacial, com o filme “Darkman – Vingança Sem Rosto”. O proprietário do Cine Espacial era o Sr. Erinaldo Bezerra da Silva, e o gerente Vinício Canindé Fernandes. Mas este cinema durou pouco tempo.

                                                   Esta, a história cinematográfica do bairro pioneiro em cinema falado para o espectador natalense. Uma história que falta ser completada: quando algum cineasta se interessar em documentar a paisagem humana e sócio-cultural das suas feiras, da vida no centro comercial, dos tipos humanos, dos variados tipos de habitações, das suas festas (profanas e religiosas), até mesmo da forma de agir dos seus marginais – em fim, da psicologia e filosofia de vida de um povo que mescla raças e simboliza estratos sociais dos mais simples. 

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